Aprendendo a Amar
3 Uma Companhia Agradável
Uma Companhia Agradável
Apesar de me sentir um pouco solitária com a ausência de meu primeiro paciente, meus colegas de trabalho fizeram com que o restante do meu dia fosse bem agitado, tanto que nem vi a hora passar e acabei saindo do hospital uma hora depois do previsto.
Ao atravessar a porta me deparei com céu quase escuro. Era melhor eu apressar o passo, caso contrário à dona da pensão onde eu estava morando não me deixaria entrar.
É... Atualmente eu morava em uma pensão, com horários bem restritos para a chegada. Mas eu não reclamava. No momento era melhor do que dormir ao relento como eu fui obrigada a fazer por duas semanas. Entretida nesses pensamentos e no horário um pouco apertado, acelerei o passo.
— Astrid! – alguém me chamou.
Eu paralisei no mesmo instante; aquela voz... só podia ser um truque da minha mente... Eu me virei lentamente.
Um homem vestido com o uniforme shinobi da Folha estava encostado no muro do Hospital, aparentemente lendo um livro.
— Kaka... Quero dizer, senhor Hatake? – eu respondi tentando soar indiferente.
O homem fechou o livro e o guardou em sua bolsa de ferramentas. Em seguida se aproximou de mim de forma natural.
– Uh? Porque está sendo formal comigo de novo? – disse ele confuso. – Eu disse que podia me chamar apenas de Kakashi, sim?
– Oh sim, é verdade... eu tinha me esquecido, Kaka...shi – eu consegui dizer após muitos segundos.
“É claro que eu não me esqueci.”
Ficamos em silêncio após o que eu disse. Pela sua expressão achei que ele fosse encerrar a conversa ali mesmo.
– Viu? Não foi difícil. Eu achei que você sempre saísse às seis. – ele disse alisando os cabelos.
– Na verdade é sim esse o meu horário, mas hoje acabei ficando até mais tarde... mas... mas o que faz aqui? A sra. Hokage te deu alta. – eu disse de maneira fria e impulsiva.
“Mas o que está havendo comigo? Por que o estou tratando assim?”
— Me desculpe, foi repentino e acabei saindo sem avisar. – ele se desculpou dando de ombros.
— Não tem problema, eu só fiquei preocupada... – “e com saudades!”.
— Quer dizer que você ficou preocupada? – Kakashi sorriu pra mim ao tocar meu nariz com a ponta do dedo.
Eu ruborizei na hora.
— Claro, é o dever do médico cuidar de seu paciente, não é? Agora, eu preciso ir embora. Estou atrasada!
Eu dei as costas pra ele na tentativa de esconder minha face vermelha e comecei a caminhar rápido. Porém uma mão puxou minha bolsa.
— Deixe que eu levo pra você.
Eu olhei de esgueira e vi que Kakashi continuava me acompanhando. Andar rápido não o fez ficar para trás.
— Porque está aqui? – eu disse após um tempo de caminhada.
— Eu só queria agradecer pelo cuidado que dedicou a mim enquanto estive no hospital. Para ser sincero, as enfermeiras daqui são muito rabugentas e você foi tão gentil.
Nós dois sorrimos com a declaração.
— Acho que é porque você foi meu primeiro paciente.
— Pra dizer a verdade, eu queria falar sobre isso mesmo. É frequente minha presença nos hospital, já que a maioria das missões é perigosa. E confesso que nunca te vi aqui. Na verdade nunca te vi na aldeia.
Eu respirei fundo. A nossa conversa até ali seguia com uma fluidez impressionante. Mas ele tocou num tópico sensível que eu não mencionara a ninguém a não ser a Ibiki e a própria Hokage.
— É que sou nova na aldeia. Quando cheguei você ainda estava em coma.
— Bom... não tenho nada de importante pra fazer agora. Porque não me conta? – ele parecia sincero.
— Bem... não é uma história com final feliz... Minha aldeia foi atacada enquanto eu estava fora cuidando de um paciente. – eu me obriguei a contar. – Quando retornei encontrei todos os aldeões mortos, não havia sobrado nada. Como minha aldeia era aliada de Konoha vim pedir ajuda a Hokage. Ela enviou ninjas para investigar o ocorrido e por bondade me deu abrigo e um trabalho.
Por um momento Kakashi ficou em silêncio, ele era um bom ouvinte. Não em interrompeu nenhuma vez. Mas quando eu não tinha mais forças pra continuar ele interveio.
— Isso é terrível. E quanto a sua família?
— Todos morreram.
Uma lágrima desobediente escorreu pelo meu rosto. Kakashi segurou meu ombro me fazendo parar. Eu me virei para ele, mas não consegui fitar sua face. Em silêncio ele ergueu sua mão e secou meu rosto.
Eu ruborizei e senti que ele também, pois recolheu sua mão rapidamente.
— Eu sinto muito. Sabe, também perdi pessoas na guerra e sei como é difícil superar um luto. Sinto muito, eu vim te agradecer, mas acabei deixando-a triste.
Como ele podia me ler tão bem? Como eu conseguira contar de meu passado para ele tão facilmente? É estranho que duas pessoas que até então eram totalmente desconhecidas tenham se entendido tanto em apenas duas semanas.
— Meu pai costumava dizer que não devemos chorar pelos mortos. – eu disse. – Que devíamos usar esse tempo ajudando os vivos.
— Muito sábio o seu pai. Queria tê-lo conhecido.
Nós dois sorrimos.
— Espero vê-la sorrir mais vezes. Você fica muito bonita quando sorri.
Eu arregalei os olhos.
— O...obrigada. Bem... chegamos.
Eu fiz menção de empurrar o portão, mas ele estava trancado.
— Droga, droga! – exclamei. – Já passou da hora, eu não devia ter demorado no hospital. O que vou fazer?
Eu comecei a bater palmas e chamar em voz alta pela proprietária.
— Eu deixei bem claro que não toleramos atrasos. Não posso deixá-la entrar. São as regras! – ela gritou de sua janela.
— Ai, o que vou fazer agora? – eu disse em voz baixa para Kakashi.
— Deixa que eu resolvo. – ele sussurrou pra mim. Então se virou para a megera. – Senhora Saori, a culpa é minha dela ter se atrasado, não poderia abrir o portão pra ela dessa vez?
— Ah Kakashi, é você? Claro que sim, se ela estava com você tudo bem. Um minuto.
A velha desapareceu da janela.
— Bruxa... – sussurrei. – Como você conseguiu?
— Ela vive perdendo sua gata, e várias vezes a minha equipe é quem a encontra. – ele piscou pra mim com o único olho visível.
Não demorou muito Saori veio até o portão e o abriu.
— Você não quer entrar e tomar um chá? – perguntei esperançosa.
— Adoraria, mas um de meus alunos está me enchendo à paciência para lhe ensinar um jutsu novo.
— Oh tudo bem... de qualquer forma obrigada por me acompanhar até aqui.
— O prazer é meu. Boa noite.
— Boa... noite.
Eu fiquei alguns segundos observando suas costas se afastar gradativamente.
— Quer entrar logo?! – resmungou a sra. Saori.
Eu me sobressaltei, tinha até esquecido de sua presença. Parece que ela só é gentil na frente do Kakashi.
— Sim, sim senhora. Me desculpe. Não vai mais acontecer.
“É... não vai mais acontecer.”.
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