Apprentice
13 Capítulo 12
Notas iniciais
– Uchiha’s Society & Cia, boa tarde, em que posso ajudar?
Brinquei um pouco com o fio do telefone, completamente a leste da conversa que mantinha com a pessoa que se encontrava do outro lado da linha. Ainda me lembrava das palavras dele no dia anterior, elas tinham-me ocupado grande parte dos pensamentos, à medida que me tentava concentrar em manter-me focada no trabalho.
Estás linda hoje...
Linda hoje...
Linda...
Céus, ele ia dar cabo da minha pouca sanidade mental.
– ... E diga ao Doutor que passo por aí na Terça-feira à tarde para resolver os assuntos relativos ao nosso caso porque tenho uma coisa a propôr-lhe.
– Aa... C-Certo. Disse “Terça-feira”, então? – Confirmei novamente, depois de conseguir chocalhar o suficiente a cabeça para aqueles pensamentos idiotas me abandonarem a mente por completo. Ou, pelo menos... Pelo tempo suficiente para me conseguir voltar a concentrar.
– Sim, à tarde. De manhã ser-me-á impossível, tenho assuntos a resolver noutro lugar.
– Entendido. Sabe-me dizer mais ou menos a que ho...? – Calei-me ao ouvir o familiar “piiii” do outro lado, quando o sujeito desligou a chamada. Que anormal! Mas eu era paga para aquele tipo de coisas, agora?
Desliguei o auscultador com brusquidão, abanando a cabeça com um suspiro. Não me lembrava daquele idiota, devia ter sido um dos clientes que o Doutor conseguira no tempo durante o qual me encontrei ausente. Mas que ele era um anormal, lá isso era.
– Já andas a deitar fumo pelas orelhas e ainda nem tiveste tempo de aquecer o lugar?
Dei um salto, levantando a cabeça para encontrá-lo de rosto plantado bem à frente do meu, inclinado sobre a mesa. A minha respiração vacilou, os olhos encarando os seus sem saber bem como reagir, antes de eu, automaticamente, sentir as minhas bochechas ficarem demasiado esquentadas. Definitivamente... Eu não conseguia pensar com ele tão perto assim.
– Aaa... D-Doutor...
– Céus, ainda nem entrei no escritório hoje e já me estás a tratar com tanta formalidade? – Vi-o afastar-se, respirando inevitavelmente de alívio quando ele o fez. – Tu não tens emenda, pois não? Esperava que depois do presente que te dei e do meu convite para almoçarmos os dois aqui no escritório na próxima Segunda, dia pelo qual, diga-se de passagem, me encontro seriamente impaciente, estivesses um bocadinho mais... Mais relaxada.
Esbocei um sorriso, desviando o olhar para o meu bloco de apontamentos.
– Relaxar não é bom quando se lida com assuntos sérios todos os dias. Já devia sabê-lo bem, Doutor.
Ele suspirou.
– Está bem, está bem. Ganhaste. – Disse só. – Mas diz-me lá, porque é que estavas tão soturna assim, logo de manhã, quando cheguei? Parecia que te tinham mandado dar uma curva do outro lado do telefone.
Abanei a cabeça.
– Nada demais. – Apressei-me a explicar. – É verdade, tem uma sessão marcada com um novo cliente, de nome – Li no bloco, atentamente. – Danzou Shimura. Ele disse que ficaria para a parte da tarde e eu marquei-o para as 15:00h de Terça-feira. Foi o único espaço livre que lhe achei na agenda. Ele diz que é urgente e que deseja apresentar-lhe uma proposta, mas não revelou mais detalhes sobre o assunto.
– Hai, hai. Mais alguma coisa?
Ele dirigiu-se à porta do gabinete e eu, obedientemente, limitei-me a segui-lo, com o bloco em mãos e uma caneta, pronta a apontar qualquer repentina instrução que ele pretendesse dar-me.
– Ligaram também do escritório Sabaku no Agency... – Notei o olhar dele virar-se para mim em questão de segundos, parecendo até mesmo um pouco enervado com a menção daquele nome. – Queriam marcar uma reunião para discutir a chamada de testemunhas para a audiência do Sr Shimura. O Doutor Sabaku disse que passaria por cá na Segunda de manhã.
Houve uma pausa durante a qual ele largou o casaco bruscamente, em cima da cadeira e se pôs às voltas no mesmo sítio, parecendo pensar em alguma coisa.
– Está... Tudo bem, Doutor?
– Aquele idiota fez questão de dar a entender que eles tinham algo que eu não sabia. Que iria ser difícil livrar a goela daquele tipo. E não ter o controlo da situação é algo com que eu não lido assim tão bem como gostaria.
– Não podemos ter sempre o controlo de tudo. – Falei calmamente apenas, tentando amenizar a situação. Como era possível que ele e o pai, apesar de parecerem tão diferentes, pensassem assim tanto da mesma forma? E desde quando ele me parecia um bom homem como o pai dele? Ele sempre fora tão... Mimado... – Às vezes... Temos de limitar-nos a seguir um bocado aquilo em que acreditamos. Limitar-nos a dar ouvidos aos nossos próprios sentimentos.
– Pois, mas esse é o problema, porque... Eu, sinceramente, já não sei no que acreditar, percebes? Já não sei bem... Como me sentir, quando tenho a sensação que não estou no lado certo das coisas. Especialmente quando me esforcei tanto para ocupar esse lado, novamente.
Os nossos olhos encontraram-se, uma vez mais. Por alguns minutos, não fui capaz de pensar coerentemente, ficando apenas sem saber o que dizer para colmatar as palavras dele. Afinal... Talvez ele fosse diferente do que eu pensava. Isso tornava as coisas bem mais complicadas para o meu modo de ver a vida. Tornava-nos... Mais próximos um do outro? E desde quando é que eu... Queria que o estivéssemos daquela forma?
Num movimento, vi-o avançar alguns passos na minha direcção, embora o fizesse de forma quase receosa. Baixei a cabeça depois, recuando sem pensar no assunto. Suspirei. E ele também acabou por não tentar aproximar-se mais, mesmo que inconscientemente. Sorriu de canto, olhando através da grande janela instalada atrás da sua secretária.
– Es-Está tudo bem? – Voltei a perguntar, sem saber bem se estaria ou não preparada para a resposta.
Ele sorriu um pouco mais, olhando-me depois.
– Sim – Respondeu, simplesmente. – E foi só isso que o Sabaku te disse, ou ele estava atrás de mais alguma coisa?
Tentei detectar alguma malícia naquele olhar que ele me lançou. Eu sabia bem ao que ele se referia, o sujeito ruivo já tinha tentado convidar-me para almoçar e ainda no dia anterior resolvera importunar o meu sossego em pleno local de trabalho para vir tentar convencer-me a sair com ele. Aliás... Ainda por cima, aquele anormal duma figa tinha-me mentido!
Com que então, ele era daqueles que não olhava a meios para atingir os fins. Onde é que já se tinha visto? Chegar a ponto de dizer que o meu chefe lhe tinha dado o meu número? Se eu não conhecesse bem aquele homem que tinha à frente, até poderia pensar que seria ver...! Bem... Na verdade... Eu não o conhecia mesmo. Talvez, secretamente, ter essa oportunidade fosse algo que eu quisesse mas... Nunca pensara verdadeiramente nisso. Pelo contrário, até tentava esquecer o assunto. Embora ele me martelasse na cabeça a toda a hora. E embora isso fosse extremamente irritante. E embora eu pirasse do juízo por ter de aguentar essa parte. Enfim, adiante.
Tentei descontrair e levar o assunto para a brincadeira.
– Se está a perguntar se ele voltou a insistir em convidar-me para sair... Não. Ele não falou do assunto.
– Hum – Voltou a olhar para a janela – Ainda bem para ele. Não me apetecia nada ter de sujar as mãos, ele... Ele não tem de meter-se contigo e se ele voltar a fazê-lo... Avisa-me. Porque eu vou lá e parto-lhe a cara.
Ri-me, abanando a cabeça.
– O Doutor anda demasiado violento, ultimamente. – Brinquei. – Acho que o eu ter estado fora o deixou muito... Como direi...? Pouco paciente.
– Eu nunca tive muita paciência, a verdade é essa! – Disse ele apenas, sentando-se de novo à secretária. – Acho que sempre fui um bocado... Expontâneo demais nas coisas que faço. Tanto que, segundo a opinião de toda a gente, eu faço a maioria das minhas borradas de cabeça quente.
– Ou seja, todo o seu dia-a-dia é levado a cabo de cabeça quente.
– A ferver. – Corrigiu apenas, com um tom demasiado sério, mas levemente sarcástico ao mesmo tempo. – No entanto, isso deixa-me triste. Porque segundo a minha opinião pessoal... Eu não faço assim tantas borradas por dia. Mas o que é que eu posso fazer? As más línguas são horríveis.
Rimo-nos depois, de novo, acabando por ficar a fixar-nos por mais uns momentos. Quase que podia sentir a minha cara ferver de novo. Novamente, as palavras dele voltaram a fazer eco na minha mente.
Estás linda hoje...
Linda...
Ele achava-me linda.
Céus, eu não ia aguentar isto durante muito mais tempo.
– B-Bem... Doutor... M-Mais alguma coisa?
– Quem sabe.
– Diga. – Pedi somente, a postos para apontar qualquer coisa que ele dissesse em seguida.
– Número.
Olhei-o confusa, sem perceber.
– Diga?
– Dá-me o teu número.
Só desviei os olhos muito atrapalhada, tentando pensar numa resposta rápida para o pedido dele. A minha cabeça dividia-se em opiniões, disputando uma partida bastante renhida com o meu coração durante os segundos que se seguiram. O que é que eu dizia agora? Não era... Não era ético fazer aquilo pois não? Ok...
Certo... Era fácil, era só fingir que não tinha percebido onde ele queria chegar... Até porque... Eu não queria ser mais uma das suas conquistas, logo...
– Aa... O... O Doutor tem... Tem o meu número...
Ele pareceu olhar-me com uma careta de confusão, antes de alcançar o meu raciocínio. Riu-se depois.
– Sua palerma. Não é o da extensão dos telefones daqui! – Parou de rir depois, olhando-me de novo nos olhos, o ónix da sua íris encarando firmemente o jade da minha. – É o teu número de telemóvel.
– Aaa... E-Eu...
– Tudo bem, eu espero. Mas com uma condição.
Olhei-o só, engolindo em seco apenas. Que raio de condição iria ele impôr agora? E por que raio estava eu a alinhar naquele joguinho pateta dele?
– Q-Qual, Doutor?
Ele suspirou.
– Não me chamas mais Doutor. Pelo menos, enquanto estivermos sozinhos, já que sei perfeitamente que não aceitarás fazê-lo quando estiver mais gente aqui no escritório. – Disse apenas, revirando os olhos ao saborear as suas próprias palavras.
Eu sorri, limitando-me a aproveitar a sua própria condição para o tramar.
– Entendido... Como desejar, Doutor Uchiha.
– Mau! – Vi-o cruzar os braços amuado, olhando para mim e fingindo fazer um beiço enorme, mesmo tomando o típico comportamento de uma criança de 5 anos. Eu tinha a certeza de que ele fazia aquele tipo de coisas quando tinha essa idade. Quase que podia apostar o meu lugar como secretária daquela Firma em como esse era um dos métodos para fazer a mãe dele, e mesmo o pai, fazerem tudo o que ele queria quando era criança. – O “Doutor” não existe aí no meio! Ou estás a ver aqui mais alguém?
Olhei em volta, fingindo-me desentendida, quando ele abriu os braços como que a dar-me essa indicação.
– Mas... Doutor... Era só quando estivessemos sozinhos. E, de momento, devem estar pelo menos umas 20 pessoas a trabalhar, aqui na Firma. – Disse só, com um ar seguro, fazendo força para manter a pose e não me deixar rir perante o ar dele. – Pelos meus cálculos, não me parece exactamente o local onde estejamos a sós, não acha?
– Andas muito engraçadinha, de facto.
– Obrigada. Agora, se não se importa, vou trabalhar.
E encaminhei-me para a saída do gabinete, fechando a porta atrás de mim, deixando-o entregue aos primeiros processos do dia depois de se refazer do choque da minha piada meio imbecil mas que tinha, seguramente, chegado para o divertir.
***
– Por mim até podíamos marcar para Sábado mas nesse dia tenho um compromisso inadiável com o borracho de um colega meu, em casa dele.
Tentei segurar o riso, comendo a minha sopa devagar, ouvindo-a do outro lado da linha atentamente apenas. Há dias que não ouvia a voz da Ino. E, depois do fim-de-semana que tinha tido e daqueles 3 dias na aldeia, depois do meu reencontro com o Kiba e de todas aquelas lembranças sobre a Hana... Eu precisava, de facto, de saber que tinha sempre ali uma amiga com quem poderia contar para me fazer rir nos piores momentos.
– Nah, no Sábado é para eu tentar descansar. Estes dias com a minha família acabaram por me deixar mais morta do que viva. Por mim Domingo está óptimo. Quero aproveitar para desanuviar um pouco e, além disso, ir comer um daqueles gelados fantásticos que eles vendem naquele restaurante do último andar do Shopping, que eu adoro. Há mais de 3 meses que não passo lá.
– Uhhh, já sei, aquele que tem aquele empregado muita giro... Como é que ele se chamava?
Pus mais uma colher de sopa à boca e suspirei, mesmo a ver onde é que aquela conversa toda iria parar.
– Chama-se Sasori e não, não vou lá por causa dele. Ele tem namorada.
– Ah, que desperdício! – Guinchou a voz dela do outro lado. – E eu a pensar que lhe podia ir mostrar as vistas no meu bebé, que íamos poder dar umas voltinhas. Às vezes canso-me de conduzir, sabes? Também gosto quando sou eu a ir à pendura.
– Porque é que não contratas um motorista, então?
– Olha, não era má ideia!
– Mas, a sério, Ino, o Sasori? Bem... Ele até que é bonitinho, mas...
– Ele é um pão, e ai Cristo que me benzo já aqui, que ele até me dá calafrios pela espinha acima. – Disse ela, como se tentasse convencer-me. – A sério, Sahh... Olha... Ele tem uns olhos lindos, é giro, musculado, alto... E ruivo!
– Se soubesses o problema que tenho tido com os ruivos não dizias tal coisa, de certeza absoluta... – Deixei escapar apenas baixinho, com um suspiro, mas não o suficiente para que ela não percebesse perfeitamente o que eu havia dito.
– Explica lá bem isso!
– Bem, Ino, vou ter de desligar, falamos no Domingo, então?
– Não! Agora vais-me contar o que...
– Ino, vou entrar agora mesmo no escritório, tenho de desligar mesmo, tchau-tchau. Beijinhos. Fui.
Desliguei a chamada, sem conseguir aguentar o riso depois, mas limitando-me a suspirar de novo, olhando em volta antes de me levantar da mesa. Levei a tigela da sopa e pousei-a no balcão, esperando que a Tenten viesse buscá-la e paguei a conta. Despedi-me dela, antes de sair do café para voltar ao trabalho.
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