Notas iniciais
Cadê meus comentários... =/ ? Fiquei tristinha porque a fic tá preparando pra pegar fogo u.u

Estava sendo dura com o seu marido mas não entregaria a sua filha para um homem que parecia um touro, bruto e promíscuo, principalmente quando esse tal homem está bebendo todo o vinho de Winterfell na sua frente. Era engraçado e educado com Catelyn, mas exigia respeito debaixo do seu teto. Não queria nenhuma brincadeira agressiva, principalmente relacionada aos Targaryen.

As paredes tem ouvidos.

Comia como um touro, até.

Fazia o seu marido rir e contar certas histórias da juventude no Ninho da Águia, mas... Catelyn não via nenhuma importância na presença daquele ser que andava sendo o maior pesadelo da vida dela. E parecia que não queria sair de Winterfell, afinal, Stannis que administra a fortaleza recém-batizada de Tormenta do Sul. Ela sentia vergonha alheia quando julgavam o Sul apenas por conhecer os mais fracassados sulistas que toda Westeros teve notícia. Como sempre, Cat tinha que fingir que estava apreciando cada palavra que ele pronunciava.

Ned sabe.

Seu marido sempre sabe quando está desgostosa.

Com o barrigão de quase nove meses, como ela poderia estar diferente?

Poderia ser a menina que levariam dos braços dela assim que nascessem, tinha medo que Ned aceitasse tamanha crueldade apenas por manter a honra, palavra e orgulho. Segundo o mesmo, Robert é o irmão de alma dele.

Que essa alma arranje outra. De preferência uma alma Targaryen para deixá-los bem longe daqui.

Mas o que a deixava com uma raiva gigantesca do seu marido, estavam dormindo em quartos separados por conta disso, era que ele havia recusado ser a Mão do Rei. Aquilo poderia beneficiá-los de tantas maneiras... poderiam ajustar o Norte e proporcionar um ambiente pacífico para a sua família se estabelecer. Não queria ter que ver cenas absurdas que o Inverno trazia até Winterfell, muito menos ter que lidar com esse espectro chamado Robert Baratheon pairando sobre eles. Aquilo tiraria os Baratheon de perto da famílias deles de uma vez por todas.

Mas não... a palavra de um Stark vale mais do que qualquer coisa.

Palavras mal ditas formam palavras malditas.

- Como estão as acomodações em Tormenta do Sul? – perguntou Catelyn na melhor das intenções de tentar manter uma conversa cordial para que Ned não a acuse de falta de hospitalidade para com os seus amigos. Um amigo como Robert dá trabalho...

Com um sorriso de jovem, ela tentava conversar com ele para disfarçar o desgosto.

O mais incrível é que ele não percebe. Fica nas criptas por tanto tempo que Ned tem que chamá-lo. Mas foi negado impiedosamente pela Rainha Loba, que deve estar rindo do fracasso dele. Eu riria.

- O Inverno está mais para um inferno gelado, Lady Stark – respondeu amigavelmente, não notando sequer um vestígio do desconforto dela. Se for uma menina parecida com a Rainha Loba... – Mas estamos conseguindo nos adaptar com a ajuda do seu marido, não se preocupe.

Não me preocupar...?

- Fico feliz em saber.

Ou não.

Um olhar esquisito foi lançado à ela, era Ned. Não se importou e voltou a comer o seu ensopado de carne, estava grávida e, pela segunda vez, praticamente comia tudo que saía da cozinha. Robb se revelou um menino forte e inteligente, ela comeu muito javali para que ele nascesse daquele jeito. Agora comia gansos até falar chega, seria uma menina.

Eu sei.

Era um desespero ver aquele homem andando em Winterfell como se estivesse em sua própria casa. Se já era um medo tremendo ver sua filha tirada dos seus braços, ter Robert Baratheon vivendo como se fosse da família... não teriam para onde correr.

Por isso ela estava no quarto com Ned, que pensara que ela fosse voltar a dormir com ele.

Crise conjugal.

O seu coração se apertou quando viu um sorriso se formar naqueles lábios que ela tanto desejava. Era triste, sim.

Mas necessário.

- Não estou gostando da presença prolongada de Robert aqui, Ned.

Ele suspirou exaustamente. Foi audível a impaciência que ele estava com ela, mas ele nunca faz nada prático quando toca no assunto Robert versus Nova Lyanna. Catelyn sabia que isso o atormentava, mas deu a palavra ao seu melhor amigo em troca de uma pacificação no Norte, uma certa tolerância quanto ao Rei. Foi o acordo entre eles, um acordo para o bem maior. Mas...

...quero o bem da minha filha e não do Norte.

Deitado na cama, ele passou a mão na barba que estava deixando crescer.

Um homem orgulhoso, correto e bonito ao seu jeito.

- Não posso voltar atrás, eles estão se comportando muito bem e quase não questionam os relatórios que são feitos mensalmente e enviados ao Rei – argumento rapidamente, deixando bem claro que ali não tinha volta.

O maxilar dele estava tenso, não tão diferente dela.

Até demais, Cat.

Sou uma truta, e trutas acham espaço na correnteza de um rio.

Abrirei qualquer espaço.

- Está usando sua filha como moeda de troca?! – perguntou indignada, sentindo dores na barriga.

Dores que também sentiu quando Robb nasceu.

Um desespero gritante tomou conta dela, transpassando isso para o marido, que assustou-se com a parada brusca dela. Os olhos dele estavam alarmados, correndo até ela e indicando para que ela se sentasse na cama. O medo cintilava naqueles olhos cinzentos e ela sabia muito bem que aquilo o fazia temer a famosa cama de sangue que a Rainha Loba morreu na frente dele.

Sentando-se devidamente, acalmou-se após algum tempo sendo ajudada pelo marido, que a fazia uma massagem nos ombros.

- Está tensa, Cat.

As mãos dele eram quentes e ela as desejava todas as noites, mas não conseguia fazer nada devido à perspectiva de ter sua filha levada por Robert Baratheon.

Iria traí-la todas as noites.

- Ned, eu te amo... – confessou baixinho, era cruel mas... quem disse que a realidade é fácil? — ...mas espero que entenda o quanto eu odeio todo esse acordo.

Ele beijou o seu pescoço, causando-lhe arrepios.

- Não me agrada, mas o que faria no meu lugar, Cat? – perguntou mansamente, sussurrando ao ouvido daquela jovem grávida que era a única Lady Stark. Espero que seja a única, espero que só tenha filhos... – É o meu melhor amigo e irmão, cresci com ele, aprendi a lutar com ele, vi o mundo também com ele. O que faria quando a sua própria irmã jogasse na cara dele tudo que ele poderia tê-la oferecido? Principalmente para ficar com Rhaegar Targaryen? E ainda mais sendo ridicularizado por toda Westeros? O que eu poderia fazer para conter uma revolta dele? Um temperamento tão difícil deve ser levado em conta, Cat. Se ele levantou uma rebelião contra os Targaryen, quem garantiria que não poderá levantar outra?

Ela balançou a cabeça firmemente.

Esses dedos...

- Ele não terá chance alguma.

- Sim, ele pode não ter... mas a quem você acha que o Rei responsabilizará pelos danos, Cat? – perguntou com sua perspectiva realista do mundo.

A realidade é cruel.

Sentindo algumas dores de parto, ela fechou os olhos. Ele logo entendeu o que estava acontecendo, saindo correndo atrás de algum criado por perto. Sendo observado por ela, Ned estava desesperado mas não havia o que temer, não tanto quanto o problema que eles foram arranjar.

Se essa menina nascer com a aparência da Rainha Loba, se chamará Arya. Se não, será Sansa. Sendo Sansa, o perigo passaria longe pois Robert Baratheon nunca aceitaria uma Stark diferente da que ele quer. Ele quer Lyanna. Se for Arya...

Se for Arya a nascer... ela não ficará em Winterfell.

(...)

Era uma carta do Rei.

Lorde Stark não estava lá para recebê-la, apenas Catelyn, Robb e Sansa estavam em Winterfell naquele momento.

Ele, Benjen e Robert foram caçar na Mata dos Lobos. Benjen gostava de visitá-los de vez em quando, era bom ter um contato com a família embora Catelyn nunca conseguira entender a obsessão que o irmão mais novo de seu marido tinha com a Patrulha da Noite. Se ela já congelava ali, na Muralha estava fora de questão.

E o viado não sai de Winterfell nem amarrado.

Aquilo a deixava fora de si, cada dia, mês e ano que se passavam, mais ela pensava seriamente em contratar alguns assassinos para matá-lo e desaparecer com o cadáver. Infelizmente, Lorde Stark sabia tudo que se passava no Norte, então em Winterfell... seria impossível esconder.

Ali parecia que virara a nova morada dele. Era decepcionante ver o seu marido tentar conciliar as coisas, mas não conseguia ficar com raiva dele o tempo todo. Era impossível. O seu marido era gentil, amável, sério e correto, não poderia culpá-lo pela chuva de problemas que caíam no ventre de Catelyn. Ela gostava de pensar que foram palavras mal ditas de Ned, essas palavras logo viram malditas. Talvez fosse para apaziguar os ânimos.

- Eu pensava que ele desistiria depois de Sansa – confessou-a uma vez, estavam brincando com os filhos no momento, longe de Robert.

Catelyn odiava deixar os filhos perto dele.

Mas infelizmente Robert não desistira. As brincadeiras continuavam irritantes, como sempre. Dava para ver a expectativa nos olhos dele, deixando-a cada vez mais tensa pois o seu marido não conseguia contê-lo. Ned tentava, mas o viado não sossegava facilmente.

- Quando irá nascer a minha menina, Lady Stark? – perguntou-a em um tom de brincadeira enquanto ela segurava Sansa no colo e observava Ned e Sor Rodrik brincarem com Robb, agitando espadas de madeira em miniatura para que ele conseguisse manter a pose de um cavaleiro. O sorriso nos lábios do seu marido a fazia derreter como manteiga no Verão.

‘Minha menina’...

Catelyn estava grávida novamente. A sua terceira gravidez.

Robert deu um sorriso satisfeito quando recebeu a notícia. Ned conseguiu argumentar com ele que se o terceiro fosse um filho, não haveria mais nenhum trato entre eles. Exceto se o próprio conseguir um herdeiro, o que é bem improvável. Robert gostava de um estilo de vida bem diferente do que o de um Lorde respeitável.

Se bem que Lorde mesmo é o irmão, Stannis.

Só que o instinto de Catelyn a deixava louca.

Vai ser uma menina.

Uma barriga de oito meses que logo mostraria o que Catelyn sempre temeu: Arya.

Concentrando-se na carta com o selo dos três dragões que jazia em seu colo, ficou se perguntando se Ned havia feito algo errado nos relatórios mensais.

Por mais que Robert e Ned briguem, o meu marido continua sendo leal ao Rei.

Estava em seu quarto e seus filhos dormiam na cama de casal, o Verão havia chegado mas a diferença do Sul para o Norte era gritante em vários quesitos, principalmente os climáticos. Catelyn continuava a sentir frio.

Hesitante, seus dedos passavam pelo envelope lacrado. Estava com uma tentação de abri-la tão forte que passava os dedos pelas laterais, tentando decidir-se o que faria com aquela carta. Ela mesma a pegou quando o corvo começou a bicar a vidraçaria da janela, ninguém sabia da carta.

Mordendo o lábio inferior, ela resolveu romper o lacre e ler todo o conteúdo.

Ned me fala do mesmo jeito, porque não devo abrir?

Obrigado pela oficialização da sua resposta, Lorde Stark. A família é o que há de mais importante e todos devemos conservá-la, assim como faço com a minha. Dei-lhe este tempo para pensar, espero que tenha feito o correto para o seu território. Um homem livre sabe o que quer, como dizem. Chegamos ao fim desta questão, parabéns pelos filhos e por Lady Stark estar grávida. Apenas quero que saiba que, como Rei, interferiria neste acordo que fez com Robert Baratheon, mas o chefe familiar é você e portanto é uma questão exclusivamente sua. Não concordo, mas espero que seja sensato caso um dia isto ocorra. Se mudar de ideia, interferirei. Rei Rhaegar Targaren.”

Então o Rei estava sabendo deste acordo e Ned defendeu-o?

Catelyn ficou fora de si, sempre pensou em alegar que o Rei era contra esse tipo de condição... mas não, o próprio Rei Rhaegar Targaryen responsabilizou o seu marido pelas consequências que aquilo ali causariam para o Norte.

Ned... o que está fazendo???

Não vê que isso estragará a nossa família???

Tudo era uma questão de palavra, promessa e honra. Claro que isso importava, era uma moeda rara hoje em dia, mas precisava envolver crianças e essa...

...pedofilia?

Catelyn não acreditava que Robert conseguiria segurar-se por muito tempo, Ned já tinha outra opinião, falava que o melhor amigo iria respeitar a família deles. No fundo, Catelyn sabia que Robert iria respeitá-los, mas a espreita dele era pior do que qualquer outra coisa. Ele queria a menina para uma finalidade: substituir Lyanna.

Como será que ela se sentiria se fosse vítima da palavra de honra do pai?

Tudo estava caindo aos pedaços ao seu redor. Ela não poderia entregar sua filha ao vento, principalmente à um vento chamado ‘viado’. Não queria que uma criança fosse responsabilizada pelos erros do pai e tia.

Até quando Lyanna irá deixar de me atormentar?

Não posso entregá-la à ele.

Também não posso isolá-la em Winterfell pois Robert está sempre por aqui.

Correrio não iria ser contra, um casamento assim é bom para a paz de Westeros.

‘Paz’?

Com certeza não será a paz de Catelyn.

Leu a carta dez vezes, pensando na loucura que estava a cometer. Era uma completa loucura, principalmente se ela não falar nada para Ned sobre a existência daquele conteúdo e... do que ela poderia mandar, não é? Poderia livrar a sua filha de um viado chamado Robert Baratheon e o seu marido não permitiria uma rebelião se eu a mandar para... Porto Real. Eles não podem ir contra ou alegar qualquer coisa já que com o consentimento da mãe...

E também apenas os Stark tem permissão para ir ao Sul.

Catelyn resolveu não pensar tanto assim, se era pra ser feito... teria que ser agora.

Ninguém estava olhando, ninguém estava escutando ou até mesmo por perto.

Era uma noite calada, perfeita para loucuras como aquela.

Uma mãe faz tudo que pode para proteger os filhos.

Ajeitou um pergaminho na mesa e molhou a pena na tinta, pensando no que poderia escrever ao Rei.

Respirou fundo e, quando tocou a ponta da pena no pergaminho, percebeu que tinha pouco tempo para escrever tudo aquilo: sua menina estava se remexendo em seu ventre, o que significava que... o Inverno estava chegando novamente, mas dessa vez só para os Stark e Baratheon.