Apprentice
11 Capítulo 10
Notas iniciais
No meu último dia de folga, resolvi levantar-me um pouco mais cedo. Depois de ter passado a Segunda e Terça-feira em peso deitada no sofá a ver TV, achei que estava na altura de ganhar alguma vergonha na cara e ir dar uma pequena volta pela aldeia onde tinha crescido e vivido ao longo da minha infância. Já não via por aí muitas das pessoas que outrora costumavam passear-se por ali. Outras tantas já pouco se lembravam de mim e havia aquelas que, como a Hana, já haviam falecido durante o tempo em que eu estivera fora ou tinham decidido, tal como eu, partir para outro lugar longe da calma daquele sítio.
As caras pareciam ser novas, alguns dos estabelecimentos tinham fechado – na sua grande maioria – uma vez que por ali se conservava ainda o hábito dos antigos que se cingia à produção e troca dos alimentos entre os habitantes. Já não existiam jovens da minha idade por aquelas ruas. Isso chegava a entristecer-me, a fazer-me sentir uma certa pontinha de nostalgia mas quem podia culpá-los por se terem decidido afastar? Eu própria o fizera, tivera os meus motivos para isso. Em suma, tudo ali era diferente... Mas o cheiro que se sentia pelos cantos, aquele odor puro e virgem relativamente à habitual poluição da cidade, mantinha-se completamente intacto. Alegrava-me constatar essa parte. Pelo menos quando fosse ali, saberia que poderia sempre voltar e parar um pouco para respirar fundo. Para recuperar a calma de que precisasse devido ao stress da grande urbanização.
Passeava pelos bosques apreciando cada som. Da água, dos pássaros, do ladrar dos cães que corriam por ali e do barulho das folhas que se arrastavam pelo chão por consequência da brisa. Olhava em volta de vez em quando, examinava cada ponto por onde passava, apenas para ter a certeza de que era mesmo verdade que tinha voltado àquele espaço, que não estava na minha cama, dentro do meu apartamento alugado, em Tókio. Sentia um certo alívio ao perceber que estava, de facto, em casa. No lugar onde, apesar de todos os acontecimentos que preencheram os 19 anos em que ali vivi, onde fui, claramente, mais feliz.
Perdi-me durante quase 20 minutos a olhar para a cascata escondida no meio do coração daquele bosque, onde me lembrava de ter passado tantos momentos alegres, de ter dado tantas gargalhadas na companhia deles. Talvez... Os tempos não voltassem atrás, nunca pudessem voltar – eu bem o sabia – mas não podia negar que, absolutamente, eles eram as duas pessoas, tirando os meus pais, de quem eu mais sentira a falta desde que chegara à cidade. Os primeiros tempos vendo-me sem qualquer um dos quatro – cinco, se contarmos com o cachorro Akamaru – tinham sido negros, os piores que eu alguma vez havia atravessado. Suspirei. Era ainda tão visível a falta que qualquer um deles fazia na minha patética existência.
Por instantes, consegui voltar a ver o ar satisfeito do Kiba, na época apenas um rapazinho de 11 anos, sadio e trapalhão, cujo passatempo favorito era andar a correr em volta das pernas da irmã quando eu me escondia atrás dela para ele não me judiar. A Hana costumava repreendê-lo quando ele o fazia. E depois ele zangava-se comigo, amuava a um canto, desistindo de estar sozinho a fazer birra no primeiro instante em que nos via a começar a brincar. Era como se, agora eu estando ali, conseguisse voltar a ter algumas das perspectivas de como as coisas haviam acontecido. A gargalhada do Kiba... O meu choramingar pateta quando ele pegava comigo por causa da cor do meu cabelo... As chamadas de atenção da Hana para com ele e os carinhos que me dava para me compensar em seguida... O ladrar do Akamaru quando se empoleirava nas pernas do dono e saíam os dois a correr de novo em direcção ao bosque para depois voltarem, tentando chamar a atenção dela... Tudo me parecia tão real apesar de tão distante do alcance das minhas mãos.
– Estou a falar a sério, olha que não brinco mais com ela! – Resmungava o Kiba de braços cruzados, virando costas à Hana quando a irmã desatara aos gritos com ele por me ter, pela décima vez naquela tarde, puxado os cabelos.
– Sendo assim estamos quites porque eu também não vou brincar contigo. – Respondia ela, prendendo os meus cabelos, na altura bastante compridos, num rabo-de-cavalo com um elástico cor-de-rosa, dos que trazia no pulso.
– Quero lá saber, tu só tens brincadeiras de meninas! – Gritou ele depois, dando um pontapé numa pedra e quase perdendo o fôlego. As lágrimas surgiram-lhe nos olhos com a dor quando o fez mas nunca se queixou de nada. O Akamaru ladrou duas vezes, plantado ao seu lado.
– Vai brincar com os teus amigos meninos, então. Talvez gostes mais das brincadeiras deles.
– Pois vou! – Vi-o virar-nos costas, olhando a Hana em seguida, com um sério ar de preocupação e, simultaneamente, um certo arrependimento por ela estar a mandá-lo embora por minha culpa.
– Não te preocupes, ele volta. Ele não tem amigos rapazes, logo não lhe dou nem 10 segundos para voltar para trás a correr por não ter com quem brincar. – Sorriu-me. – Já te disseram que tens uns cabelos bonitos, Sahh?
Sahh... Tinha sido ela a primeira pessoa a chamar-me daquela forma. Nunca ninguém o havia feito, normalmente as pessoas gostavam de alcunhas como Cherry, Saky, Saku, mas... Sahh? Nunca ninguém tinha usado esse nome para se referir a mim e... Eu adorei. Era algo diferente, e sendo-me dada pela minha melhor amiga, acho que era a melhor sensação que eu podia ter, aquela que me era suscitada de cada vez que ela o dizia. Eu... Sentia-me bem. Sentia-me a própria heroína da maior heroína que eu tinha na vida. Porque a Hana era tudo o que eu queria, um dia, poder ser. Era boa aluna, esforçada, inteligente, generosa, meiga, alegre, doce e tinha sempre uma palavra amiga para dar a quem sentia que precisava dela. E era absolutamente a rapariga mais bonita que eu já havia conhecido. Eu sonhava ser como ela. Era a minha maior ambição, era tudo o que eu mais queria.
Talvez por conta disso tenha trabalhado tanto quando cheguei a Tókio. Talvez por isso mesmo continuasse a esforçar-me, como se estivesse a fazê-lo como uma forma de redimir-me para com ela. Eu nunca me perdoara por me ter afastado, mesmo que soubesse de antemão que nunca deixaríamos de ser amigas apesar da distância. Mesmo que também ela se houvesse resolvido a ir embora dali para seguir com a sua vida. Nunca me chegara a perdoar por não ter vindo despedir-me dela. Estava certo, absolutamente correcto, de que era a memória da Hana viva que eu queria conservar nas minhas lembranças. Não tencionava recordar uma Hana fria, que jazeria morta num caixão cheia de ligaduras, de modo a enfaixar o seu corpo esventrado por aquele monstro disfarçado de ser humano que um dia havia tido a ousadia de dizer que a amava. Não suportava ter de lidar com essa visão de cada vez que a recordasse. Odiava pensar no quanto ela sofrera, no quanto passara para estar longe da família e que nunca mais tenha conseguido voltar a vê-los, em vida. Odiava ver-me ao espelho todos os dias após agir como se me houvesse esquecido dela... Porque eu não a esquecia, eu apenas queria seguir em frente, como sei que ela o desejaria. Eu nunca esqueceria a única pessoa que nunca tencionara magoar-me, desde que nos havíamos conhecido.
As minhas bochechas aqueciam à medida que as lágrimas as percorriam para me chegarem ao queixo. O meu peito doía, novamente, voltara a doer tanto como na noite em que recebera aquele maldito telefonema do meu pai. Talvez se eu tivesse ficado na aldeia, eles os dois ainda estivessem ali comigo, ainda brincássemos os três como fazíamos com aquela idade pelos bosques. Talvez se eu tivesse ficado na aldeia pudesse ter ajudado o Kiba a fazê-la mudar de ideias e não a deixar partir para Osaka. Talvez se eu tivesse ficado na aldeia ela não estivesse morta. Talvez. Quem sabe.
– Se soubesse que estarias aqui tinha ficado em casa.
Conheci a voz, ficando estática naquele momento. Não consegui voltar-me. As minhas pernas tremeram em devaneio quando ouvi o ladrar que se deu, nas minhas costas, em seguida.
– Kiba.
Virei-me devagarinho, encarando-o depois. Não me espantou minimamente encontrá-lo com um ar desmazelado, absorto, um ar totalmente diferente do qual me lembrava que ele tinha. A aparência continuava igual, tal como o tom de voz que, ao contrário do que acontece nos homens, não havia mudado muito. Ainda usava a mesma fita à John Rambo na cabeça, ainda usava as mesmas luvas de cabedal cinzentas sem dedos das quais eu me lembrava tão bem. O colete verde estilo tropa era ainda o mesmo. Estava apenas mais alto, um pouco mais entroncado também, mas não o suficiente para que as roupas antigas lhe deixassem de servir. E o seu sorriso... Esse havia desaparecido, numa altura que eu não tinha sequer a certeza absoluta de qual seria.
– Ainda estás cá? Pensei que já tivesses voltado para a tua vidinha medíocre na cidade. – Pegou num pau que achou largado no meio do caminho de folhas caídas, sem se aproximar, ficando só de cócoras no chão analisando visualmente a sua espessura e rugosidade. – Na verdade... Pensei até mesmo que nunca mais irias pôr cá os pés.
Olhei o chão depois, antes de me acocorar também para acariciar o pêlo do Akamaru, que ao me reconhecer havia vindo directo às minhas pernas a correr, ao certo tentando perceber se eu chegara para ficar ou não. O pêlo continuava branquinho como sempre, apenas algumas manchas acastanhadas se haviam formado no seu dorso. Também estava mais alto. Tinha quase a certeza de que ele chegaria à minha altura se se pussesse de pé em duas patas, no chão.
Os olhos do Kiba pareceram virar-se para nós quando me viu cumprimentar o cachorro. Pelo canto dos meus, pude perceber a sua leve repulsa ao denotar que o Akamaru ainda se lembrava do meu cheiro, da minha presença e da textura da minha pele, à qual agora dava enormes lambidelas. Uma repulsa que quase poderia ser confundida com desilusão, caso ele não me odiasse neste momento.
– Ele... Está tão crescido... – Disse apenas em jeito de puxar conversa, quando o Akamaru desatou a correr para longe de nós dois, tentando perseguir um gato que andava por ali a explorar a zona. O Kiba levantou-se, limitando-se a trazer consigo o mesmo pau que estivera a examinar, detendo-se depois ao meu lado, sem nunca me encarar directamente.
– É. Passaram alguns anos desde que deixaste de te importar sobre se ele crescia ou não. – Assobiou depois, fazendo com que o Akamaru virasse a atenção para ele e lançou o pau para longe. O pêlo branco do cachorro esvoaçava através da leve brisa apesar de esta quase ser inexistente, enquanto ele o procurava entre as folhas, no solo, mais perto do riacho. Os meus ouvidos ainda analizavam aquela última coisa que o seu dono havia dito.
– Eu... Nunca me deixei de importar com...
– Foste-te embora. – Disse-me o Kiba, simplesmente, olhando-me depois. Os seus olhos eram, agora, frios, desgostosos. Quase tão vazios como os que eu me lembrava de ver todos os dias ao encarar o espelho após saber a notícia sobre a sua irmã. Tão iguais aos meus. – Isso foi mais do que suficiente. Foste-te embora e nunca mais voltaste aqui, nem que fosse apenas para saber se estávamos bem ou para visitar-nos. Nem sequer vieste no dia em que ela foi enterrada. Não estavas cá quando eu ou o Akamaru precisámos de ti. Acho que isso, só por si, já diz muita coisa acerca do tipo de pessoa que te tornaste naquele lugar imundo.
Virou costas. Voltei a saborear as suas palavras engolindo-as a custo. Tentei segui-lo, mesmo assim.
– Eu só fui... Só fui embora porque fui atrás do meu sonho. Fiz somente o que a Hana me pediu para fazer. Fiz somente aquilo em que acreditava. Lutei para ser feliz. Tal como sei que a Hana teria feito, no meu lugar. – Expliquei só, não parando de caminhar atrás dele. – Porque foi o que ela fez. Ela limitou-se a sair daqui para poder seguir o sonho dela. Para poder dar-te, um dia, também o que sonhavas. Para poder ver um sorriso no teu rosto. Eu sei que te sentes sozinho desde que eu me fui embora e mesmo desde que a Hana morreu, mas não podes simplesmente...
– Lava essa boca suja muito bem antes de sequer tocares no nome da minha irmã, sua...
– EU TAMBÉM TENHO SAUDADES DELA! – Gritei sem conseguir aguentar mais. Ele parou no mesmo sítio, sem contra-argumentar mais nada, deixando-me apenas continuar a falar. Baixei a voz ligeiramente ao notar que ele o fazia. – Também tenho. Ela era a minha melhor amiga. Ela era a única pessoa que conseguia perceber-me realmente. Eu nunca vos quis deixar mal. Apenas tentei dar um rumo à minha vida. Tal como a Hana sempre me disse, as pessoas crescem e afastam-se. Eu sempre pensei que ela tivesse razão, que fosse normal que um dia nos afastássemos. Mas também, tal como ela, tentei apenas meter na cabeça que a nossa amizade nunca acabaria. Eu nunca vos quis abandonar. Nunca quis que te sentisses sozinho, nunca sequer quis que a Hana fosse assassinada da forma que foi. Eu apenas... Apenas não quis... Lembrar-me dela dessa maneira. Só quis... Recordar em primeiro lugar o sorriso dela ao invés de me lembrar de como perdeu a vida.
Solucei sem parar, deixando-me ficar no mesmo sítio. Lentamente, fui deixando que o meu peito expulsasse toda a dor que eu estava a sentir, que os meus olhos mandassem embora todas as lágrimas que desejavam. Agora, a Hana já não estava mais ali para moderar as nossas discussões. Ela não podia mais dar sermões ao irmão, não podia mais secar as minhas bochechas quentes nem nos abraçar aos dois para nos obrigar a fazer as pazes, como fazia antes. Agora, já nada era igual. E talvez nunca voltasse a sê-lo, talvez todas as palavras que eu houvesse dito simbolizassem apenas uma pequena quantidade de tempo perdido. Um reflexo das lembranças de um tempo esquecido que eu, em sonhos, desejasse com toda a força um dia poder recuperar.
Recuei dois passos, antes de voltar a subir a encosta, deixando-o sozinho a adivinhar o choque no meu peito à medida que me encaminhava para casa. Não disse uma palavra à minha mãe quando ela me perguntou o que se passava, ao ver-me chegar a chorar e ir directa para o meu quarto.
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