Apreciação Perpétua
25 Capítulo 25
Notas iniciais
E, enfim: voltar à rotina. Isso era maravilhoso, melhor do que Stan pensou que seria esse tempo que esteve afastado do seu cotidiano. A visita, a distancia, os velhos ares, tudo sendo substituído por poder enrolar um pouco na cama com Fidds, que sempre fora um dos seus maiores prazeres matinais. Era quase perfeito demais. E foi o que ele fez, na primeira noite em que estavam de volta à cabana. Dormiram abraçados, depois de demoradas horas acordados, poucas roupas, gemidos altos. E então dormirem juntos, agarrados, como adolescentes, necessitando desse carinho, que era sempre bem vindo. E então era acordar e enrolar na cama, levantar, preparar o café. E Stan se produzir, preparando-se para um longo dia, como o Senhor Mistério, agora com as mentiras que já estava acostumado, que não eram um mar, que não o sufocavam. Só ele e Fidds novamente, naquele lugar que quase tornara-se familiar.
— É bom estar de volta? – Fidds perguntou do caixa, não tinha como o humor extraordinário do marido passar despercebido. Stan, terminando de colocar o preço em alguns itens de uma prateleira, tendo alguns minutos antes do primeiro tour do dia, virou-se para ele e tentou disfarçar um sorriso.
— É, não é de todo mal, sabe. – Fidds assentiu sorrindo e Stan aproximou-se dele, apoiando-se no balcão, encarando-o de perto.
— Uh?
— Eu te amo. – Ele disse, sem rodeios, apoiando-se no caixa. Fidds corou, sorrindo abobado e deu-lhe um peteleco no fez.
— Eu sei, querido. Eu também te amo. – Stan fez biquinho, fechando os olhos. O marido riu. – Controle-se, você sabe que vai se atrasar para o primeiro tour se seguir com isso, Senhor Mistério. – O outro fez uma careta, dando-lhe um beijinho estalado na bochecha. – Ohh, Stan! Prometo te encher de beijos quando fecharmos a Cabana, uh? – Comentou enquanto Stan se afastava. “Eu vou cobrar”, ele avisou, já distante e Fidds riu. Claro que Stan ia cobrar, mas não era como se ele s importasse em acertar esse tipo de conta: Fazia questão.
E a tarde seguiu surpreendentemente tranquila, mesmo os grupos de turistas não sendo mínimos, mesmo com tudo. Com os dias que a Cabana ficara fechada acabaram acumulando alguns visitantes. Parece que o lugar havia mesmo tornado-se um ponto turístico, afinal. E quem diria? Depois disso, Stan que ousasse dizer que ele não era um homem brilhante. Quem poderia imaginar? Fidds imaginava que nunca fariam as coisas darem certo desse jeito, com o Barraco Louco e então com a Cabana do Mistério, mas olhe quão longe haviam chego. Com isso conseguia acreditar, um pouco que fosse, que, talvez, quem sabe logo, trouxessem Stanford de volta. Porque, quem imaginaria?
Durante um dos intervalos entre um grupo de turistas e outro, enquanto Fidds relia algumas anotações do Diário, Stan fez café e levou uma caneca para ele, que não conseguiu parar de sorrir depois disso. Ele sempre amara ver Stan na cozinha, mesmo nas coisas mais simples, o jeito como ele fazia tudo com cuidado e carinho haviam o encantado desde sempre. E agora ainda mais. Mesmo com esse pequeno gesto, ainda que não tivesse sido “cozinhar” em si, era Stan se importando. Um ritual de doação, carinho e amor. Stan nunca o contara, nunca havia se gabado disso. E todos os pequenos detalhes só faziam aquilo mais e mais especial. E Fidds mais e mais feliz. Era bom sentir-se assim. Tão amado. E, com tudo isso, ficou desolado ao se distrair demais com uma das anotações que relia e acabar, acidentalmente, derrubando o café, que mal havia começado a beber, na camisa. A bebida ainda estava quente, mas, para sua sorte, quem sabe, não fervendo. A ardência inicial não foi leve e ele soltou uma exclamação, jogando o Diário em cima do balcão, tentando evitar de manchá-lo, segurando a camisa um pouco afastada do corpo. Mas, bem, o desastre já estava feito em relação a ela.
— Fidds? – Stan apareceu na porta da loja, quase instantaneamente. – Tudo bem?
— Eu derrubei o café... Desculpa... Estava bom e... – O marido sorriu e negou com a cabeça, entrando na loja.
— Tem mais na cozinha. – Aproximou-se dele e massageou seus ombros com carinho. – Estava muito quente? Se queimou muito? – Foi a vez de Fidds fazer um gesto negativo. – Que bom. Vá trocar de camisa e beba mais um pouco então. Tire alguns minutos, você está precisando de uma folga.
— Acabamos de voltar de uma, não?
— Não foi bem uma “folga”. – Ele disse rindo, embora lembrasse do oceano de estresse e das ondas de sentimentos, de como fora quase se afogar em todas aquelas mentiras. Fidds concordou com a cabeça. – Eu estava pensando em uma segunda lua de mel, quem sabe.
— Ohh. – Levantou-se e beijou-lhe o rosto com carinho. – Bem, quem sabe?
Por sorte havia conseguido pegar a caneca antes dela encontrar-se com o chão e o estrago não havia sido absoluto, mas, em relação à sua camisa, as manchas seriam permanentes. Bom, paciência, a culpa era sua, de uma forma ou de outra mesmo. Talvez tentasse removê-las com bicarbonato de sódio depois. Suspirou. As velhas notas haviam feito com que a mente se perdesse no passado por um breve instante. Era complicado. Simplesmente complicado demais. Aquilo tudo sempre vinha com sentimentos e era inegável. Mas murmurou um “Pelo Stan” para si mesmo e tentou deixar isso tudo como estava, vestindo agora uma camisa limpa. Tentou focar em qualquer outra coisa enquanto descia a escada porque ia beber um pouco mais daquele café maravilhoso. Fez o caminho para a cozinha cantarolando tranquilo uma melodia que queria tentar tocar para Stan no banjo. Quem sabe logo? Era só ter um pouco de tempo para ensaiar mais uma nota ou duas. Encostou-se na mesa, servindo-se de um pouco mais de café, que estava quente, forte e revigorante. Talvez, com sorte, conseguisse tocar um pouco para ele a noite.
O telefone começou a tocar e ele arqueou uma sobrancelha. Ligações não eram a coisa mais frequente do mundo por ali, não havia muitas pessoas que ligariam. Bom, já que estava parado ali, o melhor a se fazer era atender. Deu de ombros e foi sem pressa para perto do aparelho.
— Fiddleford...
— StanFORD?! – A voz feminina do outro lado da linha soou entusiasmada demais, e de certa forma familiar.
— Não, na verda...
— Stanford Pines, o homem que eu estava procurando! – Ela continuou, sequer dando-lhe atenção. – Não consegui parar de pensar na nossa conversa no casamento do seu sobrinho. – Prosseguiu, completamente animada. Fiddleford sentiu o estomago se revirar. “Não quer vir dançar, Stan?”. Era ela. A mesma mulher que flertara com Stan tão descaradamente, agora ali, do outro lado da linha. Mas, espera... Stan havia dado o numero do telefone de casa para ela? Por que ele faria algo assim? Isso não era algo comum, essa não era uma atitude comum, não é? Você costuma passar o telefone para outra pessoa quando... Não... Stan estava... Interessado nela...? – A sua proposta foi tentadora. Irresistível, na verdade. O senhor tem sido meu alvo há um bom tempo, Senhor Mistério. Então, quando podemos nos encontrar? – Não era como se não confiasse em Stan. Se ele dizia que, para ele, Fiddleford era o único, é claro que acreditava, mas como contestar evidencias?! – Stan?
— Desculpe, — Ele começou, porque, claro, precisava se desculpar por isso. – É o marido dele. – Deu ênfase. Deu ênfase no que pode. Pigarreou enquanto retomava um pouco a confiança. Não estava mentindo. Era o marido do Stan. E não ia ficar assistindo esse tipo de coisa acontecer com o seu casamento. A linha ficou muda por alguns segundos.
— Ah, claro. – Ela seguiu, como se não desse a mínima. Como ela podia não dar a mínima?!
— O Stan está ocupado, mas eu aviso que você ligou.
— Peça para ele me ligar de volta, por fa...
— Eu aviso. Tenha um bom dia. – E bateu o telefone no gancho, completamente irritado.
Respirou fundo mais de uma vez. Porque, claro, ele conhecia Stanley e o conhecia bem. Por isso teve que respirar mais algumas vezes. Já havia visto como ele agia com as mulheres, isso antes deles ficarem juntos, mas ainda sim era alguma coisa. Pelo menos no começo do Barraco Louco, todas aquelas cantadas completamente falhas, para elas, que sempre faziam Fidds sorrir e se derreter mesmo não sendo para ele, no começo, que Stan lançava aquele sorriso. Era como um passatempo para ele antigamente, não? Mais que isso. Ele estava realmente tentando sair com elas, não estava? Será que Stan sentia falta disso...? Dos flertes, as trocas de olhares e sorrisos, de... Sair... Com mulheres? De uma forma ou de outra, Stan já era um homem experiente quando começaram a se relacionar. Tudo bem que a vida havia o ensinado algumas coisas muito contra a sua vontade, mas, além dessas coisas, Stan tivera namoradas, não? Ele já contara de alguns casos, porque, claro, eles conversavam, eles conversavam muito antes de tudo ter começado entre eles. A Carla e todas as outras. Stan já havia estado com mulheres. Tudo bem, porque o próprio Fiddleford havia tido uma esposa e não era como se isso significasse alguma coisa agora, ou tivesse interferência na sua vida com Stan, não, de maneira alguma. Tanto ela quanto as possíveis namoradas de Stan estavam no passado, certo? Mas essa mulher estava no agora. Porque Stan havia trocado telefones com ela. Sorrido de volta daquele jeito para ela. E tudo que ela havia dito parecia bem mais que comprometedor e intimo que um simples encontro ou reencontro de velhos conhecidos.
Respirou fundo. Devia estar se precipitando, tinha que manter a calma. “Tudo bem”, tentou dizer a si mesmo. Faltava pouco para dar a hora de fechar a Cabana do Mistério e então poderiam... Conversar sobre isso? Porque deviam conversar sobre isso, certo? Bem, fosse como fosse, tinha que tentar manter a calma até lá, não é? Não sabia bem como faria isso, porque aquilo realmente estava mexendo com ele. Era complicado. Teve que respirar fundo mais algumas para conseguir engolir o fato de que ficar ali não adiantaria de nada. Com uma ultima respiração funda, voltou para a loja. Stan ocupava seu lugar no caixa, descontraído, concentrado apenas em passar o tempo, umas vez que não havia nenhum turista presente no momento.
— Ei, Fidds! – Cumprimentou animado logo que o viu e levantou do banquinho. – Bela camisa, neeeerd! – Stan piscou para ele, o apontando. É claro que ele não estava falando sério. Ele vivia dizendo que o gosto de Fiddleford para roupas era completamente questionável. Fidds costumava levar na brincadeira, porque, o que ele podia fazer? Era o Stan, afinal. E ele sempre acabava sorrindo com gracinha ou outra. Mas dessa vez o comentário só serviu para irritá-lo um pouco mais. Porque, claro, talvez Stan preferisse decotes. Não respondeu, acomodando-se no seu lugar. O outro arqueou uma sobrancelha. Ele sabia bem que Fidds não costumava levar a sério ou se ofender com as suas piadinhas. Mas, agora, ele parecia particularmente irritado. – Tudo bem, Fidds? – Assentiu e retomou a releitura do Diário. Pelo menos Stanford mal sabia o que eram “interações sociais” e não ficava flertando com qualquer coisa que respirasse! Nem com ele mesmo direito, se fosse ser franco. Mas tentou afastar esse tipo de pensamento. Apesar de tudo, comparações seguiam sendo cruelmente injustas. – Fidds?
— Está tudo bem, Stanley. – Tentou, a voz polida, sem levantar o olhar para o marido.
— Mesmo? Podemos conversar, sabe? – O outro negou com a cabeça. Talvez ele precisasse ficar um pouco sozinho, Stan cogitou. Fiddleford não era de ficar assim , alguma coisa certamente estava errada. Mas conhecia-o bem, diria o que era no seu tempo. – ‘Tá... eu vou descansar um pouco então. Quer mais café? – Outra negativa. Stan assentiu e silencio. Então saiu da loja e, por aquele momento, parece que as coisas ficariam por aquilo mesmo.
{...}
Durante o resto da tarde Fiddleford tentou se concentrar nas pesquisas, mas as paginas haviam tornado-se tão familiares que não conseguia extrair nada de novo delas. Nada que os ajudasse com o Portal, com a coisa toda, com nada. Sua mente viajando de tempos em tempos, lembrando da ligação, pensando em Stan, perguntando-se se ele faria algo assim. Se ele queria algo assim. Na hora de fechar eles não falaram muito. Na verdade Stan até tentou puxar assunto duas ou três vezes, mas não obtendo sucesso, desistiu. E depois disso Stan foi para a cozinha, preparar o jantar. Fiddleford enrolou um pouco pela casa antes de juntar-se a ele. Quando sentiu que, talvez, finalmente, conseguisse encarar isso, também foi para a cozinha, onde o marido, tranquilamente, picava alguns ingredientes. Encostou-se no batente da porta, os braços cruzados, assistindo a cena, a expressão um pouco contrariada. Um pouco confusa. Um pouco hesitante.
Talvez Stan realmente quisesse... Quer dizer, como Fiddleford podia pensar diferente? Se depois de não mais que duas frases e uma troca de olhares e sorrisos insinuadores o marido já havia passado telefone para ela? Marcado um encontro com ela? Talvez ele não fosse bom para Stan... Não o suficiente. Não, não sentia-se no direito de pensar isso. Stan vinha sendo maravilhoso para ele, isso desde sempre. Havia se aberto para ele, aceitado seu consolo, o amparado, o colocado na sua vida sem hesitar. O beijado com carinho, o pedido em namoro e então em casamento. E praticamente adotado Tate. Stan cozinhava para ele, quase todas as noites, e ele ainda ficava procurando provas? Não tinha como pensar que, para o marido, não era importante. Porque sabia que sim. Mas, ainda sim, e se Stan sentisse falta de mulheres? Mesmo o amando assim, incondicionalmente. Porque não tinha como haver outro motivo, não é? Será que não estava pedindo demais dele? Nunca haviam conversado sobre isso. “Ser gay”. Porque ele achou que não precisassem. Estava tudo bem, certo? Porque Stan o abraçava e o beijava e gostava de quando ele fazia isso também. Quando o tomava em seus braços e quando era tomado por Fidds também. Não é...? Abraçou mais a si mesmo. Como deveria lidar com esse tipo de coisa?
— Fiddleford!
— Uh?!
— Eu estou falando com você.
— Oh, desculpa, Stanley... – O outro arqueou uma sobrancelha, suspirando em seguida, enquanto limpava as mãos em um guardanapo.
— Aconteceu alguma coisa? – Perguntou e desviou o olhar por um tempo, enquanto lavava as mãos, percebendo que o pano não havia sido tão eficiente. Fiddleford respirou fundo, tentando não parecer tenso.
— Não, tudo bem, eu só estava pensando um pouco. – fez uma pausa enquanto o marido secava as mãos, tentando dar o assunto como encerrado e partir para um próximo, que deveria soar casual e espontâneo, depois de um suspiro: — Ah, te ligaram hoje.
— Uh? Quem? – “Ah, ótimo! Genial, Fiddleford! Agora diga a ele que você bateu o telefone no gancho antes de escutar o que ela tinha a dizer!”.
— Ela... Não deixou o nome. – Inventou. – Disse que vocês conversaram no casamento do Alan e... Eu avisei que você estava ocupado com os turistas, então ela... Pediu pra você... Retornar a ligação...? – Stan voltou a arquear a sobrancelha, mas acabou sorrindo, fazendo o coração de Fiddleford se apertar novamente.
— Ah, claro! – Ele terminou de mexer uma panela no fogão, tampando-a em seguida. – Eu ligo para ela terminando aqui. – Fiddleford mordeu o lábio inferior, ainda abraçando a si mesmo. Era isso? Stan nem ia inventar uma desculpa? Ele já estava tão acostumado com mentiras e nem ia se dar o trabalho de inventar uma para Fiddleford?! Ele não era digno disso?!
— Stan... Eu não sou bom o bastante para você...? – Ele perguntou tão baixo que se não fosse a audição apurada de Stan ele teria achado que era sua imaginação lhe pregando uma peça.
— Fiddleford, você vai me dizer o que está acontecendo? – Fiddleford sentia-se traído. Não era justo com Stan ele pensar isso, mas não era justo com ele! O outro cruzou os braços, esperando uma resposta. Fidds suspirou, os olhos lacrimejando, sem nem cogitar a hipótese de estar fazendo tempestade em um copo d’água. Em momentos como esses as pessoas simplesmente não pensam nisso. Não era como se já houvesse sido negativo assim. Por que essa insegurança toda agora? Essa... Paranoia? Não queria perdê-lo, não podia perdê-lo. Ele amava Stan. Demais. Ele era a luz da sua vida. Sem ele não tinha como as coisas fazerem sentido. Não percebeu quando a primeira lágrima caiu, porque logo eram varias e incontáveis. E ele abraçou a si mesmo e chorou como uma criança. Onde havia ido toda a sua irritação? Por que essa era a única atitude que conseguia tomar diante disso?
— Céus, Fiddleford! – Stan não se importou em abandonar as panelas no fogo e apressou-se para perto do amado que, no começo, tentou recusar o abraço que lhe era oferecido. Mas logo correspondeu, quase desesperado, forte, apertado, perto. – Fidds, por favor, fala comigo! O que está acontecendo?
— Eu te amo, Lee! – Stan piscou algumas vezes, ele ainda não se acostumara a isso. Porque era raro quando Fidds o chamava de Lee, acidentalmente o mandando para um oceano de lembranças. Mas tentou afastá-las de imediato. Porque isso estava longe de ser uma prioridade.
— Eu também te amo, Fidds. Agora, vamos lá, — Afastou-o um pouco, acariciando-lhe o rosto, aproveitando para enxugar-lhe algumas lágrimas. O menor o fitou com aquele olhar magoado. – Porque tudo isso? – Fidds se afastou, tentando enxugar as lágrimas. – Fidds?
— Não é nada. – “Recomponha-se”, dizia a si mesmo.
— Sério? Fiddleford, por favor... – Respirou. – Podemos conversar, você sabe. O que aconteceu? É o portal? – Stan hesitou. – Stanford...? Alguma visão, lembran...
— Você sente falta de sair com mulheres? – Stan já havia cogitado alguns respostas e possíveis diálogos se fosse algo sobre o portal, algum pesadelo ou lembrança de Fidds, aquela vontade dele que surgia de vez em nunca de usar aquela maldita maquina de memória e mesmo se fosse algo sobre Stanford. Mas algo assim ele não havia nem imaginado, a pergunta tendo o desconcertado um pouco, devido a surpresa inicial.
— ... O que? – Fiddleford suspirou, um pouco mais calma, retomando, aos poucos, o bom senso. Sentou, sem encarar Stan.
— Nunca conversamos sobre isso, Stan. – O outro assentiu, começando a acompanhar sua linha de raciocínio. Baixou os fogo, dando uma ultima olhada no conteúdo das panelas e sentou ao lado do marido.
— Eu não achei que, sabe, precisássemos. Você acha que...? – Fidds negou com a cabeça.
— Eu concordo. É que... Só... Você teve namoradas.
— É, tive. E você, uma esposa. – O loiro fez uma careta, um pouco contrariado. E ponto para Stan, afinal. – Isso... Interfere em alguma coisa?
— Não! Mas... Stan, naquela noite você me disse que... – Fez uma pausa, respirou fundo. – “Já tinha dormido com alguns caras”. Mas aquilo não foi consensual! – Foi a vez de Stan desviar o olhar, aquele gosto amargo familiar vindo brincar na sua boca. Fidds molhou os lábios antes de prosseguir: — Eu sei que você me ama, Stan. Tanto quanto eu te amo. Mas... Com tudo que aconteceu eu me perguntei se... Eu não estou te obrigando a nada que você não queira. – Stan soltou um riso divertido.
— Não dá pra ver que eu gosto quando você me fode? – O outro sorriu sem jeito, passando a mão pelo pescoço.
— Eu sei, mas... – Stan suspirou.
— Fidds, olha, se é o que você está tentando perguntar: Eu sou gay, tão gay quanto você é, ‘tá? E, mesmo que eu não fosse, olhe para você, eu seria totalmente gay por você. – Piscou para ele. – E, sabe, da mesma forma que você e o Stanford se relacionaram, eu e o Stanford... – Engasgou com a sentença antes de conseguir completá-la. Tentou olhar nos olhos de Fiddleford e juntar a coragem necessária. Porque ele merecia saber, não é? Era justo, no mínimo justo, que ele soubesse. Mas não sabia se conseguiria dizer isso agora.
— Você e o Stanford...?
— Somos gêmeos! – Improvisou e foi desligar a panela. – Quer dizer, é... genética deve ter alguma coisa com isso, não é? Se um de nós é gay o outro pode ter... Tendências ou... Coisa assim. – Levantou para desligar o fogo e Fidds pensou um pouco.
— Você acha que é genético?
— A ciência não disse nada sobre isso ainda...? – O menor deu de ombros.
— Até pode ser uma possibilidade. Bem, de uma forma ou de outra. Você já... Teve alguém? – Stan voltou-se para ele e arqueou a sobrancelha. – Além... Daquelas vezes.
— Na adolescência. – Limitou-se. – E isso, como a Carla, como qualquer outra pessoa, mulher ou homem, não importa agora, não é? – Deu uma ultima mexida na panela. O jantar estava com um cheiro delicioso, Fiddleford permitiu-se notar agora e, como na rotina, levantou para terminar de colocar a mesa. – A questão é que: Não importa, Fiddleford. Está no passado. Como você e sua ex-esposa, como você e Stanford. O que importa somos eu e você, aqui e agora, não é? Você é meu marido, Fiddleford. O homem que eu amo. O resto é... – Fez uma pausa e engoliu em seco, as lembranças dos beijos na praia, no Stan de Guerra, ainda frescas em sua memória. Mas, ainda sim, isso também era... – Passado.
— Ohh, Stanley... – Fiddleford sorriu comovido, assentindo, uma lágrima ou outra, teimosas e bobas, ainda insistindo em escorrer pelo seu rosto.
— Eu te amo, Fiddleford Hadron McGucket, — Depois de deixar as panelas na mesa foi para perto do marido e segurou-lhe as mãos com aquele carinho excessivo. – E não vai ser passado ou futuro nem nenhum homem ou mulher que vão mudar isso, certo? Eu te amo. – E ali estava Fiddleford, novamente em prantos. – Pronto, pronto. – Afagou-lhe os cabelos e voltou a senta-lo, puxando uma cadeira para o seu lado. – Então, vai me explicar porque tudo isso agora? – E Fidds corou. Não conseguia acreditar que havia feito tanta tempestade em um copo d’água. Talvez ele fosse mesmo paranoico. Mas algumas coisas ainda precisavam de explicação, afinal.
— A mulher do casamento... Vocês estavam trocando olhares e sorrisos e flertes! E você passou o numero para ela e ela disse que você era o homem que ela estava procurando e...Que vocês iam marcar de se encontrar e... E eu fiquei me perguntando porque você faria isso e... Se eu não era bom o bastante... E... Eu disse que era o seu marido e bati o telefone na cara dela. Não me orgulho muito da ultima parte. – O outro escutou a narrativa sério, as sobrancelhas franzidas. Até Fiddleford encerrá-la e ele não resistir mais e acabar caindo na gargalhada. – Stanley?!
— Desculpa! – Pediu, mas o riso não cessou. A gargalhada era autentica e ótima de ser ouvida, mas Fiddleford não estava mais entendendo.
— Stanley!
— Espera! – Ele riu por mais um tempo, batendo na mesa, lagrimas escorrendo dos seus olhos. Fidds cruzou os braços, irritado. O que era isso agora?! – Francamente, Fiddleford... – Tentou, entre risos. – Você acha mesmo que...
— E o que mais seria?! – Stan esfregou os olhos, ainda sorrindo divertido, o rosto um pouco vermelho. Por essa ele não estava mesmo esperando. E continuava sentindo-se imensamente amado.
— Ela organiza excursões, Fiddleford. – E o rosto inteiro de Fiddleford ficou, subitamente, vermelho demais. – Quer trazer alguns grupos para visitar a Cabana do Mistério. Vamos faturar bem com esse tipo de coisa, por isso eu dei o telefone e demonstrei interesse. Por isso Stanford Pines, o Senhor Mistério é o homem que ela estava procurando. – E recomeçou a gargalhar. Não sabia quando havia sido a ultima vez que rira assim. Fidds, por sua vez, constrangido até a alma, queria desaparecer. Sumir, por favor! E ao mesmo tempo queria agredir Stan. Não precisava zombar dele assim! Ele estava se remoendo, preocupado, paranoico. Com ciúmes.
— Droga, Stanley! Eu vou chorar de novo, mas vai ser de raiva!
— Ahh, Fidds... – Stan suspirou, se recompondo e, ainda sorrindo, levantou e envolveu o amado com carinho. – Você, com tantos traumas maiores e sempre que te vejo chorar é por medo de me perder?
— Nada seria pior que te perder, Stan. – Suspirou, fechando os olhos. Definitivamente era paranoico. Ia pensar bem mais antes da próxima crise de ciúmes. E que não houvesse uma próxima!
— Você não vai me perder, Fidds. Eu não vou a lugar nenhum. Não sem você, querido. – E corou novamente. Stan não era muito de apelidinhos carinhosos. Não que Fidds já não fosse perfeito. Mas era doce escutar algo assim vindo dele. – Bem, eu não fiquei cozinhando pra você esse tempo todo pra você deixar a comida esfriar. Está mais calmo? – Assentiu. – Da próxima fale direto comigo antes de surtar.
— Não vai ter próxima!
— Acredito. – Stan riu, definitivamente feliz. – Bom, vamos jantar~! – Fidds puxou o prato.
— Hoje eu vou te deixar roxo... – O marido piscou para ele, enquanto o servia.
— Eu ainda não sei como você faz isso. Eu te mordo e não consigo te marcar direito.
— É porque você não chupa. – Explicou tranquilo e Stan fez uma pausa.
— Ah, é esse o problema? – Levantou da cadeira e empurrou a de Fidds para longe da mesa, que, segurando o prato, o fitou surpreso.
— Stanley...?
— Vamos resolver isso agora, – Ajoelhou-se entre as pernas de Fidds e começou a baixar o zíper da sua calça. – Se o problema é chupar...
— Peloamordedeusstanleyvocêentendeuerrado! – E Stan voltou a gargalhar.
— Eu te amo, Fidds. Agora vamos resolver isso.
— Stanley!
{...}
E, no final das contas, Stan retornou a ligação. E marcaram o encontro: Na Cabana do Mistério. Mas Fiddleford aceitou bem a situação. Porque, dois dias depois, quando ela apareceu para conhecer o lugar da sua próxima excursão, Stan puxou Fidds pelo braço e o envolveu pela cintura, quase possessivo. “E esse é Fiddleford McGucket, meu marido”, ele anunciou, sem nenhuma hesitação, mesmo se aquilo pudesse acarretar algo ruim ou a perda de um bom negocio. Claro que Fidds sorriu comovido e enternecido e a cumprimentou com um aperto de mão confiante, enquanto Stan arrumava a gravata, não fazendo muita questão de nem tentar esconder as marcas roxas que o amado deixara.
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