Apprentice
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Já tinham passado três dias desde que o meu novo patrão resolvera deixar de pôr os pés no escritório. Felizmente, ainda nos iam valendo perante os cinco accionistas, as palavras que me haviam saído boca fora durante aquela reunião e que, contrariamente às minhas expectativas, os haviam convencido de que sim, que era verdade, o Uchiha Júnior estava numa Conferência bastante importante para a qual havia sido destacado e, por consequência disso, ainda iria demorar a regressar ao Japão. Quanto a mim, não fazia a mínima ideia como eles teriam acreditado em tal coisa, uma vez que aquela mulher loira e intimidante chegara inclusive a agir como se não tivesse engolido uma palavra sequer de todo aquele discurso que eu havia debitado. Mesmo assim, eu agradecia profundamente por tal. Pelo menos, por enquanto, o meu emprego parecia estar garantido mesmo com a nova gerência, apesar de a minha sanidade mental se encontrar presa por um fio.
Ao longo das últimas 72 horas, tivera de fazer uma média de 223 telefonemas, adiar 15 reuniões, desmarcar 47 entrevistas e, como se não bastante, fazer 5 horas de expediente extra por dia e passar as minhas horas de pausa sentada à secretária, sem ter tempo de ir sequer à casa-de-banho. Estava exausta e, naquela tarde de Sábado, tudo o que me apetecia era ter ficado em casa a tomar um banho quente e saborear um bom pequeno-almoço na cama, enquanto via um daqueles programas chatos para donas de casa serão a dentro. Mas nada feito. Pura e simplesmente, eu era obrigada a estar ali e só rezava a todos os santinhos que, no dia seguinte, ele se dignasse pelo menos a aparecer para que eu pudesse gozar a minha merecida folga em paz e sossego. Era Domingo e, habitualmente, havia sempre um almoço entediante de família em casa dos meus pais. Numa semana normal, eu faria os possíveis para não ter de pôr lá os pés. Naquela, no entanto... Pedia por tudo para me meter já a caminho.
Parei para almoçar – finalmente – quando já deviam ser umas 16:15h, limitando-me a tirar da mala uma sandes de fiambre e a pousá-la em cima da mesa antes de ser detida do meu propósito pelo maldito telefone. Suspirei fundo. A minha cabeça já se queixava das várias horas a ouvir clientes do outro lado da linha e eu só clamava por uma pequena pausa durante a qual ela estivesse livre de sons que tivessem alguma coisa a ver com chamadas. Levantei o auscultador, tentando que a minha voz soasse simpática como sempre.
Mission failed...
– Uchiha’s Society & Cia, boa tarde, em que posso ajudar?
– Olá, menina Haruno.
Conheci, de imediato, a voz que falou do outro lado. Estava habituada a ela quase desde que chegara àquela cidade e começara o meu estágio.
Ino Yamanaka era a minha melhor amiga naquele lugar, a única pessoa que sempre me aturara e tivera paciência para as minhas manias estranhas. Era filha do dono de uma marca de roupas bastante famosa – a Yamanaka’s Fashion Inc. – e estava a estudar Estilismo para, um dia, também ela poder ser uma das modistas de renome que costumavam fazer trabalhos para a empresa do seu pai. Todos a intitulavam como uma rapariga extremamente bem disposta, que olhava para os dias seguintes frequentemente com uma atitude de plena animação e confiança excessivamente exuberantes. Era loira, alta e elegante, linda em termos de aparência física e o seu passatempo favorito era, sem dúvida alguma, passar as tardes depois das aulas no Shopping a esbanjar o dinheiro do pai. Foi numa tarde dessas que nos conhecemos.
Eu tinha chegado à cidade há relativamente poucos dias. A minha primeira paragem fora a Agência de Trabalho da zona para procurar locais que estivessem interessados em jovens na faixa dos 19 que estivessem interessados em constituir carreira. Lá, indicaram-me a Uchiha’s Society & Cia, uma Firma de Advogados muito famosa, responsável pela maioria dos casos resolvidos com relativo sucesso nos últimos 30 anos. Confesso que estava um tanto apreensiva quando me falaram desse lugar. Destinava-se a ser Assistente Pessoal do Presidente, um homem com cerca de 50 anos, que além de ser um dos melhores e mais bem sucedidos advogados do país, tinha fama de ser excessivamente exigente e mal encarado. Eu, pessoalmente, considerava-me apta a trabalhar sob pressão e a esforçar-me ao máximo para superar as expectativas, a ser alguém com quem se poderia contar e que teria humildade suficiente para aceitar as críticas e tornar-me uma profissional cada vez melhor, todos os dias. No entanto, tinha de reconhecer que a forma como me haviam falado do Sr Fugaku Uchiha assustara-me. Eu não sabia bem se estava preparada para trabalhar com alguém assim durante aquele que seria o meu único estágio, a minha única e derradeira oportunidade para construir o meu sonho naquela cidade. Mesmo assim, resolvi arriscar.
Logo de início, a expressão dura e altamente impenetrável do meu futuro patrão fez-me repensar bem a minha decisão. No entanto, e após uma longa conversa, durante a qual ele me fez explicitar bem os motivos da minha candidatura ao lugar, além de me fazer mais de 1500 perguntas – sem exagero – sobre o que eu achava do estado da ecónomia do país e de como o governo e os bancos geriam as coisas para que os cidadãos tivessem o melhor estilo de vida que lhes fosse possível, acabei por conseguir convencê-lo a dar-me uma oportunidade. Agradeci-lhe por me deixar mostrar-lhe o que valia naquela firma e ele disse-me simplesmente que me queria a trabalhar às 9:00h em ponto do dia seguinte. Em seguida, avaliando-me um pouco com os olhos e ao meu estilo meio simples, tirara a carteira do bolso e entregara-me um pequeno maço de notas bem fechadas. Lembrava-me das suas exactas palavras antes de me mandar sair “És uma menina demasiado bonita para vires trabalhar para a minha empresa com umas roupas tão gastas. Não pretendo ofender-te mas, se queres começar com o pé direito aqui, aconselho-te a que passes pelo Shopping e te renoves a ti própria para teu próprio bem”. Demorei cerca de 10 segundos a assimilar o que ele havia dito. Depois, vim-me embora e retomei o caminho de volta em direcção ao meu quarto alugado na zona central de Tókio. Não me iria deixar humilhar. E, no dia seguinte, aconteceu o caos dentro daquele escritório.
Passavam 3 minutos da minha hora de entrada. O metro tinha sido suprimido por causa de uma greve qualquer e, apesar de eu ter saído de casa umas 2 horas antes relativamente àquela que era necessária para chegar ao escritório, tivera de vir a pé para não me atrasar ainda mais. Bati à porta do gabinete dele, toda a tremer e cheia de vontade de chorar. Estava assustada com a possibilidade de ser mandada embora, tinha medo que ele me fizesse voltar sem sequer me deixar começar a trabalhar devido ao meu atraso. Mesmo assim, ele pediu-me que entrasse. Mal me viu, gritou tão alto que eu duvidava que todo o edifício não o tivesse ouvido. Chamou-me irresponsável umas boas 15 vezes, deu-me um sermão de meia-noite e, seguidamente, voltou a lançar o isco relativamente ao meu fato simples, velho e gasto. Eram as roupas mais apresentáveis que eu tinha para trabalhar num lugar assim, tinham-me sido dadas pela minha mãe e eu não tinha propriamente dinheiro para adquirir outras tão cedo se ainda nem sequer tinha começado a receber um salário. Ao ver que eu não respondia, confrontou-me com a hipótese de eu ter esbanjado simplesmente o maço de notas que ele me havia dado no dia anterior para o efeito. Quanto a mim, fiquei tão furiosa que me limitei a tirar o dinheiro da carteira e atirar-lho para cima da mesa esbaforida, fazendo questão de frisar que “Não queria as esmolas dele porque ainda tinha alguma dignidade”. E virei costas.
Não foi preciso esperar muito para que ele fosse até ao meu quarto alugado pessoalmente e me pedisse que voltasse, visto que o lugar ainda me pertencia. Pelos vistos, a atitude que eu tivera para com ele impressionara-o, visto que ninguém tinha o hábito de enfrentá-lo assim. Nas suas palavras “mostrava que eu tinha garra”. Voltei à Firma no dia seguinte, começando a trabalhar à hora inicialmente marcada.
Era responsável pela maioria das coisas que ele precisava que fossem feitas. Marcava as reuniões, organizava a sua agenda, arquivava os processos, recebia os clientes, fazia telefonemas para os advogados responsáveis, tratava dos papéis das audiências, etc. Foi relativamente mais fácil do que imaginara adaptar-me mas, tinha de confessar, havia sido duro. E afinal, ele acabara por aceitar trabalhar com a miúda simples e de fato velho e gasto que vira entrar porta do seu escritório a dentro no dia da entrevista. A minha presença parecia até mesmo deixá-lo um pouco mais animado, mais sorridente. Os clientes começaram a notar que ele parecia até muito mais amável e bem disposto. Isso deixava-me feliz.
Mal recebi o primeiro mês de salário, resolvi por mim mesma fazer aquilo que ele tinha dito. Ainda tinha o meu orgulho, no entanto, não fazia mal algum querer mudar um pouco, certo? Resolvi passar pelo Shopping depois do trabalho e fazer umas compras. Tinha recebido uma boa soma de dinheiro – em larga escala, bastante superior ao que era suposto para uma estagiária – mas, como o Sr Uchiha dizia que estava bastante contente com o meu trabalho, só consegui ficar profundamente agradada com a surpresa. Depositei algum dinheiro na conta dos meus pais, separei outro tanto para garantir a renda do quarto e as minhas despesas com comida e afins e vóila. Estava pronta para esbanjar um pouco comigo própria.
Passeei durante quase duas horas por várias lojas de adereços, sapatos e roupas casuais. Detive-me depois em frente a uma delas, na qual resolvi entrar. Na montra, estava um vestido verde lindíssimo, estiloso e bastante juvial, que eu achava que, ao certo, teria dinheiro suficiente para pagar. Parei em frente ao provador à espera para poder experimentá-lo, sendo quase deitada ao chão por uma rapariga loira e bonita, que, além de ser profundamente desajeitada, tinha um sorriso de fazer inveja a qualquer pessoa. Principalmente, por ser um sorriso verdadeiro.
Quando examinou o que eu trazia na mão, olhou-me apenas e, com a cara mais doce e cúmplice do mundo, murmurou “Boa escolha. Irá combinar com os teus olhos”. Perdemo-nos uns instantes a conversar e desisti de experimentar o vestido. Agora, tinha a certeza que ele ficaria bem em mim.
Acho que foi precisamente nessa tarde que nos tornámos grandes amigas.
– Ora, seja bem aparecida, minha cara. – Limitei-me a dizer, observando a zona do corredor para confirmar se não entraria ninguém ali que pudesse ver-me a utilizar o telefone da empresa para as chamadas “conversas pessoais”. A costa estava livre, por enquanto. – Andou a fazer gazeta da minha companhia ou ainda estava demasiado amuada com a minha pessoa para responder aos meus telefonemas?
A voz dela pareceu sorrir, do outro lado.
– Ora, eu passei no café nestes últimos dois dias. Ainda esperei por ti mas como passou a hora de entrares ao serviço, acabei por desistir. A Tenten disse-me que tinhas lá estado na Quarta-feira.
– Pois estive, sim. – Anui apenas, fazendo um esforço para não a descompor por me ter deixado pendurada todo aquele tempo.
– Eu era para ter ido ter contigo mas aconteceu-me um pequeno imprevisto. – Explicou ela apenas, como se pudesse adivinhar a minha vontade de esganá-la, apesar de estar bastante distante do alcance das minhas mãos. – O meu bebé novo teve um furo e tive de ir com ele ao doutor. A operação correu bem mas eu vi umas jantes novas roxas tão lindas lá no hospital que não consegui resistir a oferecer-lhas. Nem te conto, ficaram tão tchanã com o preto do meu filhote... Havias de ter visto!
– Faço uma pequena ideia. – Murmurei apenas, envergando uma expressão assustada. Vendo bem as coisas, não me parecia que preto e roxo combinassem muito bem naquela situação mas... Bem, a Ino adorava dar nas vistas. Acho que também iria consegui-lo, desta vez.
– Tens de ver, a sério! Olha, porque é que não marcamos uma tardezinha as duas para amanhã e vamos ao cinema ou passamos a tarde no Shopping? Vi um vestido cor-de-rosa lindo que ficaria a matar com os teus cabelos e estava a pensar oferecer-to.
Sorri apenas. Ela era sempre tão impecável. Às vezes pensava porque seria que duas pessoas tão diferentes como eu e a Ino nos daríamos tão bem. Mas, após ponderar no assunto, percebia que até conseguia saber essa resposta... Ela fazia-me rir. Só isso já era mais do que suficiente.
– Ah, não dá. Amanhã é o dia do almoço em família em casa dos meus pais. Saio de Tókio bem cedo e só volto de madrugada para vir directa para o escritório e estar cá a horas na Segunda-feira. – Disse de uma enfiada, encostando o auscultador ao ombro e abrindo a sandes para começar a comer, antes que não tivesse tempo de mais nada.
– Estás a gozar, certo? Quantas horas trabalhaste esta...?
– Perdi-lhes a conta e nem vale a pena tentares demover-me. Eu vou ao almoço e só volto na Segunda. Estou a precisar de um dia de descanso completo bem longe daqui.
– Mas Sah...!
– Nem Sah, nem meia Sah. – Suplantei a voz à dela, parando de mastigar depois quando vi uma cara conhecida sair do elevador. Limpei a boca à pressa e mastiguei a correr. Com que então, aquele filho de uma...? – Ino, desculpa mas agora vou ter de desligar, não posso falar mais, tchau-tchau, beijinhos. Depois ligo-te.
Desliguei de imediato. Fechei a minha sandes e guardei-a na mala, mesmo a tempo de o ver entrar escritório adentro. Levantei a cabeça depois quando o vi passar – acompanhado de um sujeito loiro que nunca me lembrara de ter visto por ali – e dizer-me “boa tarde” no tom mais despreocupado deste mundo. A cara dele dizia expressamente que não estava nem aí, nem sequer me pedira desculpas por não ligar a dizer nada, nem por não me ter dito nada sobre o que dizer aos accionistas ou aos clientes com quem eu tivera de desmarcar as reuniões dele à própria da hora.
Não...
Ele só podia estar a gozar com a minha cara...
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