A sala de audiências estava cheia naquela manhã. As vozes do público murmuravam baixinho enquanto eu revisava os documentos à minha frente. O caso em julgamento envolvia uma disputa acirrada entre dois empresários locais sobre a violação de um contrato milionário. A tensão no ambiente era evidente, e ambas as partes contavam com advogados habilidosos que haviam apresentado argumentos fortes.

— Ordem no tribunal — anunciei, batendo o martelo levemente na bancada, silenciando os murmúrios.

Os advogados fizeram suas alegações finais. O advogado do autor argumentou que a quebra de contrato havia causado danos irreparáveis ao seu cliente, enquanto o advogado da defesa insistia que suas ações estavam de acordo com cláusulas contratuais específicas.

Inclinei-me para frente, unindo as mãos sobre a bancada.

— Após revisar cuidadosamente as provas e ouvir os argumentos de ambas as partes, este tribunal conclui que houve uma violação clara do contrato. A defesa não apresentou justificativas suficientes para suas ações, corroborando a posição do autor. Assim, determino que o réu pague uma indenização de 2 milhões de dólares ao autor.

Com uma batida final do martelo, finalizei:

— Caso encerrado.

Levantei-me, ajustando o terno, enquanto os murmúrios voltavam à sala. Minha assistente, senhorita Molly, aguardava do lado de fora com uma pasta em mãos.

— Boa decisão, Meritíssimo — ela comentou enquanto me acompanhava pelo corredor até o meu escritório.

— Obrigado, Molly — respondi, entrando na sala e sentando-me na cadeira.

Ela entregou um documento com uma expressão neutra. Assim que li, minha expressão ficou séria.

— Richard Hale… — murmurei, analisando o pedido.

Era uma solicitação de liberdade condicional para Richard Hale, um criminoso que eu havia sentenciado anos atrás por homicídio e extorsão. Agora, queriam que ele fosse solto por bom comportamento.

Fechei o documento com firmeza.

— Molly, esse homem é perigoso. Ele pode ter mostrado bom comportamento na prisão, mas isso não apaga os crimes brutais que cometeu.

Peguei a caneta e, sem hesitar, escrevi "negado" na seção apropriada antes de assinar meu nome. Entreguei o papel a Molly.

— Despache isso imediatamente. Ele não está pronto para voltar à sociedade.

Molly assentiu e saiu rapidamente, deixando-me sozinho na sala. Respirei fundo, tentando conter a raiva e a frustração. Richard Hale era um lembrete constante do peso da justiça e da responsabilidade que ela carrega.

Olhei pela janela por um momento, observando o céu cinzento lá fora. Dias como aquele eram difíceis, mas sabia que eram necessários para proteger aqueles que dependem do sistema judicial.

Já era noite quando deixei o tribunal. O cansaço da longa jornada do dia parecia pesar em meus ombros enquanto atravessava o estacionamento em direção ao carro. Peguei o celular para checar as mensagens, e lá estavam várias notificações de Renata:

"Jacob, não esqueça do jantar com meus pais às 19h!"

"Já estamos te esperando."

"Jacob, tudo bem? Já são 19h30."

Suspirei, passando a mão pelo rosto. Eu havia esquecido completamente do jantar. Antes que pudesse ligar para ela, meu telefone tocou. O nome da minha irmã, Rachel, apareceu na tela.

— Rachel? — atendi, tentando manter o tom neutro. — O que foi?

— Jacob, precisamos conversar — ela disse, com um tom de urgência na voz que imediatamente me deixou em alerta.

— Sobre o quê? Estou a caminho da casa dos pais da Renata, tenho um jantar...

— Não pode esperar, Jake. É sério.

Hesitei por um momento, sentindo o peso das palavras dela. Rachel raramente ligava com esse tom.

— Está bem. Onde você está? — perguntei, já aceitando que meu compromisso com Renata teria que ser adiado.

— Eu posso te encontrar no... — ela parou por um segundo, pensando. — No café da esquina do Westlake Park.

Olhei o relógio no painel do carro.

— Me dá uma hora. Estarei lá — respondi.

— Certo. E, Jake... obrigada.

Desliguei a ligação e imediatamente enviei uma mensagem a Renata:

"Desculpa, Renata. Um imprevisto no tribunal. Não vou conseguir ir ao jantar hoje. Prometo compensar."

Guardei o celular no bolso, liguei o motor do carro e me dirigi ao local combinado. Enquanto dirigia pelas ruas movimentadas de Seattle, uma sensação incômoda me tomou. Rachel raramente pedia algo assim, e o tom dela indicava que não era algo trivial. Eu só podia esperar que fosse algo que eu pudesse resolver.

Saí do estacionamento do tribunal e segui pela 5th Avenue, mergulhando no coração movimentado de Seattle. O céu noturno estava claro, as luzes da cidade refletiam nos prédios de vidro enquanto eu avançava em direção ao Westlake Park. Peguei a Stewart Street, onde o tráfego diminuía um pouco, e virei à direita na 4th Avenue. A poucos quarteirões do parque, meu celular começou a tocar, o nome de Renata brilhando na tela. Com um suspiro, ativei o viva-voz e atendi.

— Renata.

— Jacob, você tem ideia de como isso me faz parecer? — A voz dela era um misto de raiva e decepção. — Você sabia o quanto esse jantar era importante pra mim.

— Renata, eu sei, e sinto muito. Mas surgiu algo urgente.

— Sempre surge algo, Jacob! Meu pai estava animado para conhecê-lo melhor, minha mãe preparou tudo... e você simplesmente cancela de última hora?

Tentei manter a calma.

— Não foi minha intenção, Renata. Minha irmã precisa de mim. É algo sério.

Ela bufou do outro lado da linha.

— Claro, porque tudo e todos vêm antes de mim.

— Não é isso, Renata. Só...

— Esquece, Jacob. Aproveite sua urgência.

A linha ficou muda antes que eu pudesse responder. Suspirei, apertando o volante com força. Sabia que teria que resolver isso mais tarde, mas agora minha prioridade era Rachel.

Estacionei perto do Westlake Park e entrei no pequeno café na esquina. Rachel estava sentada em uma mesa próxima à janela, as mãos entrelaçadas em um gesto nervoso. Quando me viu, fez sinal para que eu me aproximasse.

— O que foi tão urgente, Rachel? — perguntei enquanto puxava a cadeira e me sentava.

Ela respirou fundo, os olhos brilhando de ansiedade.

— Jake, preciso que você mantenha a calma.

— Rachel, sem rodeios. O que está acontecendo?

Ela hesitou por um momento, e então as palavras saíram com firmeza:

— Renesmee está de volta.

Meu coração quase parou.

— O quê? — perguntei, minha voz um sussurro rouco.

— Ela voltou. Está em Seattle.

Rachel ajeitou-se na cadeira, os dedos tamborilando nervosamente na borda do copo de água à sua frente.

— Fui ao The Fairmont Olympic Hotel hoje a tarde para atender um cliente, algo sobre assessoria jurídica. Quando terminei a reunião, dei de cara com ela no saguão, Jake. Era a Renesmee.

Meu coração disparou no mesmo instante, mas fiz o possível para parecer indiferente. Me limitei a encará-la enquanto absorvia a informação, tentando manter a voz controlada.

— E o que você quer que eu faça com isso, Rachel?

Ela franziu o cenho, irritada com minha postura.

— Estou te avisando porque achei que deveria saber. Não quero que você seja pego de surpresa se acabar esbarrando nela por aí.

Chamei o garçom e pedi um uísque, sentindo que precisava de algo para me acalmar. Quando ele trouxe o copo, tomei um longo gole antes de responder, com um tom casual que eu esperava soar convincente.

— Achei que era algo importante.

Rachel arregalou os olhos, incrédula.

— Isso é importante, Jacob!

Coloquei o copo na mesa com mais força do que pretendia, encarando-a.

— Você me fez largar minha noiva esperando por mim num jantar com os pais dela... por causa de uma fofoca?

— Isso não é fofoca, Jake! — Ela se inclinou para frente, a voz baixa, mas firme. — Você pode fingir que não se importa, mas eu sei que isso te afeta.

Minha mandíbula se contraiu, mas não respondi de imediato. A verdade era que Rachel tinha razão; meu coração ainda estava acelerado, e a menção de Renesmee tinha trazido à tona memórias que eu tinha enterrado a duras penas.

— Não me afeta mais, Rachel. Ela fez as escolhas dela, e eu segui em frente.

Rachel me observou por um momento, como se tentasse decidir se acreditava em mim.

— Tudo bem, Jake. Você pode fingir o quanto quiser. Mas não diga que eu não avisei.

Ela pegou a bolsa e se levantou, me lançando um último olhar antes de sair do café. Fiquei ali, sozinho, olhando para o copo quase vazio, com a mente presa a um nome que eu jurava ter deixado para trás.