Apenas uma Fic
4 The Cure
Notas iniciais
— Ellen... tem uma certa coisa que eu quero te contar já faz alguns dias... — disse Elen.
— Eu não quero ouvir — eu disse, me virando.
— Mas...
— Anda, pare de enrolar! Ou sai, ou fica. De qualquer maneira, eu não quero falar com você.
Viola's P.O.V.
Estava correndo desesperadamente pela floresta, crente que Anne estava logo atrás de mim. Segundos depois de perceber que isso não era verdade, algo me segurou pela mão e praticamente me arrastou para frente. Era ela.
— Anne! — exclamei. — De onde você veio!?
— Do além.
— Huh?
— Depois eu explico.
Quando saímos da floresta, Anne praticamente se jogou no chão de tão cansada que estava. Me abaixei ao lado dela.
— Como ficou tão rápida? — questionei.
— Foi um... feitiço — respondeu ela, ofegante.
— Você tá bem?
— Não... tô... não sei. E você?
— Melhor com você aqui.
Ela sorriu.
— O que Ellen fez com você? — ela quis saber.
— Ela me trancou em uma sala, mas eu consegui escapar. E que história é essa de você ter admitido que eu sou burra e lerda?
— Ah, foi a Elen que me obrigou a fazer isso, tá? E eu não quero falar sobre isso.
— Anne!
— Você não vai acreditar em mim, não vai nem entender nada. Você pode até achar que eu não sou nada além de mais uma doida, mas tudo o que eu digo é verdade.
— Eu acredito em você, Anne.
— M-hm, tá bom.
— Hey, não me olha com essa cara! Anda, fala!
Anne suspirou. Me contou uma história super louca cheia de feitiços, almas e demônios.
— E no final Ellen troca de corpo com você, e por causa disso seu pai te confunde com ela e te mata — concluiu ela.
— Que horror! — exclamei.
— Pois é, essa é a história real do jogo. Você é burra porque deixou Ellen trocar de corpo com você.
— E lerda por quê?
— Porque eu nunca vi uma personagem mais lerda pra andar como a sua, meu Deus! Não tem quem aguente! A Ellen no seu corpo deve ter ficado tipo, "nossa, esse ataque não foi muito efetivo, teria sido melhor me arrastar sem as pernas."
— Ah...
— Mas eu não ligo pra isso, e nem você deveria. Você é a burra lerda mais adorável que eu já conheci.
Sorri. Deitei na grama também.
— Você percebeu que Elen está sempre tentando falar alguma coisa? — questionei.
— Qual das duas? — quis saber Anne.
— A sua amiga.
— Ah, sim. Percebi.
— O que você acha que ela está tentando dizer?
— Talvez... seja alguma coisa sobre a doença da Ellen. Uma forma da doença avançar mais lentamente...
— Ou até uma cura.
— Uma cura! É isso!
Anne sentou-se, animada. Fiz o mesmo.
— Viola, você é um gênio! — exclamou ela, me abraçando.
— Ué, mas eu não era burra?
— Ah, dane-se a lógica! Anda, vamos, temos que arrumar uma maneira de falar com a Elen antes que seja tarde!
Elen's P.O.V.
Tive que pensar em alguma coisa para sair daquela situação. Resolvi ficar, pois tinha que contar à Ellen que eu sabia a cura para a doença dela. Como eu descobri? Bom, havia um livro na biblioteca que falava sobre rituais e feitiços que Ellen me disse que nunca tinha visto. Não consegui mostrar tudo a ela, porque o gato interrompeu. Depois disso ele ficou me vigiando para ter certeza de que eu não falar com Ellen sobre o livro novamente.
Acho que esse gato não quer que Ellen seja curada dessa doença, mas por quê? Vou falar com Anne sobre isso.
Mas como eu vou falar com ela?
Algum tempo depois disso, fui até o quarto de Ellen para ver se ela já estava mais calma. Cheguei lá e aquele gato estava em cima da cama conversando com ela.
— Se eu fosse você, Ellen, não confiava mais nela — disse o gato.
— Mas você não sou eu, e você não pode mandar em mim — disse Ellen.
— Acho melhor você não falar assim comigo — respondeu o gato. — Você não é nada sem mim. Se não fosse por mim, você nem estaria aqui. Estaria morta lá, naquele monte de lixo. Naquele beco sujo que você chamava de casa.
— Mas se não fosse por mim, você ainda estaria a procura de almas.
— Pff! Eu poderia conseguir algumas em qualquer lugar.
— Então o que você quer que eu faça?
— Não confie mais na Elen.
— Mas por quê?
— Você quer o feitiço pra sua doença ou não? Só faltam mais algumas almas. Faça o que eu digo e você vai se dar bem, acredite em mim.
— Tudo bem, gato, mas me deixe em paz, por favor.
Ellen virou-se para o lado. O gato sumiu com uma fumaça roxa e eu entrei no quarto.
— Oi, Ellen — eu disse, fechando a porta atrás de mim.
— Oi — respondeu ela, sem olhar pra mim.
— Monossilábica, não é?
Sentei-me na cadeira.
— Eu ouvi o que o gato disse.
— Sério?
— M-hm.
— O que eu faço, Elen? Eu não sei em quem confiar!
— Confie em mim, Ellen.
— Por que eu deveria?
— Porque eu sei a cura para a sua doença.
Ellen olhou para mim, surpresa.
— S-Sério...? Sério mesmo!? — indagou ela.
— Mesmo.
— Mas isso é impossível! Só existe uma cura para a minha doença, e o gato vai...
— Não, o feitiço de troca de corpo não é uma cura. Você vai se livrar da doença, mas alguém vai ter que continuar sofrendo por você. O gato não quer que você se cure, ele só quer mais almas.
— Me conte o que você sabe. Tudo.
— É um feitiço, e nós vamos precisar de mais pessoas. Eu não me lembro dos detalhes, então... vou pegar o livro, okay?
— Okay.
Saí do quarto e fui à biblioteca, procurar o livro. Procurei em tudo quanto é canto, até que...
— Procurando alguma coisa? — disse uma voz conhecida.
Me virei para trás e vi o gato preto, em cima do livro de capa roxa que eu tanto procurava.
— Me dê esse livro, gato — ordenei. — Agora.
— Por que eu deveria? — miou o gato.
— Ora, porque eu preciso dele!!
— Hmm, eu acho que não.
— Você não quer que Ellen seja curada, não é?
— Eu?! Claro que eu quero! Tudo o que eu preciso é ver minha bruxinha feliz.
— Sua bruxinha? Você só quer satisfazer sua fome insaciável de almas, e dane-se quem vai morrer no processo!
— Muito espertinha, você. Sabe, se Ellen for curada da doença dela, ela não vai precisar mais de mim. Ou seja, não vou ter mais almas.
— Ah, tava na cara, né! Você quer que eu te mate?
— Fique à vontade.
Ele desapareceu e surgiu bem atrás de mim. Dei um chute nele e ele foi parar do outro lado da biblioteca, e eu peguei o livro. Antes de eu conseguir sair, o gato apareceu na minha frente e começou a arranhar meu rosto, e eu acabei soltando o objeto. Tirei o bicho do meu rosto e joguei-o na parede, mas quando fui pegar o livro, ele não estava mais lá.
— Olhe aqui, idiota! — gritou o gato.
Ele estava em cima de uma das estantes, com o livro. Corri o mais rápido que pude para recuperá-lo, mas era quase impossível. O gato conseguia se teleportar com o objeto.
— VOLTA AQUI! — gritei.
Enquanto eu corria atrás dele e ele teleportava sem parar, Ellen entrou na biblioteca.
— O que vocês estão fazendo!? — indagou ela. — Parem, agora!
Parei de correr e o gato parou de teleportar.
— Ele não quer me dar o livro! — gritei em resposta.
— Ela quer me matar! — exclamou o gato.
Ellen suspirou.
— Deixe ela pegar o livro — disse ela.
— Não — negou o gato.
Aproveitando que o gato estava prestando atenção em Ellen, chutei-o e peguei o livro.
— Ótimo, Elen — disse Ellen. — Vamos.
Saí da biblioteca. Depois de um tempo, perguntei:
— Ele morreu?
— Nah — respondeu Ellen. — Se tiver, ele vai arrumar outro corpo. Logo ele vai estar aí pertubando a gente de novo. Agora, deixe-me ver esse livro.
Entreguei o livro para ela. Ela folheou-o, procurando o feitiço que eu tinha falado.
— É esse aqui — eu disse, quando ela chegou na página.
— Hmm, interessante... — comentou a bruxinha.
Chegamos no quarto dela. Ela sentou na cama e eu na cadeira.
— Vamos precisar de mais duas pessoas, certo? — inquiriu Ellen.
— Vamos — repliquei.
Ela leu tudo, viu as imagens e tudo mais.
— Acha que vai dar certo? — perguntou.
— Não tenho certeza, mas nós temos que tentar. Vamos torcer pra que dê certo.
Anne's P.O.V.
— Mas, Anne, como nós vamos entrar?
Estávamos Viola e eu no meio da floresta pensando em uma maneira de entrar na casa sem que Ellen viesse com uma faquinha ou com um feitiço pra arrancar nossos fígados.
— Eu não sei, mas nós temos que tentar — respondi.
Ouvimos um miau. O gato preto estava bem na nossa frente.
— Oi, gato! — exclamei.
— Vocês não podem entrar na casa — disse ele.
— Por quê? — questionou Viola.
— Porque a Ellen está com muita raiva de vocês terem fugido, e agora quer matar vocês.
— Mas ela já não queria? — eu quis saber.
— Mas agora ela quer mais ainda — respondeu o gato.
— E você não está do lado dela? — perguntei.
— E-Eu est- ava... mas eu quero proteger vocês agora, então...
— Você parece nervoso — comentou Viola.
— Sabe o que é, é que... eu estava correndo de Ellen, pra ela não me pegar.
— M-hm, tá bom. Você parece muito cansado, realmente — ironizei.
— Ela quase me matou!
— Ah, tá certo. Vamos, Viola.
— E-Esperem! Pra onde vocês vão!?
— Pra casa da Ellen.
— Mas ela vai matar vocês!
— Não vai, não.
— Claro que vai!
— Claro que não. Você está mentindo.
— Não estou!
— É impossível você ter quase morrido. Você não morre.
— Como você...
— Sabe, gato, eu sei muita coisa que você não sabe que eu sei. E, se não se importa, nós vamos indo. Bye!
Peguei a mão de Viola e continuamos seguindo em frente, escutando o "esperem!" do gato.
— Tem certeza que ele estava mentindo? — perguntou Viola.
— Tenho. Você mesma achou que ele parecia nervoso — respondi. — E... pensando melhor, por que Ellen iria querer matar a gente? Assim, claro, tinha a profecia, mas tudo o que ela mais quer na vida dela é ser amada por alguém. Entende?
— Entendo. Então não faz muito sentido ela querer matar a gente, né?
— Exatamente.
Seguimos nosso caminho balançando as mãos dadas, até que chegamos na casa. Antes de eu abrir a porta, alguém o fez antes:
— Ah, são vocês! — era Elen. — Eu já estava indo chamar vocês! Venham, entrem rápido, antes que o gato apareça.
Nós entramos e seguimos ela.
— A gente encontrou com ele na floresta — disse Viola. — Ele disse que a Ellen queria nos matar.
— Matar vocês? Ha! Essa é a última coisa que ela quer fazer agora. Ela tinha até me pedido para ir chamar vocês, já que ela não pode sair...
— Mas por que o gato não queria que a gente viesse? — perguntei.
— Ele não quer que Ellen seja curada da doença dela. Ele quer que ela troque de corpo com alguém.
— E você sabe a cura? — inquiri.
— Sei.
— E por que ele não quer que ela seja curada?
— Porque assim ela não vai precisar mais dele. Se ela for curada, ela não vai precisar do feitiço de troca de corpo para sobreviver, então ele não vai ter mais almas.
— Mas ele não pode arrumar uma outra bruxa para dar almas para ele?
— Claro que pode, mas ele é um gato, a preguiça domina aquele bicho. Aqui, chegamos.
Entramos no quarto de Ellen. Diferente do habitual, Ellen estava agitada, andando em círculos pelo quarto. Segurava um enorme livro roxo.
— Ellen — chamou Elen. — Elas chegaram.
— Ah, ótimo! — exclamou Ellen. — Já podemos começar.
— Começar com o quê? — quis saber Viola.
— Nós precisamos de vocês para fazer o feitiço — replicou Elen.
— Vamos todas para a sala de feitiços — disse Ellen.
— E tem sala de feitiços? — perguntei.
— Agora tem — riu Ellen. — Acabei de criar.
Essa tal sala de feitiços ficava no sótão. Era cheia de prateleiras com ingredientes em potes e frascos e havia um caldeirão com água. Na frente do caldeirão havia um suporte para livros.
— Vamos começar — disse Ellen. — Alguém pode acender o fogo pra mim, por favor? Ah, e um banquinho também seria interessante, esse caldeirão é muito alto.
Mesmo tendo vivido mais de cem anos, Ellen ainda tinha o corpo de uma criança de 7 anos e tinha medo de mexer com fogo.
Eu peguei o banquinho e Elen se encarregou do fogo – porque mesmo com 13 anos eu tenho medo de acender um fósforo.
Ellen colocou o livro no suporte e deu uma boa lida nele. Depois, correu para a prateleira mais próxima e pegou um pote com um pó alaranjado brilhante. Adicionou um tanto no caldeirão, e depois disse:
— Vamos precisar de alguns ingredientes que não estão aqui na sala.
— Tipo o quê? — perguntou Viola.
— Algo que tenha valor sentimental para a pessoa que vai ser curada, ou seja, pra mim — replicou Ellen.
— E o que seria essa coisa? — inquiriu Elen.
— Hmm... os sapatos da minha mãe. Sabem quais são?
— Eu sei — respondi.
— Sabe onde estão?
— M-hm.
— Ótimo. Pode ir lá buscá-los, por favor?
— Tudo bem.
— Viola, você vai buscar uma outra coisa...
Não ouvi o resto da conversa, porque eu queria pegar logo os sapatos. Desci as escadas e procurei pelo jardim. Chegando lá, entrei na porta à direita: a prisão. Em uma das celas, vi os sapatos vermelhos de sangue. Peguei-os e levei-os para Ellen.
— Ótimo, Anne — agradeceu Ellen, pegando os sapatos. — Obrigada.
— De nada. E agora? — perguntei.
— Viola já está trazendo o pelo de gato.
— Você mandou ela ver o gato?
— Não necessariamente. Há pelo de gato espalhado pela casa toda.
— Ah, sim. Entendi.
Ela colocou os sapatos dentro do caldeirão. A poção, que antes estava amarela, ficou vermelha. Logo Viola entrou na sala com um frasquinho cheio de pelos pretos.
— Aqui, Ellen — disse ela. — Consegui pegar alguns.
— Obrigada, Viola.
A poção ficou com um tom avermelhado mais escuro.
— Acho que já colocamos tudo, Ellen — disse Elen.
— Só falta uma última coisa... — disse Ellen.
— O quê? — perguntou Viola, curiosa.
— O sangue de vocês. Não é muito, não se desesperem.
— Okay, quanto? — perguntei.
— Uma gota é o bastante.
Ellen pegou um alfinete e furou a ponta do meu dedo. Doeu um pouco (ah, não, jura?).
Depois de ter pego o sangue de todas, até o de si mesma, ela consultou o livro.
— Agora, eu tenho que beber a poção, e nós vamos derramar o resto no chão, formando esse desenho.
Olhei o livro. Ele mostrava um desenho de um círculo com um "X" no meio. Ellen pegou um béquer e encheu-o com a poção. Bebeu o conteúdo como se fosse água.
Empurramos o caldeirão para um canto da sala. Depois de alguns momentos, o chão estava brilhando com a cor avermelhada da poção. Ellen disse para cada uma sentar em uma ponta do "X", mas sem entrar no círculo.
— Aqui diz que qualquer coisa que entrar no círculo na hora do feitiço, vai se desintegrar — explicou ela.
Nós fizemos o que ela disse, tendo certeza de que estávamos o mais longe possível do círculo.
— Agora, vocês vão repetir tudo o que eu disser — disse Ellen. Ela era a única dentro do círculo.
Então, ela disse algumas coisas, mais ou menos assim:
— Com esse feitiço, nós invocamos os poderes dos ancestrais, para curar a doença da bruxa Ellen, cujo corpo agora está dentro do círculo. Nada além da bruxa deve permanecer dentro do círculo. Corpos sólidos se desintegrarão e almas irão para outra dimensão. Com essas palavras, nós iniciamos o feitiço, e fazemos com que Ellen, a bruxa, seja curada da doença!
Quando nós terminamos de falar, o corpo de Ellen começou a flutuar, e o desenho feito no chão começou a brilhar com uma luz amarela. Essa luz envolveu o corpo dela, fazendo com que ventasse um pouco dentro da sala.
Tive a estranha sensação de estar sendo observada. Olhei para trás.
O gato preto de olhos amarelos estava na entrada da sala, balançando sua cauda. Talvez tivesse a intenção de interromper o feitiço.
— Não... Não! — gritei.
O gato correu e praticamente voou na direção do corpo da Ellen.
— Não dessa vez, gato! — exclamei.
Peguei o bicho, que começou a fazer aquele barulho estranho de gato e me arranhou toda, se debatendo e contorcendo o corpo para se libertar.
Sem pensar muito, taquei o gato dentro do círculo.
O corpo dele se desintegrou, virando um tipo de pó amarelo. O demônio que possuía o corpo do gato berrou e foi sugado para dentro dum portal que se abriu no chão, que momentos depois se fechou.
Houve uma explosão que sacudiu os frascos nas prateleiras e quase caíram no chão. Tentei ao máximo me segurar nas tábuas do chão para não ser empurrada contra a parede. Poeira se espalhou pela sala.
Ellen's P.O.V.
Abri os olhos lentamente. Estava deitada no chão. Havia muita poeira em volta, o que me fez tossir um pouco. Me levantei e olhei em volta.
— D-Deu certo? — perguntou Anne.
— Temos que ir lá fora para ver — eu disse, animada.
Corri para fora do sótão, com minhas amigas logo atrás de mim. Cheguei na porta da frente.
— Vocês acham que eu devo ir? — perguntei.
— Vai lá, Ellen — disse Elen.
Dei um passo a frente, pisando na grama. Nada aconteceu.
Sorri. Corri pelo jardim como uma criança faria. Estava tão feliz! Nunca tinha me sentido tão feliz assim antes! Estava livre, sem dores, podia correr sem me preocupar com nada.
— Ela parece tão feliz — disse Viola.
— Bom, e ela está, não está? — disse Anne. — Pode correr e andar sem sentir dores. Ela é uma criança livre, agora.
— Porque, afinal, ela não teve infância, né? — disse Elen. — A vida toda dela ela passou presa na casa, porque não podia sair.
Corri para abraçá-las.
— Obrigada, obrigada, obrigadaa! — exclamei.
— Ah, Ellen, não foi nada! — disse Elen, retribuindo o abraço.
— Nós somos suas amigas, Ellen — disse Anne.
— E o que nós não fazemos por um amigo? — disse Viola.
— Você está chorando? — perguntou Elen.
— Sim — respondi, enxugando as lágrimas. — Estou feliz demais, vocês não fazem ideia! O que eu posso fazer para agradecer?
— Não pense nisso agora, okay? — disse Elen.
— Vai se divertir — disse Viola.
— Tudo bem — eu disse, soltando-as.
Voltei a correr.
Viola's P.O.V.
Era legal ver Ellen se divertindo. Ela não teve infância, como eu fiquei sabendo. Ela corria, brincava com os animais, subia em árvores... Enfim, tudo o que uma criança da idade dela faria num lugar como aquele. Enquanto isso, Anne, Elen e eu estávamos conversando.
— Vocês sabem onde está o gato? — inquiri.
— Ah, ele não vai aparecer por aqui — replicou Anne. — Por muito tempo.
— O que você quer dizer? — perguntou Elen.
— Na hora em que o feitiço começou a fazer efeito, o gato tentou pular dentro do círculo, provavelmente tentando interromper o feitiço, mas eu o segurei. Tá vendo isso aqui?
Anne apontou para as várias marcas de garras em seus braços.
— Esse foi o último feito dele — continuou ela. — Eu acabei desistindo de segurar aquela desgraça e o joguei no círculo, e quase que minha mão foi junto. E... vocês devem imaginar o que aconteceu, né?
— Ele se desintegrou? — perguntei.
— Bem, é — respondeu Elen. — Era isso que dizia o livro. Vem cá, isso aí não tá doendo, não?
— Isso aqui? — indagou Anne, mostrando os braços. — Claro que tá. Tá ardendo mais que aquele dia que eu coloquei o dedo no ferro.
— Você já colocou o dedo no ferro? — riu Elen.
— Eu queria saber se era quente mesmo... — falou.
— Depois eu que sou a burra — comentei.
Elen e eu rimos.
— Hey! Eu era criança, tá? — retrucou Anne.
— Você devia ser uma criança terrível — disse Elen.
— Eu não era! — reclamou Anne.
— Tá bom, não era — falou Elen. — Mas e o demônio que possuía o corpo do gato? O que aconteceu com ele?
— Acho que ele era considerado como uma alma — disse Anne. — Aí, apareceu um portal e ele, voosh! Sumiu.
— Então ele foi... pra uma outra dimensão? — eu quis saber.
— Sim — respondeu Anne.
— Mas ele não conhecia o feitiço? — perguntou Elen.
— Provavelmente não, né? — respondeu Anne. — Ele não ia fazer a burrada de pra pular dentro do círculo se ele soubesse que ia para outra dimensão.
Já estava começando a escurecer.
— Anne, acho melhor voltarmos para casa — cochichei para ela.
— Ah, okay. Tem razão — respondeu ela.
Nos despedimos das meninas e fomos andando pela floresta.
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