Aprendendo a Dizer Eu te amo

4 Um admirador, uma inspiração e um elogio


Notas iniciais
Como prometido, aí está o capítulo, babes :3

Tem algo em andar de bicicleta que faz com que eu não tenha vontade de parar, geralmente. Fico analisando os fatos e tento pensar: o que, afinal, eu sinto quando ando de bicicleta? E, quando penso nisso, chego a outra pergunta, que é ainda mais importante: o que eu sinto? Então, finalmente, me pergunto: como posso definir exatamente o que sinto?

Posso afirmar que, quando ando de bicicleta, sinto uma mistura e euforia com felicidade mútua. Mas, mesmo com a minha paixão por elas, não se pode definir em palavras o que você sente. E é isso que faz com que eu me decepcione com elas.

E, quando ando de bicicleta, sinto como se pudesse fazer tudo. Sentir o vento no rosto, me impulsionando para frente, me faz não querer parar. Sinto como se fosse, bem, digamos, livre. De verdade.

Enquanto ando de bicicleta, minha cabeça automaticamente me faz pensar. Como Marcy mora perto da minha casa, precisei andar devagar para poder pensar bem. No que eu penso? Em tantas coisas que nem sei como começar.

Cheguei em frente a portão da casa dela e desci da bicicleta. Então, com o dedo sobre a campainha, meu coração disparou.

Estava em frente à casa da Marcelle, prestes a conhecê-la de verdade. Ali estava a minha chance de ter uma amiga, e, talvez, uma namorada – se eu começar a gostar mesmo dela. Eu precisava agarrá-la e não soltá-la nunca mais. Eu ia descobrir como era ser irmã do Fernando, como os pais dela eram, qual era o seu hobby, seus sonhos. Iríamos conversar sobre as músicas que ela ouve...

Meu Deus. Eu pareci uma menina falando isso. Apague.

Mas, sinceramente, eu estava muito ansioso. Acho que é porque estava prestes a apertar a campainha da casa de uma garota bonita.

AI, MEU DEUS! EU ESTAVA PRESTES A APERTAR A CAMPAINHA DE UMA GAROTA BONITA!

E, por incrível que pareça, eu estava dando um ataque no meio da rua. Mas não deixei isso visível para todo mundo.

Consegui. Eu apertei o botão, e o tilintar das notas agudas ressoou em meus ouvidos. Aquilo me deixou ainda pior.

Não faz ideia de como meu coração acelerou quando vi Marcy abrir a porta, sorrindo com os olhos. Nem quer saber.

Seu cabelo estava jogado para o lado, caindo no seu ombro, e o sol refletia sua luz nele. Seu sorriso era pequeno, mas me faria suspirar naquele momento se eu já não estivesse sem ar. Ela usava uma camiseta laranja, “I GOT THE FIRE”, e jeans. Consegui me perder no pequeno infinito dos seus olhos e tive vontade de beijar seus lábios brilhantes ali mesmo, no meio da rua, na frente de um bando de desconhecidos, mas a vergonha foi maior. Eu conseguia ver suas espinhas já que ela não usava maquiagem, mas aquilo era apenas uma prova de que ela era humana mesmo.

– Você está tão... Marcy – falei, tentando olhar firme em seus olhos.

Ela ergueu uma sobrancelha e ficou me olhando confusa.

– E... isso é algo bom?

Mexi no meu cabelo e percebi que minha mãe estava suada. Eu estava muito nervoso.

– Depende do seu ponto de vista. Você estar Marcy significa que você está sendo você mesma. Na minha opinião, isso é algo bom.

– Ahn... obrigada. Mas acho que você quis dizer que eu estou bonita. Estou errada?

Empalideci, claro que empalideci.

– Okay, Marcy, você está bonita.

– Obrigada.

Ela passou a mão no meu cabelo, coisa da qual eu gostei. Sentir seus dedos roçarem meu couro cabeludo...

– Quer entrar?

– Obrigado.

Ela saiu do caminho e eu entrei. Esperei ela fechar a porta e então caminhamos lado a lado até sua casa, em silêncio. Mas, de alguma maneira, aquele silêncio não me parecia ser algo ruim.

– Mãe! — ela gritou – Ele chegou!

Sua sala estava arrumada. Tinha um sofá logo em frente à televisão, com apenas um tapete os separando. Era separada da cozinha por apenas uma bancada. No fundo, tinha uma escada. A mãe estava na cozinha, com luvas nas mãos.

– Victor! — e correu para me abraçar.

Não sou muito fã de abraços, mas deixei que ela o fizesse mesmo assim. Fechei os olhos e imaginei Marcy em seu lugar, com o cabelo sobre o meu rosto. Quando percebi isso, os abri e me separei, tentando não ser mal-educado.

– Olá – eu não sabia o nome dela! — Tudo bem?

– Ah, claro.

– Victor – Marcy me cutucou – Vamos para o meu quarto. Tem algo que quero te mostrar.

Ela segurou o meu pulso – perto da minha mão – e me arrastou escadas acima.

Eu ainda posso sentir o toque da sua pele na minha. Era quente e firme, e nunca deveria ter acabado.

Soltou minha mão para abrir a porta e me puxou para dentro do quarto. Então fechou a porta novamente e ficou em pé ao meu lado.

Eu poderia dizer que fiquei olhando para o quarto dela por muito tempo, mas foram só por cinco segundos. Paredes? Amarelas, cobertas de posteres de bandas e cantores norte-americanos. Cama? Bagunçada. Tinha um guarda-roupa e um criado-mudo ao lado da cama, mas não olhei demais. Estava muito ocupado tentando observá-la.

Ela se sentou na cama e me mandou sentar ao seu lado. Atendi ao seu pedido e a vi se abaixar para pegar algo debaixo da cama.

Um violão marrom, comum. E tirou de uma gaveta do criado-mudo uma pasta.

– Você viu a tradução daquela música? — perguntou-me.

– Sim, eu vi.

– E...?

– É bem bonita, de verdade.

Ela sorriu.

– Você escreve?

– O quê?

– Você escreve?

– Sim, na escola...

– Não, você cria textos ou poemas ou músicas...?

– Nunca pensei no assunto, pra falar a verdade. Mas minha irmã faz isso.

– É, eu já vi. Ela me mostrou algumas coisas. Quer tentar?

– Tentar o quê?

– Compôr, Victor. Você é muito lerdo.

Olhei pra ela confuso, mas na verdade estava me divertindo muito com aquilo.

– Okay, pode ser.

Marcy ficou me olhando por um tempo e eu fiquei com vergonha, mas tentei não mudar a cor do meu rosto. Por mais que fosse estranho, era gostosa a sensação de ter seus olhos pregados em mim, sem motivo algum. Eu não tinha nada constrangedor no meu rosto, sabia disso. Mas, mesmo assim, ela não parava.

O que fiz foi admirá-la também. Fiquei maluco no meio dos seus olhos e não tive vontade de parar. Podia ver meu reflexo ali, mas não era isso que eu queria. Queria ter a chance de explorar sua alma e ver suas belezas o dia inteiro. Era incrível, eu tinha me apaixonado à primeira vista. E, por mais que isso me deixe mal, não consigo me arrepender. Porque foi sua beleza que me fez ter vontade de conversar com ela, e foi sua beleza que nos aproximou desse modo. E serei grato eternamente a ela.

Aproximei minha mão da sua, mas não tive coragem suficiente pra chegar mais perto a ponto de tocá-la.

Então, ficamos assim. Por um minuto. Até ela se levantar e abrir a gaveta do criado-mudo, tirando de lá um caderno e um lápis.

– Que tal assim: eu toco e você escreve? É irmão da Jullie, deve ter algum talento sobre as palavras aí. Só precisa descobrir.

– E você, que é irmã do Fernando. Desenha?

Apontou para um dos papéis colados na parede ao lado da cama. Era uma garota, parada sob uma árvore com roupas maiores do que o seu corpo.

– Fui eu que fiz.

Tentei olhar pra ela com a mesma naturalidade que ela tinha me olhado antes, mas não consegui. Então, peguei seu caderno e abri em uma página em branco.

– O que você quer que eu escreva?

– O que você estiver sentindo.

Ela começou a tocar no violão e acompanhei seu ritmo. Tentei me concentrar no que escrever, mas era difícil. Havia uma garota bonita do meu lado e eu tinha muita coisa para escrever, mas não podia revelar meus sentimentos ainda.

Me perguntei como minha irmã conseguia fazer aquilo com tanta naturalidade, com tanta paixão. Eu não sabia o que fazer. Eu lia livros, mas mesmo assim não tinha o seu talento. Deixei a mão sobre o caderno e pensei, com esforço, o que escreveria.

Foi então que prestei atenção no que ouvia naquele momento: a melodia saindo do violão, minha respiração acelerada, o barulho que vinha da rua... E aquilo tudo se misturava e formava o que eu precisava.

Formou a minha inspiração.

Escrever era muito bom. Quando comecei, não tive vontade alguma de parar. Era viciante, à medida que as palavras iam se formando, outras surgiam na minha mente. Eu não podia acabar com aquilo. E, quanto mais eu escrevia, mais eu me sentia livre. Aquilo era o que eu sentia, mesmo que não fosse tudo. Mas era.

Quando terminei, Marcy pegou o caderno e leu. Não consegui me controlar, fiquei olhando para o seu rosto enquanto ele estava abaixado. Fitei seus olhos enquanto iam de um lado para o outro e notei um sorriso se formando à medida que lia. E, a cada segundo que se passava quando eu a olhava, eu tinha mais vontade de beijá-la.

Ela ergueu a cabeça e me flagrou admirando-a. Empalideci, claro, e desviei o olhar.

– O que você achou? — perguntei.

– Muito perfeito. Até demais.

– Quer que eu escreva de novo?

– Não, quanto mais perfeito, melhor.

Perfeito.

Quando se gosta de alguém e essa pessoa lhe elogia, você fica ouvindo sua voz em sua cabeça por muito tempo. Pelo menos foi o que aconteceu comigo.

Mas eu não esqueci ainda a sua voz repetindo aquela palavra.

Porque foi perfeita.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Por favor, comentem. Beijos.