Apenas O Tempo Falará...
21 Catelyn
Notas iniciais
Era ridículo.
Como um homem poderia ser tão exposto emocionalmente?
Sentada ao lado de Ned, no caldeirão do salão de Winterfell, observava a face avermelhada de raiva que o melhor amigo do seu marido estava exibindo. A notícia não tinha sido muito bem recebida e, para a sorte dela e de Ned, Robert havia se demorado na caçada por alguns dias devido aos resquícios de neve no meio do caminho. Acontecia muito com eles, sempre sulistas e não era uma adaptação fácil. Foi um ponto importante, o que retardou a ira dele. O medo de Ned era que o seu melhor amigo fosse atrás dos cavaleiros e fizesse uma besteira.
Que bom que o Inverno ainda está presente no Norte.
Comendo a sua torta de carne de porco lentamente, Catelyn observava cada detalhe daquele banquete tenso. Nenhum dos vassalos gostaram da ideia do Protetor do Norte, agora a Mão do Rei, pois pensavam que Ned se encaminhava para mais um bajulador da dinastia Targaryen.
É exatamente o contrário. Pobre Ned.
Fazia uma semana que Arya havia deixado Winterfell, sendo doloroso mas suportável. Ainda era uma Tully.
Família, Dever e Honra.
Os rostos ligeiramente conhecidos, comiam em silêncio.
Bolton, Karstark, Reed, Baratheon, etc.
Aquela reunião seria determinante para o futuro do Norte, que se agrupava ao redor da Mão do Rei. Todos sabiam que Ned iria fazer de tudo para o Norte, dando até a sua vida para melhorar as condições em que eles viviam e uma maior reparação da vingança de Rhaegar Targaryen, que nunca ficava satisfeito. Mesmo sabendo da fama de vingativo, Catelyn confiava na honra do Rei e sabia que nada aconteceria com a sua filha enquanto estiver debaixo da asa do dele. Era melhor assim.
No entanto, apenas eu penso assim.
Catelyn sentia vários olhares pousados em si.
Eles me julgam e se eu não fosse a Lady Stark, provavelmente me matariam.
Felizmente, Ned a amava o suficiente para compreender os seus medos. Ela agradecia aos deuses novos e antigos por toda a devoção do seu leal e dedicado marido.
Stannis Baratheon sabia disfarçar o seu desgosto, sendo até mesmo tolerável a presença dele... já o irmão mais novo, Robert não suportava a ideia de ver a sua ‘nova Lyanna’ nas mãos do mesmo homem que ‘roubou’, segundo ele, a original. Aquela história enjoava Catelyn, já estava cansada de escutar a canção entre gelo e fogo todos os dias. Se não fosse Ned... ela nem gostaria de pensar nas consequências.
Só que isso não o impediu de apresentar um bastardo como seu filho legítimo.
Gendry Baratheon, filho de uma camponesa com o viado e que agora é considerado herdeiro dos Baratheon.
Pelos deuses, herdeiro de quê?
A esposa de Stannis não conseguia ter filhos, então adaptaram as coisas do melhor jeito que conseguiram... embora Stannis seja, hum, digamos que orgulhoso demais para suportar comentários alheios sobre este assunto. Sentado ao lado do aleijado do pai, o menino, que tinha a idade de sua Sansa, parecia desinteressado no que ocorria ali. Era forte como um touro e tinha um temperamento arisco, assim como o pai... não deixando nenhuma dúvida quanto à sua paternidade.
Baratheon da cabeça aos pés.
Me pergunto se Arya irá preferir usar o dragão de três cabeças do que o lobo-gigante.
Ned morreria.
- Como passa, Lady Stark? – perguntou Lorde Stannis polidamente, iniciando uma conversa formal para que a tensão fosse substituída por uma conversa racional. Catelyn gostava disso nele, conseguia ponderar melhor as coisas antes de sair espancando alguém, talvez seja por isso que Ned preferia conversar com ele do que com Robert sobre assuntos econômicos.
Todos olharam para ela.
Os vassalos, seus filhos e suas esposas.
Todos.
Catelyn era uma Tully de nascimento e uma Stark de casamento, não titubearia de forma alguma. Mesmo com o coração acelerado, ela conseguiu controlar sua expressão facial e seu tom de voz firme.
- Muito bem, Lorde Stannis – respondeu com um sorriso gentil, claramente praticado todas as noites para que fizesse uma máscara e a usasse na frente de todos os vassalos do Norte. Ned sempre a ajudou nisso – E como vai o senhor?
Ele assentiu formalmente.
Seus olhos são vingativos, fique atenta.
- As colheitas estão dando resultados e parece que o Verão está chegando, agora entendo o quanto as estações são importantes para os nortenhos.
‘Nortenhos’.
Catelyn guardava várias respostas afiadas como aço valiriano na ponta da língua... mas tinha que se controlar, não era uma jovem que poderia ofender os vassalos do marido. Iria desonrá-lo.
- Fico contente, Lorde Stannis.
Voltou seu olhar para a torta, que poderia estar saborosa se estivesse com fome. Aquela situação a deixava desconfortável, além de ter que ‘dar’ a sua filha para um Targaryen, tinha que enfrentar o Norte em questões políticas e, pelos deuses, morais!
- Tem certeza, Lady Stark? – perguntou Robert, como se aquela resposta tivesse escapado em um lapso de raiva. Ned lançou um olhar de censura para o melhor amigo, o que estava ocorrendo frequentemente. Era a mesma coisa que falar ‘é a minha esposa, não uma mulher qualquer’. Os vassalos, além de terem um desejo de saber o que estava se passando por debaixo dos panos, não gostavam de perder qualquer detalhe que seja daquela história.
Não sei qual é a diferença entre velhas fofoqueiras e vassalos interessados.
Catelyn sorriu amavelmente.
- As colheitas nortenhas são generosas quando bem cultivadas, creio que gostará dos resultados – comentou ignorando o veneno que lhe era lançado, Catelyn sentia que Ned estava pronto para retirar Robert do salão. Não iria tolerar um desrespeito na frente dos vassalos apenas por serem melhores amigos. Mesmo assim, Robert lhe lançou um olhar desdenhoso, o que a fez ficar com raiva daquilo tudo. Minha vontade é de enfiar a faca da torta de porco no pescoço dele...! – Isso se o Rei não as queimar novamente.
Silêncio...
Era uma situação desagradável. Era a filha dela que estava em questão, não uma honra idiota, palavras malditas e vassalos de plantão para ver até onde a Mão do Rei poderá chegar para beneficiar ou prejudicar todo o Norte. Pobre Ned, estava sem saída novamente. De vez em quando, Catelyn agradecia ao Rei pela compreensão e vingança pois assim não teria que criar a sua menininha sob a vista daqueles vassalos que já sabiam do destino desagradável dela.
Idiotas.
- Já basta, Robert – finalizou Ned, sem paciência com a rebeldia do amigo. Paciência sempre tem limite, até mesmo a de seu marido tão comprometido com a honra e o dever como Lorde de Winterfell, Protetor do Norte e Mão do Rei. Pobre Ned, títulos demais, responsabilidades demais... tenho medo disso... – Minha senhora está certa, as colheitas estão muito boas e não há motivo para reclamação. Se houver, apresentem-nas apropriadamente quando for a hora certa.
Ned, respeitado como sempre, calou os Baratheon.
Eles devem aprender o lugar deles... que não é no Norte.
- Mil perdões, meu irmão não sabe a hora de apresentar um argumento e muito menos formá-lo – pediu Stannis, olhando feio para Robert. Era claro o que estava falando para o irmão mais novo: fique quieto, assim estragará o prestígio que tento conseguir no Norte.
Ned assentiu formalmente.
Pelo menos Stannis tem um melhor faro para diplomacia... mas o rancor deste aí pode ser... humm... deixe disso, Cat.
(...)
Catelyn saiu de cena quando a reunião começou, encaminhando as esposas e os filhos dos vassalos para outro salão. Os criados serviam os visitantes de bolos e chás, a noite estava fria e sabia que metade deles não ficariam dentro daquelas muralhas por muito tempo. Os mais novos brincavam com Robb e Sansa perto da lareira principal, sendo vigiados de longe por ela, que andava por todo o salão para representar os Stark na hospitalidade.
Minha vontade era de mandar metade desse povo para o inferno.
A maioria das esposas eram mais traiçoeiras do que prostitutas de bordel barato, sempre sabiam das principais fofocas do Norte e queriam se beneficiar com elas. Um exemplo disso era...
- Lady Stark, a senhora sabe se o Rei Rhaegar poderá nos visitar em breve? – perguntou a esposa do Lorde Karstark, era uma velha gorda que usava um vestido sofisticado e joias finas mas... aquilo não disfarçava a feiúra daquelas pintas negras enrugadas em seu rosto. Provavelmente ficará viúva em questão de meses...
O Rei provavelmente fuzilaria o Norte se pudesse.
- A Rainha Loba está aqui, provavelmente seremos visitados em breve – respondeu polidamente, sorrindo de leve para não deixar explícita a sua falta de paciência. A culpa não era do Norte e sim, dos olhares que eles a lançavam.
Lady Karstark assentiu animadamente, provavelmente ignorando o clima desagradável que estava as relações de Catelyn com o Norte.
O mais cômico é que jogam a culpa em mim! Parece que nem prestam atenção na história da guerra!
- Ainda mais com a sua menina como protegida do Rei! – exclamou, ela parecia tão animada com a ‘facilidade’ que tinha para ver o Rei ou ilusões do tipo, que nem mesmo a pessoa mais otimista poderia constatar que a Lady Karstark tinha esses tipos de pensamentos, afinal, o Lorder Karstark era totalmente averso aos Targaryen. Um pior do que o outro... – Sei que se não fosse essa promessa com Robert Baratheon, ela arranjaria um ótimo marido. A Princesa Daenerys é a única Targaryen existente, o valor de sua menina pode subir muito... muitos homens matariam para conseguir um tempinho com ela.
Era o que me faltava... mas bem que eu posso aproveitar disto.
Catelyn assentiu, prestando uma maior atenção naquela mulher.
- É uma pena, não é? – incentivou a conversa, chamando atenção de outras mulheres que escutavam quietas. Algumas ladies se aproximavam juntamente com suas filhas mais velhas, o assunto ‘casamento’ e ‘Targaryen’ era constante no meio delas. Era tão esquisito...
...as mulheres com pena de Arya e os homens com pena de Robert.
- Nós, mulheres, sabemos o quanto é sofrido as escolhas que fazem antes nascermos, Lady Stark – apoiou-a aparentamente sincera, Lady Reed era uma ótima conselheira de Ned por ser descendente dos povos da montanha. Ela sempre sabia o que acontecia nas montanhas e o Lorde Reed, nos pântanos. Estrategicamente, os dois eram os mais importantes do Norte... podendo ser até mesmo confiáveis em assuntos politicamente delicados. Pode ser que ela me ajude... – Tive a sorte de encontrar um homem honrado e leal, assim como a senhora. Tivemos sorte, Lady Stark.
Uma filha de algum Lorde de menos importância assentiu e suspirou, parecia frustrada.
Recém-casada.
Era uma menina jovem, não tinha mais que dezesseis anos e tinha o típico tom pálido de pele das nortenhas, apenas os cabelos que eram dourados... lembravam até mesmo os cabelos daquela...
...eu conheço esses fios dourados e olhos astutos.
Mas ela nada falou pois sentia que Catelyn a observava atentamente, não sabia o nome daquela... não tão desconhecida.
O cabelo está mais escuro, provavelmente uma tinta das Cidades Livres o manchou mas eu reconheceria esse brilho em qualquer lugar. Os olhos também estão mais escuros, mas conheço esse olhar esnobe. Apenas quem cresceu com você sabe quem é, Cersei Lannister.
Ela estava morta. Os Tyrell entregaram a cabeça dela para o Rei.
Os Tyrell...?
- Devemos ter muito cuidado, sim, embora os nossos tempos sejam propícios a instabilidades extremas – comentou Lady Karstark, enfiando um pedaço de torta inteiro na boca. Catelyn ficou observando Cersei Lannister de rabo de olho, fingindo prestar atenção na boca gigante e desgastada da velha Lady gorda.
Ficar no Sul iria ser perigoso. Como os nortenhos são proibidos de ir até lá, ninguém a reconheceria se morasse ou se casasse com alguém daqui.
Sempre muito protegida por Tywin Lannister, Cersei Lannister nunca frequentara reuniões ou politicagem com o Norte.
Catelyn congelou.
Tywin Lannister é um mendigo da Patrulha da Noite.
Conveniente, essa é a palavra.
Catelyn tinha que contar ao Rei, mas também tinha que ter certeza do que estava falando e acusando. Sim, é uma acusação muito séria e necessitava de uma maior atenção em sua análise. Pra isso, tinha que contar com a ajuda de outras pessoas que tinham um conhecimento de como são as características dos Lannister.
Lady Reed.
Apenas uma mulher sabe os detalhes que definem uma traição. Assim como a sutileza de um veneno.
Enquanto as mulheres conversavam sobre a crueldade do destino delas e o azar de umas, a sorte de outras, Catelyn fingia prestar atenção em Sansa e Robb. A provável Cersei Lannister conversava pouco e tentava andar desajeitadamente... mas ela era graciosa demais e péssima atriz. Estava na cara que era uma menina criada em berço de ouro que fingia ser uma nortenha saída de um pântano e com uma beleza estonteante.
Não tão bela assim. As roupas estão desajustadas, as joias eram simples e o cabelo, manchado. Mesmo assim, te conheço de longe, Cersei.
Catelyn nunca se esqueceu de quando a amiga de Cersei morreu no fundo daquele poço. Ela estava lá com o pai e os irmãos, estavam indo para Vilavelha e passaram por Rochedo Casterly a pedido de Tywin Lannister. Cersei tinha um brilho de leoa exuberante, agora ela tem um resquício de brilho descorado de uma leoa morta.
O que a falta de ouro faz, não?
Lady Reed estava tomando chá tranquilamente, a sua recém-nascida estava com a ama de leite ao seu lado. Como uma boa e zelosa mãe, Lady Reed, assim como Catelyn, sempre observava a ama de leite para ver se ela não fazia qualquer coisa que poderia prejudicar os seus filhos. Nunca se sabe.
Afastando-se daquelas mulheres que agora pareciam estar falando dos tempos que não tinham compromissos como o casamento, Catelyn atravessou o salão sutilmente e sentou-se ao lado daquela mulher que ela sabia que a ajudaria naquilo tudo. Ned precisava saber, ele era a Mão do Rei.
Tranquila, Lady Reed colocou a xícara no pires, sustentada em seu colo.
Estava pensativa.
- Nas montanhas, sempre sentimos o fedor de uma traição – comentou para Catelyn, dando um olhar compreensivo. De início, a Lady Stark pensara que estaria falando de Arya, Robert e Rhaegar... mas após pensar um pouquinho e vê-la arquear as sobrancelhas, percebeu que Lady Reed já presentira que havia algo errado naquele salão – Sou cinco anos mais velha que a senhora, viajei muito no Norte antes de me casar. Meus irmãos fazem parte da Patrulha da Noite e Tywin Lannister é constantemente visto acorrentado por lá, isso não me importa. O que me importa é ver que mesmo destratado e miserável, ainda há uma aura Lannister nele. Está sentindo isso aqui, Lady Stark?
Ela sabe.
Mas há quanto tempo?
Catelyn assentiu lentamente, se perguntando se Ned sabia daquilo.
Está tão explícito! Só se... Robert estivesse atraindo mais a atenção dele do que esses problemas no norte do Norte.
- Não explicitamente.
- Boa resposta – comentou Lady Reed com uma piscadela – Somos mulheres, Lady Stark. Os homens nos manipulam descaradamente, até mesmo inconscientemente. Cersei Lannister é uma vítima do Reino, imagine o quanto deve ser depressivo trocar o glamour do Sul para viver como uma nobre de berço inferior e sem importância ou relevância como gostaria de ter. Aposto que o inferno já chegou para ela. Para os dois, Jaime Lannister também está infiltrado aqui... só que sem a mão da espada e com a mão que sobrou na enxada. Ambos estão ao Norte das montanhas e lá, Lady Stark, sabemos que eles estão comendo o pão que o Estranho amassou.
Direta... e deixando claro que o destino deles não foi melhor do que a morte.
- E o anão? – perguntou absorta no assunto.
E que assunto!
- Sempre pensei que Tywin Lannister poderia rejeitá-lo, mas não rejeitou... – comentou enquanto terminava de tomar o últimi gole do chá quente — ...pois é similar ao pai. Mas é contra o que o pai sempre fez
- E sabe onde ele está, Lady Reed? – perguntou rapidamente, ignorando a sutileza.
- Os Lannister mataram o meu noivo na guerra, assim como aconteceu com a senhora... então quando percebi que Tyrion Lannister estava no Norte disfarçado daquelas aberrações circences, eu mesma o afoguei no pântano – respondeu orgulhosa de si, estufando o peito e sorrindo do seu feito – Sei que irá me perguntar quanto àquela vadiazinha da Cersei e o irmão gêmeo. Estão vivos, como a senhora consegue ver, mas estão sendo úteis para nós.
Catelyn ergueu uma sobrancelha, confusa. Já não sabia onde começava e terminava aquela história.
- Como assim, Lady Reed?
Lady Reed sorriu com uma docilidade sincera.
- A Rainha Loba era uma das minhas melhores amigas, sempre soube da repulsa por casamento que ela tinha, tanto que nunca acreditei que o Rei havia raptado-a... Lyanna era esperta demais, ágil demais... e impulsiva demais – respondeu, mas foi a mesma coisa que falar nada... todos sabiam que elas sempre foram muito próximas – Minha lealdade se deve ao filho dela, o Príncipe Jon. Para isso, reconheço Rhaegar Targaryen como Rei pois ele estruturará Westeros para o filho da minha grande amiga. Inclusa nestes termos, Lady Stark, não é apenas a senhora que trai o Norte. As mulheres são perigosas, silenciosas e sutis... por isso que o veneno sempre é a melhor arma.
Catelyn se afobou.
- Mas eu não traí ninguém...
Lady Reed balançou a cabeça lentamente, observando Catelyn até os ossos.
- Todas nós estamos traindo o Norte por simpatia da nossa tão querida Lyanna Stark, que fugiu por amor enquanto o então Rei desistia de tudo para ficar com ela.
- Mas eu não... – Catelyn não conseguia argumentar, a culpa crescia dentro dela.
- A senhora, eu e todas as mulheres que são casadas com os seus vassalos estão denunciando tudo ao Rei, porque acha que as colheitas estão sendo queimadas e controladas como se o próprio Rei estivesse aqui? Porque acha que os homens estão tão inquietos? Eles sabem que estão sendo espionados. As mulheres sabem a frustração de não ter se casado com quem realmente amavam, sabem como é revoltante ter um destino traçado... nós sabemos o quanto fomos vítimas desses acordos severos que acontecem politicamente. Porque temos que abrir nossas pernas para um homem que nunca vimos? As mulheres se vingam e, se me perguntar, principalmente com o sangue de um dragão e o sangue da nossa Lyanna. Ambos gostam de vingança, o que se espera de um Lobo-Dragão e uma loba que acabará crescendo como um dragão?
Catelyn piscava os olhos como se tivesse algo dentro deles que estava machucando, mas o nome disso era perplexidade. Afinal, como Ned não sabe disso tudo?
Ah, mulheres...
- Eu não tenho certez...
- Já passou pela mente da senhora que se o Príncipe for parecido com o Rei e Arya Stark parecida com Lyanna... ?
Catelyn engoliu em seco.
Não. Não pode acontecer.
E assim, dez anos se passaram... dez anos sem Arya, afinal, como ela poderia sair de Winterfell sendo que tinha Robb, Sansa, Bran e Rickon para cuidar enquanto o seu marido ficava seis meses lá e seis meses cá?
E eu ainda tenho que vigiar os Baratheon enquanto Ned está fora.
Algo me diz que Stannis não engolirá a desfeita tanto de Ned quanto de Rhaegar.
O que restava era esperar.
Esperar Arya crescer.
Esperar Ned voltar.
Esperar que Jon não se torne o centro do universo da filha.
Esperar que Stannis não se rebele, sendo uma pequena chama para incendiar um ódio ilusório, eles ainda não aceitavam que Lyanna havia se apaixonado pelo Rei.
Esperar que Sansa acorde para a realidade e que pare de pedir para conhecer o Príncipe.
Esperar Bran acordar após a queda em que Jaime Lannister o empurrou de uma das torres do Forte do Pavor.
Esperar Robb chegar com a cabeça de Cersei e Jaime.
Esperar que Daenerys desista de ser uma Khaleesi com seus três dragões a tiracolo e voltar para Westeros e se apaixonar por Jon.
Esperar que esses dragões cresçam logo para manter uma ordem estável no reino.
E sempre esperar que Ned chegue com a cabeça no lugar, enfrentar a fúria do Rei e dos Baratheon ao mesmo tempo estava deixando-o desgastado e mais tenso.
Pobre, Ned... sempre entre o punhal e a espada.
Havia outro problema no Norte.
Porque diabos Stannis escolheu uma feiticeira de Asshai para ser sua esposa?
Melisandre estava fazendo uma caça às bruxas.
No caso, uma caça às espiãs do Rei.
Mas o que realmente tremeu Catelyn foi a notícia de que o Rei estava estranhamente doente, a própria Arya comentou com o pai que viu uma sombra esquisita se aproximando deles. Era o que estava acontecendo, sombras por todos os lados... sombras sempre ao redor de Arya e Jon. Sombras do passado, do presente e do futuro.
Cuidado com as sombras, querido Ned.
Notas finais
Ela o chamava de pai quando meu tio não estava por perto, sua irmãzinha era inteligente pois aquilo seria mais um problema da criação dela como uma Targaryen. Sempre armada, era treinada por meu pai e um homem de Bravos muito talentoso, isso gerava uma enorme constrangimento para o tio Ned. Tantas vezes que ele tentou convencê-la a voltar para Winterfell... e nada. Jon agradecia aos deuses pela firmeza das decisões que ela tomava para tão pouca idade, claro que sentia medo de perdê-la para outros. Principalmente para o Norte. Pensar que ela irá deixá-lo o deixava desconsolado, afinal, tirando o seu pai, era a única pessoa que confiava inteiramente o seu coração. Eram tão parecidos que muitos realmente pensavam que eram irmãos, e eram de alma e coração. O olhar dela fazia com que ele se sentisse mais à vontade naquela teia de mentiras chamada Porto Real, gostava de ver a motivação dela... admirava a determinação que ela tinha quando não aceitava ser protegida por ninguém. Jon a admirava, era sua irmã e sua melhor amiga, sua confidente e... seu coração.
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