Apprentice
10 Capítulo 9
Notas iniciais
– Ok, os S’s estão aqui… Agora… Onde estão os O’s?
Desisti de procurar nas centenas de arquivos, pousando a cabeça nas mãos. Onde raio eu estava com a cabeça para lhe dar três dias de folga? Sakura, volta, estás perdoada!! Bem, na verdade, o único que tinha alguma coisa passível de ser perdoada era eu, ela não tinha feito nada de mal. Mesmo o sermão que me tinha dado vinha tão carregado de verdades que eu não me conseguia sentir mal com ela pelo facto de ela o ter dito. Suspirei, olhando para o globo de neve que eu usava como pisa-papéis. Voltei-o nas mãos, para ver o efeito da neve a cair, naquele pequeno mundo que cabia na palma da minha mão.
Não me passava despercebido que, agora que o sabia, não parava de a chamar pelo primeiro nome. Pelo menos, dentro da minha cabeça, dado que ainda não a voltara a ver presencialmente para lho chamar cara-a-cara. Mas definitivamente era algo que não fazia parte do meu estilo, normalmente a minha família e os meus amigos eram os únicos a quem eu chamava pelo primeiro nome. Amigos como o Naruto e… E… Bem, não interessa.
Olhei para o relógio. Eram 16:00h, uma Segunda-feira, e eu não tinha saído dali durante todo o fim-de-semana. Levantei-me, meio de rastos, dirigindo-me à recepção, onde se encontrava a máquina do café (não devia ter saudades minhas, pelo menos uns quinze cafés já eu tinha ido buscar hoje) e a secretária da rosada. Foi para esse pequeno espaço que olhei, enquanto esperava o copo com o habitual aroma que possivelmente me daria adrenalina para acabar de organizar tudo. Só faltava guardar os arquivos, já despachara todos os casos…
Era tão fácil imaginar os cabelos rosados ali. Tão fácil de prever os olhos verdes a voar pelas páginas das agendas e a pele clara das mãos a deslizar pelo papel, marcando mais uma reunião. Aproximei-me um pouco da mesa, sentando-me na cadeira dela. De imediato me senti desconfortável. Como é que ela aguentava horas ali sentada naquela cadeira tão dura? E a mesa tinha tão pouco espaço para ela se organizar mas mesmo assim apresentava-se impecável. Como é que ela fazia aquilo? Como conseguia ter um tão forte controlo sobre as suas coisas e mesmo sobre a sua vida? Ela tinha um carácter de ferro, não desviando nunca a sua intenção por mais que alguém a tentasse demover.
O apito insistente da máquina do café e o tocar irritante do meu telefone acordaram-me para a realidade. Voltei a por a cadeira no sítio, fazendo uma nota mental para não me esquecer de pedir ao meu pai para mandar vir uma mais confortável, indo depois pegar no copo do café e voltei para o gabinete. Atendi o telefone ao quinto toque.
– Uchiha.
– Ohh, a Haruno não está aí hoje?
Suspirei, perante o tom escarninho.
– O que queres, Sabaku?
– Bem, tal como perguntei, queria saber se a Haruno não está aí hoje.
– Não, não está. Está de folga até Quarta. Porquê?
– Hmm… Que azar. É que amanhã eu tenho uma folga no meu horário e estava a pensar se ela não quereria ir almoçar comigo ou assim.
Apertei o copo do café, entre os dedos. Ele estava o quê? A brincar com a vida, de certeza.
– Se fosse a ti, não tinha muitas esperanças disso, Sabaku. Ela não é esse tipo de mulher, que aceita ir almoçar ou jantar com um homem qualquer.
– Pois, Uchiha, mas acontece que eu não sou um “homem qualquer”, convenhamos. – Ele riu-se do outro lado da linha. – E pelo teu tom, suspeito que já tenhas recebido umas quantas negas dela, certo?
– Claro que não.
– Isso quer dizer que é óbvio que sim. – Juro que se o tivesse à frente já o tinha feito parar de rir-se com um pelo punho fechado nas ventas. Apertei mais o copo de café, sentindo o plástico começar a vergar. – Como tu disseste, ela não é de ir com um homem qualquer e tu facilmente perdes a cabeça por um rabo de saias.
Cerrei os dentes.
– Queres mais alguma coisa?
– Já que ela não está, podes dar-me o número dela?
A última coisa que ouvi foi o barulho do telefone a bater contra a parede, desmanchando-se em vários pedaços e ainda lhe arranquei o fio que me ficou emaranhado nas mãos. Como é que aquele pirralho se atrevia a…? Como se… Ahh!
Com que então, eu não passava de um “homem qualquer, que facilmente perde a cabeça por um rabo de saias”?Bem… Não deixava de ser verdade. Pelo menos no que dizia respeito a quem Uchiha Sasuke era, há cerca de dois dias atrás. Ia fazê-lo engolir cada palavra e depois vomitá-las bem à minha frente. Quem é que ele pensava que era?? Só porque também era dono de uma grande empresa, pensava que todas lhe caíam aos pés? As bolas dele ainda não deviam ter descido para o saco, quanto mais!
Bem, ele não era assim tão mais novo do que eu, dizia uma vozinha irritante na minha cabeça. Até tínhamos histórias parecidas, ambos herdámos um império que os nossos pais haviam criado e havíamo-lo feito numa idade precoce. A diferença era que eu odiava isso, enquanto ele parecia regozijar-se de tal facto, gabando-se disso à boca cheia. Era muito diferente do Gaara que eu tinha conhecido quando éramos crianças, e tínhamos morado quase lado-a-lado. Desconfiava que tal mudança se tinha operado nele, bem como em mim, após a morte das nossas mães. Senti um amargo na boca que nada tinha a ver com o café.
Peguei no que restava do telefone, pondo-o no lixo e indo depois lá fora, puxar a linha do telefone da secretária da Sakura para o meu gabinete. Devido ao meu anterior passado numa banda, sabia bem como montar cada fiozinho, como fazer cada ligação. Confessava que tinha saudades desses tempos. Pelo menos sentia que aí fazia algo por mim mesmo. Olhei as pontas dos dedos. Ainda as sentia calejadas das cordas da guitarra que eu tocara durante anos. Agora, devia estar perdida por casa dentro de algum caixote, em algum porão ou sótão da enorme mansão. Já não mantinha contacto com nenhum dos meus colegas dessa altura, não sabia o que era feito de ninguém. Na realidade… Já nem me lembrava dos nomes deles. Só das caras e mesmo assim muito esbatidas. Não me lembrava também de nenhuma música, ou cifra, das que tínhamos criado. Não ficara com nenhuma cópia dos EPs e CDs que tínhamos gravado, num dos quartos mais pequenos da casa, que eu transformara num pequeno estúdio.
Talvez aí ainda tivesse alguma coisa…
Olhei para os arquivos. Se era só para os organizar nas pastas, eu conseguia muito bem fazer isso no dia seguinte. Fechei o escritório, descendo até ao parque de estacionamento, para entrar no carro. Conduzi rápido, já como era meu hábito, até chegar a casa. Para variar, apenas a empregada me veio receber. Olhei-a durante um bom bocado, coisa que a deixou atrapalhada, dado que normalmente nunca prestava muita atenção aos servos ali de casa. Mas… O choque desta vez foi mais forte. Desde quando ela envelhecera tanto? Eu não me lembrava daquelas rugas, nem daquele cabelo branco, em cachos. Mesmo o mordomo, que aparecera minutos depois, preocupado com a minha falta de resposta, também estava muito mais velho do que aquilo que eu me lembrava. Alegando somente que me ia deitar e descansar, deixei os para trás observando a casa à medida que passava. Sempre bem cuidada, tudo arranjado, flores frescas nos jarros… Mas agora com uma sensação tão seca, tão sépia, tão… Tão envelhecida.
Quantos anos haviam passado por aquela casa?
Quantos anos haviam passado por mim?
Cilindrei pela casa, meio perdido nos corredores que me haviam visto crescer, já não sabendo onde estava cada divisão. Pelo meio da minha busca, achei o antigo escritório do meu pai antes de ele o ter mudado para o rés-do-chão. Estava cheio de caixotes pelo que conseguia ver, dado que as janelas estavam fechadas. Encontrei também o meu antigo quarto, ainda com o berço a um canto bem como todos os meus brinquedos. Ali enfiada também tinha sido a minha primeira cama. Se aquele era o meu quarto… Olhei, engolindo em seco, para a porta que ficava em frente. Aquele havia sido o dos meus pais.
Não entrei. Já sabia o vazio que me esperava lá dentro. Tinha demasiadas memórias naquele quarto. Das noites em que, com medo das tempestades lá fora, eu corria até à cama deles, deixando-me esconder entre os dois. Dos dias que passara a fazer companhia à minha mãe, quando a depressão a prendeu ali. Das semanas que me trancara naquele lugar, quando o aneurisma lhe levou a melhor…
Bati só a porta do meu quarto, obrigando-me a acordar. Funguei só ligeiramente, procurando depois nos corredores seguintes. A três de distância, finalmente achei a sala que procurava. Tal como esperava, cheia de pó, cheia de cartões… Tirei a capa que protegia o ecrã do meu antigo computador, apertando o botão para o ligar. Após um roncar que não me pareceu nada abonatório, ele lá arrancou, muito mais lento que o meu actual do trabalho. Deixei-o pensar o tempo que ele quisesse enquanto vasculhava nas caixas. Encontrei roupas antigas minhas que usava na altura da banda e me faziam parecer um delinquentezinho. Ri-me um pouco ao observar algumas delas. Desde quanto o meu modo de vestir se tinha tornado tão chato? Calça administrativa, camisa apertada até ao pescoço, gravata, casaco…
Mandei um salto no lugar ao ouvir o engasgado som de início de sessão do computador. Na tela, que devia ter alguma problema na placa gráfica pois a imagem estava pintalgada de cores que não lhe pertenciam com algumas manchas de pixels pelo meio, estava uma das primeiras fotos da minha banda. Na altura, ainda tinha o cabelo comprido… Pelo menos de um lado da cabeça, dado que o outro estava raspado. Não evitei uma gargalhada. Olhei para os que me acompanhavam. Mesmo vendo-lhes o rosto, os nomes não me vinham à memória. Só a loira, com quatro carrapitos na cabeça me era vagamente familiar. A morena baixinha e o rapaz alto para a idade na altura e com o cabelo apanhado e um ar aborrecido não me eram nada familiares.
Procurei no disco rígido e achei algumas das nossas músicas, passando-as de imediato para o telemóvel. Ou bem… Tão de imediato quanto a velocidade que o computador permitiu, entretendo-me a fuçar no resto das caixas. Numa delas encontrei a minha guitarra, já sem a maior parte das cordas. Ainda assim, corri a mão pelos trastos, sentindo os dedos a reagirem ao contacto familiar da madeira assim como uma comichãozinha na garganta. Era verdade!! Eu costumava fazer uns grunhidos estranhos nas músicas da banda, a que dava o nome de scream. Fui ao telemóvel, vendo que uma das músicas já lá estava. Buried Alive, han? Parecia-me o caso. Pus a tocar baixando logo o som, dada a qualidade péssima de gravação na altura. Para meu espanto, os meus lábios acompanharam a letra, sem eu ter noção de que ainda a sabia de cor.
Stomp down and buried alive
The walls are now coming to life
And the fault was mine
I was burried alive
All the pain and the fear
Where I've been living in a nightmare
For so many years
And when I look in the mirror
I wish it wasn't so clear
I wish I was not here
I wanna be somebody else
I dream about a world
Where I'm not depressed
And all I got is
This big room filled of nothing
The emptiness is what I fear
I wish I was not here
Incrível como a situação se aplicava aos dias de hoje. Eu tinha realmente sido enterrado vivo. Tinha aprendido que não era preciso dormir para viver pesadelos. Havia de facto um vazio enorme, num quarto cheio de nada, que eu não queria enfrentar. Realmente eu não desejava estar ali.
Uma sombra de sorriso espalhou-se pelo meu rosto, ao ouvir a minha voz na altura. Aquilo que eu apelidava de scream e que agora só me saía como um gorgolhar na minha garganta. Toda a confiança que a voz transmitira havia-se sumido na minha, ficando só a indiferença e a raiva. Suspirei, ficando ali por horas, a rever as coisas que tinha ali guardadas, não me importando com a lentidão do computador.
Fiquei ali por horas… Não reparando quem me observava, pela frincha que eu deixara, na porta encostada.
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