Apenas Juntos
21 Tortura
Notas iniciais
Enquanto os alunos da tarde chegavam aos poucos, Nathaniel mandou uma mensagem para Júlia dizendo o que tinha acontecido agora a pouco.
Parando para pensar melhor, Castiel disse que foi buscar Dragon. Mas qual o sentido? Ele estava em outro lugar, veio até aqui pegá-lo, mas voltou de mãos vazias. Se o veio buscar é porque estava estável. Então o que faz aqui?
Júlia respondeu.
“Ele perguntou isso? Eita. Bom, olha só, agora não precisa evitar, já aconteceu. ”
“Claro que eu preciso evitar. Não quero o olhar como se nada tivesse acontecido, e conversar como dois amigos de longa data. ”
“Você estava com medo de dar de cara com ele, já deu, e agora? Qual o próximo medo? kkkk”
“Vai cagar, Júlia. ”
...
No meio de uma das aulas, Nathaniel saiu da sala para buscar alguns canetões pretos, já que os seus haviam secado. Quando fechou sua porta, por um momento ouviu o silêncio do corredor, mas três segundos depois ouviu sons de guitarras sendo tocadas, bem baixo.
Olhou para o final do corredor, e ouviu com mais atenção. O som estava vindo da sala de Castiel, claro. Ele sabia que a sala tinha toda uma estrutura para que o som de dentro não se propagasse do lado de fora, então qualquer barulho que fizessem não seria ouvido pelas outras salas.
Se aproximou da porta e ouviu um pouco.
— Calma, tem alguém tocando a corda errada. — Castiel dizia. — Toquem de novo. — E todos tocaram uma corda. — Ah, é você... — Houve um breve silêncio. — Isso, é essa de baixo, toque-a. — Um som de corda soou. — Muito bem, essa mesmo. — Mais silêncio. — Agora sim, toquem de novo.
Nathaniel sorriu ao imaginar Castiel ensinando alguém a tocar guitarra. Ele queria muito ver aquilo. Não imaginaria que Castiel pudesse ser paciente o bastante para ensinar crianças. Mas não dava para ver.
Decidiu ir a secretaria, e logo pegou seus canetões de lousa. Senhora Mila, uma das secretárias mais velhas — mas não que fosse tão velha de idade — pediu ajuda para levar algumas caixas até seu carro no final das aulas. Claro que ele não recusou. Voltou a sua sala e continuou a aula.
...
Assim que o sinal bateu, pegou todas as atividades e arrumou suas coisas. Não queria dar de cara com Castiel, então foi rápido para a secretaria.
Sra. Mila enrolou e enrolou, não achava as coisas que iria levar, e conforme achava, as colocava em algumas caixas. Isso durou uns vinte minutos.
Depois de finalmente pegar tudo, foram ao estacionamento. Sra. Mila abriu o porta malas, e ia arrumando as coisas lá dentro enquanto Nathaniel as passava. Sentiu seu corpo gelando quando ouviu um som familiar se aproximando. E piorou quando parou ao seu lado.
Era impossível não reconhecer o motor daquela moto. A moto que já esteve tanto de carona, quanto dirigindo. Nathaniel o olhou. Castiel estava com o visor do capacete levantado e de óculos escuros.
— Quer uma carona? — perguntou com um sorriso de lado, quase que tirando sarro.
Nathaniel quase suspirou ao vê-lo daquela forma. Tudo nele estava harmonioso, e pareciam que ele e a moto foram feitos um para o outro.
Sentiu seu rosto esquentando. — Não, obrigado. — E voltou a olhar para o porta malas.
— Oh, olá Castiel — cumprimentou Sra. Mila. — Como foi sua primeira aula?
— Foi ótima, Sra. Mila, obrigado. Meus alunos são ótimos.
— Ah, que bom! Vai se preparando, porque vários alunos da tarde foram lá na secretaria perguntar como fazia para se inscrever nas aulas de música.
— Ah, a Sra. Camila já me informou sobre isso. Ela teve que abrir mais dois horários.
— E você vai poder vir, não é?
— Claro. De manhã tenho duas aulas com os alunos da tarde, e de tarde duas com os alunos da manhã.
— Ahh por enquanto, hein! — Riu. — Acho que teremos que por mais horários para você.
— Quanto mais aulas melhor... — Olhou para frente rapidamente. — Bom, até amanhã. — Baixou o visor.
— Até — disse Sra. Mila.
Castiel acelerou e partiu. Nathaniel ficou o olhando até sair do portão da escola.
— Nath.
— Oh, desculpe. — Voltou sua atenção a ela.
— Ele é tão bem-educado.
— Quem?
— Castiel. Gosto dele. Pelo que estou ouvindo é um ótimo professor... Você já o conhecia? Já que ele te ofereceu carona.
— Ah... — Ficou sem graça. — Sim... nós estudamos juntos, na escola.
— Ah! Que legal. Mas não parece que você gosta muito dele.
Se a senhora ouvisse os batimentos do meu coração, saberia que é exatamente o contrário. — Não éramos tão próximos assim.
— Que pena. Espero que vocês se deem melhor agora.
Após terminar de colocar as coisas no carro, Nathaniel saiu da escola e pegou seu ônibus, totalmente absorto em seus pensamentos.
Quando chegou em casa, já foi para o sofá e se jogou. Repassava aquela cena em sua mente várias e várias vezes. Nunca enjoaria de ver Castiel em cima de sua moto, e de óculos escuros ainda. Era a visão do paraíso.
Após colocar comida para Dragon e Branca, voltou ao sofá. Ele queria apenas ficar ali parado, lembrando do que viu. Ao mesmo tempo que era bom, era ruim. Era como se ele não pudesse sair daquilo, como se tivesse que ficar só nas lembranças. Era doloroso. Mas lembrar era... Prazeroso, de certa forma.
...
De manhã, estava um pouco nervoso. Não sabia se queria ver ou não Castiel. Não sabia se era ruim ou bom querer ou não querer vê-lo. Estava tudo confuso em sua cabeça.
No primeiro período, não viu sinal dele. Como estava em dúvida, achou melhor ficar na sua sala, e não ir xeretar igual fez no dia anterior, então a manhã passou rápido.
No almoço, não o viu também. Não quis enrolar, então voltou cedo para sua sala. Resolveu arrumar as carteiras que estavam fora do lugar. Depois apagou o que estava na lousa e começou a escrever a atividade da próxima aula. Pegou um livro e começou a passar alguns trechos de textos em inglês.
Em alguns momentos respondia algumas mensagens de Júlia, e voltava a escrever. Foi pegar o apagador, mas ele caiu, e antes que visse onde ele escorregou, se assustou com o que viu na porta. Castiel, encostado no batente, com as mãos no bolso da calça.
Nathaniel quase deixou seu livro cair, mas o segurou bem. — A quanto tempo você está aí?
Castiel deu alguns passos, e se abaixou, pegando o apagador. — Não sei, uns cinquenta minutos, talvez.
— Você não tem o que fazer? — Voltou à lousa, apagando seu erro com os dedos e voltando a escrever.
— Até tenho. — Se aproximou e deixou o apagador ao lado de Nathaniel. — Mas não tem muito o que eu possa fazer agora. — E andou para perto da primeira carteira, na segunda fileira, próximo a mesa do professor e se encostou nela.
Merda. Ele e sua mania de fazer as coisas terem duplo sentido. O pior é que meu corpo entende esse segundo sentido.
Nathaniel olhou para trás, e viu o olhar de Castiel levantando. No fundo, seu olhar estava malicioso. Muito malicioso. E claro, ele segurava um sorriso. Virou-se e voltou ao texto.
Maldito, estava olhando minha bunda.
Ouviu Castiel levantando e sentiu ele perto.
— Você não quer uma carona hoje? — perguntou perto, em uma voz baixa. — Eu sei onde você mora. — Com um dedo, colocou uma pequena mexa de cabelo loiro atrás da orelha de Nathaniel.
Ficou arrepiado e se afastou um pouco. — Eu já disse que não — falou baixo, tentando esconder seu rosto, olhando para o livro.
— Não custa perguntar de novo. — Castiel riu e saiu da sala.
Nathaniel deu uma livrada em sua cara.
...
— Af, Nathaniel — falou Júlia, sentada na cadeira da mesa de jantar. — Ele te deu maior mole e você faz o quê? Fica encarando o livro!
— Não me julgue! Você não faria muito diferente.
— Quem disse?
— Não faria e pronto.
— O assunto não sou eu. Nathaniel, ele quase te agarrou ali. Não é isso o que você queria?
— Júlia... Eu não entendo. Não sei como ele consegue. Olha o que eu fiz. Fui eu que foi o errado o tempo todo, eu que fiz besteira, e ele está agindo como se nada tivesse acontecido.
— E isso não é bom? — perguntou confusa.
— Não! Claro que não!
— Por que não? Se ele está agindo como se nada tivesse acontecido é porque já esqueceu.
— Não é possível uma coisa dessas. Se fosse eu não perdoaria isso.
— Nath, me diz uma coisa, vocês estavam namorando? Estavam noivos, casados? Vocês combinaram algo de ficar ou não com outras pessoas? Não teve nada disso, para de se sentir tão culpado. Vocês não estavam juntos para valer, vocês só tinham dado uns beijos e se pegado. Castiel não é do tipo que leva mágoa para o resto da vida. Se ele está querendo se aproximar é porque não liga mais para aquilo.
Cruzou os braços e se encostou na bancada da pia. — Sei lá, Júlia. Eu... eu não sei.
Ela levantou e foi ao banheiro, deixando o notebook ligado em cima da mesa.
Nathaniel sentou-se e olhou seu facebook, e procurou pelo perfil de Castiel. A uns dez minutos, ele havia postado um vídeo. Deu play, e Castiel começou a tocar sua guitarra e cantar ao mesmo tempo.
— Lay down your arms, and surrender to me. Lay down your arms and love me peacefully. Use your arms for squeezing and pleasing the one who loves you so. There ain’t no reason for you to declare war on the one who loves you so. So forget the other boys because my love its real, come off your battlefield […] The weapons you’re using are hurting me bad, but someday you’re gonna retreat. Cause my love, baby, is the truest you’ve ever had. I’m a soldier of love that’s hard to beat. Lay down your arms, and surrender to me […]
O vídeo acabou, e Nath voltou a página inicial.
Você quer me matar, não é? Isso foi para mim?
Depois que Júlia voltou, também viu o vídeo. — Eu não sou tão boa de inglês, o que diz a letra?
— Abaixe suas armas e renda-se a mim, abaixe suas armas e me ame pacificamente. Use seus braços para abraçar e afagar aquele que o ama tanto. Esqueça os outros garotos pois meu amor é real. Saia do seu campo de batalha. E depois, de repetir a mesma letra, ele diz: As armas que você está usando estão me machucando muito, mas algum dia você vai recuar, porque meu amor é o mais verdadeiro que você já teve. Eu sou um soldado do amor difícil de derrotar.
Júlia começou a rir. — Nath, você ainda quer prova maior do que essa?!
— Você não sabe se é pra mim.
— Ah é! — disse irônica. — Vou fingir que não sei que é para você.
Nathaniel passou a mão no cabelo, e não conseguiu deixar de rir.
Talvez. Só talvez.
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