Notas iniciais
Será que demorei um pouquinho a mais pra postar este capítulo? Espero que não, na verdade hahaha boa leitura!

Andava para lá e para cá, sempre esperou por este momento e parecia que as horas não passavam. Mal conseguia dormir porque estava sob a perspectiva de ver a sua filha, justamente a perdida em Porto Real com Rhaegar Targaryen. Agradecia todos os dias por aquele homem interferir em sua família e fazer valer a decisão, protegendo a pequena Arya da pior coisa que poderia acontecer. Crescer em Winterfell não seria nada agradável, e hoje Catelyn conseguiu chutar Robert Baratheon de volta para o buraco de onde saiu. Teve que apelar para a esquisita da mulher vermelha que casou com Stannis Baratheon, parecia que este último se sentia constrangido pela falta de noção do irmão mais novo.

Com razão, aquele homem não largava o osso.

Esperança sempre foi uma faca de dois gumes.

Mal comia, a ansiedade tomou conta de si facilmente. Seus outros filhos também não estavam lá muito calmos, iriam conhecer a Princesa Arya e o Príncipe Jon, herdeiro do Trono de Ferro com o antigo sangue de Valíria. O rapaz sempre foi motivo de curiosidade, diziam que era bem parecido com Brandon, o seu ex-noivo. Talvez fosse algo nada a ver que todos comentavam, perguntava-se a respeito das boas intenções e índole do filho do Rei dragão. Segundo o senhor seu marido, era um menino inteligente, raciocínio rápido, pegava as coisas no ar, consciente dos deveres que tinha, um ótimo comandante e a hábil perícia com as armas. Treinado para ser Rei, não havia como ser menor que isto. O que a preocupava imensamente, assim como a Sansa, era a possível incompatibilidade com os nortenhos. Arya, segundo Ned, teve os mesmos mestres que o Príncipe Jon, sabia lutar com qualquer tipo de armas, estudara idiomas antigos, viajara por tantos lugares que a própria Catelyn não sabia nem o nome. Treinada para comandar. Preferia guardar um segredo desses apenas para os Stark.

Também temia essa incompatibilidade em relação à sua outra filha, Sansa. Esta última sempre foi o maior exemplo da cortesia, gentileza e feminilidade, tendo esperanças que o Príncipe Jon resolvesse pedi-la em casamento. Catelyn deixou claro que não havia como misturar o sangue de lobo-gigante com um dragão de três cabeças.

Rhaegar Targaryen se mostrou honrado.

Seus principais temores haviam desaparecido no ar.

– Assim você vai abrir um buraco no chão, mamãe – falou seu primogênito, Robb, noivo da última menina dragão. Era uma preocupação surgindo no lugar da outra, mas esse acordo foi diferente. Ned aprovou a proposta por ser uma mulher, mesmo uma khaleesi (pelos deuses...), e assim não participaria de nenhum comando político na região.

Diferente de Sansa e o Príncipe Jon, causaria problemas ao reino.

O importante é que manteve sua palavra.

Nenhuma Stark na corte, para o agradecimento eterno da Lady Stark.

– Não consigo evitar a ansiedade, Robb.

– Eles chegarão hoje à noite, provavelmente na madrugada – comentou Sansa gentilmente, sempre o orgulho da mãe. Faziam o desjejum na manhã, que ainda estava parcialmente escura – Acho que chegarão exaustos, seria melhor se dormissem antes de nos encontrarem.

Palavras racionais e o tom de voz o contrário disso, era difícil esconder a ansiedade sutilmente reprimida da filha.

– Concordo – Robb preferia pensar em Daenerys, a sua preocupação era palpável – Mas mamãe não escutará o que está falando, irmã.

Bran não se sentia muito bem naquela manhã, como muitas outras. Seus sonhos o perturbava profundamente, o corvo de três olhos sempre foi um agouro em relação aos deuses antigos e parecia desgastá-lo. O Septão falou que era normal sonhar assim, falou que os aleijados ficavam despertados para o emocional já que o físico falhava brutalmente. Independente disto, Catelyn se preocupava constantemente com a indiferença que o filho encarava a própria vida.

Não o culpo.

Tentava não demonstrar pena, assim como todos que lidavam com ele, mas certas vezes Bran lia seu olhar facilmente. Sentia-se mal com isso e procurava esquecer o quanto sua família tinha problemas desnecessários.

Uma filha perdida na corte, um filho aleijado, um marido ausente mas ainda carinhoso e compreensivo.

Pelo menos o primeiro fator seria resolvido em menos de um dia.

– Irão saber em pouco tempo o que é ter filhos – revidou ainda ansiosa, mas sentando para tomar leite mergulhado na canela – Um aperto a todo momento, vigília constante e rezas que parecem não ser o suficiente para que os deuses novos e antigos me propiciem paz à mim e aos meus filhos.

– Está bem, já entendemos – falou um Robb um tanto quanto perturbado – Só espero que minha noiva seja doce como você, mamãe.

Não sabia se ficava com pena ou alegre por ver algo diferente e que chame a atenção de seu primogênito.

Aquela Jeyne pensa que ficará com o meu filho...

...e se ela continuar com isso, arrancarei seus peitos e enfiarei na sua bu... enfim, ela verá que Daenerys Targaryen é pior do que pensa.

Pelo menos isso servia, a autoridade de uma Targaryen iria deixar aquela rapariga longe de sua família.

– Ela pode ser tudo, Robb, mas doce não é – avisou a irmã com cautela – Estou pensando em como conversar com Daenerys, espero que sejamos amigas.

Pelos deuses, eu também espero.

– É pedir demais, eu sei – concordou dando de ombros – Pior que ainda é viúva de um Khal, é o nome?

Khal Drogo – corrigiu a tão estudiosa Sansa – Pesquisei sobre eles com a Septã Nielle, são senhores dos cavalos e muito violentos.

Pelos deuses, protejam Robb.

– Que ótimo – resmungou começando com o mau humor – Gostaria de vê-la, dizem que os Targaryen são exóticos na aparência e parece que ela não é diferente assim. Não sei se é bom ou ruim, as pessoas podem rejeitá-la pelo passado conturbado com o Rei Louco, o seu pai.

Ou Jeyne Westerling desaparecerá com o rabo entre as pernas.

Catelyn esperava sinceramente a essa mulher exótica o fizesse esquecer a maldita que enroscou em seu filho.

– O Rei também virá? – perguntou Sansa. Nem precisa explicar a curiosidade, a própria história recente explica.

– O pai de vocês não afirmou e nem negou – pelos deuses, não venha.

– Se bater aquela loucura Targaryen, é possível ele montar em um dragão e vir até aqui – comentou Robb, deixando o pensamentos dela em voz alta – Mas terá motivo, o Rei parece ter cautela com o Norte. Conosco, os Stark.

– Como visitar as criptas? – perguntou Sansa, tão inocente que Catelyn temia que isso fosse o motivo de sua desgraça.

– Pode até ser, mas seria uma ótima oportunidade para checar o Norte e... – Robb parecia hesitante e incerto. Não fale o que pensa... – ...ele considera Arya uma filha. Ele poderia vir aqui quando quiser, se for pensar bem.

Claro, Rhaegar Targaryen chegando no Norte apenas para visitar a ‘filha’.

Pelos deuses, como uma mãe sofre.

– Que os deuses não te ouçam, Robb – falou uma preocupada Lady Stark, sabia dos riscos perfeitamente e seus filhos pareciam ignorar o passado – Seu pai diz que Arya é a cópia da Rainha Loba, não precisamos do mesmo homem que acabou com o Norte no... Norte.

Robb ergueu uma sobrancelha.

– Já faz tanto tempo, mãe.

Catelyn balançou a cabeça, não tinha bons pressentimentos em relação ao Rei e, principalmente, e seu herdeiro. Desconfiada e cautelosa, torcia para que o rapaz fosse diferente de Brandon Stark.

– Esse tipo de pensamento que devemos evitar, é como se essa história fosse uma bola de neve que parece só aumentar e nunca desfazer – sinceridade dói, aprendam rapidamente – Se tudo ocorrer bem, a irmã de vocês pode mudar para cá definitivamente.

– E abandonar Arthur Dayne, Oswell Went, Gerold Hightower, Barristan Selmy, Oberyn Martell, Rhaegar e Jon Targaryen, os dragões, o ameno Inverno sulista, as viagens exóticas, sua liberdade e poder, o direito de comandar...

Catelyn revirou os olhos, tinha tanto medo daqueles fatores e seus pesadelos sempre envolviam todas as vantagens que abriria mão ao se mudar para Winterfell. Não podia pensar assim, Arya conhecerá sua verdadeira família e assim permanecerá.

Um carinho de mãe é tudo que ela precisa, afinal, nunca o conheceu.

Dois pais não formavam uma mãe, é claro.

– Nós entendemos, Robb – até demais – Terminem a refeição antes que minha paciência for embora, tamanha sinceridade e consciência do problema estão me deixando mais nervosa do que estava. Agora vocês dois, escutem: nada de intimidar sua irmã, façam de tudo para que ela se sinta à vontade, não a censure e muito menos duvidem da capacidade dela. Ned sempre comentou que Arya foi criada como se fosse, algum dia, se tornar uma mulher poderosa o suficiente para ultrapassar todos os lordes de Westeros, portanto, duvidar de sua capacidade é o mesmo que decapitar Rhaegar e Jon Targaryen.

Que os deuses sejam bons e justos comigo.

Uma mãe sempre deseja o melhor para os seus filhos, mas assim que Arya estiver em Winterfell...

Quem seria louco de enfrentar sua fúria?

Sei a resposta, infelizmente.

(...)

Neve, um frio de doer os ossos e a permanente sensação de isolamento pareciam estar mais presentes do que nunca. Arya sempre imaginara o Inverno nortenho, se era tão mortal do jeito que os nortenhos espalhavam aos quatro ventos. Essas eram preocupações secundárias e incômodas, sim, mas sua mente se ocupava em imaginar a merda que estava vindo mais rápido do que gostaria. Jon já deixou claro que se algo, qualquer coisa, acontecesse com ela...

...não hesitaria em usar os dragões.

Arya sabia que as coisas não eram bem assim, mas conhecia o seu discreto lobinho quando este ficava com raiva. Ele deixa de ser um lobinho. Era uma preocupação a mais, Jon sabia o que fazer e ela preferia pensar que logo voltaria à Porto Real, voltando a viver como antes. Precisava acreditar nisso. Observava o lobinho dia e noite, sabia que estava perturbado por terem transado novamente mas não a evitou de forma alguma. Muito pelo contrário, ficava ao seu lado quase todo tempo como se fosse o seu cavaleiro particular.

Ninguém localizaria em seu Príncipe a ansiedade, nervosismo, fúria e medo. Ele sempre foi mestre em driblar os olhares invasivos e as análises alheias. Conseguia controlar o rosto, corpo e até mesmo o tom de voz. Ninguém nunca adivinharia o quanto era intenso, o sangue de dragão estava em ebulição e ela temia o que aconteceria futuramente. Não sentia a culpa por terem transado há algum tempo, foi a única vez desde que desceram da embarcação em que se encheram de ilusões idiotas.

Me sinto tão melancólica quando não estou com ele.

Jon era o seu ponto de apoio e referência desde que nasceu, como poderia simplesmente se despedir para, provavelmente, nunca mais voltar?

Ontem haviam conversado sobre a permanência dela em Winterfell e se surpreendeu com a fúria do dragão.

– São só seis meses, lobinho – apertou a mão dele antes de sair de sua tenda no acampamento – Então poderemos continuar nossa vida.

– Acha que sua mãe irá abrir mão de você tão fácil, meu amor? – não, mas preciso acreditar que sim... – Assim que chegarmos em Winterfell, Lady Stark colocará suas garras sobre você para nunca mais perdê-la. Quem vence, lobinha? O amor de mãe ou meu amor por você?

Não faça isso comigo.

Sabia o quanto Lyanna Stark fazia falta na vida dele.

– Não a conheço pessoalmente – argumentou pobremente – Meu amor por você é tão forte que chega a me torturar. Te quero todo o tempo e não podemos sequer demonstrar qualquer ato carinhoso, não saberei o que fazer quando chegarmos em Winterfell amanhã.

– Irão nos separar – afirmou imediatamente, fazendo-a suspirar tristemente – Não fique assim, também estou triste e enlouquecido pela perspectiva de abandoná-la. Espero que, em Winterfell, não nos vigiem tanto.

– Espero tantas coisas, lobinho – tomou seus lábios em um beijo lento e profundo. Jon correspondeu prontamente, abraçando-a fortemente, sinalizando a necessidade de tomá-la para si – Parece que não teremos paz.

– Nunca teremos paz, lobinha – a realidade dói – Eu te amo.

Arya sorriu fracamente.

– Assim como eu, logo aprendi que amar alguém é ter várias lâminas prontas para me esfaquear.

– Sim, mil facas em nossas costas.

Não é justo conosco.

– Mas tem Dany – lembrou daquele não tão pequeno detalhe. Jon ergueu uma sobrancelha – Chegará em pouco tempo.

Jon a analisou atentamente por alguns segundos.

– Daqui alguns dias, para ser mais exato – suspirou incomodado com algo desconhecido para a lobinha – Será um caos se meu pai resolver aparecer montando um dos dragões trazendo-a até aqui.

Caos... é uma palavra adequada aos Targaryen.

– Acha mesmo? – perguntou desacreditada. Ela sabia o medo que Rhaegar tinha das criptas de Winterfell.

– Ele tem bons motivos, — ele deu de ombros, mexendo no cabelo dela carinhosamente – como visitar a minha mãe pela primeira vez, checar como o Norte está, analisar se você e Dany estariam sendo colocadas em boas mãos, colocar algumas missões em nossas mãos... enfim, muitos motivos válidos.

Eram motivos claros, se houver alguma pequena falha em um dos deles...

...Rhaegar não me deixará aqui.

Uma culpa a invadiu quando se pegou planejando o que poderia fazer para sair dali com ajuda dele. Seria uma grande decepção para sua família materna, sua mãe que abrira mão de sua criação apenas para protegê-la do viado Baratheon, um pedófilo talentoso. A Lady Stark havia enfrentado tantos perigos para isso acontecer, quase fora acusada de traição e Arya não poderia tratar tudo aquilo com descaso.

E agora se aproximavam de Winterfell mais rápido do que gostaria. Não era tão grande quanto a Fortaleza Vermelha, mas bem maior do que imaginara. Extremamente intimidante, era um castelo-fortaleza que a proteção contra a neve era bem maior do que em todos lugares que conheceu em suas exóticas viagens. Não conseguia vê-la ou analisá-la direito, os dias invernais eram mais curtos e consequentemente escuros. As milhares de tochas acesas faziam um belo desenho na escuridão que caía sobre eles, que andavam lentamente até lá. Seu pai biológico ordenou que as bagagens fossem na frente, evitando qualquer movimento desnecessário enquanto cavalgavam tranquilamente. Ele não forçava o trote por causa da neve, tão cauteloso como o sobrinho lobo-dragão, e preferia ficar entre os dois para explicar toda a geografia do lugar.

Como se nunca soubéssemos.

Mas Arya nada falou, sabia que o pai estava alegre por vê-los em Winterfell pela primeira vez. Tudo que ele falava, ela e Jon escutavam atentamente, tomados por alguns momento de curiosidade. Sempre discretos, as pessoas que por eles passavam não pareciam saber quem eram, para o alívio dos três. Isso quando há alguém. Não são todas as pessoas que se aventuravam naquela hora da noite, apenas viajantes que não queriam ser notados que procuravam estar na estrada nesta hora.

Como nós.

Agradecia imensamente por isto. Arya e Jon estavam acostumados com situações semelhantes, mas na maioria das vezes tinham todo o apoio da própria comitiva, do Rei e do lugar. O Norte sempre foi um lugar diferente para eles, é como se todos os caminhos complicados se direcionavam até Winterfell.

As criptas, os Stark e a guerra.

A história sempre ensina que as consequências de uma guerra podem durar por um século inteiro, para a tristeza dos que inventaram aquilo. O que vale para os Stark e Targaryen, se for pensar bem. Olhou rapidamente para a sombra do seu lobinho.

Impenetrável.

Arya já previa a postura que ele tomaria, agiria como o herdeiro do Trono de Ferro e um legítimo Targaryen. Parece que quanto mais adentramos o Norte, mais o seu sangue de dragão aflora. Jon seria frio, era nítido que não colocaria muita familiaridade entre eles. Pelo menos ela esperava assim quando a sua linda irmã perfeita aparecesse. Ele sempre foi dela e não sabia o que poderia fazer com a maldita irmã caso ela ficasse insistindo muito.

Tenho que ter cuidado com meu ciúme.

Isso os denunciaria completamente.

Respirou fundo quando se aproximaram do grande portão da fortaleza, já aberto para a receber as bagagens, e milhares de pensamentos a invadiram. Insegurança, medo e abandono foram alguns deles. Fechou os olhos enquanto adentravam Winterfell, sendo mirados por muitos e muitos olhares curiosos que vinham de todas as partes. Mas eram apenas os vigias, soldados e criados, estava tarde demais para alguma pessoa aparecer do lado de fora. Frio demais. Nymeria e Fantasma pareciam aprovar o território, sentindo o claro cheiro dos outros lobos-gigantes, os seus irmãos. Fizeram questão de ajudá-los imediatamente, chegavam com tochas acesas e várias peles para eles se aquecerem.

Parece que o frio deixou de me afetar.

O nervosismo tomava conta de si e a fazia esquecer das condições físicas. Ficou estagnada na sela, os soldados, cavalariços, criados, sei lá, chegaram de mansinho na tentativa de não assustá-la. Arya estava respirando com dificuldade, simplesmente travou diante de todo aquele desafio. Não poderia fugir dessa vez, há algo mais amedrontador que isso?

Ainda com as mãos nas rédeas, não foi difícil ignorar os homens que a tentavam fazer descer... até que sentiu mãos firmes e familiares a retirarem de cima do cavalo negro. Acordou do seu sonho consciente ao sentir aquelas mãos ao redor da sua cintura, colocando-a no chão delicadamente. Ela nunca foi de escolher a delicadeza como definição de seus, mas tudo que Arya precisava no momento se chamava...

...Jon.

O encarou agradecida, precisaria de muita ajuda naquele lugar e isso ninguém poderia ir contra. Os olhos de lobinho estavam mais endurecidos, frios e distante... com os outros. Jon sempre continuaria a ser o seu lobinho com vários traços draconianos, o que não é tão tranquilizante assim, mas era o seu lobinho. Notou que os outros estavam um pouco distantes e, antes que ela chegasse em uma conclusão, ele procurou o que estava acontecendo em seus olhos.

– Está tudo bem? – perguntou preocupado – Faz tempo que não te vejo parar em uma sela como se não soubesse descer.

Arya deu de ombros, o olhar dele sinalizava que tinham que agir como irmão, e não como amantes.

– Só estou sentindo muito frio, irmãozinho – respondeu simplesmente. Se fizesse tudo que gostaria naquele momento, transaria com o seu lobinho imediatamente sem importar se estavam na neve ou no estábulo. Os olhos cinzentos de Jon, sempre cheios de gentileza, agora queimavam de desejo por ela. Não sabiam como iriam disfarçar, mas deveriam... isso é fato.

O seu pai se aproximou rapidamente, levando uma comitiva atrás de si. Eram pessoas de todos os jeitos, sempre carregando todos os itens possíveis para aquecê-los durante a caminhada por Winterfell. Arya analisou o seu lobinho, perguntando-se sobre como iriam aguentar todo o tempo sem exteriorizar o desejo que cada um sentia.

Nunca pensei que o inferno da minha vida seria tão congelante.

– O sangue Stark é forte em suas veias, Jon – comentou um peculiar e alegre Ned Stark, esquecendo-se até mesmo da sua típica formalidade para com o sobrinho. Arya achou tão bonitinha a reação familiar do pai que até imaginou que tudo poderia acabar bem e... que eles ficassem juntos – Não é qualquer um que suporta o frio com tanta naturalidade assim. É sangue Stark, Arya.

Arya e Jon sorriram, era raro ver Lorde Stark tão natural em Porto Real.

Será se ele trata os meus irmãos de outra forma?

Ela sempre foi muito ciumenta quanto às suas posses. Poderia perguntar quais posses eram estas, e ela até responderia, mas não todas. A sinceridade sempre tem um preço amargo a se pagar, então segredos devem exister dentro de todos. Suas principais posses se chamavam Jon, Ned e Rhaegar. Um triângulo extremamente difícil de se conciliar e, pela primeira vez em sua vida, observando as pinturas dos corredores da fortaleza dos Stark, chegou à conclusão que se escolhesse uma, perderia as outras duas.

Mais um grande dilema.

Puta que pariu, eu deveria ter nascido homem.

Se ganhar Ned, perde Rhaegar e Jon.

Não seria justo com o seu pai biológico, afinal, Arya sempre soube que ele era a Mão do Rei por vários motivos, incluindo ficar perto dela. Também controlar a fúria do dragão. Era inegável a dedicação que o Lorde Stark tinha para com ela, como se abandonasse a família apenas para deixar claro o quanto a queria em Winterfell. Uma traição, uma facada nas costas e que também afetaria enormemente a sua mãe, Lady Stark sempre foi muito forte e firme em suas decisões familiares. Jon havia perguntado sobre o amor de mãe...

...o que farei?

Poucos criados circulavam pelo castelo, era de madrugada e já haviam avisado que não seria apropriado conhecer a todos depois de chegarem de uma viagem exaustiva pelo Inverno nortenho. Arya agradeceu por isto, não sabia como lidaria com tudo aquilo em questão de minutos. Já Jon poderia estar pensando o contrário... e ela não sabia, pela primeira vez, o que se passava por atrás daqueles olhos cinzentos que agora queimavam. Como sempre comentaram na Fortaleza Vermelha, os melhores criados a se ter eram os nortenhos por causa do alto nível de discrição e obediência. Influência forte dos Stark.

– Estão com fome? – perguntou o pai. Arya sorriu, ele parecia ter dez anos a menos ao adentrar Winterfell com eles – Temos todos os tipos de refeições quentes, melhores do que as sulistas, ouso dizer.

Frio de doer os ossos.

– Quero leite quente com canela, pai. – pelos deuses, que frio desgraçado – Uma cama quentinha seria o ideal, nunca pensei que o frio aqui fosse tão...

– ...intenso – completou Jon, evitando que ela soltasse mais uma de suas pérolas impulsivas ao criticar, comentar ou caracterizar algo. Arya se perguntou sobre como ele estava se sentindo, mas precisava ser discreta... não sabemos quem pode estar por perto – Se não for pedir muito, tio Ned, gostaria de visitar as criptas e poder ver a minha mãe. Não quero incomodar, sei que está tarde mas não consigo evitar.

O olhar que o pai dela lançou ao Príncipe, um misto de compreensão e pena, foi tão explícito a ponto de estranhar tamanha demonstração do Lorde Stark. Todos sempre souberam da relação próxima dos irmãos Stark, Lyanna era muito querida e Jon receava tantas coisas...

...a responsabilidade sobre os seus ombros o faz parecer mais velho.

A pequena loba nem queria imaginar o futuro que os aguardava. Jon logo seria Rei e se casaria rapidamente. Não era tola, enquanto ela estivesse em Winterfell, escolheriam uma noiva politicamente vantajosa, e assim logo se casarão o mais rápido possível. O Sul sabia que era melhor deixá-los separados em casos assim.

– Me acompanhe então, Jon – pediu o pai, mais gentil do que realmente era – Creio não ser apropriado para você, filha.

Ainda bem que pensa isso.

– Sei que não é – concordou dócil, não queria ir naquela merda que tanto assusta Rhaegar. O seu pobre lobinho ergueu uma sobrancelha, provavelmente crente de que ela o acompanharia. Não vamos acabar nos separando e ele se casando nesse meio tempo? – Onde ficar o meu quarto, pai?

– A Septã Lydia irá te ajudar, seus pertences já devem estar lá – respondeu beijando sua testa. A pequena loba evitou olhar para Jon, sentia os próprios olhares queimando em suas costas – Vai querer um banho quente e o leite antes de dormir?

Ela assentiu levemente enquanto a tal da Septã lhe alcançava rapidamente.

– Boa noite, irmãzinha – assim que virarei as costas, você se casará... – A Lady Stark irá monopolizar seu tempo amanhã, boa sorte.

Tradução: “Você não fugirá de mim enquanto eu estiver aqui”.

Jon não sabia facilitar, era ela que ficaria no exílio e isolada do comando.