Notas iniciais
Com as dúvidas já sanadas, entrei em um consenso comigo mesma e percebi que a melhor coisa que eu fiz nessa fic foi fazer a nossa querida Lyanna morrer, porque agora que começará o drama. Automaticamente escrevi um Complexo de Édipo... ou quase. Jon já começa melancólico e sofrendo, afinal, é um personagem que será massacrado nessa fic (: mas já aviso: a putaria vai rolar solta u.u obrigada pelas reviews, girls! Espero por mais! :D

- É melhor não fazer isso nada frente do tio Ned, irmãzinha – aconselhou Jon, bagunçando o cabelo escuro dela até ficar mais despenteado do que estava. Após toda aquela cavalgada rotineira feita aos domingos ao amanhecer, os dois faziam uma parada para um lanche. Era costume eles saírem escondidos da Fortaleza Vermelha para procurar um momento de paz, um momento só deles – Não creio que ter uma menina de dez anos falando bravoosi fluentemente irá ser uma grande alegria.

Ela revirou os olhos impacientemente, sempre impulsiva e espontânea. Empacotada em roupas masculinas, o Inverno havia chegado em Porto Real e era preciso todo cuidado... com ela. Jon poderia se virar mas Arya tinha que estar nas mais perfeitas condições de sobrevivênvia para que ele ficasse tranquilo. Para ele, ela era mais que sua prima, era sua irmã.

Sorrindo, o que era raro publicamente assim como o seu pai, Jon acariciou a barriga de Fantasma, deitado preguiçosamente na grama e incomodando Nymeria ao morder de leve a orelha dela.

Nada melhor do que um lobo-gigante para um Stark, segundo meu tio Ned.

- Isso porque você não se corresponde com a minha mãe – comentou mau-humorada, mordendo a maçã suculenta sem nenhuma delicadeza. O suco da fruta escorria pelos lábios finos e rosados de sua irmãzinha, sempre tão desligada quanto às normas de etiqueta para mulheres da corte.

Jon adorava isso nela.

- Dizem que ela é uma Tully atípica.

Arya assentiu, dando outra mordida faminta na maçã. Ela comia com tanto gosto que Jon ficou se perguntando se a maçã estava tão boa assim. Pequena e magricela, ele sabia que ela não quebraria a qualquer tombo mas... tinha a sensação de que poderia se quebrar apenas pela aparência. Como aço valiriano, sua irmãzinha era afiada e resistente... e o refinador dessa espada se chamava Rhaegar Targaryen.

Mas... ela tem crescido...

- Tá mais para uma loba Stark – adicionou, falando de boca cheia... como um moleque. O sorriso ainda persistia nos lábios dele, gostava do péssimo senso de modos dela – Ela anda falando muito sobre a minha irmã perfeitinha.

- Como assim? – perguntou curioso mas sufocando uma espécie de raiva que estava nutrindo por Catelyn Stark.

Ela sempre quer atrapalhar a minha relação com Arya.

- O de sempre, que eu deveria largar Agulha e começar a me portar como uma dama – respondeu gesticulando agitadamente, revoltada com a situação. Até trágica, sua irmãzinha era cômica. Arya hesitou por alguns instantes, chamando a atenção do Príncipe... e ficou levemente corada – Sansa me escreveu.

Jon ergueu uma sobrancelha.

Mesmo não se conhecendo pessoalmente, Arya e Sansa não eram compatíveis.

- E por qual motivo você está com vergonha de me contar? – perguntou dando uma piscadela, soltando uma leve risada após. Não era tão raro assim a sua irmãzinha ficar corada quando alguns assuntos... ‘normais’ voltam à superfície. Neste momento, Jon já sabia o que era.

Dando de ombros, Arya estava fingindo que não mexia com ela.

- Não estou com vergonha, seu idiota! – ralhou com ele, jogando o resto da maçã em sua direção, era para acertar em cheio mas Jon desviou rapidamente. Ele estava acostumado com as reações violentas dela – Sansa é uma estúpida ao pensar que você aceitará a proposta de casamento que a minha MÃE fez. Claro que Ned reclamou, dessa vez com razão. Não imagino você e Sansa juntos.

Agora era a vez de Jon hesitar.

Essa foi a falha da criação da minha irmãzinha.

- Tio Ned é o seu pai, irmã – chamou-lhe a atenção sutilmente, fazendo-a corar levemente. Era uma reação típica de quando ela sabia que estava errada mas falava sem pensar, Jon entendia que era automático mas ela não poderia soltar uma pérola dessa em público – Eu não tenho planos de casamento por agora, prefiro me ocupar com aquele maldito Pequeno Conselho para poupar o meu pai de muito aborrecimento.

Agora era assim, Jon e Arya tinham que se desdobrar com o reino quando o Rei não estava bem para receber visitas ou até mesmo comparecer em algum lugar. Jon passou a analisá-lo, as suas crises depressivas e uma fúria que surgia do nada, e concluiu que apenas com Arya que ele melhorava. A resposta era clara: Arya era idêntica ao amor da vida do pai dele, a sua mãe. Aquilo o consolava, era como se a mente do Rei pensasse que a sua irmãzinha era a Rainha Loba reencarnada.

Vários cantores gostavam dessa cantiga embora Jon só achava que aquilo piorava as coisas para Arya.

A verdade é que o meu pai está farto de ser Rei.

Ele nunca quis o Trono de Ferro... assim como eu.

- O Rei é o meu pai e você é o meu irmão, Jon – insisti ela, decidida a esquecer que tinha um pé no Norte. Jon tentava compreender o ponto de vista dela, não era nada legal pensar que iria ser tratada como mercadoria se continuasse em Winterfell. E o pior: com a autorização do pai – Nunca conheci Robb, Sansa, Bran e Rickon... tem como me sentir parte da família?

Ele suspirou. Não.

- Quero que conheça todos eles mas não quero que vá para Winterfell – confessou frustrado com a situação. Não sabia o que faria sem ela em Porto Real, não tinha ninguém para aquecer o coração dele e do pai caso ela os abandonassem. Arya sorriu agradecida – Você pode gostar de lá e nunca mais voltar pra mim.

Ela revirou os olhos novamente e Jon sorriu.

- Nunca vou abandonar vocês, Jon.

Jon riu enquanto rezava para que aquilo fosse verdade.

De certo modo, ela terá que nos deixar, me deixar...

- Amanhã é o seu aniversário de catorze anos – comentou mudando de assunto, era uma das três coisas que não gostava de falar com ela: abandono – Lembro que não gostei de quando fiz, foi a idade que meu pai me mandou frequentar o Pequeno Conselho. Dias horríveis aqueles.

- No meu caso, bem, sou rápida na aprendizagem mas tem coisas que não gosto de estudar... – ela estava hesitante novamente, agora levantando-se e pegando suas coisas – Vamos?

Jon ergueu uma sobrancelha, desconfiando... o que ela anda estudando?

(...)

O pai estava sentado elegantemente no imponente e majestoso Trono de Ferro, muita gente estava no salão da Fortaleza Vermelha naquela tarde. O Rei atendia quase que diariamente e isso o causava um grande cansaço, muitas vezes ficava irritado quando Jon falava que ele não tinha mais quinze anos para manter a empolgação com tudo aquilo. Naquele dia o Rei estava diferente, o sorriso estava ligeiramente fácil e os gestos, mais suaves. Jon observava de longe, de cima dos camarotes de mármore polida, toda a dinâmica de um Rei.

A visão o assustava independente de quanto tempo se passara desde a primeira vez que falaram que ele seria o próximo na linha do trono.

Hoje meu pai está muito bem... , alegrou-se mas... o seu sorriso morreu antes de se formar em seu rosto. Aquilo estava acontecendo cada vez mais, gerando um certo desespero no peito daquele homem, sim, Jon era um homem e tinha que resolver as coisas como um. Mas como resolver algo assim com o meu pai? Seria muito fácil passar a espada no pescoço dele, mas é o meu pai.

O que atormentava tanto os sonhos de Jon era a relação pai-e-filha que virava uma perigosa relação Rhaegar-Lyanna. Desde que Arya fez treze anos que vem chamando a atenção do pai de Jon, antes eram alguns comentários mas com o passar das semanas vieram os presentes, depois as viagens e, por fim, o carinho. Jon morria de medo por diversas razões, uma delas era enlouquecer de ciúmes e a outra, padecer de decepção do pai e da irmãzinha. Eram tantos os medos e tantas as perspectivas que o Lobo-Dragão sentia um aperto em seu peito, ele sempre soube que sua irmãzinha nunca iria deixar Porto Real por causa do Rei. Jon não tinha certeza se no Norte eles já sabiam, mas era impossível esconder o afeto que o seu pai tinha com ela, protegendo-a até mesmo com o próprio Jon.

Certo dia me vi protegendo a minha irmã... saudades desse dia...

Gostou de vê-la ‘depender’ dele, dava uma sensação de que ele iria selecionar tudo para que ela ficasse com as melhores coisas.

Talvez por isso que vários guardas se apaixonam por quem guardam.

Jon engoliu em seco, não estava acostumado com a aceitação daquele sentimento. Não era um tolo, sabia que sentia algo diferente quando a via... mesmo que todos os dias. Gostava do toque inocente dela, incentivava as suas aventuras e até a acompanhava nas idiotices dela, como caçar gatos. O afeto dele foi se transformando... provavelmente na mesma época que isso aconteceu com o seu pai, criando algo que Jon nunca conseguiu ao menos imaginar:

Meu pai se apaixonando por minha irmã, que é idêntica em aparência e gênero com a minha mãe, e, para ser a cereja do bolo, eu mesmo percebo que não tenho olhos para ninguém.

Era uma tormenta vê-la perto dele e imaginar que não poderia fazer nada caso ele resolva se casar novamente. Jon não poderia, simplesmente não tinha o direito de impedir o seu próprio pai de ser feliz... principalmente depois de uma vida de devoção na criação dele e de sua irmã. Quem melhor do que ela para assumir uma posição de Rainha, não é?

Seria mais fácil se minha mente fosse conquistada por seus argumentos, e não pelo que sinto. Mas sim, Arya será uma ótima Rainha... isso mesmo, ela será. Minha ou do meu pai, mas vai ser um dia.

O pior é que provavelmente será do meu pai.

Jon tentava não pensar nisso, muitas vezes acordava com essa perspectiva, de vê-la sentada ao lado do pai na sala do trono, e não tinha vontade alguma de sair daquela cama fofa e macia em um aposento escuro e silencioso. Cada dia que se passava, mais as mulheres que a vestiam eram informadas de que sua irmãzinha tinha que mudar algo na aparência ou nos estudos, o que já mostra o quanto o Rei é controlador em relação a ela. Mas isso não importava pois ela também não se importava, vestia as roupas Targaryen com muito orgulho, até. Apenas ostentava algumas joias, como o broche de lobo-gigante, a gargantilha de safiras com o formato de uma rosa e um anel nada discreto que também era feito de safiras, mas foi presente da Lady Stark. Outro fator que o Príncipe já havia constatado era que o Rei não encorajava tanto assim a ligação dela com os verdadeiros pais.

A verdade é que ele TENTA encorajar, mas tem medo de encorajar demais. Assim como eu. Vai que ela resolve dar a louca, o que acontece diariamente, e sair daqui?

Era esse o dilema diário do Príncipe, a sua tortura interna e provavelmente a do pai.

Observou o pai por mais algum tempo, sempre bem sucedido... e isso o fazia temer por si: e se não for um Rei a altura do que o seu pai é/foi ?

Além de inseguro, passou a se comparar com o pai, o seu melhor amigo e confidente.

Como que essas coisas simplesmente aparecem do nada e muda tudo em questão de segundos?

Jon era um rapaz maduro, muito bem treinado para qualquer tipo de conflito, tinha muitas noivas em potencial e um dragão. Quem não quer um dragão que se pode montar e ir até a Muralha em pouco tempo?

Mas não e, como sempre, provou que tem o dragão de três cabeças em seu sangue ao se deixar levar pelos encantos ingênuos de sua irmãzinha, ok, não propriamente de sangue mas continua sendo sua única irmã. Novamente honrando a sua casa, as polêmicas familiares dos Targaryen pareciam estar presentes ‘espiritualmente’... pois não tem como, que outra casa que isso acontece?

As muralhas de outros castelos parecem sempre serem mais fortes, mas...

Porque tanta bizarrize em uma família que só se constitui de cinco pessoas, sendo que uma está governando a Baía dos Escravos e o outro, um cavaleiro que só sabe transar. Pronto. Resta apenas eu, meu pai e ela. Que... merda.

Deu as costas àquela cena, aquilo não estava fazendo bem ao seu emocional.

Com um Rei ao seu dispor, porque ela aceitará um Príncipe?

A auto-estima do Príncipe estava uma merda.

Voltou com os seus afazeres, não iria parar até ficar em completo estado de exaustão em seu treinamento diário com seu grande amigo (até isso?) Arthur Dayne.

E assim foi dito. Jon não parou nem mesmo para comer qualquer coisa, queria sua mente ocupada, trabalhando arduamente para esquecer o quanto era sortudo e azarado ao mesmo tempo. Tudo piorava quando ele lembrava do quanto a Lady Stark a escrevia para falar que eles não eram irmãos e que não era um relacionamento saudável pois tinha um noivo...

Um noivo que terá suas expectativas frustradas.

O próprio Rei decidiu colocar um fim naquilo tudo, mas só avisaria quando eles viajarem até Winterfell, aí sim o dragão irá cuspir fogo.

Nunca foi o objetivo de vida do meu pai honrar uma promessa idiota daquela.

O Rei era um homem honrado, entretanto, há coisas mais importantes do que honra na vida e isso até mesmo Jon conseguiu concordar que uma pequena intervenção era necessária. A realidade era que uma menina que cresceu com lobos-gigantes, dragões e Dothrakis como referência nunca se adaptaria ao Norte isolado. Arya sempre foi criada com as mesmas coisas que Daenerys teve mas a primeira gostava mais de espadas do que a segunda, mas ambas gostavam bastante quando o assunto se tratava de guerra ou tensões políticas, tanto que Dany agora é a única Khaleesi/Khal. Rhaegar Targaryen sempre deu todo este treinamento para as duas, obviamente proporcionando uma maior liberdade para com a vida delas... tanto que Dany resolveu se aventurar em Vaes Dothraki.

Já Arya em Winterfell...

Jon tinha certeza que ela iria caçar briga antes mesmo de chegar lá, os nortenhos sempre foram muito conservadores e as mulheres das grandes casas em criadas para outros fins, como o casamento. Isso se reflete muito no que a sua mãe passou, a teimosia nortenha acabou se tornando uma inconsequência e, para o inferno diário de Jon, enfrentaram Aerys e morreram.

Um avô contra o outro avô... deuses...

É, a vida de Jon se resumia em paradoxos desgastantes.

É minha irmã... mas a desejo.

Isso não é aceitável... mas eu sou um Targaryen, aí se torna aceitável.

Continua sendo contra o que acredito... mas o que vale isso quando a tem perto de mim?

Principalmente quando ela anunciar com quem quer se casar, ou talvez o contrário.

Jon não sabia.

Acho que não sei de mais nada.

Tinha um receio enorme pois o homem que se casará com ela, bem, terá que se acostumar com diversos contratempos potencialmente irritantes.

Suas roupas... quando não estava de calça, usava um vestido... hum...

Ele não sabia se ficava puto de raiva ou enlouquecido de desejo quando ela usava aqueles vestidos que em Dorne se usa tanto:

Costas nuas.

Ainda mais quando ela gostava de variar e usar um dos vestidos que em Jardim de Cima também se usa:

Fenda no decote quase até o umbigo.

Enfim, era melhor não pensar nisso pois era bem capaz dela misturar essas duas tendências com detalhes que mostram as suas pernas. Era pedir demais do jovem Jon, proteger e amar uma irmã que se deseja não é o sonho de todo homem, principalmente quando se nota que o seu próprio pai parece estar mais interessado do que tratá-la apenas como filha. Isso o frustrava inteiramente, então balançou a cabeça para espantar aqueles pensamentos.

Encontrou com ela quando entrara na Fortaleza Vermelha depois daquele treino. Jon sorriu internamente, ainda bem que ela está de calça. A imaginação do jovem Príncipe não era moralmente correta, e o mesmo sabendo que estava fedendo a suor não se aproximou, apenas acenou e ela veio correndo com um sorriso marrenta estampado em sua face.

O cabelo escuro dela estava em um longa trança já bagunçada e aparentemente incomodando-a. De certa forma, o coração do Príncipe se amolecia quando ela estava por perto... e Arthur Dayne o alertou disto, então, a regra é clara...

...nada de abaixar a guarda, Jon.

- Onde estava, Jon? – perguntou abraçando-o mesmo assim, independente do suor. Ele bagunçou ainda mais o cabelo de sua irmãzinha, dando um beijo na testa dela. Gostava da indiferença dela quanto aos contratempos de se treinar demais. Arya nunca se importa... – Te procurei por toda parte.

Arya se afastou um pouquinho, possibilitando uma melhor visão daqueles olhos cinzentos que tanto o infeitiçava... ela é intensa... sexy ao jeito dela.

- Com Arthur Dayne – respondeu com um sorriso que veio junto de uma piscadela, fazendo-a sorrir – Porque estava me procurando, irmãzinha?

- Nosso pai falou que Viserys está vindo nos visitar – respondeu dando de ombros, aproximando-se novamente e cheirando o pescoço dele, arrepiando-o completamente – Exagerou hoje, está coberto de sujeira... será se perdi alguma coisa?

- Sabe que gosto de treinar – argumentou pobremente enquanto ela se afastava novamente.

Os olhos cinzentos da loba sempre são afiados.

- Vai ter uma guerra e eu não estou sabendo? – perguntou sorrindo, puxando-o para dentro da Fortaleza Vermelha – Você se mata demais nessas coisas.

- Olha quem fala... – brincou na tentativa de fazer com que ela se esqueça dos exageros que ele estava cometendo nos últimos dias... mas eu sei que ela não se esquece... - ...é perigoso você quebrar uma perna qualquer dia.

- Tenho tido um acompanhamento muito bom de Jaqen, o homem que veio da Casa do Preto e Branco – comentou gerando uma espécie de ciúmes no Príncipe, Jaqen é bonito e ela gosta dele... deixe de ser infantil, Jon! – Jaqen que fará a guarda de Viserys.

Jon ergueu uma sobrancelha.

- Parece que o Rei não está gostando de Viserys, enfim... – comentou Jon, já se lembrando das façanhas do seu tio em toda Westeros, geralmente era ele que envergonhava os Targaryen atualmente... mas infelizmente é um parente, então o respeito está acima de tudo — ...qual foi a merda da vez?

- Você conhece Viserys, ele gosta de se vangloriar e falar que é o herdeiro do Trono de Ferro – ela respondeu rindo, debochando de Viserys... que era algo que ela adorava fazer, obviamente eles não tinham um entrosamento muito bom...até ela ganhar seios – Todo mundo sabe que é você, mas não vamos entrar nesse assunto pois sei que odeia quando falo que será um Rei muito bom para Westeros – Arya sorriu, devolvendo a piscadela à ele – Te procurei porque não gosto de encontrá-lo sozinha.

Claro que não gosta. É Viserys.

Jon suspirou, o seu tio era mais que inconveniente, é indesejado.

- Ele sabe que eu não me esqueci quando o vi rasgando as suas roupas e pronto para ficar em cima de você no ano passado – murmurou contendo a raiva, era um assunto que só emergia quando necessário. Nem mesmo o pai de Jon sabia o que havia se passado, era melhor assim... pelo menos foi isso que Viserys e Jon ‘concordaram’ – Eu deveria ter feito mais, irmãzinha.

Arya revirou os olhos.

- Você quebrou as pernas, o nariz e o pulso de Viserys.

- O que me mata é que Nymeria e Fantasma estavam cruzando quando ele se aproximou de você, se eu demorasse a te encontrar... – Aquilo mexia com o Príncipe, ficava remoendo o que teria acontecido com sua irmãzinha pois a mesma não estava com nenhum tipo de arma e Viserys, duas espadas e uma adaga.

Ela parou, encarando-o seriamente.

Olhos afiados.

Garras afiadas.

Fome exarcebada.

Foi isso que Jon viu naqueles olhos cinzentos: fome.

- Não vamos voltar neste assunto senão nosso pai perceberá, Jon.

‘Nosso pai’.

Ele assentiu.

- É a primeira vez que vamos vê-lo desde aquele dia – comentou pensativo, ainda apreciando a visão à sua frente. Arya é a loba mais alpha que tive o prazer de conhecer... nem sequer pediu ajuda de outros, apenas nós enfrentamos a ignorância de Viserys... segundo ela, seria melhor assim. – Concordo que temos que esconder isso pois afetaria muito o nosso pai, sabe se ele está bem hoje? Quando o vi, parecia até animado.

- Tomei chá com ele hoje, está melhor que ontem.

Tomou chá, Arya?

E como ele estava? Olhando para os seus seios?

Abraçando-a?

- Ele sempre está bem quando você aparece – comentou enciumado, atraindo um olhar divertido dela enquanto voltavam a andar pelos corredores majestosos e escuros da Fortaleza Vermelha – O que foi?

- Jon, se eu te falar que é um péssimo ator comigo... será que acredita?

O sorriso dela também era afiado.

Mas o meu é mais que o dela.

Dos quatro homens que tentaram estuprá-la nos últimos tempos, apenas Viserys vive.

Matei cada um daqueles homens lentamente e meu pai nada sabe disso.

O primeiro foi enforcado.

O segundo, mutilado e deixei o sangue sair do corpo dele lentamente.

O terceiro, bem, o terceiro teve a cabeça arrancada assim como o Norte faz com os prisioneiros.

O quarto... Viserys, me espere.

De hoje não passa.

(...)

Resolveu procurar o pai antes de começar o jantar, deixando a sua irmãzinha com as criadas para ajudá-la a se vestir. Ainda coberto de sujeira e fedendo a suor, Jon não conseguia deixar de lado o sentimento de culpa em nunca ter falado nada para o pai. Era de se esperar que o Rei acabasse se tornando como o pai, Aerys, mas isto nunca aconteceu pois o raciocínio do pai de Jon era tão lúcido que poderia dar uma banho em diversos intelectuais de Westeros. O real problema era que quando algo, qualquer coisa, acontecia com Arya... enfim, não era recomendado mexer muito com ela.

A lobinha...

Minha vida é um inferno.

Encontrou-o no cômodo do Pequeno Conselho e lia algumas cartas sob a luz de poucas velas. Eram momentos como esse que Jon gostava de observar o quanto o pai era cauteloso em relação aos outros, sempre se inspirou em imagens como esta para agir com o rigor necessário e era isso que o Príncipe faria.

- Pai? – chamou-o enquanto entrava no cômodo rapidamente.

O homem de olhos violeta e cabelo prateado em vestes negras o encarou com um sorriso nos lábios. Rhaegar Targaryen continuava sendo um homem atraente e muitos falavam que ele não parecia estar envelhecendo, sendo outra vantagem de ser um Targaryen. Inteligente, poderoso e bonito... que mulher que poderia resistir às suas investidas?

Humm... Arya?

- Tive notícias de que meu filho está se matando de tanto treinar com a Garralonga – Rhaegar Targaryen estava bem feliz naquele dia e Jon preferiu ignorar o porquê, sentindo uma gigantesca culpa ao arruinar a felicidade dele... mas é mais que necessário... preciso da autorização dele... – Treine, filho. Treine muito pois um dia terá que aplicar um golpe duro e acredite em mim, tais golpes muitas vezes são injustos mas necessários. A paz de um reino como Westeros se faz com lâminas gastas, penas demasiadamente afiadas, a tocaia do lobo-gigante e o fogo do dragão de três cabeças.

- Os Tyrell ou Baratheon? – Jon perguntou, sempre eram essas duas casas as que mais davam dor de cabeça para o dragão, que suspirou exausto.

O pai dele pegou a carta que estava lendo.

- “...sabemos o quanto é difícil mas pedimos a locomoção da Lady Arya Stark imediatamente até Winterfell...”... ?

Jon se sentou de frente para o pai, o primeiro arqueou suas sobrancelhas, estava bem confuso.

- Stannis Baratheon?

- Não, — O Rei colocou a carta em cima das velas, queimando-a rapidamente – a mulher dele.

- Uma feiticeira de Asshai como Lady Baratheon... – refletiu o Príncipe bastante pensativo, analisando o pai — ...o que Dany descobriu dela?

O Rei deu de ombros.

- Era prostituta de R’hllor.

- O que meu tio fala dela? – perguntou curioso – Sei que ela não pode ter filhos.

Lady Melisandre Baratheon, feiticeira de Asshai e prostituta de R’hllor.

- Ninguém a atura, para ser sincero – respondeu o Rei visivelmente aborrecido com as explícitas mensagens do Norte em relação àquela menina que nunca se acostumará com o modo de vida feminino por lá – “Porque a noite é escura e cheia de terrores”, que já é um bordão ruim, então imagine ter em todas as cartas dos Baratheon esse tipo de referência. Estou com uma pequena vontade de mandar Rhaegal até lá e iluminar a noite deles.

Jon sorriu, estava gostando do que via.

- Está tão bem hoje, papai... – comentou como se fosse uma criança, no final de tudo, Jon sempre será uma criança para e perto do seu pai — ...e agora estou impressionado com a minha irmãzinha.

O Rei exibiu um sorriso que machucou o Príncipe e despedaçou o seu coração. Até mesmo os olhos exóticos dele estavam sorrindo, algo que não acontecia muito. Ver o quanto o seu pai estava feliz com alguma ‘perspectiva’ fazia com que Jon se sentisse o indivíduo mais egoísta existente ao tentar impedir o pai de se aproximar tanto assim de sua irmãzinha. Era clara a mudança que estava ocorrendo no emocional do pai, propicionando uma cena que o deixaria feliz e Westeros ficaria cada vez mais saudável tendo um Rei saudável. Só havia um herdeiro e Jon o era, colocando todo um reino gigantesco em suas costas e sem ninguém para auxiliá-lo quando o Rei se for...

Sou o filho único e egoísta.

Até mesmo a juventude em seu pai voltava, era incrivelmente sofrido para o Príncipe. O paradoxo era dificílimo e logo se via sem saída ao ver o seu pai tão feliz...

...eu arranquei a felicidade dele ao matar a minha mãe quando nasci. Matei muita gente ainda na barriga da Rainha Loba, assim como matei a alegria do meu pai. Eu nasci.

Eu nasci e tudo terminou assim, porque tenho que ser egoísta?

Porque estou sendo egoísta?

Eu que estraguei tudo e meu pai nunca joga isso na minha cara.

O coração de Jon estava despedaçado... assim como a sua perspectiva de vida.

- Ando com sonhos bons, filho.

O sorriso dele está mais fácil...

A garganta do Príncipe estava seca.

- Que bom, papai – como eu falo...? –, fico feliz em saber que não está tendo aqueles pesadelos em que era morto por meu avô materno.

O Rei analisou o filho atentamente, apoiando o rosto em uma das mãos.

Olhos astutos e rápidos.

Jon se arrepiou, era comum quando o pai resolvia olhar através de sua alma... o que estava acontecendo cada vez mais.

- Filho, o que está te deixando tão melancólico? – perguntou diretamente sem desviar o olhar. Jon engoliu em seco ao vê-lo daquela forma, sempre foi um pai coruja e seu confidente mas agora é tão diferente... Jon se sentia um filho ingrato – Não sou cego, Jon, vejo a sua dor mas não compreendo-a. Perguntei para Arthur e ele disse que apenas estava te achando agressivo demais para um rapaz tão doce como você. Perguntei para Dany antes que ela voltasse para a Baía dos Escravos e ela disse que de nada sabia, assim procurei a lobinha, que me falou que você se sente culpado por se sentir o causador da minha infelicidade. Isso é verdade, meu filhote?

Sinto uma dor no peito...

Jon não conseguiu encará-lo, apenas suspirou e olhou para baixo.

- É que todos falam que... – o Príncipe não conseguiu finalizar a frase, sua voz morreu.

O Rei captou em questão de milésimos de segundo, então assentiu.

- Filho, você é amado e sua mãe sabe disso mesmo não estando aqui com a gente – começou abrindo um sorriso motivador enquanto acariciava a face de Jon, que tentava esconder os possíveis estupros de sua irmãzinha, o seu sentimento pela mesma e o medo de perdê-la, principalmente para o pai – Você foi o melhor presente que os deuses poderiam ter me dado.

Pai...

- Sim, eu me sinto culpado pois interrompi... – mas o Rei interrompeu-o.

Sábio como sempre, os olhos violeta o pegaram desprevenido para tamanha intensidade.

- Sei que há mais que isso, filhote.

Foi como se a mente do Príncipe explodisse.

Era o seu pai, ele estava acima de qualquer amor que poderia sentir por sua irmãzinha.

Ele abriu mão tanta coisa, porque não posso abrir mão do que mais amo?

Ele abriu mão de tudo apenas para me fazer crescer em um ambiente saudável...

...sei que ficarei infeliz, mas é o meu dever retribuir e devolvê-lo a felicidade.

E ele sabe que você sabe, Jon.

- Eu apóio, papai.