Aprecie o Silêncio

6 VI - Tudo o que eu sempre quis


Tudo o que eu sempre quis, tudo o que eu sempre precisei

Está aqui em meus braços

Palavras são muito desnecessárias

Elas só nos causam desgostos

Audrey tentou voltar a cochilar. Vin só acordaria mais tarde para irem embora. E pensar na vida já a estava incomodando.

Sem que percebesse caiu no sono. Acordou de manhã cedo, quando sentiu os lábios de Vin aplicando-lhe um beijo no ombro descoberto.

Virou-se para ele e o encontrou sorrindo, parecendo satisfeito.

_ Bom dia adorável.

Ignorando o cumprimento, Audrey enrolou-se no lençol e se levantou.

_ Melhor voltarmos logo.

E trancou-se no banheiro. Não sabia dizer se era a sua atitude ou se era a ressaca que lhe causavam a dor de cabeça e as ânsias.

Depois de tomar uma ducha rápida, encontrou com Vin já vestido à sua espera.

Ele a guiou para fora até entrarem no carro. Audrey recostou-se no banco e fingiu dormir durante a viagem.

Ao chegarem, já se depararam com Rômulo assistindo à TV da pequena sala.

Rômulo olhou de um a outro várias vezes. Com toda naturalidade que lhe era inerente, Vin perguntou:

_ E então, alguma novidade?

Audrey bufou e foi para seu quarto.

Jogou-se na cama cruzando os pés um sobre o outro. E agora, pensava consigo mesma, Rômulo conseguiria desprezá-la ainda mais, ou passaria a temê-la por ter dormido com o chefe?

_ Oras, por favor Audrey... Aquele verme não precisa de suas preocupações... – Murmurou a si mesma.

_ Mas o que eu estou fazendo?

Mais uma vez, inconscientemente buscava por sua aliança. Descansou a mão sobre o colo.

“Agora mais do que nunca preciso dele...” Remexeu-se na cama incomodada.

_ Quero vê-lo novamente. – finalmente admitiu para si mesma.

***

Dia Seguinte

_ Então é um crime passional? – perguntou Audrey no fim da explicação de Vin.

Estavam todos reunidos na sala de controle.

_ Eu não classificaria como passional, adorável... Ela tomou metade dos bens dele.

_ Pois então não deveria ter escolhido a comunhão total de bens. – defendeu Audrey.

_ Ou não deveria ter escolhido essa a esposa. – finalizou Victor.

_ Que seja. É muito simples. Hoje à noite ela vai à rodoviária comprar passagens. Nada de seguranças, nada de complicações. É só chegar e atirar. Estamos combinados, adorável?

Audrey hesitou por um instante. Não queria sair naquela noite. Na verdade não queria nunca mais ter de sair.

_ Combinados Vin.

_ Iremos apenas eu, você e Alan.

Dizendo isso, Vin juntou seus papéis e desceu.

_ Vou carregar suas armas. – disse Victor se retirando em seguida.

_ Pois é... Quem não escolhe bem suas mulheres, acaba falido. – provocou Alan.

_ Pra você ver o poder de uma mulher, Alan.

_ Não importa. No fim, elas acabam... mortas.

Audrey se levantou, mas antes de sair, disse ao colega:

_ Apenas as desavisadas.

Voltou para seu quarto. Foi para o banheiro e encarou-se no espelho. Estava ficando pálida. Precisava de mais sol. Precisava de vitaminas. E precisava deixar aquele lugar e aquela vida.

Mas para isso, precisaria encontrar-se mais uma vez com ele.

Jogou uma água no rosto para ver se conseguia se livrar do mal estar. Nada feito. Deitou-se esperando a tontura passar. Tinha de estar bem para atirar logo mais à noite.

_ Audrey, suas armas. – chamou Victor na porta do quarto.

Audrey abriu os olhos. Sem perceber acabara adormecendo. Abriu a porta e pegou as duas pistolas da mão do jovem.

_ Você está pálida.

Audrey respondeu mal humorada:

_ Ainda não passei minha maquiagem. – e fechou a porta na cara de Victor.

_ E carrancuda também... – Comentou o jovem a si mesmo enquanto voltava à sala de controle.

***

Audrey entrou no carro pela porta de trás. Vin a encarou interrogativamente pelo espelho retrovisor.

_ Se eu me sentar aí, Alan pode chorar. – justificou-se.

O rapaz entrou logo em seguida. Vin deu a partida e seguiram para a rodoviária.

Vin parou no estacionamento e apagou as luzes. Aguardaram a chegada da moça. Ficaram intermináveis trinta minutos em silêncio, até que Vin avisou:

_ E lá vai nosso ganha pão... Adorável, pode ir. Estaremos aqui, prontos para partir. Seja breve.

Audrey continuava a encará-lo pelo retrovisor. Ele nunca a entenderia como Felipe entendia. Felipe compreenderia seu pedido silencioso, a levaria de volta para casa. A levaria para bem longe.

_ Farei o possível. — e em seguida desembarcou.

Escondeu a arma dentro da blusa e entrou na rodoviária. Andou a passos rápidos para não perder a moça de vista.

Seu alvo virou duas vezes à direita a então entrou em uma fila. Audrey olhou para os lados. Avistou o banheiro feminino, vinte metros à frente de sua vítima. Poderia levá-la para lá.

Alguém esbarrou com muita força em Audrey, ou talvez apenas estivesse fraca demais para levar um encontrão. Acabou caindo. O senhor tentou ajudá-la a se levantar.

_ Estou bem! Não foi nada! – dizia enquanto tentava se livrar do homem que a ajudava.

Correu para o banheiro para se livrar do homem que estava preocupado em tê-la machucado.

Para sua sorte e de todos na rodoviária, sua arma ainda estava travada.

“Mas que droga! Atire logo na mulher para poder ir embora. Você é um perigo nesse estado! Armada e com vertigens!” Pensava frustrada.

Teria de atirar de longe mesmo. Não estava em condições de lutar com ninguém. Nem com uma desavisada.

Depois de tentar se recompor, saiu novamente do banheiro.

_ Adorável? O que houve? – ouviu Vin no intercomunicador.

_ Nada. Um homem se esbarrou comigo. Já estou acabando. Preparem o carro. – respondeu secamente retomando a caçada.

Vin sabia quando Audrey não queria ser incomodada.

A moça não estava mais na fila. “Maldição! Agora você a perdeu!” Repreendia-se em pensamento. Esquadrinhou o saguão com os olhos, e ao não reconhecê-la em lugar algum, correu de volta ao estacionamento. Provavelmente estaria indo embora. Se os rapazes a vissem deixando o local intacta, não seria bom. Vin descobriria que Audrey não estava bem, enquanto Alan e Rômulo simplesmente voltariam a questionar sua competência.

E tinha quase certeza que não conseguiria. Ao sair na porta do estacionamento já sentia os joelhos amolecerem.

Procurou mais uma vez pela moça. Estava chegando ao seu carro.

Audrey jogou-se contra uma das vigas do estacionamento. Sentia estar prestes a desmaiar.

_ Antes eu tenho de matá-la...

_ Adorável, o que você tem? – perguntou Vin pelo intercomunicador.

Audrey olhou para o outro lado e encontrou com o carro que estava à sua espera.

_ Estou ótima.

Vin se calou, esperando que Audrey não fizesse uma besteira. Em vão.

Audrey mirou. Não sabia qual das duas era a visão real. Tinha de atirar logo a matar a mulher. Puxou o gatilho.

Uma gritaria tomou conta do lugar. Pessoas gritavam, se abaixavam, tentavam se proteger.

Um dos seguranças, inexperiente ou assustado, mirou Audrey sem pensar duas vezes e disparou diversos tiros.

Vin saltou do carro disparando também contra o segurança.

Audrey deixou que o impacto a jogasse contra o chão, estaria mais protegida ali.

Alan pulou para o banco do motorista e aproximou o carro de Audrey. Parando ao lado da moça abriu a porta.

_ Entra logo!

Audrey virou-se de barriga para baixo com dificuldade e tentou se rastejar até o carro. Só então Alan percebeu que estava ferida.

_ Essa não...

Alan esticou-se por cima do banco de passageiros e puxou Audrey para dentro.

_ Onde está ferida? — perguntou enquanto fechava a porta de Audrey.

Audrey levou a mão até a clavícula esquerda e apertou os olhos com dor. Não conseguiu dizer mais nada, em seguida perdeu os sentidos.

***

Audrey abriu os olhos. Estava no quarto de um hospital. Ou assim parecia. Era um quarto branco, com uma TV num suporte na parede. Apesar de bem iluminado, não tinha janelas.

_ Bem vinda de volta. – cumprimentou Vin.

Estava sentado em uma poltrona ao lado da cama. Não o notaria se não falasse. Estava se sentindo tão dolorida e tão cansada que só pensou em voltar a dormir.

Encarou-o sem emoção. Só queria que ele deixasse o quarto.

Parecendo notar isso, Vin foi direto ao ponto:

_ Se queria perdê-lo, era mais fácil ter abortado.

Audrey virou a cabeça até encarar o teto. Fechou os olhos e suspirou fundo. Aquelas duas linhas paralelas a haviam vencido.

_ Eu não queria perdê-lo. Pelo contrário...

_ Não se preocupe. Você ainda está grávida.

Audrey apertou os olhos com mais força. Nunca se sentira tão aliviada na vida.

Vin silenciou. Deixou a moça processar a informação por um tempo. E então perguntou:

_ Há quanto tempo você sabia?

Audrey voltou a abrir os olhos e fitar o teto.

_ Há apenas alguns dias... Eu achei que o teste pudesse estar errado... Eu pensei em ir ao médico, mas... Eu não sei. Estou confusa.

_ Imagino.

Ficaram quietos por alguns instantes.

_ E o que pretende fazer? – Vin tornou a falar.

_ Sinto muito Vin... Eu vou ter que sair. Eu vou ter esse bebê.

Vin pensou por um tempo.

_ Certo. Não vou me opor. Bem, quando se sentir bem, poderemos ir.

Dizendo isso, levantou-se e saiu.

Audrey perdeu completamente o sono que sentia ao acordar. Estava livre novamente. Livre para sair do grupo de matadores. Poderia recomeçar uma nova vida.

Ainda esperava que ele pudesse acompanhá-la.

Audrey levantou-se da cama e viu que suas roupas estavam dobradas sobre uma cadeira do outro lado da cama.

A blusa furada pelo tiro não estava ali. Haviam trazido uma camiseta branca para que vestisse. Botou a mesma calça preta que usava e calçou suas botas.

Sentiu uma pontada acima do peito. Tinha um curativo. Não podia mexer o braço, do contrário, a dor a incomodaria.

Foi até a porta e a abriu com a outra mão. Mantinha o braço esquerdo dobrado, ajudava a amenizar a dor.

Esperava encontrar o corredor de um hospital, mas parecia mais com um depósito. Era um local escuro, diferente do quarto, e tinham algumas caixas empilhadas ao longo das paredes. Era um corredor estreito e curto também. Tinham mais umas quatro portas antes de terminar numa escada. Resolveu seguir para lá, afinal era a única saída.

Ao terminar de subir quase não acreditava no que via. Estava atrás do balcão de uma oficina. Vin que estava do lado de fora, perto do carro foi até ela.

_ Está se sentindo bem?

_ Sim. Só um pouco de dor... Mas nada que não seja suportável... Que lugar é este?

_ Venha, deixe-me apresentá-la.

Vin a guiou para o modesto estacionamento da oficina.

_ Este é o doutor Donizete. Nosso médico.

O homem apertou a mão saudável de Audrey e disse:

_ Você é uma menina de muita sorte. Alguns centímetros abaixo e você não estaria aqui para nos contar a história.

E sorriu. Era um senhor de quase sessenta anos. Audrey o julgou simpático.

_ É para cá que trazemos nossos feridos. Ah, não se preocupe! A oficina é apenas uma fachada! O doutor Donizete é um cirurgião muito competente. Ele cuidou do Alan há pouco tempo também.

_ Obrigada doutor. – agradeceu.

_ Oras, não agradeça! Sou muito bem pago pelos serviços mocinha. – e gargalhou divertido.

Audrey sorriu simpática.

_ Ah, antes que eu me esqueça!

Disse o médico indo até o balcão de sua loja. Remexeu em algumas gavetas e voltou ajustando uma tipóia. Voltando a juntar-se à dupla, Donizete colocou a faixa ao redor do pescoço da moça e disse:

_ Tente não forçá-lo muito.

_ Tentarei.

_ E deixei a receita de um antibiótico com Vin. Caso sinta dor, pode tomar uma dipirona mesmo.

Audrey concordou com a cabeça.

_ Bem, então temos de ir doutor. Ela precisa descansar.

Vin a guiou para dentro do carro. Alan deu a partida e deixaram o local.

Era madrugada.

Audrey recostou a cabeça no vidro do carro e observou a vegetação passar rapidamente do lado de fora. Será que Vin contaria a todos sobre sua condição?

A viagem durou menos de meia hora e foi silenciosa. Quando pararam, Audrey desembarcou sem esperar por nenhum dos dois.

Deitou-se na cama, mas não conseguiu dormir. Agora que tinha carta branca para ir embora, não conseguia pensar no que fazer.

Ouviu os outros dois entrarem e se dirigirem cada um a seu quarto. Alan parecia não saber de nada. No fim, o rapaz acabou por ajudá-la quando estava ferida. Aquela raiva toda também parecia ser uma fachada.

Esperou até ter certeza que estavam dormindo. Ou pelo menos acomodados cada um em sua cama. Levantou-se e deixou o quarto.

Silenciosamente pegou a chave do carro e desceu. Entrou no carro e partiu para o centro.

A dor a incomodou, então tentou guiar apenas com a mão direita, usando a esquerda para segurar o volante somente para trocar a marcha. Não tinham carros na rua, não seria difícil dirigir com a dor que sentia.

Ainda estava escuro quando chegou. Decidiu ficar trancada no carro até que clareasse. Não demorou muito e alguns comerciantes começaram a montar suas barracas.

Desceu do carro e foi até a praia. Como sempre, deserta.

Tirou suas botas e caminhou descalça sobre a areia fofa. Não parecia tão poluída. Sentou-se de frente para o mar e ficou a observá-lo.

Ficou na mesma situação por no mínimo uma hora.

“Será que ele ainda se lembra?” Perguntou-se em pensamento.

_ Você veio buscá-la?

Uma corrente pendeu em frente seu rosto. Sua aliança estava pendurada nela.

Audrey sorriu e pegou a jóia sem encará-lo.

Felipe sentou-se ao seu lado.

_ Pelo jeito você não se esqueceu do nosso treinamento. – disse fitando-a.

Audrey ainda observava seu anel pendurado na corrente. Felipe falava da técnica de sempre voltar ao local de separação, caso fossem capturados por inimigos.

As circunstâncias eram diferentes, mas a situação era a mesma. Separação, mas sem o consentimento absoluto das partes.

_ Mas o que foi que houve?

Perguntou notando a tipóia pendurada no pescoço de Audrey. Vazia por sinal.

_ Levei um tiro. Mas não foi nada sério.

_ Audrey...

Audrey finalmente o encarou.

_ Mas não voltará a acontecer Felipe. Estou saindo.

Felipe sorriu aliviado.

_ Finalmente... Era o que eu mais queria. Desde que me apaixonei por você.

Audrey encarou a areia.

_ Eu estou grávida.

Felipe paralisou. Sentiu sua espinha congelar.

_ Você... grávida?

_ Sim. É por isso que estou saindo.

Felipe temia não ser o pai. Audrey era linda, e vivia com outros homens. Encarou o horizonte, esperando pela informação.

_ Estou grávida de dois meses.

Felipe não se conteve. Abraçou-a apertado. Era seu.

_ Não vou deixar nunca mais que a machuquem.

Audrey ficou imóvel por um tempo. Felipe a soltou para encará-la.

_ Você ainda não acredita em mim? – perguntou decepcionado.

Audrey continuou com o olhar fixado no rapaz, inexpressiva. Depois de muito tempo, respondeu:

_ Típico de você... Querer sempre me proteger, mesmo a meu contra-gosto.

Em seguida, tirou a aliança da corrente e colocou no dedo direito.

_ Agora depende de você Felipe... Você virá conosco?

Felipe tornou a abraçá-la e em seguida a beijou.

_ Vem comigo! – disse o rapaz se levantando e puxando-a pela mão.

_ Aonde? Espere... Não está pensando em ir agora, está?

Felipe parou. Segurou seu rosto carinhosamente entre as mãos e perguntou:

_ E por que não?

Audrey riu. Não sentia tanta alegria desde o dia em que ficaram noivos.

_ Você continua um panaca.

Felipe a pegou nos braços e foi para seu carro.

_ Não se preocupe, será um seqüestro rápido Audrey Albuquerque. – disse enquanto dava a partida.

Continua