Notas iniciais
Ando tão ocupada por causa da faculdade que minhas fics estão todas atrasadas, aí quando chego pra escrever minha cabeça está atolada de informações e cobranças. Pelos deuses, tá osso! hahaha

Observava a estátua feita em homenagem à sua mãe.

Jon não estava passando muito bem depois de notar tantas semelhanças entre a Rainha Loba com a sua Princesa Loba. Ambas delicadas e aparentemente ferozes, Lyanna Stark parecia ser o mesmo tipo de mulher em que Arya estava se tornando. Muito bonita, agora sabia que a loucura do seu pai tinha um fundamento extremamente considerável. As criptas estavam mortalmente frias, mas era uma preocupação de segundo grau... tinha diante de si a mulher que dividiu os Sete Reinos, destruiu ambas famílias e que ele ainda matara. Suas costas pesavam de tantas responsabilidades, as que esquecera quando ficava ao lado de sua própria lobinha, e foi neste exato momento que cogitou a hipótese que...

...casar com Margaery Tyrell não destruiria o reino.

Ficar com sua linda e agressiva lobinha traria consequências, como estas que o seu próprio pai enfrentou destemidamente. Destemido e sem noção. Era o herdeiro do Trono de Ferro, não poderia agir impulsivamente e deixar Westeros de pernas para o ar depois de tanto trabalho e dedicação que o seu pai teve, reconstruindo-o firmemente. Era loucura, e o dever sempre vinha primeiro.

Olhar para sua mãe o fez pensar muito bem sobre os seus sentimentos e responsabilidades. Casaria e teria filhos com sua lobinha... se fosse um comerciante, camponês ou até mesmo um criado. Como Príncipe, vivia para o reino e não para os próprios interesses. Foi egoísta em cogitar espadas para tê-la em definitivo.

Egoísta e tolo.

Irei embora o mais rápido possível.

Ficar e vê-la todos os dias seria uma tormenta, seus sentimentos iriam aflorar violentamente e não haveria nenhum momento de paz para ninguém, nem mesmo para os Stark. Temia cometer uma loucura ao presenciar a interação familiar de todos eles, o ciúme sempre o corroeu quando se tratava da sua linda e feroz lobinha. Pensou em toda a sua trajetória, família e ensinamentos que recebeu de seu pai, Sor Arthur Dayne, Daenerys e até mesmo da própria lobinha.

– Está se sentindo bem, Jon? – perguntou o tio. Estavam sozinhos nas criptas e ele estava explicitamente preocupado, sempre soube do medo que o Príncipe, e Rei, tinham de visitar a Rainha Loba. Um passado revirado e conturbado, mas cheio de amor...

– Apenas pensativo – respondeu baixinho, não sabia o que decidir e, agora que o momento pedia racionalidade, seus sentimentos passaram a dominá-lo. Aguente firme... – Todos estavam certos quando comparavam minha irmã com ela.

– Sim – assentiu Ned -, essa foi uma preocupação sensata da minha senhora. Não apenas na aparência, Lyanna sempre foi agressiva e decidida como Arya. Meu pai sempre temera um momento de loucura vindo dela.

– Lorde Rickard estava certo, no final das contas – não posso deixar com que a loucura nos tome – Ela e meu pai formaram um par perfeito, então. Simplesmente pegaram um cavalo e foram embora sem informar ninguém, quem em sã consciência faria isso?

– Muitas pessoas, ouso dizer – respondeu observando a estátua provavelmente pela milésima vez – A paixão faz coisas terríveis, penso que é o sentimento mais traiçoeiro que podemos ter, e se proteger dela é o mesmo que tapar o sol com uma peneira. Não falo que seja puramente a paixão uma causadora de problemas, penso que há todo um conjunto de sentimentos envolvidos.

– Quais sentimentos? – perguntou o Príncipe interessado na reflexão sábia do tio.

– Apaixonados são impulsivos, egoístas e loucos um pelo outro, segurá-los é o mesmo que incentivar alguma situação impossível de se conter – ele sabe – A posse, ciúme e obsessão nunca foram saudáveis, as pessoas se enganam que a paixão por se tornar amor. Um sentimento tão auto-destrutivo precisa de amizade e companheirismo, dessa forma se torna amor.

– Já se apaixonou? – ele sabe.

– Se Lyanna não houvesse fugido, sim, eu teria me apaixonado – essa eu não esperava – Não sei o que houve na Falsa Primavera, e muito menos naquele Torneio de Harrenhal, parecia que estávamos predestinados ao envolvimento amoroso na época. Não só Lyanna, eu e mais outros também. Ela era mais atraente do que bonita e ainda fazia parte da comitiva da Princesa Elia, os olhos cor violeta eram encantadores. Ashara Dayne chamou a atenção de muitos, até mesmo Sor Barristan Selmy aspirava uma fantasia em que ela estivesse envolvida. Elia Martell era ofuscada completamente por Ashara.

Ele sabe e tem certeza.

– Então minha mãe fugiu – completou fingindo que não sabia das indiretas que o tio lhe lançava.

– Pois é – o lobo do Norte suspirou -, eu queria dançar com ela e Bran foi lá perguntar se ela estava disponível. Não tive tempo de aproveitar a dança, a informação que minha irmã foi, segundo na época, raptada por seu pai, bem, Ashara teve que desaparecer da minha mente forçadamente. Tive a oportunidade de me apaixonar e hoje agradeço aos deuses por sua mãe ter interrompido uma loucura como aquela. Bran e meu pai foram mortos, eu tinha uma responsabilidade a assumir e honrei o compromisso com o pai da minha senhora. Não nos conhecíamos direito e já tínhamos um filho, inicialmente fiquei surpreso com a velocidade de como tudo aconteceu. Responsabilidades devem ser cumpridas a todo custo, quem sofre sempre é a família e hoje, após construir uma amizade saudável, amo Catelyn.

– Lady Stark sabe sobre Ashara Dayne? – se sentia mal, o seu honrado tio sabia o que acontecia entre ele e a lobinha. Sentia vergonha.

– Minha senhora também teve sua paixão quando éramos novos, o que me assombra até hoje – confessou sincero demais – Brandon era o seu noivo, sempre foi um homem habilidoso em tudo e sabia cortejar uma mulher tão bem que caíam aos seus braços em poucos segundos. Em sua imaginação feminina, ela pensava que era um homem perfeito e digno de qualquer mulher. De fato, meu irmão mais velho tinha todas as características que uma jovem sempre quer, mas Catelyn não precisa saber que ele colecionava a virgindade das mulheres – Jon ergueu uma sobrancelha, aquela era uma história que não conhecia e ainda atípica para os padrões Stark – Lady Dustin é um exemplo disso, até hoje ela lamenta da morte do meu irmão. Como disse anteriormente, era o homem que toda mulher gostaria de viver até a morte. Então quando ela soube que Brandon havia sido morto, tiveram que improvisar para a aliança permanecer intacta via casamento. Ela caiu em meus braços pensando em Brandon, Jon. Por mais que tenha sido doloroso, até hoje mesmo, agora compreendo o quanto fui abençoado.

– Brandon Stark não havia se apaixonado por ela – afirmou Jon.

– Era uma menina, tinha acabado de florescer e ele poderia ser várias coisas, menos pedófilo – começou ainda em sua longa reflexão – Tive essa sorte, Jon. Brandon não se apaixonou e não a envolveu em seus braços para que ficasse grávida, complicando a minha vida e a dos Tully também. Procurei ser um Brandon para ela, até que um dia Catelyn pediu para que eu parasse de ser um idiota com complexo de inferioridade – Ned sorriu balançando a cabeça – Robb deveria ter um pouco mais de um ano quando isso aconteceu e, para ser sincero, foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Contruímos nosso amor, casamento, filhos e o próprio Norte. Gosto muito de você e sei que crescer em um ambiente tão intenso quanto Porto Real, e tendo Rhaegar Targaryen como pai, o impediu de fazer muitas coisas. Convivo tempo demais com vocês dois, há uma competição não tão saudável quanto eu gostaria e sei sobre a sua opinião a respeito do Trono de Ferro.

– Penso que sou a única pessoa que não o quer.

– Talvez por isso que seja seu.

– Fala de uma competição – puxou a conversa após alguns minutos de silêncio. Ned assentiu decidido – É tão nítido assim?

– Conheço lobos e dragões o suficiente para saber que é uma interação perigosa, apenas eu sei o que se passa na cabeça de ambos – respondeu imediatamente, como se já soubesse o que falar há muito tempo – Você tem sangue de ambos, Jon, e vive em dilemas complicados. Quando falo em competição, sugiro que há uma exigência para que se torne idêntico ao Rei e governar Westeros tão bem quanto ele. Vocês dois foram criados para isso, são líderes inatos, guerreiros habilidosos e mortais, se preocupam com o bem dos seus súditos, procuram acordos pacíficos, são queridos e tomam decisões sensatas... quando Arya não está envolvida.

O lobo-dragão engoliu em seco, sabia que qualquer hora o tio arranjaria um pretexto para tocar no assunto depois de um longo discurso de como as responsabilidades, o dever são sempre mais importantes do que o resto. Ele não está errado. Principalmente quando contava sobre como as pessoas que se apaixonam acabam cometendo loucuras quase impossíveis de se consertar. Lobos e dragões. O coração de Jon batia fortemente, sabia que o olhar que o tio lançava não era nem um pouco ameno.

– Por que diz isso? – perguntou sem olhar em seus olhos. Se acalme, ele não vai te fazer mal...

...ou vai?!

Eu tirei a virgindade da sua filha mais nova...

– Olhos de lobo são sempre atentos, Jon – começou Lorde Stark, pousando a mão no ombro direito do Príncipe suavemente. Seus olhos se encontraram ao sentir o toque dele. Ele me quer longe... – Aprendi da forma mais peculiar que uma loba nunca deve ficar perto de dragões, lobas são agressivas e defendem o território que conquistam. Lobas-gigantes são perigosas por natureza, não há nada de cortês ou delicado em seus dentes afiados e patas pesadas. Dragões gostam de desafios, dominar uma loba-gigante é cogitado com muito prazer por eles. Por vocês.

Jon engoliu em seco.

– E-eu...

– Uma loba-gigante determina o que vai fazer independente dos outros, se quiser matar alguém, não hesita. Um dragão não é tão diferente assim, ambos não hesitam e acabam sendo potencialmente intensos e impulsivos – o tom de voz do Lorde Stark, interrompendo-o, se tornou mais grave – Ambos possuem garras e dentes afiados, mas são opostos. Gelo e fogo. Nunca se deve misturar tais elementos pois um sempre acaba com o outro, só não saberei qual vai iniciar a queda primeiro. Conheço minha filha, ela não é do tipo de menina que sossega quando a censuram, apenas quer aproximar mais do seu objetivo. Arya é uma loba-gigante pura, nem parece ter sangue Tully nas veias e, de vez em quando, me arrependo de ter permitido a sua mudança para junto dos dragões. Todas as vezes que deixava a capital, me perguntava em relação ao tempo que demoraria para que Rhaegar e você percebessem o quanto ela era a vítima perfeita para a imaginação draconiana.

O coração do lobinho estava acelerado, queria negar a acusação implícita de estar apenas usando-a e declarar o seu amor...

...mas será pior assim.

– Em momento algum eu...

Eddard Stark, o seu tão querido tio, não estava para brincadeiras daquela vez. Seus olhos brilhavam friamente, intensos como Jon nunca viu antes. Ele me quer longe.

– Com o passar dos anos, Arya adquiriu uma característica muito tentadora a todos os homens que a conheciam, inclusive vocês, que é a agressividade corporal em uma mente sexualmente inocente – agora o seu tom de voz estava bem mais acusatório, deixando a tristeza e vergonha invadir Jon – A diferença logo foi percebida e os problemas começaram a partir disto, Rhaegar nunca foi de esconder o quanto era afetuoso com ela, fazendo todas as suas vontades e mimos. Montar um dragão?! Onde eu acharia isso apropriado para uma loba-gigante? Mas eu não poderia questioná-lo, Jon. O seu pai, ao vê-la, se torna o antigo Rhaegar que fugiu com a minha irmã e, olhando para você, não consigo deixar de pensar em um Rhaegar sob a pele de lobo, Jon. Um dragão prestes a entrar em fúria dentro de um lobo frio e quieto. Não me force a ver as consequências de uma loucura novamente, perdi minha família em uma atitude idiota e espero não ter que ver minha vida caindo aos pedaços por conta de uma paixão sem limites. Se eu deixá-la voltar para Porto Real, o Rei irá reivindicá-la para si enquanto você se casa com Margaery Tyrell. – Jon estava perplexo demais para organizar alguma frase a ser dita, era como se o tio estivesse sempre analisando e temendo uma situação como aquela durante anos. Além disso, o lobo-dragão se sentia constrangido ao ser censurado de forma tão racional que não havia como contestar a veracidade dos argumentos – Mesmo se ela escolher voltar para a Fortaleza Vermelha, acha que deixarei que isso aconteça? Nem que eu tenha que amarrá-la em uma pilastra de Winterfell, minha filha não deixará o Norte enquanto eu viver e você, e muito menos o seu pai, irão colocar as mãos em minha lobinha novamente. O desejo nos olhos de vocês dois é tão explícito que nem mesmo sentem que estão demonstrando-o, se eu falasse o que via em Porto Real para Catelyn... ahh, Jon... ela iria até lá e retirava nossa filha após um duelo com você e o Rei. Você e seu pai são homens decentes, mas não confio deixar uma loba-gigante sob a tutela de dois dragões. Além disso, temo um dia que haja mais um conflito à moda Targaryen em uma disputa pai-filha-irmão. Pelos deuses, o que eu fiz para merecer tudo isso em minha vida?

O desabafo do tio desconcertava Jon, ao mesmo tempo a fúria intensificava dentro daquele lobo tão draconiano quanto ele estava se mostrando.

– Nós nunca fizemos mal à ela – disparou impacientemente. O tio pode estar até certo quando aos seus argumenos, mas Jon não ficaria calado enquanto era massacrado por julgamentos superficiais... ele não sabe como é sentir algo tão quente assim – Arya sempre foi tratada do jeito que merece, independente de ser uma loba-gigante ou não. Mostrou o seu valor diversas vezes e sempre questionou à mim e meu pai, nunca abaixou a cabeça pra ninguém sem perguntar o porquê. Sabe o que acontece depois disso, tio? Não é porque é uma loba, e sim pela capacidade de dizer ‘não’ a qualquer um, gerando uma admiração em todos que a conhecem. Prestativa, preocupada e atenciosa, ela cuida de quem gosta e acha mesmo que eu e meu pai estamos excluídos de seu afeto?

– Ela deu liberdade demais para vocês dois – criticou-o duramente, o tio Ned praticamente sumira diante da perspectiva de perder a filha para um dragão novamente – Toques demais, palavras doces demais, intimidade demais. Quase enlouqueci quando uma criada me contou que você pede para terminar de vesti-la antes dos banquetes, fechando as portas assim que as criadas saíssem de lá. Elas me contaram que você sabe amarrar todos os corpetes dela, nega isso?!

– Não – ele o enfrentou impulsivamente, retirando a mão que antes estava pousada em ombro. Olhos nos olhos causam um impacto maior do que guerras, meu pai sempre fala... – Eu conheço todos os corpetes da minha lobinha, assim como sei o desejo que meu pai sente por ela, Lorde Stark. Não me venha com toda essa inocência, Arya sabe o que os olhos do meu pai refletem quando está por perto pois não é uma criança. Não nego o quanto ela gosta de matar, espionar e comandar os homens mais importantes do continente, assim como não nego que a tenha tomado para mim incontáveis vezes e pensando o quanto meu pai estava certo em tirar a minha mãe das garras dos lobos-gigantes que só iriam escondê-la dele – o olhar do Lorde Stark parecia uma navalha afiada que desejava ser usada em uma longa tortura, provavelmente a usaria se Jon não fosse o herdeiro do Trono de Ferro. Mas vontade não lhe falta, assim como não me falta vontade de fugir daqui com ela – Agora considerando a sua reação, tio Ned, vejo que meu pai fez o certo ao fugir com minha mãe, vocês nunca dariam liberdade à ela e a casariam com aquele viado do Robert Baratheon. Nunca consegui enxergar o que você vê naquele homem desprezível, o que me admira já que é a Mão do Rei e o homem mais racional que conheci em toda a minha vida. Meu pai sentiu o quanto o Norte sufocaria uma loba-gigante pura quando conheceu a minha mãe, não me surpreenderia caso você fizesse a mesma coisa com Arya quando eu for embora. Se eu for embora.

– É o Príncipe, mas quem comanda Winterfell sou eu – a situação estava cada vez mais séria, não devo contar ao meu pai sobre isto – Arrume suas coisas, Jon. Iremos pegar estrada ao Sul em poucas horas, não deixarei com que conviva com ela novamente. Vai ser melhor para todos.

Jon ergueu uma sobrancelha.

– Melhor? – Lorde Stark assentiu – Melhor para quem? Você? Meu pai?

– Para o reino, Jon! – exclamou o tio, quase perdendo a paciência – Imagina se você colocasse um filhote de dragão no ventre da minha filha?! O que acha que o reino faria?! O que acha que Dorne faria?! Eles não gostam dela, sentem que Elia Martell não foi nada para Rhaegar, e agora penso que não foi tanto assim quanto ele fala. Foram substituídos por Lyanna Stark, um golpe duro para a aliança Martell-Targaryen, aí comemoraram quando a minha irmã, e sua mãe, morreu! Pensaram que seria uma nova era, mas não, logo surgiu uma nova loba-gigante que impediu o aproximamento das duas casas novamente. Sem falar nos Tyrell! Todos só estão esperando um pretexto para matar Arya, não deixarei com que minha filha morra por causa de uma paixonite impulsiva!

– Eu não sou o meu pai, – começou um ousado Jon Targaryen, basicamente jogando todos os traços lupinos no ar e incorporando o dragão que nasceu para ser – ele foi impulsivo e não planejou o que iria acontecer. Não sou Rhaegar Targaryen, mas ainda compartilho o sangue do dragão com ele e compreendo perfeitamente a guerra que fez por minha mãe, eu posso fazer a mesma coisa por Arya. Mas não sou o meu pai. Voltarei para Porto Real porque tenho consciência dos meus deveres, mas guarde as minhas palavras: eu voltarei, Lorde Stark, e a levarei comigo. Enquanto esse dia não chega, jogarei e comandarei as peças do meu tabuleiro para que ela não seja noiva do gelo e nem do fogo. Ela será a noiva do gelo e fogo. Guarde as minhas palavras, Lorde Stark. Eu voltarei.