Aprendendo a Dizer Eu te amo
3 Umas palavras, um pedido e um significado
Notas iniciais
Peguei meu celular e me joguei na cama. O dia estava começando apenas, e eu não tinha nada planejado para aquele sábado. Disquei o número do seu celular – que, por acaso, eu havia decorado.
Ainda me lembrava da sensação que senti quando seus pais a chamaram para irem embora. Ela pediu uma caneta e escreveu em um guardanapo, de qualquer jeito. Então, Marcy me abraçou e saiu correndo. A parte mais estranha foi que ela não disse “tchau”.
Tinham se passado cinco dias e, mesmo indo para a escola e vendo a Sara, eu não conseguia parar de pensar nela e na maneira como tinha sorrido para mim, dançado comigo ou me tocado.
Ouvi cada “tu” lento, esperando ouvir a sua voz sempre que um acabasse. E, naquele intervalo, eu ia pensando no que iria falar. Porque eu não tinha motivo algum para ligar para ela.
– Alô? — ouvi sua doce voz e não pude resistir a abrir um sorriso.
– Marcelle?
– Marcy. Victor?
– Você lembrou da minha voz?
– Pra falar a verdade, tenho perguntado isso para todo mundo cuja voz eu não conhecia. E, por incrível que pareça, você foi o primeiro.
– Então, você realmente estava esperando a minha ligação?
– Mais ou menos. Eu nunca tinha dado meu celular para nenhum garoto antes.
– E nenhuma garota nunca tinha dado seu celular para mim.
– Okay, então, né? Para tudo existe uma primeira vez.
Ouvir a sua voz só me dava ainda mais vontade de vê-la. Eu percebi que era o que eu precisava fazer.
– Tem algum compromisso, Marcy?
– Não, por quê?
Respirei fundo e tomei muito cuidado com o que iria falar.
– Será que a gente pode... se ver?
Eu não consegui acreditar que tinha dito aquilo, que tinha pedido aquilo. Demorei para perceber que ela estava demorando para responder.
– Talvez.
– Talvez?
– Tem alguma probabilidade de meus pais não deixarem. Você quer vir aqui em casa, eu na sua ou a gente em algum lugar?
– Acho melhor eu ir para aí. Okay?
– Okay. Vou falar com os meus pais e eu te ligo. Cinco minutos.
– Cinco minutos.
Desliguei o telefone e me olhei no espelho em frente à cama.
Cabelo? Okay. Rosto? Okay. Roupa? Okay.
Permissão?
Esse seria o problema.
Saí do meu quarto devagar, tremendo ao ouvir a porta ranger. Gosto de ficar escondido dos meus pais quando eu vou pedir algo, mas eles já sabiam da minha presença. Mesmo assim, encostei-me na parede do começo do corredor.
E lá estavam eles, realizando seu sábado típico. Meu pai, com as pernas jogadas em cima do sofá lendo um jornal. Minha mãe, assistindo televisão com toda a sua atenção. E eu que preciso praticar exercícios físicos.
Ela virou o rosto e me encarou. Senti um frio no estômago. Eu nunca gostei de quando ela fazia aquilo.
– O que você quer? — ela perguntou.
E ainda duvida que eu sempre faço a mesma coisa quando quero pedir algo?
– Preciso sair – falei.
– Para onde?
– Casa da Marcy.
– Não conheço nenhuma Marcy.
– A irmã do Fernando...
– O Fernando só tem uma irmã e o nome dela é Marcelle.
Suspirei.
– Você realmente quer brigar comigo por eu chamar a cunhada da minha irmã pelo seu apelido?
– Não quero brigar com você, Victor. Mas você mal conhece aquela garota.
– Exatamente por isso que quero ir à casa dela. Para conhecê-la.
– Por que você quer conhecê-la?
– Porque eu conheço meu cunhado há seis anos mas nunca conheci sua irmã. E não vejo problema algum em fazer novos amigos.
Minha mãe tinha a mania de ficar me olhando com os olhos semi-cerrados quando ficava irritada comigo. E percebi que não deveria ter começado a discutir.
– Desculpe-me. Vou ficar no quintal.
Dei meia volta e comecei a caminhar em direção à última porta do corredor, a decepção me consumindo. Aquela poderia ser minha única chance de conseguir ser amigo dela, independente dos nossos irmãos, e eu a havia estragado.
– Victor – chamou meu pai, e paralisei no meu lugar.
Geralmente, quando meu pai se mete no assunto, ou eu vou me dar bem ou vou me dar mal. E, quando eu digo me dar mal, quero dizer muito mal.
– Sim? — respondi, sem coragem de olhar para trás.
Eu tinha discutido com a minha mãe. Tinham, sei lá, 95% de me dar mal.
– Vem cá.
Virei novamente e andei até ficar de frente com o meu pai. E olhei naqueles olhos azuis, pouco mais escuros que os meu e da Jullie.
– Pode ir para a casa da Marcelle.
Fiquei com vontade de começar a rir, mas minha mãe ia me fuzilar com os olhos. Então, apenas abri um sorriso – grande.
– Valeu, pai! Pode me levar?
– É algumas ruas para trás. Você pode ir sozinho, mas de bicicleta.
– Você vai deixar nosso filho ir sozinho para a casa dessa garota? — questionou minha mãe.
– Claire... — resmungou meu pai.
Corri para o meu quarto e me joguei na cama. Lembro que Jullie ficava dessa maneira quando ia falar com Fernando, e tive medo de sentir a mesma coisa que ela sentia. Afinal, eu só tinha conversado com ela durante umas quatro horas.
Me olhei no espelho de novo. Cara, meu cabelo tava muito bagunçado! Mas é desse jeito que ele fica legal.
Liguei para Marcy – ou Marcelle, se minha mãe estiver lendo isso. Cada momento que passava sem ela atender era difícil de aguentar. Eu estava muito ansioso.
Muito ansioso (no meu caso)
=
Quando quer muito fazer algo, fica com tiques-nervoso, como bater o pé no chão com rapidez. Geralmente, é confundido com “maluquice”.
– Alô?
– Marcelle?
– Marcy. Victor, meus pais eles...
– Os meus deixaram.
– É, os meus...
– Deixaram ou não?
– Eles...
– Por favor, responde logo!
– Se você me deixar falar!
Mais significados de “muito ansioso”
=
Vontade de falar o tempo inteiro, podendo interromper a pessoa no meio da fala, mesmo que ela vá responder o que está deixando “muito ansioso”.
– Desculpa – resmunguei.
– Meus pais...
Ela ficou um tempo sem falar.
– Marcelle?
– Marcy!
– Desculpa, Marcy. Responde logo.
– Eles deixaram.
– Os meus também.
– Você já disse isso.
– Então, já estou indo.
– Okay. Até.
– Até. Hey!
– Oi...
– Onde você mora?
Ela me mandou as instruções. Quanto mais ouvia sua voz, mais agitado eu ficava.
Saí do meu quarto, gritei um “tchau” para os meus pais, peguei minhas chaves e a bicicleta.
Se eu ainda tivesse doze anos, eu diria que o céu estava como um mar calmo, com apenas um tom de cor e pouca espuma, e o sol estava lá, no meio dele, tentando chamar nossa atenção com sua luz quente.
E, se eu disser que não tenho mais doze anos porque cresci, vai soar como se, naquela época, eu já não fosse grande. Mas, sim, eu já sabia de muitas coisas com essa idade para ser considerado “grande”.
Subi na bicicleta e comecei a pedalar. E foi nesse momento que a ficha caiu.
Eu estava indo visitar a Marcy. Eu tinha chances de ser amigo dela.
Ou até mais do que isso.
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