Apenas mais uma de amor
22 Para Chiara
Notas iniciais
L viu o dia amanhecer através da luz que entrava por entre as frestas das janelas. Não havia dormido aquela noite, o que para ele não era muito atípico. Esperava pacientemente a hora em que iria visitar Chiara. Enquanto isso, estava apenas em um velar silencioso, diante do corpo de seu mentor, numa sala reservada. Roger já havia chegado para cuidar do sepultamento de Watari, que seria lá mesmo no Japão.
Ao ouvir passos se aproximando, o detetive, num gesto de despedida, cobriu o corpo delicadamente com um lençol. Essa seria a última vez em que veria o rosto dele.
— Ryuzaki, está na hora – disse a voz grave de Roger.
— Tudo bem – respondeu L, enquanto se retirava — Roger, por favor, se prepare para sairmos daqui a uma hora.
O homem apenas assentiu com a cabeça. L sabia que as coisas nunca mais seriam como antes.
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L chegou no hospital pontualmente no horário de visitas. Ele não gostava do ambiente, na verdade, poucas vezes na vida precisou ir a um. Enquanto caminhava pelos corredores, guardou em seu bolso a carta que trazia em suas mãos. Não demorou muito para que avistasse Mogi.
— Sr. Mogi – L cumprimentou-o educadamente.
— Bom dia, Ryuzaki. Chiara o está esperando – Mogi pigarreou – Ela já sabe da morte de Watari.
— Certo... Poderia nos deixar a sós, por favor?
— Claro que sim – respondeu Mogi, já virando as costas.
O detetive, então, adentrou no quarto de Chiara. Deixou escapar uma sutil expressão de alívio ao vê-la. Ela também fez o mesmo, mas sem o mínimo de sutileza. Parecia que ela estava a semanas esperando por ele.
Enquanto caminhava para a cadeira ao lado dela, L reparou nos danos que o acidente havia causado. Haviam manchas vermelhas nos braços dela e uns pequenos machucados que coincidiam com o lugar onde ela usava as pulseiras. Em um dos braços, uma agulha a ligava a um tubo de soro que gotejava lentamente. Por debaixo da roupa de hospital era possível perceber a marca do colete que usava por conta das costelas quebradas. Entretanto, a marca mais visível e gritante do acidente estava em seu rosto: uma mancha roxa se desenhava por baixo do olho esquerdo e seguia em direção à maçã de seu rosto. Afora isso, Chiara tinha a palidez comum de pessoas convalescente. Em seu olhar, o detetive notou uma mistura de tristeza e apatia.
L sentou-se. Antes mesmo que pudesse falar qualquer coisa, Chiara iniciou o assunto.
— Me desculpa, eu não queria isso! – disse a ruiva, quase sussurrando.
— E eu não queria que você morresse – fez uma pausa – Você não é assim, Chiara, o que deu em você pra querer fazer uma estupidez dessas?
Apesar das palavras duras, o tom dele não era ríspido.
— Eu não consigo me livrar da culpa – os olhos dela estavam levemente marejados – Nunca consegui. Eu sempre me achei responsável pela morte do Sam. O plano era perfeito. Eu só não esperava que Watari fosse fazer o que fez...
— Watari também sentia culpa por coisas que ele fez no passado — revelou L –Assim como você, ele se deixou levar por ela...
O olhar do detetive se perdeu um pouco ao falar de seu mentor.
— Eu não entendo por que as pessoas simplesmente decidem morrer por mim.
— é melhor não se consumir tentando resolver enigmas dos quais não se tem resposta. Por favor, só não tente fazer toda essa loucura novamente – apelou L.
Chiara não respondeu, apenas suspirou.
— Como está se sentindo?
— Eu não sei.... Eu odeio hospitais, não vejo a hora de sair daqui! – Chiara compartilhava da mesma percepção de L sobre hospitais
— A propósito, como foi o seu acidente, Chiara? Alguém te empurrou da escada?
— Não. Quando o alerta soou, eu desconfiei que estivesse acontecendo algo com Watari, então desci a escada correndo e acabei tropeçando.
O detetive encostou o polegar na boca, provavelmente acomodando na sua cabeça aquela nova informação.
— O que vai fazer agora? – perguntou a ruiva. – Vai ser mais difícil pra Kira agora que você está imune.
— Ainda estou deliberando sobre isso.
— Eu tenho certeza que Light é o Kira. E eu sei que você também tem.
— Planejarei uma situação em que ele seja obrigado a se assumir Kira. Vou colocá-lo em um beco sem saída.
— Eu sei que você gosta dele como amigo. Mas você vai estar pronto para fazer o que tem que ser feito quando chegar a hora?
— Veja o que ele fez a Watari e a você. Eu vou desmascará-lo, por vocês, pela justiça.
Chiara apenas lançou-lhe um olhar de apoio.
— Tem algo que o Watari deixou pra você – disse, enquanto tirara do bolso da calça jeans o envelope amarrotado.
Chiara franziu o rosto.
— Uma carta?
— Ele deixou uma pra mim também.
— Você leu o que tem escrito aqui?
—Sim. Me desculpe, mas eu precisava saber se não haveria alguma informação importante para investigação.
Ela não se chateou.
— Então se importa se eu ler sozinha?
— Não... Pedirei pra Roger providenciar pra que você seja cuidada em casa, mais acredito que isso ainda vá demorar alguns dias – disse ele enquanto se levantava.
Chiara segurou a mão do detetive.
— Se cuida.
Ele se aproximou e deslizou a mão pelo cabelo dela, passando pelo rosto e pela chamativa mancha roxa, que ele contemplou por alguns segundos. A mancha lembrou a ela a raiva que sentia de Kira.
— Eu não posso mais permitir que Kira continue com as atrocidades dele... Isso precisa acabar logo!
Sem esperar que Chiara respondesse, ele apenas se despediu com um olhar e saiu. A ruiva sabia que esse era o jeito dele e não se importava. Ele era muito reservado e não era dado a romantismos, mas ela não precisava disso pra reafirmar o sentimento que havia entre os dois.
Quando a porta se fechou e Chiara ficou só, ela olhou para a carta e deu um longo suspiro. Ainda demoraria muito tempo para que se perdoasse pela morte de Watari. As várias escoriações e as costelas quebradas a incomodavam muito menos do que a culpa que sentia. Apesar disso, estava feliz em ainda estar viva. No fundo, não queria morrer, apenas se livrar da culpa. Ela não era do tipo que morre de ou por amor. Pelo contrário, ela era apaixonada pela vida. Mas, nas circunstâncias em que estava, mal podia se reconhecer.
No envelope amarrotado estava escrito em uma letra desenhada: Para Chiara. Ao abrir o envelope, desdobrou delicadamente a folha de papel e leu em silêncio.
Minha Cara
Sei que deve estar surpresa e perplexa com tudo o que aconteceu. Acho que devo desculpas por ter omitido o meu plano, que na verdade já havia começado a arquitetar desde que você anunciou a mim a sua intenção de salvar Ryuzaki, mesmo a custo de sua vida. Você deve estar se perguntando os motivos que me fizeram tomar essa decisão. Deixe-me contextualizá-la: a minha afeição por você não se deve apenas à pessoa agradável e cheia de vida que você é. Não que você não seja capaz de conquistar qualquer pessoa apenas pela sua simpatia, mas no meu caso, pesou a semelhança que você tem com alguém que me foi muito querida. Não costumo compartilhar o meu passado, pois acho que não nos devemos apegar a coisas que não existem mais. Entretanto, é importante para que você entenda o que aconteceu, que eu lhe conte minha história. Quando era mais jovem, casei-me com uma linda moça que conheci na Inglaterra e tivemos uma filha. Levava a minha uma vida pacata de inventor, e grandes investigações, criminosos e polícia era coisas sobre as quais eu só lia nos jornais. Contudo, um dia fui surpreendido com a notícia de que as pessoas que me eram mais caras – minha mulher e minha filha, haviam sido vítimas de um criminoso, que nunca foi pego pela polícia. Foi muito difícil para mim lidar com a perda da minha família. Como forma de tentar conviver com a dor e seguir em frente, criei a Wammy’s House. Cuidar daquelas crianças me fazia me sentir um pouco melhor, já que a minha pequena havia sido tirada de mim tão precocemente, aos cinco anos. Quando Ryuzaki chegou, vi nele um potencial para finalmente fazer justiça e fazer os criminosos pagarem de fato pelos seus crimes. Fiquei tão obcecado com essa ideia que cheguei a recrutar crianças para substituírem Ryuzaki um dia, o que sabemos, foi um desastre. O que me ajudou a conviver com a culpa foi saber que eu estava ajudando a fazer justiça, na esperança de quem sabe um dia, pegar aquele que destruiu minha família.
Você deve estar se perguntando o que tem a ver com isso. Bom... A minha menina era ruiva e tinha os olhos verdes assim como você! Nunca consegui evitar de imaginar que se ela tivesse tido a oportunidade de crescer, seria hoje assim como você. Mais bem ainda me fez imaginar se ela seria cativante e talentosa como você. Pensar nisso me fez doer um pouco menos a ausência dela.
Diante disso, não poderia permitir que você se deixasse tomar pela culpa e abandonasse a sua vida. Sei perfeitamente que você é capaz de seguir em frente, não prive o mundo da sua presença e principalmente, não se prive de viver. Quanto a mim, não se sinta culpada: eu irei encontrar a minha família do outro lado, há muito tempo elas já esperam por mim. E você, aproveite todos esses anos que ainda tem para ser feliz. Tenho certeza que era isso que Sam desejava para você. Sem culpa.
PS.: Sei de você e Ryuzaki. Espero que possam cuidar um do outro.
Abraço, Watari
Chiara, ao terminar de ler, dobrou a carta novamente. Seus olhos estavam marejados, mas ela se sentia melhor. Na sua boca, um leve sorriso surgiu.
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