Aprecie o Silêncio
4 IV - Tudo o que eu sempre precisei
Tudo o que eu sempre quis, tudo o que eu sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são muito desnecessárias
Elas só nos causam desgostos
_ Não é difícil. — finalizou Vin.
Estava sentado ao lado de Audrey no fundo da sala de controle. Rômulo ficou de pé, afastado da dupla.
Audrey pegou a foto da mesa e estudou o rosto da vítima.
_ Quer que eu a mate e traga a escritura...
_ Exato. Um serviço bem corriqueiro.
_ Hum-hum. Exceto pelo fato da premiada estar cercada por nada menos que seis guarda-costas.
Vin riu e abanou as mãos com desdém.
_ Soube que já teve que lidar com muito mais empecilhos!
_ Quando vamos?
_ Ao anoitecer adorável. Preferimos ser discretos, lembra?
_ Quem vai comigo?
_ Veja bem... Escolhi você para entrar no prédio, por ser uma donzela. E donzelas conseguem passar despercebidas. Por isso, no prédio você estará sozinha. Só teremos nossa intercomunicação.
_ Ninguém vai me cobrir?
_ Claro que vai. César vai estar no prédio de trás. É um velho esqueleto incendiado. Mas ele só poderá atirar em quem estiver a alguma distância de você...
\"São todos uns bundões.” Pensava consigo mesma.
_ Ótimo.
Dizendo isso, Audrey deixou a sala de controle e trancou-se no quarto esperando que as horas passassem logo.
***
Audrey abriu a porta quando bateram. Já sabia quem era.
Victor lhe estendeu duas pistolas.
_ Nove milímetros e Glock33. Titular e reserva, respectivamente. Já estão carregadas.
_ Já tenho a titular. – disse pegando somente a mini pistola.
E se dirigiu à sala.
Victor sabia que tinha a simpatia de Audrey. Mas se ela soubesse para onde ele olhava enquanto ela andava, essa trégua se transformaria em homicídio.
Não pôde evitar de conferir seus quadris na calça preta justa.
Retomando os pensamentos profissionais, seguiu a jovem enquanto dizia:
_ Mas essas não têm histórico, caso você as perca durante o serviço...
Audrey repensou. Não podia ser descuidada enquanto trabalhava com aquele grupo. Vin não poderia subornar nenhum detetive.
Tirou a sua arma do cinto e a entregou a Victor, enquanto colocava a outra no lugar.
Desceu até o galpão onde embarcou no carro. Vin e César já a aguardavam. Também vestiam preto, e estavam calados. Preferiu que continuasse assim. Mas Vin começou:
_ O hotel é simples e pequeno, não tem segurança. Ela está no último andar. É o único quarto que tem. Seus seguranças estão distribuídos pelo andar.
_ Hum-hum. — Confirmou quase não prestando atenção.
César que dirigia a observou pelo retrovisor. Achava aquela garota tão mimada e insolente. Mas não podia dizer nada, principalmente na presença de Vin. Mas ainda daria um jeito nela.
Depois de meia hora de viagem a alta velocidade, pararam num beco. Desembarcaram. Enquanto César pegava uma mala com seu rifle, Audrey acoplava seu silenciador na arma.
Vin observou a recepção com seu binóculo.
_ Pode ir adorável. O recepcionista está distraído com a TV. Não há ninguém no saguão.
Guardou o binóculo no bolso e disse:
_ Estaremos no mesmo andar do prédio de trás. Seja rápida para que não precisemos fazer barulho.
_ Ok.
Separam-se. Audrey adentrou furtivamente o prédio. O rapaz que cuidava do balcão estava de costas assistindo à TV pendurada na parede. Só se virou quando ouviu os sininhos da porta balançarem.
Não viu ninguém, mas não deu maior importância, afinal, os homens que vieram com a moça viviam saindo e entrando.
Audrey correu escadas acima com sua arma empunhada. Parava a cada andar para verificar o corredor.
Os seguranças pareciam estar todos assistindo ao futebol. Passou por quatro patamares até chegar ao último andar do prédio.
Andou cuidadosamente até o fim do corredor, sempre observando suas costas. Tinha uma janela que dava para o esqueleto velho do prédio de trás.
Olhou rapidamente através da janela e conseguiu reconhecer César com seu rifle já montado apontando em sua direção.
“Espero que seja mesmo eficiente babaca...” Pensou consigo mesma.
Voltou sua atenção para a porta antiga de madeira logo à sua frente. Observou mais uma vez o corredor. Nenhum movimento.
Apontou para a fechadura. Depois de atirar, teria de ser rápida, pegando a escritura e atirando na moça. E ainda teria de se desviar dos seguranças dela.
_ Eu sei! Eu sei! Nos encontramos e então eu pego! – Ouviu através da porta.
A moça estava conversando com alguém. Aproximou o ouvido da porta. Teria um segurança lá?
_ ... Sim, eu vou... Não se preocupe.
Na ausência da segunda voz, Audrey concluiu que estava ao telefone.
_ O que está fazendo? Entre logo! – ordenou César no seu ouvido.
Audrey estendeu o dedo do meio para a janela. E continuou ouvindo:
_ Vou anotar... Tô te falando que vou anotar merda!... Daqui a pouco eu vou.
_ Adorável, dois deles estão subindo... – começou Vin preocupado.
Audrey continuou ignorando.
_ Eu sei que te coloquei em perigo! – continuava a mulher através da porta. – Mas eu precisava! Eu também estava em perigo!
_ Você é imbecil menina?! Estou dizendo que tem que entrar logo!! – berrava César em seu ouvido.
Irritada, mas sem poder fazer barulho, Audrey arrancou seu intercomunicador e o lançou pela janela.
_ Vin! Veja o que ela fez! O que faremos agora?! – perguntava César alterado.
_ Acalme-se César! Faça seu trabalho! Dê-lhe cobertura!
_ Então eu vou matar a mulher Vin! Eu vou atirar nela!
_ Não seja idiota! Você só vai nos denunciar!
_ Mas ela não vai fazer!!!
_ Chega! Ela deve ter seus motivos! Esse é um serviço dela!
César não teve outra alternativa a não ser se calar. Voltou a mirar o corredor.
_ Certo, estou indo pegar essas escrituras. – finalizou a mulher ao telefone.
Audrey voltou a apontar para a fechadura mas ouviu tiros no andar de baixo. Automaticamente virou-se para a janela, era César quem havia começado a atirar nos seguranças.
_ Filho da mãe, desgraçado! – praguejou enquanto atirava na fechadura.
A mulher já estava levantada e preparando-se para sair pois também ouvira os tiros.
_ Então não está com a escritura...
_ Por favor... Não está comigo...
_ Eu sei. – Audrey tomou o bloco de anotações das mãos dela e atirou em sua testa.
Agora teria problemas para sair do prédio. Os outros seguranças despertados pelo tiroteio corriam em direção ao quinto andar.
Saiu do quarto ainda pensando em como descer, mas não teve muito tempo para decidir. Dois homens altos e fortes surgiram na escada já atirando. Jogou-se dentro do elevador que acabara de abrir as portas. Atirou às cegas para fora e viu um deles caindo, não sabia se por tiros seus ou de César.
Finalmente as portas se fecharam. Levantou-se rapidamente e apertou o botão para o subsolo. Enquanto o elevador descia, pendurou-se no teto e abriu uma tampa. Conseguiu equilibrar-se em cima do elevador e iniciou a escalar o fosso dele.
Os três seguranças que restaram correram pelas escadas em direção ao subsolo ao constatar o indicador do elevador.
Audrey alcançou o quinto andar e empurrou a porta para sair. Voltou ao quarto de sua vítima e saiu pela janela. Desceu pela escada de incêndio e correu até o carro que já a aguardava no beco.
Cantando pneus, o veículo deixou o local.
_ Você é um completo idiota!! – começou referindo-se a César.
_ Escute aqui menina! Eu nunca concordei com o Vin sobre sua entrada! E agora tenho mais certeza do que nunca! Você quase botou tudo a perder! O que deu em você? Tá ficando louca?! E parece que nem mesmo a escritura você pegou! Você é uma incompetente! E a mim você não engana com esse ar arrogante!
Audrey riu irritada, desacreditando no que ouvia.
Tirou o bloco de anotações do bolso, e jogou-o violentamente no colo de Vin.
_ Exato, não peguei. Porque não estava com ela. Eu estava tentando descobrir onde estava quando você quase acabou com tudo, infeliz.
César olhou para Vin que lia as anotações.
_ É. Parece que o incompetente foi você César. De agora em diante, tente aprender um pouco com a nossa adorável.
César não pode dizer mais nada. Não podia discutir com seu mentor.
***
Audrey estava ensaboando a cabeça.
\"Então alguém finalmente resolveu dizer o que pensa...\" Pensou consigo mesma sobre César.
Olhou para sua arma na saboneteira. Tentou ouvir movimentos ao redor. Mas estava tudo silencioso. Sabia também que seu quarto estava trancado. Mas isso não era nada para um grupo especialista de matadores.
\"Tem que aprender a relaxar Audrey... Desse jeito seus reflexos ficarão defasados.\"
Enfim, colocou a cabeça embaixo d\'água para se enxaguar.
E foi justo nesse momento que aconteceu.
Um par de braços fortes voaram em sua direção, agarrando-a com força.
_ Mas o que...
Sentiu lábios molhados, e uma língua desesperada a invadir-lhe a boca. Conseguiu virar o rosto, mas não se livrar do abraço sufocante.
_ Eu vou te ensinar a ser bem modesta pirralha...
_ César, seu idiota! Eu vou te matar!
Debateu-se, mas não conseguia se livrar dos braços fortes.
_ Vai aprender a ser humilde! A atender aos pedidos de um homem!
Juntando forças, conseguiu empurrá-lo e acertar um soco em seu nariz. Será que teria mesmo que matá-lo?
Observou-o segurar o nariz entre as mãos, e então viu o sangue correr. Havia quebrado o nariz do rapaz.
Virou-se rapidamente e estendeu a mão trêmula para a saboneteira, mas não esperava que o homem fosse investir contra ela novamente.
Ele cravou os dentes em seu ombro, enquanto tornava a agarrá-la pelas costas.
_ Eu vou te devorar todinha!
_ Aaaaaahhhh!!! — gritou de dor.
Enquanto a mordia, apertava um de seus seios com força. Tentou novamente se livrar das mãos de seu agressor, sem sucesso.
Não podia parar para pensar. Seu ombro ardia com o machucado, estava ficando sem ar, e agora César lambia sua nuca.
Suspirou novamente juntando forças e conseguiu acertar seu calcanhar com força entre as pernas do homem.
César instintivamente a soltou e se dobrou para frente, protegendo o órgão com as mãos. Sentia náuseas de dor.
_ Vadia... — xingou sem fôlego.
Audrey alcançou a arma e a engatilhou. Apontou para a testa dele, qua agilmente, ao ouvir o som metálico, desviou-se, e empurrou sua mão, fazendo o tiro acertar no teto.
Ficaram ambos imóveis. César protegendo seu órgão com uma das mãos, e a outra ainda no ar, tentando impedir a arma de Audrey mirá-lo novamente. Uma poeirinha fina soltou-se do forro e caiu sobre os cabelos desajeitados de César.
Audrey voltou a engatilhar a arma e apontou para o rosto dele.
Assustado, mas sem correr, César começou a recuar até sair do quarto da moça.
Audrey continuou apontando para a porta por quase um minuto inteiro. Alcançou seu roupão e o vestiu sem soltar a pistola.
Chegando ao quarto, fitou sua fechadura forçada. Encostou a porta. Sentou-se na penteadeira, pois ainda sentia as pernas bambas.
Ficava de costas para a porta, mas já tinha certeza que ele não voltaria.
Encarou seu reflexo no espelho.
Seus olhos acinzentados e frios continuavam a não expressar emoção alguma. Seus cabelos murchos por causa da água pendiam com alguns fios enrolados, outros embaraçados por cima do roupão.
Colocou a arma em cima da penteadeira, sem soltá-la.
Por que deveria levar aquela vida?
Teve uma sensação esquisita. Seus olhos formigaram. Sua garganta ardeu.
Levou um tempo para reconhecer a antiga vontade de chorar. Fechou os olhos e contou até dez. Ao abri-los novamente, estava recomposta. Disse a si mesma no espelho:
_ Você não precisa disso. Sabe que não precisa.
Com a mão livre, descobriu o ombro machucado. Observou o ferimento. César conseguira lhe aplicar uma bela mordida.
_ Espero ao menos que tenha recebido a anti-rábica...
Viu pelo reflexo a sua porta ser aberta. Apertou a arma na mão, mas não se moveu. Ao reconhecer Vin relaxou, mas não a soltou.
Cobriu o ombro. Não precisava demonstrar fraqueza.
Vin parou pouco atrás dela, mas nada disse. Ouviu o tiro, viu a cara lívida de César deixando o quarto dela. E o pior, a porta arrombada.
_ Veio tentar a sorte? — perguntou seca para ele.
_ Esse não é meu estilo, adorável. Já devia ter percebido. — disse seriamente.
Audrey bufou e então começou:
_ Estou fora Vin.
Vin continuou a observá-la por mais uns instantes, e viu que Audrey sustentou seu olhar decidida.
Soltou um muxoxo de desaprovação e caminhou de um lado a outro. Parou no meio do quarto e encarando-a através do espelho, começou:
_ Ora essa! Vai fugir do César?
_ Não se trata dele...
_ Você ainda está sendo perseguida.
_ Sei me cuidar.
_ Eu sei que sabe. Mas então serão dois grupos atrás de você. Acha que consegue?
_ Por que não me mata agora então?
_ Porque ambos sairíamos no prejuízo!
Audrey voltou a silenciar. Não estava a fim de discutir. Vin continuou:
_ Você provou seu valor. Logo angariaremos muitos clientes. Preciso de você. E você ainda precisa de mim, admitindo ou não, adorável.
Audrey pensou. Ainda não decidira o que fazer da vida, para onde fugir... E ainda não conseguira dinheiro. Perdera muito tempo. E agora Vin estava certo. Não tinha estruturas para fugir. Principalmente com o Projeto Araucária atrás dela. Decidindo-se, informou:
_ Ou eu, ou ele Vin.
Vin sorriu aliviado. Disse recuperando a jovialidade:
_ Não tenha dúvidas quanto a isso minha adorável. Eu já sabia exatamente o que fazer com ele quando o vi deixando seu quarto.
Audrey nada respondeu. Queria distância de todos na verdade. Mas não podia ser tão exigente. Quando viu que a atenção da moça não era mais para ele, Vin deixou o quarto.
***
No dia seguinte, não encontrou com César em todo o alojamento. Viu que Vin estava radiante. Não se atreveu a perguntar se havia matado César, ou apenas o afugentado.
Vin contou que conseguira a escritura e o pagamento por ela. Estendeu o envelope com o dinheiro a Audrey:
_ Esse é todo seu, adorável.
Audrey contou o dinheiro.
_ É pouco.
_ É o primeiro.
Não era pouco. E Audrey sabia.
_ Vou sair hoje Vin. Preciso tomar um ar. Tomar um sol.
Vin cruzou as mãos em cima da mesa. Percebeu que a moça estava mesmo ficando pálida.
_ Posso ir com você e protegê-la. Ainda estamos muito perto do território de seus antigos companheiros.
_ Não. Chega desse papo de proteção, Vin. No momento, eu os protejo mais do que vocês a mim.
_ Minha adorável... por favor...
_ Eu não vou embora. Quando eu for, vou deixá-los cientes.
Vin continuou estudando-a. Não sabia se era verdade, mas não poderia continuar mantendo-a em cárcere privado por muito tempo. Sabia que uma hora ela exigiria sua privacidade.
_ Está certo. Por favor, me ligue se tiver problemas.
_ Ok.
Audrey deixou o local.
Pegou um dos carros e aventurou-se naquela cidade litorânea. Encontrou o centro da cidade sem muito esforço. Era uma cidade pequena.
Estacionou e foi até a feira de artesanato.
Uma multidão ia e vinha entre as barraquinhas. Pareciam todos simplórios. Audrey colocou seus óculos escuros e observou o movimento de pessoas por alguns instantes.
Sorriu sem pensar. Podia se sentir parte de uma civilização novamente. Infiltrou-se entre as pessoas.
Comprou um sorvete de chocolate. Fazia tanto tempo que não tomava um. Continuou a passear pelas barracas.
Parou em algumas que vendiam bijuterias e comprou algumas correntes e brincos. Comprou por achar bonitos, pois sabia que não usaria jóias tão extravagantes.
_ Este combina com o seu cabelo! – dizia uma senhora sem dentes tentando persuadi-la a comprar uma corrente dourada com penas penduradas.
_ Com o meu cabelo? – riu achando a informação divertida.
_ Só espero que não se desfaça da outra que carrega a nossa aliança...
Audrey assustou-se e jogou o colar de volta na barraca.
Encarou-o. Tirou seus óculos sem pensar.
_ F-Felipe...
_ Audrey...
Continua
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