Aprecie o Silêncio
5 V - Está aqui em meus braços
Tudo o que eu sempre quis, tudo o que eu sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são muito desnecessárias
Elas só nos causam desgostos
Continuavam ambos se encarando.
_ Audrey... Pensei que nunca mais te encontraria...
Felipe tentou alcançar uma das mãos de Audrey, que a desviou. Então ainda a estavam caçando. E a haviam encontrado!
Colocou novamente seus óculos escuros e virou-se, andando depressa.
_ Audrey! Espere! — Pedia Felipe correndo atrás da moça.
Audrey desviava-se sem dificuldade da multidão, enquanto Felipe sempre acabava trombando com alguém.
_ Audrey, por favor!
Devia ou não falar com ele? E se ele fosse uma isca? E se todos estivessem ali espreitando para matá-la?
E se não estivessem?
\"Não seja tola! Não pode se deixar levar por sentimentos fúteis!\" Repreendia-se em pensamento.
Não soube dizer se foi proposital, mas diminuíra o passo, ao ponto que Felipe a alcançou. Agarrou um de seus braços e a puxou para uma viela sem movimento, que dava acesso à praia.
Soltou-a, mas não pôde abraçá-la como pretendia. Audrey já tinha uma pequena pistola apontada para seu rosto.
_ Precisamos conversar... Abaixa a arma.
_ Onde eles estão? Estão aqui? Como me encontraram?
_ Não tem ninguém Audrey...
_ Diga logo!!! — repetiu já não contendo suas emoções.
_ Eu já disse...
_ Não confio em você! Nunca deveria ter confiado! Você é como todos-
Audrey foi interrompida. Aproveitando-se da fraqueza emotiva que ela apresentava, Felipe conseguiu abaixar sua arma, abraçando-a com força.
_ Me perdoe Audrey... Me perdoe. Vamos consertar isso...
A moça estava imobilizada num abraço que desejava. Continuou impassível. Não podia abraçá-lo. Cair na armadilha deles.
Conseguindo recobrar seu pensamento analítico, Audrey o repeliu e correu para a praia.
Se eles a estavam perseguindo, não podia ficar parada.
Felipe a seguiu.
A praia do centro não era freqüentada por ser poluída e com muitos redemoinhos.
“Merda!” Pensou Audrey. Com a ausência de pessoas, se tornaria um alvo mais fácil.
Correu o mais rápido que pôde. Se alcançasse a outra extremidade, se infiltraria novamente no centro.
Bateu com força no chão quando Felipe lançou-se sobre ela. Sua arma caiu alguns centímetros fora de seu alcance.
_ Não quero te matar! Não há ninguém aqui! Apenas me escute! – Pediu o rapaz sobre suas pernas.
Audrey tomou impulso e conseguiu alcançar a pistola. Felipe a virou para si, imobilizando-a entre seus joelhos.
A moça voltou a apontar a arma para ele.
_ Audrey, eu te amo... E por te amar tanto eu não poderia fugir com você e permitir que continuassem a caçá-la... Consegui despista-los. Você já não é prioridade... Não virão atrás de você.
Nada. Audrey continuava na mesma posição.
_ Por favor meu amor...
Na ausência de resposta, Felipe soltou um suspirou cansado. Audrey imaginou que ele em seguida se levantaria, permitindo que ela fugisse.
Mas outra vez enganada, surpreendeu-se com as mãos firmemente presas acima de sua cabeça. Felipe inclinou-se sobre ela e a beijou.
Audrey resistiu, virando um rosto para um lado e outro. Mas traída por seus próprios sentimentos, acabou por ceder. Sem conseguir pensar em mais nada, retribuiu.
Felipe soltou suas mãos que já não lutavam mais para se libertar. Acariciou-lhe os cabelos e o rosto.
Audrey abraçou-o, apertando as costas do rapaz com força, com a arma ainda encaixada nos dedos.
Pouco depois o empurrou com força, e tentou levantar-se. Novamente Felipe prendeu seus pulsos para cima com uma das mãos, e com a outra agarrou a corrente que Audrey tinha por baixo da blusa.
_ Não se engane Audrey! Não tente lutar contra o que está sentindo!
_ Isso era só para me lembrar com quem não devo mais me envolver Felipe.
Felipe continuou alguns segundos segurando os pulsos de Audrey na areia com uma mão, e a aliança dela com outra.
As feições dela eram firmes. Mesmo que ainda o amasse, estava decidida a esquecê-lo.
Soltou-a e se levantou.
Audrey levantou-se em seguida. Arrancou a corrente do pescoço, partindo-a. Jogou-a aos pés do ex-noivo e pediu:
_ Não me procure mais. Estou te pedindo como favor.
Dizendo isso correu de volta ao centro movimentado.
Felipe apenas a observou se afastar, antes de recolher a jóia da areia.
***
Vin caminhava de um lado a outro na pequena sala.
“Será que vai demorar muito ainda? Será que houve alguma coisa? Será que precisa de ajuda?” Perguntava-se em pensamento.
Alan e Rômulo estavam na sala de controle com Victor. Ora testavam sistemas novos de rastreamento, ora testavam novos jogos de realidade virtual.
Audrey abriu a porta e encontrou com Vin a sua espera.
_ Adorável! Estava quase ligando para saber o que houve...
Audrey o encarava como se procurando o que dizer. Por fim, resolveu não dizer nada. Temia que sua voz saísse trêmula.
Desviou o olhar para a porta que acabava de fechar. Continuou encarando a maçaneta. Vin notou que algo não estava bem.
_ Audrey?
Audrey o encarou incrédula. Vin riu e disse:
_ Pensou que eu houvesse esquecido seu nome?
_ Não. Só achei que não se importava mesmo.
_ Oras, por favor... Não posso demonstrar favoritismo. Só isso. Mas, está tudo bem?
_ Claro. Perfeito. Só fiquei cansada com a caminhada.
Dizendo isso, trancou-se no quarto.
***
Dia Seguinte
Já eram quatro da tarde e Audrey ainda não se levantara.
_ Duas linhas paralelas... – repetiu para si mesma mais uma vez.
O sonho que tivera durante a noite continuava a incomodá-la.
_ Adorável? Sente-se mal?
Era a terceira vez que Vin batia em sua porta.
_ Sim. Me sinto.
_ Precisa de um médico?
_ Não. Preciso descansar.
_ Você deve é estar fraca. Não está se alimentando direito.
_ Não precisa se preocupar comigo pai.
_ Então vou tentar ignorá-la, por estar moralmente ressentido.
Audrey riu, mas não disse mais nada.
Levantou-se e resolveu tomar um café da tarde. Sentiu vontade de tomar um achocolatado e começou a procurar nos armários da cozinha.
_ Pretende plantar um explosivo em nosso cereal? Desista. Não temos cereal. – começou Victor entrando na estreita cozinha.
_ Agora que descobriu meus planos, terei de matá-lo. Mas antes...
_ Vai me torturar para extrair informações?
_ Ainda não sei se vou precisar de tortura... Onde está o chocolate em pó?
_ Não sei.
_ Como não sabe? Não é com ele que preparam suas mamadeiras? – perguntou séria, quase irritada.
_ E pra que você quer meu chocolate? Ah, tem razão, pessoas senis também gostam de tomar leite quente para dormir.
_ Quem queria ter vinte e quatro anos?
Victor abriu uma porta acima da cabeça de Audrey e lhe entregou a lata de achocolatado.
_ Já que você não ia alcançar...
_ Garoto, você viveu tão pouco e já está prestes a morrer... – ameaçou num tom divertido.
_ Minha nossa! – exclamou o garoto assustado – O que é isso no seu rosto? Se não está tendo uma cãimbra, só pode estar sorrindo!
Audrey virou-se de costas e colocou algumas colheres do chocolate no leite.
_ Hoje é seu dia de sorte criança.
Victor pigarreou. Então Audrey se virou para ver o que era. Alan estava parado na porta da cozinha ao lado de Rômulo.
_ Melhor irmos a uma padaria, Rômulo. – e saiu.
Rômulo a encarou com desprezo e o seguiu.
_ Estão dormindo juntos esses dois? – perguntou a Victor.
_ Parece que Alan ficou ressentido com o caso do César, sabe...
_ Oh! Então era com o César que ele estava dormindo...
_ Se era isso que faziam, eu não posso afirmar. Mas sei que eles já trabalhavam juntos antes de vir trabalhar com Vin. E o Vin só nos disse que o César não faz mais parte do grupo. Mas para isso ter acontecido, ele só pode tê-lo matado.
Audrey tomou dois goles do chocolate e disse:
_ E você também acha que a culpa foi minha?
_ O Vin não nos contou o que houve. Mas nós ouvimos o tiro. E vimos a sua porta arrombada. Olha Audrey, eu sabia que mais cedo ou mais tarde, algo assim ia acontecer. Você está no meio de um bando de homens brutos... Assassinos... Ladrões... Eu não a culpo por se defender... Mas devia ir se acostumando.
_ Isso não me passa nem de longe pela cabeça, menino! Antes do que esperam estarei longe daqui.
_ É você quem sabe... E por favor, meu nome é Victor!
_ Sossega garoto!
Audrey colocou a xícara na pia e voltou para o seu quarto. Sua fechadura havia sido trocada por Vin no mesmo dia do incidente.
Esticou-se em uma poltrona sentindo o corpo inteiro dolorido. Estava muito tensa. Tateou o colo. E lembrou-se que havia se desfeito da jóia.
_ Se você fez isso para esquecê-lo, por que não tenta esquecer? – perguntou-se fitando o sol pela janela suja e embaçada.
Vin bateu novamente.
_ Já estou bem Vin.
_ Que ótimo! Então vai aceitar o meu convite!
Audrey estranhou. Pensou que não haveria mais serviço em dois dias. Abriu a porta e permitiu que ele entrasse.
Voltou a se sentar na poltrona.
_ Você anda deprimida adorável! Não gosto de vê-la assim! Veja.
Estendeu um cabide protegido por uma capa.
Audrey pegou-o e abriu a capa. Era um vestido longo preto.
_ É muito bonito Vin. Mas não faz seu estilo.
_ Espero que faça o seu. Afinal, não teremos tempo de trocar para o jantar de hoje.
Audrey levantou-se e observou a roupa mais detalhadamente. Era discreto e quente. Devolveu-o ao colega e disse:
_ Então não poderemos ir.
_ Oras, por favor. Não aceito não como resposta. – Vin colocou a roupa sobre a cama dela e finalizou — Venho buscá-la às seis.
Saiu sem dar oportunidade de Audrey recusar novamente.
_ Vai ser uma pena lhe dar o bolo amigo... – lamentou-se quando voltou a trancar a porta.
Pegou sua arma e foi para o banheiro tomar banho.
Voltando de lá, deu com o vestido em cima de sua cama.
_ Mas que droga Audrey...
Decidindo-se por se dar uma chance, vestiu-o e se maquiou. Prendeu os longos cabelos negros num coque alto e colocou um brinco comprido. Aguardou até Vin vir buscá-la.
_ Está deslumbrante. – elogiou-a sorridente.
_ Obrigada. Então vamos logo, antes que eu mude de idéia.
Sorriu e encaixou seu braço no de Vin.
Entraram no carro e viajaram por cerca de uma hora.
Pararam em frente ao que parecia um chalé. Abriu a porta e desceu, não permitindo que Vin fizesse as honras.
_ Assim você me constrange adorável...
_ Por favor, sem essas delongas. Só me deprimem ainda mais.
_ Como queira.
Estendeu novamente o braço para a moça, que o aceitou e caminhou com ele até a entrada.
Era realmente um chalé aconchegante. A entrada era como a varanda de uma casa de veraneio. Seus arredores eram ornamentados com orquídeas.
Enquanto Vin falava com a Hostess, Audrey pode ver o interior do estabelecimento. Era ricamente decorado com quadros e castiçais, sendo iluminado unicamente por velas. Conseguia distinguir mais ao fundo uma lareira também. O lugar era frio, mas notava-se que lá dentro o clima era aquecido.
_ Vamos? – perguntou o homem.
_ Por favor.
Foram acomodados numa mesa no fundo do recinto, ao lado de uma janela.
Depois de servido o vinho, é que Audrey se deu conta:
_ Somos os únicos fregueses?
_ Ah, sim. Reservei todas as mesas por hoje.
Vin tomou um gole do vinho, ainda sendo observado por Audrey.
_ Ora vamos adorável! Merecemos um momento de tranqüilidade. O vinho está ótimo.
Audrey tentou sorrir, e em seguida também sorveu um gole do seu vinho tinto.
Depois de mais alguns goles, chegou a porção de Vichyssoise.
_ Gostou desse creme de batatas? – perguntou Vin ao terminar sua entrada.
_ É bom. Espere até chegar nosso camarão ao molho Thermidor...
Audrey terminou seu vinho e colocou a taça vazia sobre a mesa. “Uau... Assim ele vai conseguir o que quer antes que eu me dê por conta...” Pensou em seguida.
O prato principal foi servido.
_ E então... Você o encontrou ontem?
Audrey o encarou surpresa. Poderia saber de alguma coisa?
_ Desculpe?
Vin voltou sua atenção para seu prato e fisgou um camarão.
_ Não é preciso ter muita experiência para saber quando um homem magoa uma mulher.
Audrey deu algumas garfadas no seu prato. Vin pensou que o assunto estava encerrado.
_ Qual é seu nome verdadeiro? – perguntou a moça voltando a encará-lo.
Vin terminou de mastigar e engoliu. Testou a paciência da moça e então respondeu:
_ Me chamo Heitor. O que possui, possuidor, o guardador. Mas é claro, minha querida mãe não devia nem imaginar. – e sorriu.
Audrey pensou em perguntar sobre ela, mas já seria intimidade além do que ela imaginava.
_ Mas você não me respondeu. Você o encontrou ontem?
_ Sim. Mas já esclarecemos tudo. Estava mais do que terminado.
_ O que ele te fez?
Audrey serviu-se de mais vinho. Tomou um gole e respondeu:
_ Me abandonou.
Vin soltou um muxoxo de desaprovação.
_ Por mais valente que seja uma mulher, é sempre uma mulher, não é adorável?
_ É Heitor. Ainda sou uma mulher.
Vin riu descontraído e pousou seu guardanapo sobre a mesa. Levantou-se e foi até Audrey.
_ Agora vamos testar o quanto está bêbada. Vamos dançar.
_ Não... Por favor...
_ Não se sinta envergonhada... Também estou!
Vin a puxou com força. Audrey apoiou-se nele, e não teve alternativa a não ser tentar.
***
Vin abriu a porta às cegas. Beijava a moça fervorosamente. Audrey retribuía para não pensar em mais nada. Nem em se arrepender.
Fechou a porta enquanto tirava o casaco. Audrey desabotoou o vestido. Vin ajudou-a a tira-lo, e ela lhe ajudou a tirar as calças.
Pegou-a no colo e colocou sobre a cama. Beijou seu pescoço, seu colo, seus seios. Audrey gemeu de prazer.
Vin tornou a beijar sua boca e disse antes de prosseguir:
_ Que bom que o restaurante tem alojamentos, não é?
_ Sim, ótimo.
Sorriu e tornou a beija-la.
***
Audrey abriu os olhos. Havia cochilado pouco. Vin dormia à sua frente. Um dos braços dele estava sobre a sua cintura.
Continuou encarando-o.
Não era jovem como Felipe. Nem tão bonito. Seu ex-noivo exalava sensualidade. Os cabelos bem negros e ondulados, que lhe caíam pela testa quando ela os bagunçava. O olhar era firme e sempre a convencia de qualquer coisa. Era alto e forte, a fazia sentir-se protegida.
Vin estava na casa dos quarenta. Apesar de ainda ser forte, os cabelos já não eram tão fartos. Não tinha tanta vitalidade na cama como Felipe. Mas era um conquistador.
Talvez fosse o único que conseguisse fazê-la curar-se mais rápido de seu passado.
Ainda observando o rosto adormecido do colega, tateou o colo.
“Droga... Nunca conseguirei esquece-lo.”
Virou-se de costas para Vin, amaldiçoando-se por estar acabando com a própria vida.
Continua
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