Apenas Colegas de Apê
59 Palavras
Notas iniciais
Eu não queria inventar desculpas, e também não queria mentir. Eu queria apenas voltar no tempo e ao invés de ter aceitado esse beijo, ter dado um chute no meio das pernas desse idiota e o mandado sumir de uma vez da minha vida.
Mas não. Eu fiz tudo errado. E dizer que ele me agarrou, me beijou a força, é mentira. Eu sei, ele sabe, todos ali sabiam.
Ficamos apenas os três nos encarando, sem uma palavra sair da boca de nenhum, e meus olhos cheios de lágrimas pesadas.
Dizer "Não é nada do que tá pensando" será ridículo. Pois é exatamente o que ele está pensando que aconteceu. Eu, estava beijando outro cara, por quase livre e espontânea vontade.
E mesmo sem sentir nada nesse beijo, não posso negar que o Taylor beija muito bem. Droga, Rachel, para.
Quando a minha primeira lágrima caiu, a primeira palavra saiu da minha boca.
– Steve. — disse, de forma quase inaudível.
Ele continuou me olhando. À essa altura, nos três tínhamos virado o centro das atenções. Em outra ocasião, eu me importaria com isso, mas nesse momento, eu não estava nem aí.
– Steve. — repeti. Era apenas o que eu conseguia dizer.
– Eu não acredito que vi isso. — falou, com a voz trêmula, após uma pausa que não deve ter durado mais do que 5 segundos, mas que me pareceram horas. — E não tem justificativa. Você estava beijando outro cara. E nem venha me dizer que foi forçado, pois eu vi perfeitamente que você estava de acordo com esse beijo. Vi também sua mão no rosto dele, seus olhos fechados. Vi tudo. Não tente dizer nada, pois as suas palavras não terão significado algum.
– Então é isso? — perguntei chorando. — Você não vai nem ao menos me ouvir?
– Ouvir o que? — gritou. — Aquelas desculpinhas de sempre, que todo mundo que é pego no flagra diz? Acredite, eu não quero ouvir isso.
– Mas eu posso explicar. — ao final da frase, minha voz já nem estava mais saindo. Eu não podia explicar, e tinha plena convicção disso. — Me perdoa. — disse, como uma criancinha pede à mãe. — Eu sei que eu errei. Fui fraca, fui tola, fui tudo que você está pensando de mim, e eu admito. Mas te imploro que me perdoe.
– Não dá! Você beijou porque quis! O que é, não tem em casa o que tá procurando?
– Não, você me dá tudo que eu preciso, e era isso que eu estava tentando dizer pra ele. — me levantei e segurei no seu braço com as duas mãos. Imaginei que deveria estar com o rosto todo preto por causa do rímel, mas nada me importava no momento.
– Mas aí você mudou de ideia no meio da frase e resolveu beijar esse babaca? Achou que eu não iria saber nunca? — fiquei quieta. — Agora, eu não consigo acreditar em mais nada. Nada do que você me disser vai entrar na minha cabeça. Nada, nada. Para de chorar, para de me olhar. Sério, sai de perto de mim. Como vou saber se esse tempo todo você não saiu pegando geral enquanto o tonto aqui achava que você era toda santinha?
Cada palavra era como uma faca, cada uma cutucando minha pele e formando a maior e mais dolorida ferida que já tive. Cada palavra me ofendia mais. Eu consigo entender, e provavelmente, no seu lugar faria a mesma coisa. Mas mesmo assim.
– Aí já é demais. Eu nunca faria isso, nunca te trairia. — chorei.
– Você fez isso! — gritou novamente. — Não negue, Rachel, para. Cada coisa que sai da sua boca só piora a sua situação. Então, na moral, fica quieta.
Ele estava começando a exagerar.
– Você.. Você está me enojando. Só de olhar pra você, eu lembro de te ver beijando esse cara, e imagino muitos e muitos outros nessa mesma cena, ou pior.
As lágrimas iam cessando aos poucos, e uma coisa que não sei o que era ia subindo.
– Você provou que não é fiel. Provou que é uma galinha! Provou que é uma mentirosa. Uma ridícula... — continuou, e eu interrompi.
– Chega! Você não tem esse direito de me ofender, de mexer com a minha moral desse jeito. Você é ridículo! — gritava. — Eu só aceitei beijar o Taylor pra ele me deixar em paz de uma vez, pra gente poder viver em paz. Mas depois de tudo, de todas essas merdas que você me disse, eu não quero mais olhar pra sua cara. Eu sei que errei, e quer saber, eu realmente deixei ele me beijar. Ele beija muito bem, se quer saber. — O Taylor riu — Mas agora, você some de uma vez por todas da minha frente. — Eu chorei de verdade e parei de gritar. Como me doía dizer aquilo. — Eu te amo. E não vai ser por isso que vou deixar te amar. Mas, depois disso tudo que me disse, eu vou viver cada dia em busca de deixar esse amor no passado, quero que ele saia de mim aos poucos e a cada segundo. Pode deixar que eu vou pedir pro Peter ir buscar as minhas coisas.
– Se duvidar, até ele você já beijou sem eu saber. — falou.
Juntei todas as minhas forças e dei um tapa na cara dele, assim que terminou a frase.
– Já chega. Vai falar assim da sua vó! Seu ... — lindo, gostoso, amor da minha vida. Eu te amo. Te amo muito.
Peguei minha bolsa e saí de lá.
As lágrimas caíam sem pausas. Mal esperavam uma sair pra escorregar pela minha bochecha. Saíam todas ao mesmo tempo.
Eu resolvi ir à pé, pra não correr o risco de pegar algum taxista de bom humor que quisesse ficar conversando.
E a pessoa que eu mais queria conversar naquele momento, não ia querer conversar comigo...
Fechei os olhos e fiquei andando assim por um tempo. Enxuguei meu rosto, por mais que fosse em vão.
Tentei organizar meus pensamentos.
Apesar de achar que foi ridículo o que ele fez, de me humilhar daquela forma na frente de todo mundo, eu até concordava um pouco com algumas poucas palavras que ele disse.
"Cada coisa que sai da sua boca só piora a sua situação. "
"Mas aí você mudou de ideia no meio da frase e resolveu beijar esse babaca? Achou que eu não iria saber nunca? "
Era isso.. eu achava que ele não iria saber. Eu mudei de ideia. E eu não tinha como explicar.
Peguei meu celular e coloquei meus fones. Começou a tocar Don't Go Away, do Oasis.
"Então não vá embora. Diga o que disser, mas diga que ficará para sempre e mais um dia na minha vida. Porque preciso de mais tempo. Sim, preciso de mais tempo apenas pra fazer as coisas certas."
– Vai se ferrar. — gritei, no meio da rua e joguei meu celular no chão. No mesmo segundo me arrependi do ato e corri até ele. — Filho, filho, me desculpa. — falei, quando cheguei perto. Peguei na minha mão e vi a película de vidro quebrada, a parte de trás um pouco arranhada, nada que uma capinha não cubra.
Desisti da ideia de ouvir música, já que a maioria é de fossa, e eu ia acabar me desidratando no meio da rua.
Eu estava indo pra casa do Liam. Ele é a única pessoa que vai me entender.
Eu acho...
Bati na porta. Ele abre e me olha preocupado.
– Ei. O que foi? — pergunta, baixinho e me abraça. Abaixo meus olhos no ombro dele , sem me importar com a molhadeira que faria.
– Eu faço tudo errado. Eu sou uma idiota. Ele também, somos dois idiotas que não sabem nada sobre relacionamento. Eu achei que a gente podia seguir nessa caminhada juntos, como eu disse uma vez, que ela podia ser longa mas eu não me importava se estivesse com ele, e era tudo verdade, mas agora ele não acredita em mais nada que eu falo e tem toda razão. — disparei tudo.
Ele ia acariciando meu cabelo e disse, me olhando.
– Vamos subir pra você me contar isso direito.
Eu queria esquecer, queria fingir que isso nunca aconteceu. Mas, agora e muitas outras vezes, eu seria obrigada a reviver na minha mente cada segundo de um momento que eu faria de tudo pra apagar da minha vida, mas infelizmente não posso.
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