Apenas uma Fic
3 The Story
Notas iniciais
Anne's P.O.V.
Corri o mais rápido que eu pude até a casa de Ellen. Por quê? Queria entender essa história. Iria procurar por aquele livro.
No momento em que pisei no jardim, a casa se separou da floresta, como se fossem duas ilhas flutuantes. Coloquei a mão na maçaneta para abrir a porta, mas Elen o fez antes.
— Ah, oi, Anne! — exclamou ela. — Que estranha essa separação, não acha?
— ELEN!! — gritei.
Cheguei para trás, e quase caí no buraco que havia entre a casa e a floresta.
— Hey, o que houve?
— Você... queria me matar!
— Eu? Matar você?
— Anne! — chamou a voz de Viola atrás de mim.
— Você! Saia daqui! — mandou Elen.
Ela começou a flutuar de novo, vindo lentamente na minha direção. Ao ver que o espaço entre a casa e a floresta estava muito grande, e que não tinha outra opção, entrei na casa.
De repente, me vi em uma sala que parecia ser o sótão. Elen estava à minha frente, e ao meu lado havia várias armas.
— Escolha a sua — disse Elen.
— Pra quê? Eu não quero lutar com você. Eu não vou lutar com você.
— ESCOLHA!
— Tudo bem...
Olhei aquelas armas, e escolhi uma espada.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Você pode escolher mais de uma.
— Tudo bem. Posso me virar com isso.
Mas antes que alguma de nós pudesse fazer alguma coisa, Elen caiu.
— Elen! — exclamei, deixando a espada no chão e correndo até ela.
O brilho de seus olhos falhava. Ela tentava se levantar, mas não conseguia.
Então, estávamos no quarto de Ellen. Viola estava conversando com ela:
— O que você está fazendo? — perguntou Viola.
— Por que você quer saber?
— A Elen estava exatamente assim.
Ellen estava assim como Elen estava antes: flutuando, seus olhos brilhando. Ela parou ao nos ver.
— Ah, Elen, Anne...
Ellen caiu na cama dela. Nós fomos até lá.
— Que houve, Ellen? — perguntei.
— Vocês leram... — respondeu Ellen. Não consegui escutar o final da frase.
— Desculpe, o que disse? — perguntei.
— Vocês leram o meu livro!
— Livro? Que livro? — inquiriu Elen.
— A Viola sabe do que eu estou falando.
— Eu? Quer dizer que aquele livro de histórias antigas...?
— É. Esse.
Ellen fez uma pausa. Depois, continuou:
— Vocês não deveriam ter lido ele.
— Mas ele é só um livro de histórias comum — disse Viola. — Qual seria o problema em lê-lo?
— Você, Viola, seria a reencarnação da garota que sobreviveu. Anne e Elen, as substitutas. E eu...
Ellen olhou para baixo. Seu rosto ficou escuro.
— Sou a quarta.
Dei um passo para trás, mas a porta do quarto se fechou.
— Onde pensa que vai, Anne? — perguntou Ellen.
— E-Eu não vou a lu-lugar ne-nenhum...! — gaguejei.
Ellen's P.O.V.
Ah, minha amigas. Era tão bom vê-las de novo. É uma pena que tenha que matá-las. Elen e Anne são exatamente como minhas antigas amigas, em aparência e personalidade.
Mas para Anne tenho outros planos.
Tinha meio que esquecido dessa profecia. Não sei porquê, fui eu que escrevi. Essa história de jogo, sim, é tudo verdade, Anne não é mais uma doida. Observei ela e sua amiga Elen durante algum tempo, e quando achei que fosse a hora, trouxe elas para cá.
Então, quando Anne entrou pela porta, pensei que ela seria melhor que Viola. Mesmo Viola sendo gentil, Anne era mais inteligente e mais rápida.
Mas Anne gostava mais de Viola. Quem estava sempre comigo era Elen. Por isso, usei ela para fazer Anne ficar mais próxima de mim. Mas acho que acabei assustando ela.
Vou tentar de outra forma.
— E-Eu não vou a lu-lugar ne-nenhum...! — gaguejou Anne.
— Ah, bem — eu disse. — Mas não é com você que eu quero falar agora.
— Então com quem...?
— Elen, venha aqui.
— Pra quê? — perguntou Elen.
— Por favor — eu disse. — Quero te contar uma coisa.
Ela veio até a mim, e eu sussurrei em seu ouvido a palavra "puppet".
— O quê? — indagou Elen. — Mas o que você quer dizer com isso?
Tirei de debaixo do travesseiro uma bonequinha de madeira de Elen, amarrada com linhas. Uma marionete.
— O que você está fazendo comigo, Ellen?! — gritou Elen, agora suspensa por linhas, assim como a marionete.
Fiz ela ir atrás de Anne e Viola. Esse feitiço era bem interessante. Eu conseguia ver o que Elen via, sentir o que ela sentia, ouvir o que ela ouvia. Era quase como se eu fosse ela.
Anne e Viola saíram da mansão. Eu fui atrás delas.
As duas corriam desesperadas pela floresta, como se assim fossem se salvar.
— A floresta é minha. Vocês não podem se esconder — eu disse.
Toquei em Anne. Esta parou de correr, cambaleou e caiu.
— O que foi que você fez com ela?! — indagou Elen, com raiva.
— Nada demais — respondi.
— Anne! — gritou Viola, correndo até ela.
Fiz Elen voltar. Ela estava furiosa.
— Você acha que pode sair me enfeitiçando assim como se eu fosse um... um sei lá o que seu?!
— Eu não acho. Tenho certeza.
— Cadê aquela boneca?
— A sua? Se pensa em destruí-la, vai me poupar do trabalho de matar você. Se as cordas forem cortadas, você morre.
— O quê?!
— Não se preocupe, minha amiga, vou cuidar muito bem da sua boneca.
Elen levou uma de suas mãos ao rosto.
— O que você fez com a Anne? — perguntou, segundos depois.
— Oh, aquilo? Não foi nada. Logo ela estará bem.
Viola's P.O.V.
— Anne! — eu gritava, sacudindo-a.
Parecia que estava desmaiada. Eu estava quase chorando, desesperada. O que Ellen fez com ela?
Levei-a para casa. Estava anoitecendo e meu pai já estava lá.
— Pai! — chamei ao abrir a porta.
— Viola! — disse ele. — O que houve? Está chorando?
Levei Anne para o meu quarto e coloquei-a na minha cama. Voltei para a cozinha, onde o meu pai estava.
— Você estava... arrastando alguma coisa? — perguntou-me.
— Anne... — respondi.
—Ah, Anne, a sua amiga imaginária?
—Ela é de verdade, pai!
— Mas eu não consigo vê-la.
— Deve ter algum feitiço, então, porque eu a vejo muito bem!
— Feitiço? Viola, você sabe que isso não existe.
— Existe sim!
— Só bruxas fazem feitiços.
— E bruxas existem! Eu conhe...
Parei. Não devia ter dito isso. Meu pai sempre me disse para não me afastar muito da vila e não entrar muito na floresta, porque haviam bruxas lá. Ele estava falando da Ellen?
— Você conhece uma bruxa? — questionou meu pai, parecendo assustado.
— N-Não! — menti.
— Para onde você vai todos os dias e por que volta tão tarde para casa?
— Fico brincando com Anne perto da floresta. Acho que acabo me distraindo muito.
Ele não pareceu acreditar muito. Segundos depois, escutei a voz de Anne me chamando.
Rapidamente me levantei da cadeira e corri para o meu quarto.
Anne's P.O.V.
Quando abri os olhos e recuperei os sentidos, sentia uma dor de cabeça horrível.
— Hmm... Viola? — chamei.
Escutei uma cadeira sendo arrastada e alguns passos. Logo depois vi Viola entrando no quarto.
— Você tá bem? — indagou ela.
— Eu... mais ou menos — respondi. — Estou com dor de cabeça.
— Aww!!
Ela me abraçou. Nesse momento, o pai de Viola apareceu na porta do quarto.
— Pai, a Anne está com dor de cabeça — disse Viola.
— Dê um remédio imaginário para ela. Melhor, lance um feitiço nela.
— Isso não é brincadeira, pai! É sério!
Das duas, uma: ou ele me ignorava completamente ou ele não me via, nem ouvia, nem sentia. Ele saiu do quarto.
— Acho que eu vou fazer um chá para você, Anne.
Viola também saiu do quarto.
Naquela noite, tive um pesadelo.
Eu estava andando em um lugar bem escuro, e no final havia a casa da Ellen. Entrei na casa e a porta trancou. Havia uma sala vazia, com apenas uma outra porta à minha frente, na qual eu entrei. Era uma sala cinza, com uma mancha vermelha no chão e um bilhete colado na parede. Contornei a mancha (porque né) e li o bilhete:
"COME TO MY ROOM"
Quando terminei de ler, o bilhete simplesmente se desfez. Voltei para a primeira sala. Olhei em volta e entrei na porta à direita. Havia a mesa com a tesoura em cima, uma estante velha e empoeirada à direita e ao lado da estante, uma porta. Trancada.
— Ah, isso é fácil — eu disse para mim mesma.
Voltei para a sala de onde tinha vindo e entrei na outra porta. Era um corredor estreito, com uma porta à minha frente. Segui pelo corredor, onde no final havia um relógio, e fui pela outra porta. Tinha uma pilha de presentes, uma mesa com um livro em cima e um armário ao lado. Peguei o urso na pilha de presentes e levei-o até a sala com a tesoura. Fiz o que tinha que ser feito.
Contei os passos até o urso gigante aparecer. Quando isso aconteceu, corri de volta para o corredor e fechei a porta. Retornei para o primeiro cômodo.
— Okay, agora... ah, sim.
Fui para a sala com a tesoura, peguei as pernas do urso de pelúcia caídas no chão e me dirigi para a sala de jantar.
— Prove veneno, blá blá blá, cadê a chave?
Depois de ter aberto a porta e subido a escada, percebi que aquele não era o corredor do segundo andar.
Era o corredor do quarto de Ellen.
Com um pouco de medo, prossegui. Ao entrar no quarto, Ellen estava na cama dela, Elen estava amarrada na cadeira com um pano na boca e Viola estava presa em uma jaula ao lado da cama.
— Anne!! — gritou Viola.
— Ora, ora, ora, o que temos aqui? — riu Ellen.
— Por que você está fazendo isso, Ellen? — indaguei, tirando uma espada do nada.
— Hmpf! Você acha que vai me matar com isso? Você sabe como bruxas morrem.
Tudo ficou escuro de repente. Viola estava morta na jaula, seu sangue espalhado pelo chão. Comecei a chorar.
— Aw, boo, hoo, hoo! — brincou Ellen. — Você acha que chorando assim vai resolver alguma coisa?
Ellen começou a controlar Elen com a boneca. Eu comecei a correr, desesperada. Joguei a espada, com o objetivo de cortar as cordas. Fiz isso, mas Elen caiu no chão. Morta.
— O... o quê?
Ellen riu descontroladamente.
Corri mais ainda.
Ela me alcançou.
Acordei gritando. Estava aliviada ao ver que estava no quarto de Viola, deitada na cama ao lado dela.
— Okay, Anne, você está bem, não se preocupe, você está segura, sim, é, segura... As Elen's estão em uma mansão lá no meio da floresta e não podem sair da casa, e Viola nunca faria nada com você, então...
Aí a pessoa acaba de acordar de um pesadelo e vê um vulto na janela. Quase gritei. Joguei a coberta por cima da cabeça, dizendo:
— Não! Não, por favor, me deixe em paz!
A pessoa bateu na janela. Dei uma espiada. Tinha um laço no cabelo, mas era alta demais para ser Ellen.
— Abre essa janela! — era Elen.
— E-Elen?
— Abre logo essa coisa, caramba, tá muito frio aqui!
Me levantei e abri a janela. Elen estava tremendo de frio.
— Nossa, tá frio mesmo — comentei.
— Tive que esperar um tempão até Ellen dormir para poder vir aqui, você não sabe como ela fala! — disse Elen.
— O que você veio fazer aqui, Elen?
— Eu vim dizer pra você não ir mais pra casa da Ellen. Ela quer trocar de corpo com você, Anne.
— Ah, eu devia saber!
— Pelo amor de Deus, me deixa entrar aí.
Elen entrou pela janela e se enrolou na coberta.
— Mas como você sabe disso? — perguntei, curiosa.
— Ela me disse — respondeu Elen — A coisinha não acorda, não?
— Que coisinha? — indaguei.
— A... coisinha.
Ela acenou com a cabeça, indicando a garota ainda dormindo ao nosso lado.
— A Viola? Pff, de jeito nenhum! Só se alguém explodir uma bomba aqui — respondi, fechando a janela.
— E o pai dela?
— Acho que ele não nos escuta. Pelo menos não me escuta. Nem me vê.
— Então ele acha que a Viola fica conversando com o nada?
— Exatamente. Ele acha que eu sou uma amiga imaginária dela.
— Hmm...
— Mas por que Ellen quer trocar de corpo comigo? Logo comigo?
— Ela diz que você é melhor que Viola quando se trata de inteligência. Ela concorda comigo quando eu digo que Viola é lerda e burra.
— Mas não tanto assim, Elen...
— Não tanto assim!? Anne, você admitiu que ela era muito lerda e muito burra!
— Quando que eu disse isso?
— Lá na escola, não lembra?
— Ah, é verdade.
— E aquilo foi pra valer. Nem vem dizer que tava brincando, porque você jurou de dedinho!
— Calma! Eu nem disse nada...
— Anne... você sente falta da sua casa?
— Bem, um pouco. Já estamos aqui há quanto tempo?
— Ah, alguns... dias. Acho que umas duas semanas — disse Elen.
— Mas eu acho que não deve ter passado muito tempo no nosso mundo, né? — falei.
— Por quê?
— Você lembra antes de você vir para cá, que tinha se passado só um minuto desde que eu tinha resolvido ficar aqui?
— Ah, você quer dizer que um minuto lá é um dia aqui?
— Isso mesmo.
— Então... só se passaram uns quinze minutos lá, né?
— Provavelmente, minha mãe ainda deve estar me chamando para almoçar.
— E a minha mãe ainda deve estar lavando a louça.
— Pois é...
— Como você acha que nós vamos voltar?
— Não sei, já procurou em algum livro?
— Não...
— Se é que nós vamos voltar, não é? — eu disse. — Se Ellen não nos matar antes...
— Mais um motivo para você não voltar mais lá.
— Mas como eu vou te ver?
— Eu venho aqui, ou a gente se encontra na floresta.
— Okay.
— Eu tenho que ir agora.
— Por que você não fica?
— Por dois motivos. Primeiro, a Viola tá aqui, e segundo, Ellen vai me procurar quando acordar.
— Saia pela porta, dessa vez.
— Tudo bem.
Elen's P.O.V.
Não sei se foi só pra me contrariar ou se foi obrigada, Anne apareceu lá no outro dia. Estava sozinha.
— Anne? — eu disse, ao abrir a porta e vê-la.
— Saia da frente, Elen — parecia estar irritada.
— Eu não falei pra você ficar lá?
— E daí o que você disse? Anda, sai da minha frente, logo!
Fiz o que ela pediu – melhor, mandou. A segui, cuidando para que não percebesse. Foi até o quarto de Ellen. As duas se abraçaram e começaram a conversar como se fossem grandes amigas.
Acho que isso faz parte do feitiço.
Todos os dias, Anne ia até lá, sempre sozinha, e ficava conversando com Ellen. E eu não podia impedi-la, já que Ellen me ameaçava de morte se o fizesse ou se eu saísse de seu campo de visão, a não ser é claro se fosse para cumprir uma ordem sua. Se eu desobedecesse qualquer regra sua ou negasse cumprir uma ordem, ela dizia que me faria cometer suicídio. Resumindo, estava sem saída.
Ellen's P.O.V.
Elen acha que eu não percebi que ela saiu?
Está muito enganada.
Oh, e Anne? Bem, ela sob o meu feitiço. Talvez até se torne uma bruxa, também.
Certo dia, Anne estava me visitando como fazia todos os dias, e Viola veio com ela. Por quê!? Mandei Elen prendê-la em uma das celas. Decido o que fazer com ela depois.
— Você não sabe o que está fazendo, Ellen — disse Elen, enquanto Viola tentava se libertar.
— Ah é, não sei? — indaguei. — Você é que não sabe o que está fazendo, mocinha!
— Mas eu... — começou Elen.
— Elen, me solta! — gritou Viola.
— Cala a boca e obedece! — ordenei.
As duas saíram do meu campo de visão.
— Então, Anne, sobre o que estávamos falando?
Eu não tinha percebido antes, mas Anne não estava mais no quarto.
— Anne! — chamei.
Não obtive resposta.
Usei minha magia para ver o que estava acontecendo. Oh, não! Elen deixou Viola escapar com Anne! Eu não posso deixar isso acontecer, não mesmo!
Peguei a boneca de Elen e usei-a para perseguir as duas. Espere um segundo... Como isso é possível?! Anne e Viola estão se abraçando!! Mas... o feitiço... argh!
Consegui fazer com que as duas se separassem e que Anne voltasse ao meu quarto.
— Ellen, pare com isso! — gritou Anne. — Eu nunca vou trocar de corpo com você, nunca!
— Trocar de corpo? — perguntei. — Mas quem disse isso?
Elen – já fora do feitiço – fazia um sinal para Anne mudar de assunto.
— Hmm, interessante... — eu disse, olhando curiosamente para Elen. — Elen, minha querida amiga, você não tem visitado certas pessoinhas sem a minha autorização?
— Eu! — exclamou Elen. — Eu não visitei ninguém! Eu juro!
— M-hm...
— Ellen, eu... — Elen tentou falar.
— Nenhuma palavra — mandei. — Fique quieta no seu canto sem dizer mais nada a não ser que eu te dê uma ordem.
— Mas...
— Calada, mocinha!
Elen suspirou, cruzou os braços e encostou na parede. A porta se abriu de súbito, e eu nunca tive tanta raiva em ver aquela garota loira dos olhos verdes na minha frente.
— O que você está fazendo com a minha amiga, Ellen? — perguntou Viola.
— Estávamos tendo uma conversa amigável até você chegar — respondi, com um sorriso.
— Você não vai enfeitiçar a Anne de novo!
— Ah, finalmente você raciocinou!
— Você está me chamando de burra?
— Não, não estou te chamando de burra. Estou te chamando de burra E lerda.
— Hey, Ellen, Viola! — interrompeu Anne. — Parem de brigar por uma idiotice!
— Idiotice?! — gritou Viola, virando-se para Anne. — Ela está me chamando de burra e lerda!
— E coloca lerda nisso — comentou Elen.
— Anne, eu sou lerda? — inquiriu Viola.
— Bom, é — respondeu Anne. — Um pouquinho assim...
— Um pouco!? — exclamou Elen. — Anne, você admitiu que ela era muito lerda!!
— Você admitiu o quê? — questionou Viola.
— Eu! Eu não admiti nada! — negou Anne.
— Que feio, Anne, mentindo pra Viola... — riu Elen. — Você não deve mentir para as pessoas que você gosta. Nem pra ninguém.
— Olha quem fala! — exclamou Anne.
— VOCÊ TÁ ME CHAMANDO DE MENTIROSA?! — berrou Elen.
— Imagina! Você não visitou uma "certa pessoinha" e acabou de jurar para a bruxinha aqui que não foi?
— A-Ah, mas isso... isso já tem tempo!
— Okay, okay, Viola é sim, muito lerda, mas e daí? — gritou Anne.
— Anne! — exclamou Viola.
— Desculpe, Viola, mas eu gosto de você mesmo assim, okay? — desculpou-se Anne.
— Mas não foi só isso que você admitiu não, Anne! — disse Elen. — Explica a história toda pra garota!
Queria ver onde essa treta ia dar, mas tinha outras coisas mais importantes a fazer.
— Okay, esquece isso — eu disse. — Vamos para a sala de jantar.
— Sala de... jantar? — quis saber Anne.
— É. Vamos logo.
Me levantei da cama e fui com elas para a sala de jantar. Chegando lá, cada uma sentou em uma ponta da mesa. Anne à minha frente, Elen à minha direita e Viola à esquerda. Curiosamente, Elen olhava para baixo.
— Que é que foi? — perguntou Viola. — Por que chamou a gente aqui?
— Fique quieta, Viola! — exclamei. — Elen, o que você está fazendo?
— Eu? — perguntou Elen. — Nada!
— É claro que está fazendo alguma coisa! — gritei. — Ninguém fica olhando pra baixo que nem um retardado por nada!
— Só estou... olhando o gato debaixo da mesa...
Nesse momento, o gato preto entrou miando na sala.
— Esse gato? — inquiri.
Elen não respondeu.
— Prenda-as, Elen — ordenei.
— Não — negou Elen.
— O que disse?
— Disse que não.
Ouvi a porta bater. Quando olhei, Viola havia sumido e Anne estava prestes a sair da sala. Paralisei-a com um feitiço.
— Onde você pensa que vai? — questionei, trazendo-a de volta à cadeira.
— Ellen, por favor, me deixe ir! — implorou Anne.
— Elen, prenda-a, agora! — exclamei.
Ela se levantou, colocando um livro sobre a mesa. Apontou sua mão para mim, como se fosse lançar um feitiço.
— Desculpe, Ellen — disse Elen. — Mas eu tenho que fazer isso. Expentus Tormenactum!
No momento em que ela lançou o feitiço, o gato pulou e direcionou o braço de Elen para Anne, desviando o feitiço para ela. Mas o que era pra acontecer, não aconteceu.
Anne praticamente pulou da cadeira e correu na velocidade da luz para fora da sala.
— Elen! — gritei.
— Não era pra acontecer isso!
— Eu sei que não era! Argh! Deveria ter feito o feitiço eu mesma!
Você provavelmente não está entendendo nada, então eu vou explicar. Há dois feitiços, muito parecidos: um se chama Expentus Tormenactum, que deixa a pessoa mais rápida, e o outro é Expentus Tomenactum, que prende a pessoa em uma bolha.
E Elen usou logo o feitiço errado.
— Se você quer que eu continue sendo sua amiga, Ellen, então pare de me dar ordens.
— Mas...
— Você não nos trouxe para cá para nos matar? Por que não faz isso logo, ao invés de nos fazer sofrer?
— Cale a boca!
Elen correu, e eu fui atrás dela. Quando ela abriu a porta para sair da casa, parou. Estava presa por uma barreira.
— O quê...?
— Você é uma bruxa agora, Elen. Não pode deixar a casa.
— O que você vai fazer comigo? Vai me matar, é?
Hesitei.
— Não. Não quero mais matar vocês. Desisto disso. Eu não quero que vocês me abandonem, e se eu matasse vocês, estaria forçando vocês a fazer isso.
— Ellen...
— Você quer ir embora?
Desfiz a barreira.
— Então vá. Me abandone, Elen. Faça como meus pais. Mas... creio que você saiba o que aconteceu com eles.
Elen ficou sem reação.
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