Apostas de Fevereiro
9 Honestidade
ROMANCES MENSAIS
LIVRO II – APOSTAS DE FEVEREIRO
CAPÍTULO VIII- HONESTIDADE
Eu não sabia bem o que tinha me levado a aceitar aquela loucura de aposta. Talvez fosse o desejo intenso de Kara de se superar que me comoveu ou eu simplesmente sou idiota demais para conseguir negar algo a alguém, ainda mais quando se trata de uma mulher tão singular quanto a professora de Literatura de meu sobrinho. O fato é que eu agora estava diante de uma aposta idiota de ir em encontros para conquistar o coração da loira de olhar penetrante e sorriso amável. As chances disso dar certo são mínimas, mas se Kara está disposta a aceitar os perigos, quem sou eu para fugir de uma aventura tão interessante quanto essa?
Para nos proteger ou pelo menos garantir que essa aposta não saia do controle, nós criamos sete regras principais que devemos seguir:
1. Nunca mentiremos um para o outro sobre quem nós somos. Os encontros vão servir para mostrar nossas verdadeiras personalidades. Quem nós somos e o que nós realmente gostamos de fazer;
2. Um dia Kara fica responsável pelo encontro e outro dia sou eu;
3. Nós faremos isso por seis meses. Se nenhum dos dois se apaixonar, apenas fingimos que tudo não passou de um momento de raiva de Kara e que agimos por impulso;
4. Se um de nós se apaixonar pelo outro, deve se confessar imediatamente. O outro não é obrigado a aceitar os sentimentos, mas a aposta acaba nesse momento, independente de quanto tempo estamos indo a encontros;
5. Quem se apaixonar primeiro deve fazer a mais bonita e romântica declaração de amor que conseguir e com sinceridade;
6. Não é necessário que um se mantenha fiel ao outro, ou seja, podemos sair com outras pessoas, mas isso significa que você está arriscando sua chance de fazer a outra pessoa se apaixonar.
7. Se os dois estiverem de acordo e conscientes de seus próprios atos e sentirmos vontade de nos beijar ou ir mais longe, deixaremos acontecer.
No entanto, apesar de estar ansioso pela aposta, eu ainda estava me sentindo receoso. Eu não quero ser o cara que se aproveita da fragilidade de uma garota que recentemente terminou o namoro para ficar com ela. Kara é linda e divertida e é claro que eu não acharia ruim ficar com ela, mas não parece certo ela fazer uma aposta apenas um dia após o término. Isso só me faz acreditar que ela está me usando apenas para tentar preencher a dor que ela sente.
Dois dias se passaram desde que nos conhecemos e nos reencontramos tantas vezes em um mesmo dia. Hoje será o nosso primeiro encontro de verdade. Eu me sentia como um adolescente de novo, pronto para ter seu primeiro beijo. Há uma expectativa e, ao mesmo tempo, receio de nada funcionar como eu desejo.
Após consultar a minha consciência, também conhecida como Imra Ardeen, decido que antes de tentar algo romântico com Kara, talvez seja melhor tentar algo que possa consolar o coração partido da loira e quem sabe convencê-la de que é melhor desistir dessa história de aposta. Não que estejamos fazendo algo de errado, mas iniciar algo assim em um momento tão delicado para a professora de Literatura poderia interferir nas tomadas de decisão da garota.
Para minha melhor amiga, depois de tantos anos se relacionando com alguém que em apenas alguns minutos no encontro de término deles se mostrou um namorado controlador e abusivo, Kara precisa aprender a se amar e dar valor aos desejos dela ao invés de tentar atender as vontades de terceiros. Assim, como ordenado pela única mulher que sabe todos os meus medos e segredos, jantar, cinema ou qualquer ambiente romântico demais está fora de cogitação.
Assim, eu tinha que ser criativo. Ao mesmo tempo em que tenho que mostrar meus encantos para conquistar Kara, eu também preciso pensar em seus sentimentos e achar uma forma de ajudá-la a superar seu relacionamento anterior. E foi assim que eu me deparei com o primeiro dos inúmeros desafios que essa aposta deve me proporcionar.
— Tio Mike? — O chamado de meu sobrinho me desperta de meus pensamentos.
— O que foi, pirralho? — Respondo, desviando minha atenção da televisão para o garoto que havia acabado de chegar do treino de natação da escola.
— O que você está fazendo? — Questiona Mike, encarando-me com julgamento.
— Não está vendo que eu sou um cliente super importante da melhor manicure da cidade, Holly Wheeler? — Digo, mostrando meus dedos pintados pelos esmaltes infantis de minha sobrinha mais nova. — Não sabe o quanto foi difícil conseguir horário com ela.
— Eu sou muito ocupada, Mike. — Concorda Holly, entrando em seu personagem de dona de salão de beleza ou algo do tipo.
— Eu estou vendo. — Comenta o garoto, rindo. Ele se senta no sofá e me encara com um sorriso fraco. — Tio Mike...
— O que aconteceu dessa vez? — Pergunto, já me preparando para lidar com mais um problema na escola.
— É só que... — Mike suspira e me encara preocupado. — Hipoteticamente falando, se você tivesse chance de mostrar a todos como uma pessoa muito popular é responsável por fazer algo muito ruim a uma pessoa muito importante para você, mas isso significa expor você, as pessoas envolvidas nas armações que fizeram e a pessoa muito importante para você. O que você faria?
— Encontrou uma forma de mostrar para todos que Becky é culpada por espalhar pela escola a notícia manipulada de sua namoradinha ainda ser viciada em medicamentos, mas isso significa que vai expor você, ela e seus amigos? — Suponho e ele me encara surpreso. — Sim, Mike. Eu leio mentes.
— Como...? — Balbucia o adolescente. — E ela não é minha namoradinha.
— Ainda. — Afirmo e meu sorriso se alarga ainda mais ao ver que ele não negou.
— Cliente tio Mike, agora iremos arrumar seu cabelo. — Avisa Holly, pegando seus brinquedos de salão de beleza que ela havia me feito comprar em nosso passeio da tarde pela cidade.
— Tudo bem. Eu quero que me deixe muito bonito, porque eu tenho um encontro hoje. — Respondo e ela sorri animada, subindo no sofá, aproveitando que eu estava sentado no chão e ela conseguia alcançar minha cabeça. Viro-me para Mike, que continuava sem palavras pela minha descoberta. — Eu ouvi você conversando com a pirralha esquentadinha sobre expor sua ex-namorada para a escola no Baile dos Namorados da Hawkins.
— Já que você sabe. O que eu deveria fazer? Quer dizer, eu quero expor Becky e fazê-la pagar por tudo o que ela fez, mas eu não quero trazer mais exposição e sofrimento para Eleven. Ela é... importante para mim. — Explica Mike, envergonhado. Estava evidente os sentimentos de meu sobrinho pela garota da casa ao lado.
— Em outra palavras, você gosta dela mais do que como amiga, mas quer fazer sua ex-namorada sofrer por ter machucado a sua garota. — Respondo e ele aquiesce completamente sem graça. — Por que não vai em frente? Você já é popular na escola mesmo, então de certa forma, só por andar ao seu lado, ela está sendo exposta diariamente. Qual seria a diferença nesse ponto se Becky for exposta ao mundo ou só para algumas pessoas? Essa garota é um demônio, então merece ser desmascarada da forma mais humilhante que tiver. Ela não vai parar até não ter mais forças para isso. Então sua única saída é colocar as pessoas contra ela.
Mike parece ponderar sobre as minhas palavras. Eu sei muito bem o quanto esse garoto já enfrentou problemas por causa da super exposição dos pais. Na sua idade, eu também tive que aprender a lidar com a fama da minha família. Depois que o pai de Mike assumiu a presidência do laboratório de pesquisa científica mais importante do país, meus pais também se tornaram ricos e alvo das câmeras dos jornalistas.
— Eu tenho certeza de que a número onze é muito mais forte do que você imagina. Confie nela e em seus amigos. Eu conheço muito bem todos vocês. São espertos o bastante para não serem pegos ou prejudicarem as pessoas que amam. Principalmente você, que carrega o meu sangue. — E caso as coisas não saiam como vocês planejam, você ainda tem a mim e as suas irmãs. Jamais deixamos você sozinho e não vai ser agora que vamos te abandonar. Para que ter um tio tão incrível quanto eu se não puder usar o dom de escapar problemas?
— Eu acho que você tem razão. — Concorda Mike, pensativo.
— Como era de se esperar de alguém tão brilhante intelectualmente quanto eu. — Respondo, dando um sorriso convencido. Mike bufa, mas logo abre um sorriso.
— Obrigado, tio Mike. — Agradece meu sobrinho, sorrindo amavelmente.
— De nada, pirralho. — Respondo, correspondendo ao sorriso. Olho para meu relógio e vejo que já é hora de me arrumar. — Agora fique aqui cuidando da sua irmã. Eu tenho um encontro com a sua linda professora e eu não quero me atrasar.
— Vocês vão mesmo insistir nessa aposta? — Questiona o garoto, confuso. — Achei que fosse apenas uma brincadeira, já que El me contou que ela terminou um namoro de de anos recentemente. Espero que não esteja se aproveitando desse momento dela apenas para levá-la para a cama.
— Eu jamais faria isso, pirralho. O seu tio Mike aqui é um cavalheiro. Eu não preciso de táticas tão sujas quanto essa para dormir com alguém. — Respondo e ele suspira, assentindo.
— Cliente tio Mike, o seu cabelo está pronto. — Avisa Holly e eu acabo rindo de sua dedicação em manter o papel. — Agora pode pagar.
— Muito obrigada, dona do salão. Aqui está o dinheiro. — Digo, fingindo entregar o pagamento pelo serviço prestado.
— Não, tio Mike. Você tem que dar dinheiro de verdade. — Sussurra minha sobrinha de três anos e eu encaro Mike, esperando uma explicação para o pedido da garota. Ele apenas ri e levanta as mãos em sinal de que não tinha nada a ver com isso.
— Esse salão de beleza é muito caro. — Resmungo, pegando uma nota de cinco dólares em minha carteira. Entrego para Holly, que ri animada. — A sua sorte é que você é muito fofa e eu sou um tio bobo que não resiste a você.
— Agradeça ao tio Mike pelo dinheiro, Holly. — Pede Mike, sorrindo carinhoso para a irmã mais nova. Ele é um excelente irmão também. Na idade dele, tudo o que eu e minha fazíamos era tentar sair nos tapas e nos provocar.
— Obrigada, tio Mike. — Agradece Holly, dando o sorrisinho adorável dela.
— De nada, pirralha. — Respondo, dando um beijo na testa da garota. Viro-me para Mike e pego mais vinte dólares na carteira. — Vou me arrumar e sair. Peça comida de verdade para você e sua irmã. Se precisarem de alguma coisa, vocês me ligam. Eu não sei que horas eu vou voltar, mas já deixei a Joyce avisada da minha saída. Ela deve passar por aqui na volta do trabalho para conferir se vocês estão bem, então se comportem.
— Quem diria que você seria tão responsável. — Comenta Mike, rindo, enquanto pega o dinheiro. — Nós vamos ficar bem. O pai de El já chegou em casa também. Se acontecer alguma coisa, a gente chama por ele. Então não se preocupe e se divirta em seu encontro.
— Obrigado, pirralhos. — Agradeço, sentindo-me orgulhoso de meus sobrinhos.
Olho novamente em meu relógio e não há tempo a perder. Hoje é o início de minha aposta e eu pretendo começar com o pé direito. Eu não tenho intenção alguma de perder, não importa o que aconteça, eu definitivamente não irei me apaixonar.
[...]
Eu estava em frente ao prédio de Kara, esperando com Scarlett, quanto a loira aparece em uma calça jeans, jaqueta de couro, blusa de frio pretas e coturnos marrons. Ela usava luvas e um cachecol também pretos. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela novamente não usava seus óculos de grau. Ela usava uma bolsinha de lateral preta e apertava a alça do acessório com força, demonstrando que estava nervosa.
— Uau. Você está linda. — Elogio e ela cora, envergonhada.
— Obrigada. — Agradece timidamente. Ela encara Scarlett e me observa com curiosidade. — Vai me dizer onde será o nosso encontro? Eu estou curiosa desde que você disse que eu deveria usar roupas confortáveis.
— Nós iremos a um lugar que fará muito bem a você. — Afirmo, subindo em Scarlett. Entrego o capacete para Kara, que o coloca imediatamente, estendo minha mão para a garota e dou o meu melhor sorriso. — Agora vamos. O melhor encontro da sua vida está prestes a começar.
— Convencido. — Resmunga Kara, antes de ri e aceitar minha ajuda para subir na moto. — Espero mesmo que você me surpreenda positivamente.
— Não se preocupe. Eu tenho certeza que vai te fazer muito bem para onde nós vamos. — Asseguro, enquanto ligo minha fiel companheira de estrada. — Segure firme.
Kara abraça minha cintura e seu aperto se torna ainda mais forte quando seguimos em direção ao nosso destino. Eu estava ansioso para ver a reação de Kara ao descobrir aonde será o nosso primeiro encontro. Apesar de ir com bastante frequência a esse lugar quando adolescente, essa é a primeira vez que levo uma garota até o meu refúgio.
Depois de aproximadamente quarenta minutos, nós chegamos ao nosso destino. Estaciono a moto e ajudo Kara a descer. Ela parecia muito mais confortável com Scarlett agora que já até mesmo andou de braços abertos e gritando suas frustrações e dores pelo término e tudo que suportou nos últimos anos.
— Que lugar é esse? — Pergunta Kara com curiosidade. Ela retira o capacete e observar com curiosidade a entrada do Wreck-A-Room Anger Room.
— Esse lugar é o que chamamos de Rage Rooms. — Ao ver que Kara continuava confusa. Desço da moto e estendo minha mão para conduzir a garota até o estabelecimento que mais se parece com um galpão abandonado. — Já ouviu falar de quartos construídos para que as pessoas quebrem objetos e coloque sua raiva para fora de maneira segura? Esses lugares são chamados de Rage Rooms. Basta você escolher a sua arma, que pode ser um pé de cabra, marreta, um taco de beisebol, enfim, você escolhe o que você quer usar e colocar uma trilha sonora apropriada. Depois disso, você pode destruir o que você quiser nesse quarto e gritar, xingar, colocar toda a sua raiva para fora.
— Isso parece ser bem interessante. — Confessa Kara, parecendo bem mais animada com o nosso encontro. — Acho que preciso mesmo destruir algumas coisas para me sentir melhor. Essa semana não tem sido muito fácil para mim.
— Eu sei. Por isso achei que isso pudesse te ajudar um pouco. — Respondo, sorrindo.
— Obrigada. — Agradece a garota, parecendo tocada pela consideração.
— Agora vamos. Você tem muito o que destruir. — Respondo, puxando a loira para dentro do Range Rooms.
Como uma criança que acaba de conhecer um novo universo, a medida que entrávamos o local, Kara observava a tudo completamente encantada. Sorrio, satisfeito por ter acertado em minha escolha de primeiro encontro, provando que Imra estava certa. Ela não precisa de um encontro super romântico onde eu mostro ser um príncipe encantado. Tudo o que Kara deve querer nesse momento é descontar as frustrações e raiva que sente. Depois de um relacionamento tão longo, não deve estar sendo fácil seguir em frente.
— Boa noite, Mike Mon-El. — Cumprimenta Bree, uma das atendentes do Wreck-A-Room. — Faz um bom tempo que eu não te vejo.
— Oi, Bree. Eu estava fora da cidade. — Conto e ela me lança um sorriso malicioso. Eu já havia saído algumas vezes com a morena, mas nada a sério. — Hoje eu trouxe uma amiga.
— Isso é novidade. Você sempre gosta de vir sozinho. — Comenta a garota de bonitos olhos verdes e longos cabelos cacheados.
— Essa é a Kara. — Apresento a loira, que dá um sorriso forçado. — Kara, essa é a Bree.
— Olá, Bree. — Cumprimenta a loira ao meu lado. — Esse lugar é incrível.
— Já sabe o que vai querer como cenário hoje? — Pergunta Bree, dando um sorriso simpático.
— Existem cenários para isso? — Questiona Kara, surpresa.
— Existem os mais diversos modelos e propostas de Rage Rooms, indo desde réplicas de salas de estar, cozinhas e escritórios a até mesmo pacotes especiais para encontros românticos. — Explica Bree, pegando um catálogo para mostrar a Kara. — Tem algum que você se interesse mais?
— Eu não faço ideia do que escolher. — Confessa Kara, olhando-me como se pedisse ajuda.
— Apesar do pacote romântico ser o que mais me atrai, como é a primeira vez de Kara em um Rage Rooms, acho que começaremos com algo mais tradicional, Bree. — Respondo, apontando para o cenário mais simples com louças e algumas paredes para que ela possa quebrar.
— Tudo bem. Como é um pacote diferente do seu habitual, Mike Mon-El, eu preciso que aguardem um pouco, enquanto preparamos tudo. — Avisa Bree, apontando para a sala de espera. — Em dez minutos, tudo já deve ficar pronto.
— Obrigado, Bree. Você é a melhor! — Agradeço e ela me lança uma piscadela antes de sair. — Por que não esperamos um pouco, enquanto isso?
— Claro. — Concorda Kara e eu a conduzo para a sala de espera da Wreck-A-Room.
O ambiente era decorado com algumas fotos de modelos de Rage Room, uma televisão que passava alguns clipes musicais de sucessos atuais e um sofá confortável de couro preto. Kara se senta e observa as fotos com curiosidade. Era adorável como ela parecia se encantar com cada mísero detalhe.
— Você sabia que o primeiro Rage Room foi fundado no Japão em 2008, fruto do estresse dos trabalhadores com a recessão do país. — Comento, atraindo a atenção de Kara. — Era uma loja chamada The Venting Place, que assim como o próprio nome diz, era um lugar para desabafar. Os clientes compravam uma quantidade de pratos e copos para em seguida descontavam a raiva arremessando eles contra as paredes. A moda pegou e os Rage Rooms começaram a se espalhar por diversos países da Europa e pelos Estados Unidos
— Como você sabe tanto sobre isso? — Pergunta, curiosa.
— Assim como Mike, eu tive que aprender a lidar com a pressão da mídia e da alta sociedade desde muito jovem. Isso me deixou extremamente estressado, rebelde e violento. Eu sempre arrumava um jeito de me meter em confusão só para poder descontar as minhas frustrações batendo em babacas. Foi então que Clint Barton, o homem que é dono do Sense's e do Hawkeye me apresentou a esse lugar e eu me apaixonei pelo Rage Rooms. Destruir coisas para descontar minhas frustrações passou a ser algo que me fazia sentir livre de meus sentimentos negativos, passei a controlar mais as minha emoções e a ser mais maleável. — Conto, sorrindo nostálgico ao lembrar de minha adolescência.
— Lamento que tenha passado por isso. — Kara parece entristecer ao saber um pouco de meu passado. — A cada vez que vejo reportagens falando sobre Mike e sua família, eu fico me perguntando o quanto isso deve fazer mal a ele.
— Nenhum de nós assistimos noticiário em casa. Evitamos ter contato com as redes sociais e conversar sobre nossa vida com as pessoas. Para nós, um simples boato pode transformar nossa vida em um verdadeiro inferno. — Explico e ela suspira, parecendo entender o que eu queria dizer com aquilo.
— Mike Mon-El, o seu quarto está pronto. — Avisa Bree, entrando na sala de espera. — Quarto dez.
— Obrigado, Bree. — Respondo, levantando para pegar a chave que ela estendia. Viro-me para Kara e sorrio. — Está pronta para quebrar alguns pratos e paredes?
— Eu não vejo a hora. — Afirma, animada.
Seguimos para o quarto de destruição preparado por Bree. Kara comentava e apontava para todos os quadros e outros detalhes de decoração presente em nosso caminhos, exatamente como uma criança. Respondo a tudo, sorrindo pela animação da loira e quando chegamos ao quarto escolhido, colocamos os equipamentos de proteção e entrego um prato de porcelana para Kara. Ela encara a louça, incerta sobre o que deveria fazer.
— Apenas quebre, grite, xingue. Faça o que tiver vontade. Desconte toda a sua frustração e sentimentos negativos que tem guardado por tanto tempo para si. — Explico e ela assente, respirando fundo antes de jogar o prato de porcelana contra a parede.
Entre gritos de raiva e alívio, Kara parece se divertir destruindo louças e as pequenas paredes de gesso com a marreta pesada que havia no local. Eu também aproveito para descontar o estresse da semana. Não é fácil cuidar de uma criança de três anos e um adolescente de quinze anos e trabalhar a noite, sem poder dormir muito durante o dia. Eu precisava esvaziar a minha mente e aquela bagunça e destruição ao som de In The End de Link Park para isso.
Aquele não era exatamente um encontro romântico, mas eu estava feliz com o resultado. Ver o sorriso sincero de Kara e aliviado por colocar para fora toda a tristeza que vem guardando desde o término com seu ex-namorado era de fato o que eu precisava para saber que apesar dessa loucura de aposta, de alguma forma, estamos cicatrizando as feridas em nossos corações.
Fale com o autor