Apreciação Perpétua
13 Capítulo 13
Notas iniciais
A cama havia ficado fria já fazia um tempo. Longos minutos, talvez quase uma hora. Fiddleford percebeu isso no subconsciente, ainda no mundo dos sonhos, e tentou enrolar-se mais nos cobertores para manter-se aquecido. Em vão. O calor ainda faltava. Por que? Muito lentamente foi abrindo os olhos, ainda sonolento só para perceber que Stan não estava na cama. Stan vinha acordando diversas vezes durante a noite desde o ultimo pesadelo e saia pela casa, andando sem rumo, feito um sonâmbulo, acordado. Aquilo o havia perturbado, isso estava claro para Fiddleford, embora o outro se negasse a admitir. Sempre que isso acontecia o encontrava por algum canto da casa. Ou sentado na mesa da cozinha, ou largado na sala, ou no quarto que fora de Stanford. As vezes no porão e uma delas o encontrara no banheiro, chorando. Ele dizia que não, mas, fosse o que fosse, aquilo havia o abalado.
Alongou-se preguiçosamente ao sentar, esfregando os olhos. Tentou ver as horas no relógio do criado mudo, mas foi uma tarefa difícil sem os óculos. Tudo que sabia é que estava escuro, então ainda era madrugada, deduziu. Começou a tatear em busca dos óculos para poder ir procurar Stan e trazê-lo de volta para a cama. Mas nada deles. Acendeu o abajur e continuou pela busca, procurando agora pela cama, sob os travesseiros e edredons, mas nada. Desceu na cama, atento ao chão, com cuidado, caso estivesse nele. Mas parece que também não. Suspirou e alcançou um suéter. Não iria conseguir encontrá-los no escuro, sonolento, tarde da noite assim. Traria Stan para cama sem eles e pediria sua ajuda para encontrá-los pela manhã.
Não se deu o trabalho de olhar em todos os cômodos. Vendo que ele não estava na cozinha, desceu direto para o porão, todo o percurso feito com alguma dificuldade, devido a vista embaçada, mas ele já conhecia os caminhos e a mobília de cor. Não foi surpresa encontrar o namorado quando chegou no porão. As luzes acesas e o Stan que conseguia ver, um pouco fora de foca, cercado de anotações. Sorriu e aproximou-se dele, passou as mãos pelos seus ombros e o envolveu por trás. O outro ficou tenso ao sentir os toques, mas, ao notar ser Fiddleford, suspirou aliviado.
— Ei, Fidds. Você não devia estar dormindo?
— Acho que nós devíamos. E você está com esse pijama? Aqui embaixo é frio, Stan. Vai acabar resfriado, querido. – Stan virou a cadeira para ele e sorriu, Fidds aproveitou para acariciar-lhe o rosto. – Espera, são meus óculos? – O maior corou, um pouco constrangido, enquanto o namorado tirava os óculos do seu rosto e os devolvia ao seu devido lugar.
— Eu não estava conseguindo ler direito. – Respondeu, emburrado.
— E conseguiu com eles?
— Não. – Fidds sorriu e afagou-lhe os cabelos, compreensivo.
— Porque não são os óculos certos para você, meu bem. Olha, — Sentou no seu colo, manhosamente, Stan envolvendo-lhe a cintura. – Por que não vamos para a cama e amanhã marcamos um oftalmologista pra você e vemos se...
— Nah, eu não preciso!
— Stan...
— Eu não vou gastar dinheiro só pra ir num consultório e alguém vir me dizer que eu não enxergo bem! – Fidds bocejou, meio contrariado.
— Vamos dormir então e amanhã vemos isso, uh? – Stan revirou os olhos, voltando-os para as pesquisas em seguida.
— Eu... Eu preciso terminar isso.
— De manhã, Stan. – O menor, ainda no seu colo, segurou-lhe as mãos com carinho. – Eu te ajudo. É por isso que ainda estamos aqui, não é? – Ele assentiu. – Mas você precisa descansar. Não vamos chegar a lugar nenhum se você ficar se desgastando assim, querido.
— Eu sei, Fidds... É que... Já é inverno de novo e...
Fiddleford havia notado isso há alguns anos: Stan ficava imensamente mais sensível no inverno.Muito possivelmente por ter sido nessa estação que “perdera” o irmão. Era a época em que mais sentia falta dele. E há algumas semanas, pelo que Fidds entendera, ele havia tido um pesadelo. Gritara o nome de Stanford diversas vezes, murmúrios perdidos, durante o sono, antes de acordar. Teria sido a lembrança daquele dia? Não haviam falado sobre isso, porque Stan insistia que não era nada, embora parecesse bem mais abalado do que queria. Mas Fidds não queria insistir, dando-lhe seu tempo e seu espaço. Se aquilo tivesse significado alguma coisa para Stan ele certamente o contaria depois. Apenas fez questão de estar ao seu lado, sempre.
— E veja o quanto já progredimos. – Completou pelo namorado. – E eu sei que não vamos desistir, mesmo que demore. Não é? – O outro ficou em silencio por alguns segundos, mas então sorriu, assentindo infinitamente grato.
— Obrigado, Fidds. – Pegou-o no colo e se levantou, o menor rindo, apoiando a mão nos seus ombros.
— Ohh, Stan! Não somos mais tão jovens!
— Se reclamar eu caso com você antes de chegarmos no nosso quarto.
— Céus, Stan! – Fiddleford corou, dando aquele riso adorável. – Isso foi um pedido? – O outro negou com a cabeça. Fidds não pesava mais que uma pena.
— Não. Mas eu ainda faço. Pode apostar!
E, de fato, Stan adiou o oftalmologista enquanto pode. Até começar a tropeçar nos móveis da casa e derrubar as coisas da Cabana do Mistério, que Fiddleford mudava milímetros de lugar de propósito, sem ele saber. E então ele praticamente o arrastou e o fez passar por uma consulta, muito a contragosto.
O diagnostico não foi diferente: Stan precisava de óculos. E ele voltou para buscá-los sozinho, no mesmo dia em que havia marcado de cortar o cabelo. Foi uma triste despedida as madeixas que vinham o acompanhando há tempos.
Fiddleford estava no porão quando ele chegou, relendo algumas anotações. Ao vê-lo, derrubou o Diário que tinha em mãos, perdendo um pouco a cor, dando dois passos para trás, como quem acabara de ver um fantasma. Ponderou sozinho, respirando fundo algumas vezes e foi acalmando-se do breve susto. Ainda um pouco tremulo, aproximou-se dele.
— Fidds?
— Ohh, Stan... Desculpa... – Moldou-lhe o rosto com ambas as mãos, encarando-o fixamente. O óculos, os cabelos curtos, a barba por fazer. Cada pequeno detalhe parecia ter ficado muito mais nítido naquele momento, com aquelas duas mudanças sutis. – Você está... Você é tão parecido com ele, Stan...
— Eu sei, Fidds. – Foi tudo que conseguiu responder, pousando as mãos sobre as dele. Também havia notado isso. Também havia notado... – Eu sei.
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