Apenas Um Pesadelo
2 Capítulo 1
Notas iniciais
p.s. recomendo vocês ouvirem durante o cap: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=O1-4u9W-bns
2 meses depois...
Olhei rapidamente o relógio no criado-mudo 14h em ponto, fechei o pequeno diário recém-requerido e passando uma jaqueta pelos ombros rumei a portaria, logo meu motorista do dia chegaria.
Desde o fim de setembro, começo de outubro, minhas tardes e fins de semana se resumiam ao famoso quarto de hospital, entrávamos em mês natalino agora e eu mal sabia como tinha passado de ano na escola. Contando que eu faltei em praticamente todas as aulas e quase não fui bem nas provas, estava começando a considerar o fato de minha mãe ter subornado os professores ou algo do tipo...
Nesse meio tempo havia conhecido Kim e Gary os pais de Matt, o segundo quase nem aparecia, talvez pelo fato da ex-mulher estar sempre acompanhada do Sr. Haner.
Os garotos se revezavam em me levar para o hospital, no começo eles tentaram me privar, mas eu ia escondida de ônibus e cheguei até a ir a pé.
Era imprevisível quem me buscaria e de vez em quando eu era obrigada a aguentar a presença de Brian, o que já estava se tornando mais suportável, afinal, Matt era seu irmão e eu não poderia priva-lo de visitar o outro apenas por um mero capricho.
O carro preto estacionou majestoso na entrada e eu apenas repeti os movimentos de andar até ele, abrir a porta do passageiro, sentar-me no banco, colocar o cinto e murmurar um “oi” ou qualquer coisa que condiz a boa educação.
– Os médicos disseram que após o terceiro mês não se há muita esperança. – comentou sem tirar os olhos da rua e eu quis ignorar, porém meu íntimo não permitiu.
– E você quer dizer o que com isso? Matthew vai acordar, você sabe! – minhas palavras ardiam em mágoa, o moreno devia perceber o quão fragilizada eu estava com aquela situação.
– Eu só estou dizendo, Amanda, que não adianta você continuar passando suas tardes trancafiada num quarto de hospital... – comentou dando de ombros engatando a marcha.
– E com certeza eu seguiria seus conselhos... – comentei em ironia e virei o corpo para a janela.
– Não diga que eu não avisei. – terminou e eu bufei feito uma criança teimosa.
Era a milionésima vez que eu escutava dizerem isso para mim, e se nem a minha própria mãe eu escutava, era muito provável que eu não escutaria Brian também. O resto do trajeto se seguiu tranquilo.
Creio que depois de um tempo tranquei toda a dor em meu peito, sabia que transborda-la pelos cantos da casa e me lamentar no ombro de qualquer um que chegasse em minha frente não adiantaria de nada, aliás, era muito melhor lidar os problemas com uma carranca enfeitando o rosto.
As pessoas na escola já não comentavam sobre a “vadia” que acabou com a vida de Matthew, muito menos, me olhavam com desprezo ou piedade... No minuto em que a notícia se espalhou dois grupos se dividiram na escola, na verdade três, o primeiro de patricinhas arrogantes que me odiavam por ter acabado com a “fantasia sexual” delas, o segundo de santas piedosas que me tratavam como se eu fosse uma rainha, ou um bebê (dependendo do ponto de vista) e o terceiro, o grupo que eu mais gostava, que não estava relacionado a nenhum dos anteriores, o grupo que não se importava.
Minha mãe passou o primeiro mês num estado de nervos contagiante, vivíamos em pé de guerra, ainda mais por ela não aceitar o fato de eu sempre trazer a culpa de tudo isso para mim... O primeiro mês com certeza tinha sido o mais difícil, e eu juro que poderia ter considerado uma ideia suicida se Fe e Rafa não estivessem ao meu lado, Jimmy assim como Zacky e Jojo foram peça chave para que eu não desmontasse por completo.
Paramos em frente ao hospital e eu nem esperei Gates sair, apressei-me em deixar o carro antes do mesmo e cumprimentei algumas enfermeiras que eu já conhecia no local. Na recepção trombei com Sr. Haner, cumprimentando-o brevemente e seguindo ao quarto de Matt.
Lá estava Kim, ela sorriu com minha chegada e eu me aproximei dela a abraçando ternamente. Antes de conhecê-la imaginava um monstro de sete cabeças, ou uma daquelas peruas siliconada e com a cara toda esticada, mas pelo visto, o próprio filho tinha me dado à imagem errada sobre a mãe... Kim tinha uma beleza encantadora e sua preocupação com o grandão era iminente, além do carinho enorme que sustentava sobre mim e a todos os outros garotos que visitavam Matt continuamente.
– Como ele está hoje? – perguntei segurando sua mão.
– Estável, os médicos passaram aqui mais cedo, explicaram a situação... – lembrei-me da breve conversa com Brian no carro. – Após três meses há meio que uma “desistência” sobre o paciente.
– Uma desistência? – minha voz teimava em alterar, mas eu permaneci calma.
– Não é bem uma desistência, é mais um modo de alertar a família que talvez ele não acorde mais... – suas últimas palavras inflamaram em meu peito e antes que percebesse meus olhos já estavam cheios d’agua.
– Mas ele vai acordar né Kim? – indaguei enquanto a mesma me abraçava e afagava meus cabelos, parecia que a própria mãe estava mais conformada do que eu.
– Ele vai, claro que vai minha querida. – a apertei forte contra mim, sentindo sua dor e transformando nosso sofrimento em um só.
– Ele não vai me deixar sozinha... – sussurrei baixinho, quase que para mim mesma e ela apenas assentiu.
Quando já estava controlada o suficiente, a mulher me deixou sozinha no quarto e eu assumi meu posto na cadeira ao lado da cama. Envolvi a mão de Matthew na minha e observei cada detalhe seu enquanto o mesmo “dormia”.
Seu rosto antes esfolado e com alguns arranhões já estava recuperado, na cabeça havia um corte ainda cicatrizando e os braços completamente perfeitos, ele estava novo em folha eu diria, se não fosse pelo seu estado vegetativo.
Apertei os dedos gelados nos meus, apoiando a testa na beirada do colchão e chorando compulsivamente enquanto juntava as informações recentes com as do dia do acidente. Lembro-me vagamente de sirenes, gritos, uma luza forte... Hospital, e o doutor anunciando que ele tinha sofrido um traumatismo craniano, e mais tarde concluindo seu coma.
Desde então eu não fui mais a mesma, a maioria dizia que a antiga Amanda estava apagada num canto fundo dentro de mim e eu tive de aprender a lidar com todo o resto sem demonstrar o quanto estava acabada.
– Você sabe que tem que voltar pra mim né Mattie? – indaguei iniciando meu monólogo e erguendo a cabeça.
Era de praxe meus discursos diários, mas normalmente eu só relatava meu dia e descrevia alguma lembrança de nós dois, o médico dizia que era bom essa relação que tanto Kim quanto eu mantínhamos, sempre conversando e estimulando Matthew da nossa maneira.
– Ainda estou escrevendo naquele diário, eu já te disse que foi Rafa quem deu a ideia né? Sempre me pergunto se você vai pensar se eu sou psicopata quando lhe mostrar os relatos do período em que esteve desacordado. – ri amargamente enquanto passava os dedos sobre seu braço. – Ontem a noite sonhei com você, não foi muito diferente da maioria dos sonhos que venho tendo há dois meses, mas ontem em especial sua alegria estava maior e os campos verdes em que caminhávamos estavam repletos de flores... Infelizmente acabou a mesma maneira, o sonho se repete dia-dia e eu não sei se agradeço ou não por isso.
Suspirei baixo deitando a cabeça sobre a palma de sua mão e apreciando o toque “morto”, não havia reação naquilo, mas apenas sentir seu corpo perto do meu já me passava uma sensação de bem-estar.
Ouvi leves batidas na porta e rapidamente me recompus, limpando a região molhada dos olhos e respirando fundo pronta para enfrentar forte quem estava por vir. Minha expressão murchou mais ainda, se é que isso era possível, assim que Brian entrou ali... Como disse anteriormente, não poderia priva-lo de visitar o próprio irmão, porém sua companhia não era das melhores.
– Desculpe por hoje cedo, não foi certo o que disse... Você não deve desistir de Matt, ninguém vai desistir. – sua afirmação parecia convincente e eu apenas balancei a cabeça em concordância. – Eu sei que você me odeia e preferia que fosse eu no lugar de meu irmão, acredite eu também preferia assim, porém gostaria que deixássemos essa relação ao menos confortável. – estremeci com suas conclusões precipitadas sobre eu desejar que fosse ele ao invés de Matt. — Considerando que o carro de Jimmy quebrou, Zacky está trancado em casa pelas notas ruins e Johnny é um pirralho só sobra eu para te trazer ao hospital a partir de hoje então...
– Está pedindo para eu ser sua amiga? – perguntei num tom quase inexistente de sarcasmo enquanto arqueava uma das sobrancelhas.
– De jeito nenhum, mas ao menos um diálogo um pouco maior que “oi” e “tchau” facilitaria o clima que já não é dos melhores. – um sorriso encorajador brotou em seus lábios.
– Eu posso tentar... – murmurei baixinho assistindo-o sentar numa das poltronas verdes do quarto.
Passamos longos minutos em silêncio, ambos concentrados na feição de Matt eu esperava qualquer reação, estudando seus sinais e ouvindo o barulho relaxante da máquina que mede os batimentos cardíacos. Minha mão agarrava a do maior e eu temia desabar a qualquer momento em murmúrios de culpa...
– Quando éramos crianças Matthew e eu invadíamos a casa dos vizinhos para roubar frutas, não éramos pobres nem nada do tipo, mas só o ato de praticar algo “ilegal” já se tornava desafiador para nós dois. – observei o moreno, ele sorria com a lembrança e parecia em outro mundo. – Um dia o senhor Jack nos pegou roubando algumas maçãs em seu terreno e começou a correr atrás de nós, Matt sempre foi mais rápido e conseguiu pular o muro facilmente, mas eu fui pego e pedi que ele continuasse assim só eu levaria a culpa. – sua face enrijeceu completamente e ele abanou a cabeça como se espantasse pensamentos ruins. – Bons tempos... – concluiu receoso e eu quase perguntei o desfecho real da história, privei-me apenas sorrindo e voltando a atenção ao outro.
– Eu sei que não é da minha conta, mas Bruna sabe que está aqui comigo? – perguntei sem coragem de olha-lo.
– Na verdade, Bruna sumiu depois daquele dia... Não tive mais notícias dela. – eu sabia a que dia ele se referia.
– Oh, sinto muito. – conclui falsamente, na verdade, era um alívio saber que a puta estava longe de ser mais um de meus problemas.
Descobri semanas depois do acidente que Valary e a gêmea haviam voltado para o Canadá, ou qualquer outro lugar que pertenciam... Confesso que de início considerei a possibilidade de Matt estar naquele estado quando o encontramos por causa da partida da vassoura loira, mas a culpa por tudo isso gritava mais alto em mim e no fim tudo divergia ao meu orgulho e a briga que tínhamos tido alguns dias antes do acidente.
Anonimamente eu estava cumprindo minha obrigação de permanecer esperando Matthew independente do tempo que levasse, ninguém sabia que em minha mente eu estava centrada em conservar-me casta e reservada até o dia em que ele abrisse os olhos. Eu só queria me dedicar inteiramente a Matthew, e se para isso eu precisasse praticamente viver dentro do hospital eu viveria, passaria noites em claro, e tudo mais que fosse possível... Se isso era um tipo de obsessão ou sentimento doentio que me acalentava eu nunca saberia responder, mas talvez eu realmente fosse uma louca atrás de alguém que estava longe demais para ser recuperado e mesmo assim perto demais.
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