Horas e quilômetros depois de presenciarmos nossas vidas quase destruídas, seguíamos pela rodovia. Filas enormes de carros abandonados. Muitos com os corpos apodrecendo em seu interior. Destruídos pelas circunstâncias. Nada mais que a pura realidade que nos encontrávamos. Ao nosso redor tudo estava morto, e fedia como se toda essa podridão nunca tivesse feito parte da humanidade; pelo menos não fisicamente.

Os veículos desordenadamente parados impediam a passagem para seguir adiante na rodovia. Assim, nossa pequena frota de sobreviventes parou.

Da janela do trailer, era possível ver a cena descrita.

Minutos antes de pararmos, Dale estava dirigindo e Glen sentado no banco do passageiro, Andrea dormia na cama na parte traseira do trailer. Eu estava sentada na mesa olhando pela janela tentando esvaziar minha mente e esquecer tudo o que havia acontecido até aquele momento. Steve sentara ao meu lado desde que saímos do CCD, e até então não nos dirigimos uma palavra.
Steve olhou-me fixamente, com ar de piedade e compaixão, e então passou a mão em meus cabelos. Perdida em meus pensamentos e vendo os carros abandonados e os mortos, disse:

– Eu não entendo... Por que tudo isso? Essas pessoas...eu...

– Tudo tem um propósito baixinha. E com o tempo tudo se encaixa, você vai ver. — Ele disse deslizando delicadamente sua mão por meus cabelos.

Desviei meus olhos da janela e fitei-o. Apesar de tudo, ao lado dele eu me sentia segura e isso me irritava.

– Tá embaraçando o meu cabelo! — Eu disse tirando sua mão de mim.

Steve olhou-me com um sorriso sarcástico. Ele tinha o dom de me provocar.

– Haha toda esquentadinha! Qual é?! Será que nem em um apocalipse eu tenho uma chance?

– Idiota!

– Linda! Haha

– Argh!

Levantei-me da mesa empurrando-o. Nesse instante o trailer parou; Dale e Glen desceram; eu os segui e quando descia as escadas olhei para trás, para Steve e disse:

– Chance as pessoas dão pra quem sabe aproveitar, o que não é o seu caso!

Sai do trailer. Steve saiu logo em seguida e foi atrás de mim.

– Amy! Olha, você ainda está chateada comigo...

– Não diga, reparou nisso sozinho?

– Certo, me escuta...eu já te expliquei mil vezes, a culpa não foi minha!

– Tem razão, foi minha né?!

Enquanto discutíamos, eu caminhava firmemente até o grupo que havia se reunido procurando soluções para a situação, e Steve seguia-me.

– Amy! Por favor! O que falta eu fazer pra você...

– Shhh!

– Certo, a pista está bloqueada. Vamos ver o que conseguimos encontrar de suprimentos por aqui, depois damos meia volta para encontrarmos outro caminho. — Disse Rick ao grupo.

Assim que ele terminou de falar virei-me e segui na direção dos carros, cada vez mais para o meio deles e para a frente, me afastando do grupo que começara a se dispersar à procura de suprimentos.

Minha cabeça estava fervendo com pensamentos antigos, atuais e futuros. Precisava organizá-los, mas como no meio de tudo isso?

Avistei uma caminhonete branca, uns 5 carros à frente do trailer. Abri a tampa de sua carroceria e sentei-me. Por alguns instantes fechei meus olhos e tentei imaginar estar em casa, sossegada. Contudo, como sempre, ele tem que estragar tudo.

– Por favor. Já estou cansado. Foi difícil e está sendo pra mim. Não consigo ficar sem você. — Steve disse sentando-se ao meu lado na tampa da caminhonete.

– Mas será que não é possível ter alguns minutos de paz com você por perto? Me deixa!

Desci da carroceria e empurrei-o para trás. Com o empurrão Steve bateu a cabeça em algo de ferro que fez barulho embaixo da lona preta. Olhei para ele questionando o que seria, logo, ele ficou em pé na carroceria e com um movimento ergueu a lona. Bingo! Havia uma bolsa de pano preta com quatro facas, um machadinho de mão e cordas. A descoberta me deu ânimo. Mas, assim que Steve levantou a lona, barulho de coisas se rastejando começaram a ecoar. Eram pés se arrastando. Ele olhou para a frente de cima da caminhonete e:

– Droga Amy! Rápido corre! Zumbis!

Sem pensar corri em direção ao trailer, pude ver a movimentação dos demais sobreviventes do grupo correndo também. Steve pegou a bolsa e me seguiu.

Estava quase chegando no trailer quando vi que haviam zumbis vindo de todos os lados. De repente estávamos cercados.
Senti algo segurar minha mão e com um susto virei-me. Era Steve. Sussurrando me disse:

– Amy! Calma ok?! Vamos nos agachar e tentar alcançar a floresta, o trailer está cercado.

Não o questionei. Apenas o segui.

Nos esgueiramos em meio aos carros, nos escondendo e tentando ser menos perceptíveis possível.

Assim, em alguns minutos, conseguimos chegar até a borda da floresta. Estávamos abaixados atrás de um Corsa prata, quando vimos um vulto passar correndo adentrando a floresta e atrás dele zumbis famintos.

Steve segurou-me. Por instinto me movo na direção da floresta.

– Espera. Vamos ficar aqui, até a horda passar, aí voltamos pro trailer.

Nesse momento Rick, Glen e Shane passaram atrás de nós seguindo a direção do vulto. Tive a certeza que era alguém do grupo.
Não podia esperar, eu precisava ajudar, era como se fosse meu dever.

Sem demora corri para dentro da floresta. Corri, corri, corri. Até que não conseguia mais saber onde estava. Um labirinto. Olhei em volta. Nada.

Senti-me sozinha, vulnerável. Cai de joelhos. As lágrimas rolavam em meu rosto. Eu não entendia o sentido daquilo tudo, só entendia que eu correra não porque senti que precisavam de mim, não. Corri para fugir do meus pensamentos, fugir daquela realidade, fugir de mim mesma.

Ouvi movimento nas folhas no chão. Levantei, enxuguei as lágrimas. Com a faca na mão fiquei à espreita. A espera da minha presa, como uma onça fica a espera da gazela.
Nada a minha frente. Nada ao meu redor. Quando virei-me para trás cai de costas no chão. Um maldito errante estava quase sobre mim.

Comecei a me rastejar para conseguir espaço para me levante e me defender, mas ele era rápido. Quando para mim era o fim, ele parou. Caiu ao meu lado. Morto, pela segunda vez. Assustada acompanhei o movimento do corpo inerte. Ao voltar os olhos para a frente, Steve estava com o machado sujo do sangue podre do errante, e me olhava com expressão desaprovada.

– Você está bem? — Disse com a voz firme estendendo a mão direita para me ajudar a levantar.

– S-s-sim...eu acho. — Respondi ainda atordoada com a cena que acabara de se passar diante dos meus olhos.

– Meu Deus Amy! Você podia me ouvir ao menos uma vez nessa vida! Olha o que sua teimosia fez! Quase te custou a vida!

Meus olhos marejados, não puderam evitar as lágrimas. Steve continuava:

– Se eu te perdesse... Nossa... Não valeria um segundo mais esse mundo podre!

O susto foi passando. Retomei minha postura.

– É! Azar o seu que não foi desta vez! — eu disse.

– Você é tudo pra mim sua teimosa!

Ao dizer isso largou o machado no chão e a bolsa que estava em seus ombros. Aproximou-se de mim, segurou meu rosto com as duas mãos e me deu um beijo na testa. Meu corpo estremeceu.

– E-e-eu... — fiquei em transe, mas quase como um despertar me contive: — Me solte! Precisamos sair daqui! Você não lembra por onde veio?

– Não. Eu estava desesperado atrás de você. Não olhei o caminho.

– Droga Steve! Estamos perdidos!