Aprendendo a Dizer Eu te amo
2 Uma discussão, uma música e um toque
Notas iniciais
O salão estava cheio. Assim que entrei, procurei Marcy com os olhos e a encontrei bem facilmente. Estava sentada em uma mesa, comendo frango à passarinho com as mãos. Quando ela percebeu meu olhar, cobriu a boca com as mãos e abriu um sorriso. Sorri de volta e segui meus pais.
Eles se sentaram do lado oposto do salão e mal pude olhar para ela, com o tanto de pessoas entre nós. Mas seria meio estranho você passar os olhos pelo local e notar um garoto tentando te olhar com todos os obstáculos à sua frente. Sim, foi melhor desse jeito.
Depois de beber um copo de refrigerante, fui ao banheiro. Molhei as mãos e passei no meu cabelo, tirando aquele gel todo. Respirei fundo e olhei para a minha imagem no espelho. Eu estaria muito mais feliz se não estivesse usando aquele terno, mas pelo menos meu cabelo estava bem melhor. Baguncei-o por completo, desabotoei um pouco o paletó e saí de lá.
– O que aconteceu com o seu cabelo, Victor?! — minha mãe exclamou assim que sentei.
Nem se pode mais sentar em paz, pensei.
– Arrumei um pouco.
– Já estava ótimo.
– Mãe, pense bem. O seu “ótimo” é diferente do meu “ótimo”.
– O que você quer dizer com isso?
Como eu poderia dizer que estava horrível sem magoá-la?
– Que... não combina com o meu estilo.
– É tudo culpa da Jullie, isso tudo de você querer ter um estilo diferente. Ela que ficou colocando na sua cabeça que se deve ser original e inovador e tudo mais...
– Isso é uma coisa ruim? — intrometeu-se meu pai.
Ele nunca deveria ter feito aquilo.
Saí sorrateiramente da conversa para pensar um pouco.
Às vezes dava raiva, sabe? Isso de a minha mãe culpar a Jullie por eu ser quem sou. Tudo bem, minha irmã pode ter sido um pouco influente, mas na verdade ela despertou em mim a minha verdadeira natureza, e eu a agradeço por isso.
Claro que Jullie não fez isso sozinha. Mas, agora, vamos por partes.
Minha irmã me ensinou a ser eu mesmo, sem me importar com o que as outras pessoas dizem, da mesma maneira que eu a ensinei que haverá alguém que se preocupe com você, mesmo que você não consiga enxergá-lo. Essa é a melhor parte de sermos irmãos, e eu serei grato eternamente a ela por isso.
– E por que ele não pode ser educado? — minha mãe perguntou.
– Ser educado é diferente de ser original. Victor deve ser educado.
Tampei a boca com a mão para não mostrar meu sorriso. Sem sucesso.
– Por que você está rindo, garoto? — reprimiu minha mãe.
– Oi? — falei – Ah, não, nada. É só que... me lembrei de uma piada.
– Chamada “A Discussão Dos Seus Pais Que Começou Com Você”? — meu pai disse.
Caí na gargalhada.
– Viu?! — minha mãe deu um tapa no meu pai, sem muita força – Ele não pode rir dessa maneira em lugares públicos, as pessoas vão ficar olhando!
– “Esqueça seus olhares, seus sussurros e o de que os seus prováveis motivos sejam você. Eles não sabem o que é ser feliz sem se importar com a opinião alheia.” — falei.
– Jullie?
– Pode-se dizer que sim.
– Viu o que aquela garota faz na vida do nosso filho? Ele até decorou uma das frases dela!
– Claire, por favor. Jullie não é uma má pessoa.
– Ela quase se matou muitas vezes!
– E eu fui o motivo de muitas delas não terem acontecido, mãe! Você não percebe que ela não faz por mal?!
Minha mãe bufou, e eu quase ri de novo. Geralmente, quando estou dominado pela adrenalina, acho pequenos motivos para rir até ficar sem ar. E ela fica com muita raiva disso também.
Eu estava muito entediado. Olhei para o salão novamente e achei uma varanda, no segundo andar, que estava de frente para a pista de dança. Lá, estava Marcy, debruçada. Resolvi juntar-me a ela.
Depois de procurar um pouco as escadas que davam até ali, subi os degraus e caminhei, até chegar ao seu lado. Também me debrucei no parapeito e olhei para baixo. De lá, dava para ver as mesas e cadeiras e a pista. E, como a parede do salão tinha uma janela muito grande, podia-se ver a lua e as estrelas do lado de fora.
Ela me olhou e sorriu:
– Acho que você está me perseguindo.
– Estou trabalhando em uma teoria de você estar nos lugares em que desejo ir.
– E o que descobriu até agora?
– Que é verdade.
Ela riu e voltou a olhar para frente.
– Gosta de paisagens? — perguntei.
– Depende – ela respondeu, e percebi que sua voz estava trêmula – Não gosto de ver coisas feias.
– Então você não deve gostar de me olhar.
Ela me deu um tapa fraco.
– É sério. Gosto muito de ver coisas naturais, mas também gosto de urbanas. E tenho uma paixão especial pelo céu, principalmente quando está laranja ou escuro.
– Você está certa. São realmente muito bonitas.
Marcy concordou com a cabeça e deixou que seus olhos fitassem apenas a janela. E não voltou a falar nada durante algum tempo.
Jullie e Fernando entraram dez – longos — minutos depois. Sim, seu vestido tinha mudado, assim como seu cabelo. Ela tirou a cauda longa e o véu e algumas presilhas, ficando mais à vontade. E usava sapatilhas. Acho que nunca vi minha irmã usar salto.
Foram em direção ao salão e abriram a festa com uma dança lenta. Sim, meu cunhado sabe dançar, eu sempre soube disso, mas minha irmã é outra história. Ela tem um talento especial para músicas e letras, mas dança é um pouco diferente. Mentira, muito diferente. Olhando para o rosto de Fernando, ele mordia o lábio inferior com muita frequência, e ele só fazia isso quando ela pisava no seu pé.
Acho que já dá para ter uma boa ideia de o que aconteceu.
Mas, foi uma cena bonita. Quando ele a mergulhou, seu cabelo virou uma cascata de fios dourados e, ao voltar à posição inicial, deram uma volta brilhante. Preciso admitir que minha irmã é bonita. Só que essa história não é sobre a minha irmã – ela já teve seu momento de glória.
Parei de observá-los no meio da dança e demorei a notar isso. Estava olhando para Marcy e pensava em como seu perfil era bonito e como seus olhos estavam brilhando sob a luz do lustre. Quando ela se virou novamente e percebeu que eu a olhava, meu rosto esquentou. Eu deveria parar com isso.
– Talvez Jullie tenha sorte. Meu irmão é uma boa pessoa.
– Ela já teve. Ele salvou sua vida muitas vezes.
– E eu soube que você também.
Tomates me invejam.
– Não fiz nada demais. Simplesmente existo.
– Eu não pensaria dessa maneira. É algo bom você existir, afinal. Se salvou a vida da sua irmã...
– Você tem razão.
– Conta uma novidade.
Abri um sorriso, fingindo estar ofendido.
– Você quer dizer que...?
Ela me interrompeu no meio da frase, segurando meu braço com força. Suspirou e piscou os olhos lentamente. Ergueu um dedo no ar, acompanhando a melodia. E percebi que era para prestar atenção, assim como percebi que ela tinha tirado a luva.
Ouvi a música atentamente, mas não falo inglês. Prestei atenção no ritmo, e era muito bom. A voz que cantava era feminina, e muito bonita.
Marcy também estava cantando. Tentei ouvi-la, mas seu tom estava baixo para que eu não pudesse escutá-la. Mas havia um pequeno sorriso no seu rosto, e aquilo era bonito de se ver.
Quando a música acabou, ela parecia decepcionada.
– Ela podia ter continuado – falou.
– Músicas não duram para sempre.
– Sim, mas podia ter continuado. Não é bonita?
– Eu não falo inglês.
– Ah, desculpa. O nome da música é Something. Sabe o que significa?
– Sim, sei.
– Então. Tem uma parte que diz: Você é aquela parte em mim que eu não sabia que existia mas que eu sabia que precisava. Não é bonito?
– Sim, é mesmo. E o resto?
– Não, tudo bem. Depois procura a tradução na internet. Mas esse verso... esse verso é a minha parte favorita.
– Eu vou procurar.
Um garçom passou, oferecendo-nos salgadinhos. Peguei um e ela pegou outro. E comemos, olhando um para o outro. E rimos. Parecia que não sabíamos fazer mais nada além de rir.
– O que você gosta de... — comecei.
– Espera!
– Mais uma teoria: você vai me interromper quando eu começar uma pergunta. Estou...
– É sério!
– Viu?!
Ela tentou não rir, sem muito sucesso.
– Vamos dançar! — chamou.
– O quê?!
– É sério, vamos.
– Eu não danço.
– Nem eu, mas essa música é muito boa. Ora, por favor.
– Okay, vamos.
Marcy tentou segurar minha mão, mas desviei, e corremos juntos em direção à pista de dança. Quando chegamos no meio, ficamos um de frente para o outro e ela começou a dançar.
– Vamos, mexa-se, Victor!
– Não, eu não danço.
– Mexa-se!
E ela segurou a minha mão suja de gordura e começou a sacudir o meu braço. Por um instante, apreciei o seu toque em mim. Depois, quando meu corpo já estava acostumado, percebi o osso por trás da camada de pele e notei que ela era mais magra do que eu havia imaginado.
Me mexi um pouco, devagar, e ela se contentou com o meu esforço. Segurou no meu pescoço e ficou se movendo, alegre demais para poder parar. Não seria eu que faria aquele momento acabar, até porque ele era bom para mim também.
A derrubei, sem querer, e a segurei pelas costas. Marcy começou a rir feito louca e fiquei nervoso diante da situação, o que me fez rir também. E nossos rostos ficaram muito próximos, o que me fez ficar pior.
Pega um tomate. Agora pega um camarão. Junte a cor deles. Agora coloque-a no rosto de um garoto já corado. Já tem uma ideia de como fiquei naquele instante.
Ela tocou no meu nariz com um sorriso e saiu correndo. Corri atrás dela. Quando parou repentinamente e se virou para me olhar, percebi que não a via como antes.
Aquela garota não era a irmã do Fernando. Aquela garota era a Marcy.
Aquela garota não sabia mais parar de rir.
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