Aprendendo a Amar

2 Relação Médico - Paciente


Relação Médico — Paciente

Eu já ouvira muitas histórias sobre Kakashi Hatake durante minha vida, todas o pintando como um verdadeiro herói, mas eu nunca acreditei muito nelas.

Até aquele momento, pelo menos...

O homem na minha frente, apesar de extremamente debilitado, mostrava um vigor invejável quando seus olhos de cores diferentes pousaram em mim. Observei de relance o famoso sharingan brilhar escarlate antes de ele fechar os olhos novamente.

“Eh, aqueles história que tanto ouvi podem ter mesmo um pouco de verdade...” pensei comigo.

— Como você está? – eu disse me aproximando dele para fazer o check-up.

— Devo dizer que ainda bem fraco... – ele me respondeu com a voz falha. – O que aconteceu comigo?

Eu peguei a sua ficha presa na cama e dei uma lida rápida.

— Seus companheiros de equipe relataram que o senhor usou o mangekyou sharingan durante a luta e isso drenou seu chakra quase que por completo.

— Por quanto tempo eu dormi. Estou morto de fome.

— O senhor ficou em coma por seis dias.

Ele se sentou de uma vez fazendo com que o lençol escorresse de seu rosto e de seu corpo.

Então eu finalmente vi seu rosto por completo. Havia um sinal no canto esquerdo de sua boca. Desci um pouco mais os olhos e vi uma tatuagem ANBU em seu ombro, além de muitas cicatrizes em seu tórax desnudo e completamente em forma.

Voltei a olhar para a ficha em minhas mãos sentindo que meu rosto corara e esquentara mais que o normal.

— Hum-hum. – pigarreei tentando me concentrar na conversa médico-paciente. – Preciso ver sua temperatura.

— Sim, claro.

Eu estendi a mão e pousei-a sobre sua têmpora. Estava normal. Escutei seu batimento cardíaco, também normal. Tudo estava normal, excerto sua exaustão que era de fato notável.

— Tudo normal, o senhor só precisa descansar mesmo. Vou pedir que lhe preparem a refeição, mas receio que no momento ainda será intravenosa.

Eu fiz algumas anotações em seu prontuário e me encaminhei para a saída.

— Dra. Yagami. – ele me chamou. Eu parei e olhei para ele. – Me chame apenas de Kakashi, tudo bem?

Eu sorri para ele.

— Tudo bem sen..., quero dizer... Kakashi. Mais tarde eu venho vê-lo novamente.

E assim foi durante duas semanas.

Eu ia visitá-lo três vezes por dia. Media sua temperatura e seus batimentos cardíacos todas as manhãs. Sua refeição passou a ser sólida e ele me agradeceu por isso. Kakashi era um paciente exemplar, devo dizer. Comia o que eu dava e tomava os remédios sem reclamar.

Durante todos os dias em que cuidei dele, pude perceber que ele era bem querido pelas pessoas da aldeia. Seu quarto estava sempre cheio de visitas: uma hora era seus alunos, outra hora a própria Hokage que sempre ia acompanhada de um senhor famosíssimo, de nome Jiraya. Suas reuniões eram sempre secretas então eu nunca soube o que discutiam entre quatro paredes. Mas quando éramos apenas eu e ele naquele quarto de hospital, eu me sentia de alguma forma feliz e intimidada em igual medida. Ele, estranhamente exercia um certo magnetismo sobre mim, e isso aumentou quando ele passou a me chamar apenas de Dra. Astrid... e tinha um senso de humor bem peculiar. Era como se tivéssemos nos tornados amigos em apenas duas semanas.·.

Em minha antiga aldeia, as pessoas me viam apenas como alguém a quem podiam pedir ajuda quando precisavam. Mas quando estavam todos bem, nem se lembravam de mim. Eu era um fantasma a quem todos evitavam. Até que de tanto presenciar o constrangimentos das pessoas ao me redor quando eu chegava, decidi por conta própria evitá-las.

No entanto, ali na aldeia da Folha eu me sentia como parte de uma grande família. Era um sentimento acolhedor e novo. Digo isso porque era assim que eu me sentia ali. Desde que cheguei fui bem tratada e respeitada por todos, a começar pela senhora Hokage e agora por Kakashi Hatake. Talvez esse sentimento tenha feito com que eu me aproximasse dele. Mas eu não sabia se era reciproco ou apenas fruto de minha imaginação. Mas confesso que eu queria que fosse real. Eu ansiava por algo real em minha vida...

Então no dia seguinte como sempre, eu segui até seu quarto para fazer uma nova bateria de exames, mas ao entrar no quarto me deparei com o local vazio.

Achei que Kakashi estivesse no banheiro, mas a porta estava aberta e o banheiro desocupado. Preocupada corri até a recepção.

— Naomi! Você viu para onde foi o paciente Hatake?

Ela olhou na lista em sua mesa.

— Oh, você não soube? A Hokage esteve aqui um pouco antes de você chegar e lhe deu alta.

— Oh! – exclamei um pouco surpresa. – Eu não sabia... e ele disse algo antes de sair? Deixou algum... algum bilhete?

— Vou verificar... um minuto.

Quando Naomi saiu para verificar a informação, eu passei a mão pelos cabelos, frustrada. Ela voltou em seguida.

— Não há nenhum recado de Kakashi Hatake.

— O...Obrigada.

Eu me afastei e segui em direção ao seu antigo quarto, agora vago. Um sentimento de vazio e solidão me invadiu. Era inexplicável, mas só podia ser atribuído a ele...

“A gente estava se dando tão bem... achei que ao menos fosse agradecer pelos cuidados...” divaguei. “Os momentos em que conversávamos apesar de poucos me faziam até esquecer o meu passado...”.

— Mas ele era só um paciente e nada mais. Meu trabalho foi feito, não foi? – disse a mim mesma em voz alta.

— Olá... – Naomi voltara e parecia feliz.

Um sentimento de esperança me invadiu sem que eu pudesse controlar. Será que ela tinha vindo para dizer que finalmente achou seu bilhete?

— O Dr. Aimi está te chamando na sala cinco. Tem um paciente que vai ficar internado e ele queria que você cuidasse dele.

Eu assenti desanimada. Ele não deixara nenhum bilhete mesmo. Tudo não passou de um relacionamento médico — paciente e nada mais e qualquer coisa ocorrida fora isso, foi apenas um fruto de minha imaginação.