Eu rolei na cama durante horas, os pensamentos me perseguindo como sombras teimosas. Nessie. A ruivinha de trancinhas que costumava correr pelas ruas da reserva, a garota que ocupou meu coração de um jeito que ninguém mais conseguiu. Eu me perguntava como o retorno dela poderia ter mexido tanto comigo, mesmo depois de tudo. Quando finalmente fechei os olhos, o amanhecer já pintava o céu de tons pálidos, e poucos minutos de sono depois, o som estridente da campainha me arrancou de um descanso precário.

Ainda sonolento, caminhei até a porta, esfregando o rosto para afastar o cansaço. Ao abri-la, Renata entrou no apartamento sem esperar um convite, a expressão dela era uma mistura de irritação e mágoa.

— Renata? — chamei, surpreso.

Ela virou para me encarar, os braços cruzados.

— Jacob, eu não sou cega. Eu sei que tem algo errado. Ontem à noite foi só a gota d’água.

— Olha, eu sei que errei ontem, mas tive um imprevisto...

— Um imprevisto? — Ela riu, mas o som estava carregado de ironia. — Sempre tem algo mais importante que eu. Sempre.


Fechei a porta e me aproximei, tentando manter a calma.

— Renata, você sabe que meu trabalho é exigente. Eu não planejei...

— Isso não é só sobre ontem, Jake! — Ela me interrompeu, a voz carregada de emoção. — Você está comigo, mas nunca realmente presente. Parece que sua mente está sempre em outro lugar, com outras prioridades.

Suspirei, frustrado, sem saber como argumentar.

— Eu sinto muito Re, prometo que vou te recompensar.

Ela balançou a cabeça, a dor evidente em seus olhos.

— Eu não sei se conseigo suportar isso, eu sou sempre a segunda opção.

Renata tirou a aliança do dedo e colocou sobre a mesa de centro com um movimento firme.

— O noivado acabou, Jacob.

Meu coração apertou, e dei um passo à frente, tentando alcançá-la.

— Renata, espera. Vamos conversar, por favor.

Ela já estava na porta, mas parou por um instante, apenas o suficiente para me olhar por cima do ombro.

— Não há mais o que conversar.

E com isso, ela se foi, deixando a porta se fechar suavemente atrás dela. Fiquei parado no meio da sala, encarando o vazio, com o peso da aliança na mesa ecoando em meu peito.

Jacob

Depois da manhã conturbada, cheguei ao tribunal tentando afastar a confusão de pensamentos que me acompanhava. Liguei para Renata algumas vezes no caminho, mas todas as chamadas foram ignoradas. Uma parte de mim queria insistir, mas outra... outra estava presa à notícia que Rachel me dera na noite anterior. Renesmee. Depois de dez anos, quem diria que sua volta mexeria tanto comigo?

— Bom dia, juiz Black! — Molly me cumprimentou animada quando passei pela recepção.

— Bom dia, Molly. — Respondi, esforçando-me para parecer profissional, mesmo com a mente longe.

Ela me seguiu pelo corredor, ajustando os papéis em suas mãos.

— Sua agenda hoje está cheia, senhor. Você tem três audiências pela manhã, começando às nove em ponto, uma reunião com o promotor ao meio-dia, e à tarde há mais quatro processos para despachar. Ah, e o presidente do tribunal pediu para confirmar sua presença no evento da semana que vem.

Suspirei, tentando absorver tudo enquanto empurrava a porta da minha sala.

— Certo, Molly. Vou precisar de café. Bastante café.

Quando entrei, fui recebido por uma pilha enorme de processos sobre a mesa. Pareciam multiplicar-se a cada dia. Passei a mão pelos cabelos, soltando um suspiro exasperado.

— Molly, mande flores para Renata. Um buquê grande, com rosas... sei lá, algo bonito.

— Alguma mensagem? — perguntou ela, já anotando no bloquinho que carregava.

— Sim. Escreva: "Renata, me desculpe por ontem. Você é importante para mim. Vamos conversar. Com carinho, Jacob."

Molly assentiu com um leve sorriso.

— Claro, senhor. Vou cuidar disso agora mesmo.

Ela saiu da sala rapidamente, deixando-me sozinho com a pilha de processos e os pensamentos que se recusavam a me dar paz.

A manhã passara em um piscar de olhos. A primeira sessão do dia terminara com meu veredito, e o peso da toga parecia maior do que de costume. Apesar de toda a tensão, a conversa rápida com o promotor, um dos meus amigos mais antigos, foi um alívio.

— Jacob, não esqueça — disse ele, dando-me um leve tapa no ombro. — Jantar lá em casa no sábado. Minha esposa vai cobrar sua presença.

— Estarei lá, prometo — respondi com um meio sorriso.

Enquanto nos despedíamos, Molly se aproximou, segurando seu tablet com a eficiência de sempre.

— Juiz Black, posso interromper?

— Claro, Molly. — Virei-me para ela, ajeitando a gravata. — Meu almoço chegou? Estou faminto.

Ela fez uma careta.

— Ainda não, senhor. O delivery está atrasado. Mas tem uma mulher esperando pelo senhor.

Fiz uma expressão confusa.

— Uma mulher? Quem é?

— Não sei, ela não se apresentou. Eu disse que o senhor estava ocupado e que poderia demorar, mas... ela decidiu esperar. Está aqui desde a manhã.

Minha sobrancelha arqueou, e uma sensação estranha começou a crescer no meu peito.

— Desde a manhã? — repeti, desconfiado.

— Sim, senhor. Está na recepção da sua sala.

Apressei o passo, o som dos meus sapatos ecoando no piso do tribunal. Ao chegar à recepção, vi uma figura feminina de costas. Uma mulher ruiva, os cabelos longos presos em uma trança. Ela estava ao telefone, gesticulando com leveza.

— Deseja falar comigo? — minha voz saiu firme, mas meu coração começou a bater forte.

A mulher se virou devagar, ainda segurando o celular, e meu mundo parou.

Era Renesmee.

Os olhos cor de chocolate que eu tanto conhecia encontraram os meus, e por um momento, tudo ao nosso redor pareceu desaparecer. Meu coração perdeu uma batida, depois outra. Ela baixou o celular, dando um pequeno sorriso nervoso, e tudo o que consegui fazer foi encará-la, a ruivinha de trancinhas que um dia fora meu mundo, agora uma mulher de presença marcante.

— Olá, Jacob — disse ela, sua voz doce, mas carregada de algo que eu não conseguia decifrar.

Jacob

Ela estava ali. Renesmee. O nome que eu evitava pronunciar, o rosto que tentava esquecer, mas que agora estava na minha frente, trazendo de volta sentimentos que eu enterrei há uma década. Respirei fundo, tentando esconder meu nervosismo.

— Você tem uns minutos? — ela perguntou, cruzando os braços em um gesto defensivo, mas sua voz era suave.

— Claro — respondi, minha voz soando mais calma do que eu me sentia. — Entre, por favor.

Olhei para Molly e pedi:

— Não deixe ninguém nos interromper, Molly.

Ela assentiu com um sorriso discreto, e eu abri a porta da minha sala, segurando-a para que Renesmee entrasse.

— Obrigada — disse ela, lançando-me um olhar breve antes de passar por mim.

Fechei a porta atrás de nós, coloquei os papéis que segurava sobre a mesa e me virei para encará-la. Renesmee parecia nervosa, mexendo nas mãos, como se estivesse buscando coragem para falar.

— Dez anos... — murmurei, quebrando o silêncio. — É muito tempo, Nessie.

Ela soltou uma risada baixa, sem humor.

— Eu sei, Jacob. Mas eu precisava falar com você. É algo importante.

Sua expressão era angustiada, e por um momento, eu me perguntei o que poderia ser tão grave. Mas ali, naquele ambiente formal e impessoal, parecia errado aprofundar a conversa.

— Acho que temos muito o que conversar — disse, cruzando os braços. — Mas aqui não é o melhor lugar para isso. Que tal jantarmos hoje? Assim podemos conversar com mais calma.

Renesmee hesitou, como se quisesse recusar, mas acabou assentindo lentamente.

— Está bem — disse ela, a voz baixa. — Às 21h?

— Perfeito busco você No Fairmont Olympic.

Eu ergui as sobrancelhas e sorri de lado.

— Bem informado, hein?

— Rachel — Respondi com um leve sorriso. — Parece que minha irmã deveria ter sido jornalista.

Ela ri, balançando a cabeça.

— Definitivamente. Ela tem um talento para se meter onde não é chamada.

Renesmee soltou um suspiro, parecendo um pouco mais relaxada, mas ainda havia algo sombrio em seu olhar.

— Vou buscá-la às 21h. Até lá, Nessie.

Ela me lançou um último olhar antes de sair, e quando a porta se fechou, deixei escapar a respiração que nem percebi estar segurando. Algo me dizia que aquela noite traria mais do que respostas. Ela traria uma tempestade.