Aprendendo a Dizer Eu te amo

7 Uma resposta, duas ordens e uma sombra


Notas iniciais
Desculpem a demora, fiquei sem criatividade para essa daqui : Mas aqui está, espero que gostem.

Ela me olhou como se eu fosse de outro mundo e havia caído no seu quarto por acaso. Senti como se tivesse feito algo errado, como se aquilo nunca devesse ter acontecido. Arrependi-me de minhas palavras naquele momento.

Mas Marcy continuou me olhando e percebi que seu olhar era de incredulidade. Piscou lentamente e gaguejou:

– O-o-o quê?

Segurei a vontade de rir e respondi:

– Você...

– Não, eu ouvi da primeira vez.

Nos encaramos por um momento, em um silencio constrangedor em que eu notava que ela estava se questionando o que dizer.

E me abraçou, da maneira mais forte possível. Enfiei meu rosto no meio do seu cabelo e senti o seu cheiro delicioso. Meu coração acelerava a cada instante.

– Sim – sussurrou, com sua voz doce – Eu adoraria namorar com você.

Deitou a cabeça no meu ombro e me apertou, ainda mais. Seus dedos se enrolaram nos anéis do meu cabelo e eu passei a mão no seu, sentindo sua maciez.

E, repentinamente, ela soltou-se de mim e ficou com a face tão próxima da minha que pude sentir sua respiração. Meu corpo tornou a sentir frio, a ficar com saudade do seu aperto e tentei buscá-la novamente.

– Mas...

Mas.

Se meus conhecimentos na Língua Portuguesa estiverem certos, mas é um advérbio de adversidade, ou seja, daqueles que transmitem uma ideia contrária à que foi dita anteriormente. Então, algo ruim estava prestes a acontecer.

Coloquei uma mecha negra atrás da sua orelha.

– Mas o quê? — falei, tentando não mostrar minha confusão.

Ela suspirou e passou a mão no meu cabelo novamente, abaixando até chegar na minha orelha. Senti um arrepio e aproximei ainda mais nossos rostos novamente.

– Mas – ela repetiu – eu duvido que meus pais irão deixar.

A verdade me atingiu como uma pedra em alta velocidade. Eu tinha esquecido completamente daquele detalhe. Nós tínhamos doze anos. Segundo o julgamento dos mais velhos, éramos imaturos para metade das coisas – inclusive namorar.

– E agora? — sussurrei.

Marcelle tentou me encarar sem demonstrar emoção, mas aquilo pareceu ser difícil. Então desistiu e baixou o olhar.

Só que eu não consegui fazer isso. Continuei a observá-la daquele jeito que eu fazia antes deste dia chegar. Apenas admirando a maneira que os fios de seu cabelo caíam para todos os lugares possíveis, ou como seus olhos eram escuros, ou o jeito que suas poucas sardas ficavam espalhadas na bochecha direita.

– Fique aqui – ela disse.

E saiu de seu quarto, deixando-me sozinho. Olhei para o violão que estava sobre a cama e me aproximei dele. O tomei nos meus braços e o posicionei. Coloquei os dedos nas cordas e senti-os tremerem.

Tentei tocar alguma coisa. Tentei repetir os movimentos que Marcy fazia, a maneira que aquelas notas saíam. Mas estava nervoso.

O som que saiu não era legal. Continuei tentando, mas sabia que daquela forma não iria conseguir. Deixei ele em cima da cama e joguei a cabeça no travesseiro. Respirei fundo e esperei.

Cada segundo parecia uma eternidade. Eu não conseguia ouvir nada, nenhuma voz. Todo o barulho estava se extinguindo, e o único som que parecia haver era o da minha respiração acelerada.

E continuei esperando.

Sentia como se estivesse sozinho no mundo, com apenas uma dúvida que não poderia ser respondida sem outra pessoa. A curiosidade estava acabando comigo. Consumia-me por dentro, sem deixar nenhuma parte do meu interior.

Fechei os olhos.

E então, tudo o que eu via era o escuro que minhas pálpebras formavam. Via estrelas explodirem. Fogos de artifício. E outras coisas que você encontra apenas quando se fecha os olhos. Comecei a ser distraído. A ansiedade e curiosidade estavam sumindo lentamente e eu me sentia mais leve.

Repentinamente, frases apareceram na minha mente. E elas se juntavam e formavam outras. E mais ideias eram criadas, e eu percebia que aquilo tudo era uma mistura, cujo prato formado era a criatividade.

Eu precisava de um papel. E caneta. Procurei pelo caderno da Marcy e, assim que o encontrei, o agarrei. Abracei-o e peguei o lápis que estava sobre a mesa. Sentei na cama novamente e deixei que minha mão escrevesse as palavras que meu cérebro mandava.

Fiquei tão preso àquela ideia que perdi a noção do tempo. Estava inteiramente concentrado que esqueci tudo o que acontecia ao meu redor. Talvez eu nunca tenha me dedicado tanto a um trabalho quanto naquele momento. Mas eu estava apenas descobrindo como escrever poderia ser não apenas um verbo, mas também uma sensação.

Eu conseguia imaginar que aquela vida era minha. Mesmo que fôssemos tão diferentes, podíamos ser iguais. Eu deixei que cada coisa nova me dominasse e não notei nem mesmo a porta do quarto se abrindo.

Mas notei o som que veio junto.

Era um suspiro, daqueles que você dá quando está conseguindo controlar seu choro. Olhei para o lado e a vi.

Exatamente do mesmo jeito que antes. Mas eu conseguia ver como seus olhos estavam diferentes. Tinha uma sombra dentro deles ao invés do brilho com o qual eu estava acostumado. E eu via aquela sombra praticamente todos os dias nos olhos da minha irmã. Eu sabia o que significava.

Me levantei e a abracei. Eu conhecia a resposta. Do mesmo modo que sabia qual era o meu nome, sabia qual era a resposta.

Marcy se soltou de mim. Não olhou em minha direção. Ficava fitando o chão, fazendo com que o cabelo caísse sobre seu rosto.

– Vá – ela disse.

Deixei que a confusão fosse mostrada na minha expressão.

– O quê? — falei.

– Vá. Volte para a sua casa. Não me ligue. Esqueça. Esqueça tudo.

Olhei para ela, tentando fingir que não tinha entendido. Mas estava tudo claro.

Não dissemos mais nada. Ela nem ao menos se moveu. Apenas eu, que saí e bati a porta do quarto atrás de mim.

Desci as escadas e fui em direção à porta de entrada.

– Tchau, tia – falei.

– Victor...

– Não, tudo bem. Eu preciso ir logo. Obrigado.

E corri para a minha bicicleta.

Quando estava chegando em casa, lembrei-me de uma coisa. Mas era tarde demais.

Abri o portão. Não falei nada, apenas corri para o meu quarto. Deixei meus pais ficarem quietos, bati a porta me joguei na cama.

Não chorei. Não resmunguei. Não suspirei. Não falei. Fiquei em silêncio. Mas meus pensamentos faziam barulho na minha cabeça, a ponto de deixá-la com dor. Peguei o notebook e comecei a colocar minha ideia em prática. Talvez aquilo me distraísse da mesma maneira que antes.

Não distraiu.

Eu não conseguia mais escrever. Não conseguia pensar em nenhuma outra coisa além daquelas ordens. Deixei que a dor me dominasse. Mas ainda não chorava. Não ia me deixar chorar. Era o que eles queriam.

Fiquei me perguntando de onde tirei a ideia de “eles”. Eu sabia quem eram, mas não sabia que existiam até aquele momento. Foi ali que percebi o mal que poderiam fazer. Foi ali que percebi seu poder. Porque aquela foi a primeira vez que eles me decepcionaram.

Percebi que o que quer que eu tivesse que escrevesse, tinha que ser sobre aquilo. Era o que eu conhecia, o que eu sentia.

E deixei que tudo viesse naturalmente.

Quando senti minha mão doendo de tanto ficar naquela posição, coloquei o computador de lado e liguei as luzes. Tentei pensar em outra coisa, tentar me distrair um pouco. Lembrei da Sara, mas aquilo não ajudou nem um pouco. Eu tinha acabado com qualquer esperança, não somente sobre ela mas também sobre Marcelle.

As últimas palavras que ela tinha dito machucaram-me. Mais do que qualquer outra coisa. Ainda dói. Não é legal alguém com quem você se importa muito mandar você esquecê-lo. E eu sabia, no fundo, que nunca a esqueceria.

Eu ainda não a esqueci.

Fiquei encarando meu reflexo no espelho. Mas não via eu mesmo. Eu via outra pessoa no meu lugar, uma pessoa mais madura. Percebi que aquela experiência havia criado algo em mim. Algo que eu não sabia que poderia existir.

E percebi outra coisa.

Tinha uma coisa diferente nos meus olhos. Uma coisa escura que nunca tinha estado ali antes. Era aquela sombra. A mesma que existia na minha irmã, a mesma que estava em Marcy naquele momento. Eu sabia o que significava. Mas só ali que eu comecei a entendê-la.

Notas finais
1+ reviews = Próximo Capítulo