Notas iniciais
Eu atrasei, mas eu atrasei porque a vida não tende a ser fácil quando você /tem/ uma vida e as complicações resolvem vir todas de uma vez lol Mas isso certamente faz parte, peço desculpas, mas aqui estou. Eu morro, mas nunca é pra sempre. Então, eu queria dizer, falar um pouco sobre a relação que eu vejo entre o Stan e a mãe deles. Dá pra ver, nitidamente, do carinho que ela tem por ele e (talvez isso seja coisa da minha cabeça, mas, ué) parece ser "em especial". Ela dizia que ele tinha "personalidade" e quando acontece o negocio da faculdade do Ford é ela que pergunta sobre "O outro filho, Stanley", mesmo quando ele está sendo colocado para fora de casa ela aparece preocupada e pergunta para ele o que estava acontecendo. Não é para o marido nem para o Ford, é pra ele. Não sabemos muito dela e ela pode não ser a melhor mãe do mundo, mas eu vejo essa relação carinhosa que ela tem com o Stan em especial e achei isso lindo e quis retratar aqui. É isso lol E quero agradecer a duas pessoas também pela ajuda que deram nesse capítulo: Ma bien-aimée namorada, com a ideia das receitas ciganas, e ma petit-ami Gleterre, que me ajudou encontrar algumas delas. As coisas não estavam fáceis. Agora acho que é isso lol Merci vocês ♥ Enfim, divirtam-se~

Os dias iam passando e era surpreendente como passavam rápidos. Agora Stanley andava caracterizado como “Senhor Mistério”. A calça e a camisa social caíram-lhe muito bem, uma gravata vermelho-opaco na mesma tonalidade do fez que vinha usando desde que o Barraco louco começara. Barraco Louco que ia, aos poucos, transformando-se em Cabana do Mistério. Simples, bem menos ridículo do que ambos imaginavam que poderia ser. O lugar ia crescendo e havia até ganhado a primeira página do jornal local, com aquelas atrações patéticas que atraiam qualquer turista. Bem como uma “armadilha para turistas”, envolvendo toda a criatividade de Stan Pines.

Mais uma vez, não haviam falado sobre o beijo no decorrer das ultimas semanas. Porque não era como se algum deles sentisse que precisavam ter uma “conversa” sobre isso. Estavam bem. Às vezes Stan era exageradamente carinhoso e aproximava-se demais, cumprimentava-o com um beijinho na bochecha ou o puxava pela cintura quando precisava que visse alguma coisa. Mas, de resto, estavam bem. A cumplicidade nas alturas. Conseguiam estar bem mesmo quando estavam no porão, buscando um meio de trazer Stanford de volta, o que era, certamente, um pesar para ambos.

— O movimento está crescendo. – Fiddleford comentou, a noite já havia caído e uma plaquinha de “Fechado” pendia na porta da cabana, embora as luzes ainda estivessem todas acesas. Colocou uma caixa lacrada, “Contrabando” escrito na superfície com a grafia de Stan, no estoque e fechou a porta. Passando longe de cogitar a ideia do que podia haver ali dentro. Nem por um segundo. Ele conhecia Stan melhor do que ninguém e perguntar era a pior ideia que poderia ter. – Será que vamos ter que contratar funcionários? D-Digo...! – Corrigiu-se imediatamente ao notar o erro. – Você! – O outro arqueou a sobrancelha enquanto Fidds se corrigia- Me pergunto se você vai precisar contratar funcionários. — Stan sorriu e negou com a cabeça em relação a correção do amigo, apagando a luz, deixando só a do próximo cômodo acesa.

— Foi um dia cansativo. Por que não vai tomar um banho para comermos algo decente, pra variar? – Propôs. Fiddleford pareceu não entender de primeira. – Eu não consigo viver só com esses lanches apressados que fazemos, Fiddleford. Como vou manter a minha forma? – Apontou a barriga e o outro riu. – Precisamos de uma refeição decente!

— Vamos sair? – O maior se aproximou e beijou-lhe a bochecha. Corar era sempre inevitável.

— Tem alguns segredos que você ainda não conhece sobre o “Senhor Mistério”. Então por que não deixa isso comigo? – Fidds sorriu em consentimento. – Só tome um banho e vista algo confortável.

— Tudo bem... Não vou demorar ok?

— Não tenha pressa. – Sorriu sem jeito e, juntando um pouco de coragem, mandou um beijo para o outro ao se afastar. Foi a vez de ele ver aquelas bochechas adoráveis tingirem-se de vermelho, por surpresa. A resposta veio na forma de um sorriso largo e uma piscadela.

Fiddleford não demorou tanto no banho, mas, esse tempo que economizou no chuveiro, gastou na frente do espelho. E procurando alguma peça de roupa que achasse, no mínimo, adequada, para vestir. Com o tanto de coisas que havia trazido para o seu quarto improvisado era como se já estivesse praticamente de mudanças. Eram poucas as noites que ia para casa agora. E nessa noite, em particular, estava sentindo-se uma adolescente antes do primeiro encontro. “Calma, Fiddleford!”, arrumou os óculos, respirando fundo, encarando seu reflexo. “Você e o Stan só vão comer alguma coisa e...” Só de pensar que iriam compartilhar alguns momentos juntos o coração palpitava. “Pela madrugada...”.

Sem muita pressa, embora ansioso, foi procurar Stan. E o encontrou na cozinha. Sem a gravata e com os primeiros botões da camisa desabotoados, um avental na frente de tudo. Estava no fogão, cozinhando, entretido. Um sorriso nostálgico moldando-lhe as expressões. A mesa já estava arrumada, e que bem arrumada! Ele não costumava enfeitar a mesa assim. Quando notou Fidds parado na porta virou-se e deu um sorriso largo.

— Fidds! Pode sentar, já estou quase terminando aqui.

— Então esse era o segredo? – Puxou a cadeira, sequer tentando esconder o sorriso. – O Senhor Mistério, além de tudo, é um excelente cozinheiro?

— Quanto ao “excelente” você só vai poder dizer depois que provar, mas, é. – Virou uma colher de pau no ar, apanhando-a em seguida. Fiddleford aplaudiu.

— E o que o nosso cozinheiro está preparando? – O outro deu um sorriso nostálgico, voltando-se para o fogão.

— É uma receita... De família, eu acho. Minha mãe costumava fazer para nós quando éramos pequenos. – Mas Stan não ficou lembrando os velhos dias. Não precisava. Nem dos jantares em família, nem como Stanford também gostava das receitas ciganas da mãe. Aqueles dias haviam existido, mas não acrescentavam nada ao momento. Lembrou apenas da mãe, dos conselhos que ela costumava dar. Ela dizia que, na hora de cozinhar, a pessoa devia estar feliz e sadia e evitar maus pensamentos. Que isso “enriquecia os alimentos com energias positivas”. E ele estava feliz. Como estava feliz por poder cozinhar para Fiddleford. Se havia uma definição para “felicidade”, talvez fosse essa. “Cozinhar é um ritual de doação, carinho e amor, Stanley”, ela dizia. De todas as coisas que havia aprendido com ela, essa era a que guardava com mais afeto. Pigarreou e retomou a fala: — Minha mãe tinhas algumas receitas ciganas tradicionais guardadas. Ela era uma mentirosa patológica, isso ajudava como “médium”, mas isso não veio de lugar nenhum.

— Então tem uma história? E você está fazendo receitas ciganas? Isso é algo desconcertante e indescritível! Estou curioso!

— Você tem ótimas expressões. – Stan riu. – Já está quase pronto. – Colocou alguns talheres usados na pia. – Ei, Fidds. – O outro perguntou um “Uh?” enquanto o fitava com certo encantamento. – Sabe o que cozinhar significa? –

Agora lembrando-se dos dias distantes da infância, não conseguiu conter a pergunta. Sentado sobre o balcão da cozinha enquanto a mãe cozinhava, Ford e o pai haviam ido para mais um daqueles concursos nerds onde ele provavelmente ganharia o primeiro lugar. Porque não havia ninguém mais nerd que Stanford Pines. Ele não quis ir com o irmão daquela vez. Porque Ford estava cada vez mais brilhante e ganhando prêmios por ser alguém enquanto ele tinha o que a mãe chamava de “personalidade”. E ela o compreendia, apesar de não ser a melhor mãe do mundo. “O Stan não vai. Preciso que alguém me ajude na cozinha”. No começo seu pai não havia concordado, mas acabou cedendo, ainda que irritado. Ela sabia que Stan preferia ficar em casa dessa vez. Ele não precisou fazer muita coisa, apenas sentou no balcão da cozinha e a assistiu cozinhar. “O que é cozinhar, mãe?” ele chegou a perguntar, após longos períodos de silencio. E ela lhe lançou um sorriso carinhoso. Uma coisa um pouco rara, mas não impossível.

— Ohh, você diz, num sentindo amplo? – Fiddleford tentou entender melhor a pergunta. Notando o olhar distante e nostálgico do outro, apenas sorriu, apoiando o rosto na mão. – O que é cozinhar, Stan? – Sorriu para si mesmo. “É um ritual de doação, carinho e amor, Stanley”. Negou com a cabeça e deu de ombros, tentando não ficar tão sentimental em relação a tudo isso. “Pensamentos positivos”, disse a si mesmo. Mas essa era, com certeza, uma lembrança feliz.

— Misturar ingredientes? – Arriscou. – Acho que é algo importante, Fidds. – Fiddleford compreendeu que aquilo devia vir acompanhado por uma porção de sentimentos para Stan, mas que também não era hora de falar sobre eles.

— Eu tenho certeza que é, Stan.

O jantar foi animado.

Stan contou histórias. Ele fazia isso tão bem... Fiddleford não conseguia ver as coisas de outro jeito quando narrados por ele: Era encantador. Contou das receitas ciganas da mãe, de como ele cozinhava para eles quando eram jovens, embora não tinha se aprofundado tanto nessa área. Mesmo assim Fidds pode perceber que a sua relação com ela era de mais cumplicidade, não tendo tantos problemas. Eram lembranças que ele podia guardar com carinho. E a comida estava simplesmente maravilhosa. “Iakna”, era o nome do prato. Algo composto com grão-de-bico, galinha, cebolas, pimenta doce e canela. Stan mal precisou se aprofundar no assunto, o outro realmente interessado no gosto delicioso que aquilo tinha.

— Bom, agora eu posso dizer! – O loiro anunciou animado, ambos terminando a refeição. Com a boca cheia demais para perguntar, tudo que o outro fez foi erguer uma sobrancelha. – Definitivamente: Um excelente cozinheiro!

— Oh! – Lisonjeado, fez uma breve reverencia, fazendo o outro rir.

— Obrigado, Stan. De verdade.

— Nah. – Resmungou, encostando-se melhor na cadeira. – Estavamos precisando de uma refeição decente, pra variar.

— Não só por isso. Embora eu tenha que admitir que você cozinha maravilhosamente bem! E eu com certeza vou te fazer cozinhar mais vezes! – Eles riram. – É... – Arrumou os óculos, um pouco sem jeito. – É por tudo, sabe? Quem sabe como eu estaria agora, se não fosse você. – Vinha pensando nisso, recentemente. – Desmemoriado, perdido por ai, ninguém sabe. E você se preocupa tanto comigo... Eu só queria te agradecer. Por tudo. – O outro sorriu comovido, brincando com o copo.

— Eu que agradeço, Fidds. – Respondeu, fitando-o com carinho. O menor deu um sorriso sincero, daqueles que aquecem o coração de qualquer um, as bochechas levemente rosadas. Stan quem agradecia. Se não fosse Fiddleford, o que seria dele agora? Estaria provavelmente abandonado, como sempre estivera. Estaria tão sozinho... Tinha suas limitações e não entendia tão bem como as coisas funcionavam. Talvez não conseguisse se não fosse ele. Talvez já tivesse desistido. Com ele, ainda conseguia ter esperanças, mesmo quando tudo parecia impossível. O mundo ainda era um lugar ruim, lá fora. Frigido e ignorante. Mas, com Fiddleford, podia estar bem ali dentro. – Obrigado.

O silencio que seguiu foi incrivelmente agradável. Mas sempre era, em relação aos dois. Não precisavam ficar constrangidos. Na maioria das vezes, mesmo com o silencio, conseguiam tirar o melhor da companhia um do outro. E as vezes acabavam o quebrando. Inventavam diálogos, desperdiçavam horas desperdiçando palavras, histórias, fatos, confissões. O importante era que um estivesse lá enquanto o outro ainda estava.

— Fidds, eu queria falar com você. — Stan cortou o silencio, mexendo no cabelo que não queria cortar. Talvez os dois soubessem disso do silencio. Do quão confortável era para eles. Talvez só por isso ele tivesse feito o anuncio, como se pedisse desculpas por interromper o momento. O menor assentiu, sorrindo tranquilo. – Você sabe que... Eu gosto de você... Não é...? – Foi escolhendo as próximas palavras com cuidado, embora com toda a sinceridade possível. Ele não costumava fazer isso de pensar nas palavras. Sempre falava o que vinha na cabeça e simplesmente “Que se danem as consequências!”. Mas quando era em relação a Fiddleford, tinha todo o cuidado do mundo, de uma vida inteira. Não queria apressar nada, afastá-lo, estragar tudo. O loiro desviou um pouco o olhar, as bochechas tingindo-se de vermelho, e assentiu. Stan batia os dedos na mesa, irrequieto, ansioso. – Você...

— É recíproco! – O ouro falou alto, sem querer, atropelando as palavras, sem ter tempo de ponderar sobre elas, o coração batendo acelerado.

— Desculpa, o que...?

— É recíproco, Stan... Eu também gosto de você, eu só... Só queria deixar isso... – As palavras iam fugindo-lhe. – Claro. Eu só queria deixar isso claro. – Fidds sentiu o corpo mole, se estivesse em pé suas pernas teriam o traído, virando subitamente de gelatina, levando-o ao chão. Stan também sentiu o coração falhar, batendo em falso mais de uma vez, não conseguindo esconder um sorriso abobado, radiante. A mão que antes batucava a mesa atravessou-a, segurando uma das de Fiddleford, que lhe lançou aquele olhar docemente inocente. Encantador.

— Olha, Fidds... Eu sei que deve ser bem obvio com a coisa toda... E o beijo e eu te dizendo isso agora... – Pigarreou, entrelaçando os dedos nos dele. – O caso é... Você quer isso...? Sabe, eu e você... Que nós... Juntos... – Atrapalhou-se. O charlatão que fazia tão bem o uso das palavras, estava ali, todo atrapalhado com elas. Fiddleford deu um risinho leve, entre divertido e abobado e levantou uma sobrancelha para o outro, apertando mais sua mão.

— Está me pedindo em namoro, Stanley Pines? – Stan deu aquele sorriso, que sempre quebrava o menor, tirava seu fôlego e arrancava-lhe suspiros. Curvou-se sobre a mesa, nela apoiado.

— Se você quiser interpretar assim, nerd~ — Cantarolou. O outro sorriu, comovido.

— Ohh, Stan... – Ele soltou-lhe a mão e levantou da cadeira. Deu a volta na mesa e parou na frente da cadeira do outro. Curvou-se e pousou uma das mãos em seu rosto, acariciando-o com ternura. Ao sentir o toque, Fidds fechou os olhos, sorrindo abobado.

— Posso te beijar?

— Acho que você não precisa mais pedir, garoto da cidade. – O menor enlaçou o pescoço de Stan com os braços, trazendo-o para mais perto.

Com Fiddleford as coisas eram todas diferentes. Não existiam aqueles flashbacks ruins, aquelas memórias dolorosas. Com ele, as coisas pareciam mais claras, iluminadas de uma forma linda. Fiddleford era a luz da sua vida. E era tão bom beijá-lo... Stan sentia-se amado. E esse era um calor que não queria trocar por nada. Naquele momento tudo que existiam no mundo eram os dois e aquele momento. E o que mais queria era fazer com que Fiddleford se sentisse como ele sentia: Especial, único, importante. Amado. Como ele sentia. E Fiddleford sentia.

A louça teve que ficar para o dia seguinte. E Stan não se importou em abrir a Cabana do Mistério um pouco mais tarde, pela primeira vez.

Quando Fiddleford acordou na manhã seguinte, o sol claro e quente entrando pela janela, os lençóis espalhados pela cama e Stan ao seu lado, os cabelos bagunçados, esparramados pelo travesseiro, os lábios entreabertos, babando um pouco, esse ultimo o fazendo sorrir com com carinho, e aquela paz tão atípica àquele lugar, Fiddleford conseguiu lembrar o gosto que tinha “felicidade”. E era, curiosamente, similar ao gosto do beijo que Stan lhe deu, com aquele sorriso radiante, assim que abriu os olhos.

Notas finais
Acho que eu já disse muitas coisas aqui em cima e não lembro se tinha mais alguma coisa para escrever aqui embaixo. Provavelmente sim, eu apenas não lembro. Meh. De qualquer forma, obrigado por ter lido até aqui~