Apenas Carnal.
38 Capítulo 39
Notas iniciais
Então ela ouviu a porta abrir, pensou ser Patrick entrando, mas quando reconheceu o salto altíssimo preto, o corpo magro e alto, seu coração bateu aceleradamente.
Ela ficou sem reação, não sabia o que dizer para aquela pessoa.
-Kristin, precisamos conversar. – foi a primeira coisa que ela disse.
-Você era a ultima pessoa que pensava em ver hoje.
-Decidi esperar um tempo, meu irmão sempre dizia que iria melhorar quando você se acalmasse, ficaria melhor conversar com você. Isso me impediu de tentar viajar para a sua cidade varias vezes, mas a verdade é essa, Kristin, a gente precisa esclarecer tudo. Nossa amizade não pode acabar assim.
-Carlie. – ela chamou. – Acho que não é um bom momento, se está aqui então sabe da situação do Luka.
-Eu sei, e vim aqui para ficar com ele, afinal sou a madrinha dele acima de tudo.
-Você não sabe o quanto estou traumatizada com as madrinhas que escolhi.
-Kris, me desculpe, sou uma louca de ter tido aquela idéia, meu irmão tentou me avisar, mas, eu quis continuar...
-Me deixa entender, você queria levantar a minha moral, pagando para um homem sair comigo, por que me fazer pensar que homens só se aproximam de mim por dinheiro iria levantar muito a minha autoestima. – ela sorria irônica.
-E eu consegui! – ela disse convicta.
-Ah, Carlie pelo o amor!
-Eu não consegui? Kristin há quase um ano atrás quando você descobriu que Patrick te traia você tentou se matar! Você viveu por anos uma vida submissa como uma mulher dos anos vinte, por medo de ficar sozinha. Acha que continua a mesma depois que Sam passou por sua vida? Acha que conseguiria seguir em frente se ainda fosse à mesma de alguns meses atrás? A resposta é não, por que você mudou, minha idéia te mudou! Sam te mudou! Você está mais forte, mais corajosa, santo Deus Kristin! Você está morando numa casa de cinco cômodos! Nem eu conseguiria fazer isso! – ela disse isso enquanto caminhava e colocava a bolsa na poltrona. – Kristin eu posso ser louca, mas sei o que estava fazendo, e no final eu sempre estou certa!
Kristin respirou fundo, ela sabia que Carlie não mudaria de opinião. Afinal, era a Carlie.
-Terminou o que tinha para falar? – ela perguntou ríspida.
-Terminei. – ela pode notar um desapontamento em seus olhos. Carlie abaixou o olhar. – Você é a melhor amiga que já tive Kristin, e sempre fui capaz de tudo para te fazer feliz, mesmo que isso fosse insano. – ela pegou sua bolsa de volta da poltrona. – Olha, tudo bem se você nunca mais me perdoar, mas, não fica chateada com o Charlie, a idéia foi toda minha e ele sempre foi contra isso, ele não tem culpa e está sofrendo com seu desprezo. Se tiver que sentir ódio, sinta de mim, se tiver que ter inimigos, faça isso comigo, mas não faça com meu irmão, ele não teve nada a ver com essa historia. – A voz dela, estava rouca, mas antes que ela chorasse, ela saiu do quarto.
Um minuto, foi o tempo que levou o filme de toda a historia de amizade que tem com os gêmeos, todas as viagens, as confusões, as loucuras, os momentos felizes, as vezes que foi amparada pelos ombros deles. Foi o tempo que ela levou para refletir sobre tudo o que passou durante os últimos meses de sua vida, foi o tempo que ela levou para chegar a conclusão que estava trocando todas as coisas boas que passou com Carlie, por um único erro cometido por ela.
-Carlie! – ela ouviu seu nome ser chamado quando estava chegando ao elevador, a maquiagem forte já estava borrada, e como uma cena dramática e clichê de filme, ela se virou e ambas se e entreolharam por um longo segundo.
Até correrem, uma em direção a outra, Carlie dando passinhos curtos por causa do salto. Até os dois corpos se chocarem um contra o outro, e se ampararem em um abraço apertado. De uma forma ao mesmo tempo tão bonita, ao mesmo tempo estranhamente lésbico.
Engraçado? Era, a forma como as duas tagarelavam juras de amizade da forma mais piegas e infantil que existe, atraindo a atenção de alguns enfermeiros que passavam ali. Mas no final, tudo se traduzia em humor, a amizade das duas sempre foi assim, humorada, animada e feliz, e somente ali, com aquela voz tagarelando sobre tudo o que Kristin perdeu nesses meses, dos tapinhas que ela dava sempre que ia sorrir, do sorriso largo, e dos olhos escondidos sob os óculos escuros, Kristin percebeu o quando aquela perua vadia fez falta na sua vida.
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-E então foi isso, conheci o Robert nessa festa em Miami, e consegui finalmente ouvir os tais sinos tocando em meus ouvidos.
-Uau! Nunca pensei que existiria um homem capaz de prender você desta forma querida, considerando que ele seja seis anos mais novo que você, fiquei curiosa para saber como ele é. Ele deve fazer um tipo Fifith Cent não é?
-Na verdade ele faz mais um tipo Ney-o, o sorriso maroto, um estilo próprio de ser, ele é incrível! – ambas sorriram enquanto Carlie alisava os cabelos crescidos de Luka, que já estavam bem grandinhos por sinal, que fazia uma franginha em sua testa que o deixa ainda mais parecido com o pai.
As duas estavam ali faziam horas, estava quase chegando a hora do almoço, elas nunca conversaram tanto na vida, Charlie tinha ficado na clinica, mas passaria no hospital no fim da tarde, ambos prometeram passar a véspera de natal ao lado de Kristin e Luka no hospital.
-Senti falta de conversar com você amiga, você é a melhor amiga que já tive.
-Também senti falta de vocês Carlie, nos meus momentos de crise vocês eram minha única diversão.
-Falando em momentos de crise, como você está indo após o divorcio?
-Ainda não tive tempo de saber como vai ser, logo que sai da mansão Luka ficou doente, mas reencontrei um amigo de infância, ele tem me ajudado bastante.
-Um amigo? Fale-me desse amigo?
-É apenas um amigo Carlie, nada alem disso, não comece.
-Não se preocupe, prometi a mim mesma a não me meter mais na sua vida amorosa, aprendi a lição.
-Ele vai embora ano que vem, vai estudar na França, mesmo que tivesse qualquer relacionamento com ele, não seria duradouro.
-E sobre ele? Como você esta se sentindo?
E esse foi o momento de Kristin desabafar, e lhe confessou tudo o que estava sentindo, contou sobre eles estarem sobre o mesmo teto, sobre o quanto sentia a falta dele, e do quanto ela se sentia amargurada por isso. Carlie não podia deixar de se sentir culpada por tudo isso, afinal, Kristin só está dessa forma por causa dela, por causa do jeito insano de Carlie agir.
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Então seria assim, Kristin passaria o natal em quarto de hospital, juntamente com seus dois amigos, e seu filho, comendo comida de fast food, e tomando suco natural.
Eram quase dez da noite, e Charlie contava uma historia inusitada de ter ficado com uma garota enquanto estava completamente bêbado em uma boate, ele contava que havia vomitado na streeper no outro dia quando descobriu que havia transado com ela. Kristin nunca mais tinha sorrido tanto.
Derick ligou, perguntou como estava Luka, ele só não o tinha ido o visitar por que não o trabalho não o dava tempo para sair de Albany, mas torceu para Luka ficar bem logo e que o ano novo eles pudessem passar em casa.
-Então está certo Derick, eu não me esqueci de ir visitar a galeria, assim que tudo isso acabar, posso ir com certeza. – ela sorria enquanto ele falava – pode deixar, até mais, Thau.
-Hmmmm....
-Não comece Charlie, ele é meu amigo.
-Se ele é apenas seu amigo? Então talvez eu possa ter chances não acha?
-Não sei, acho que ele não gosta tanto da fruta sabe...
-Ai Kris, digamos que Charlie possui um poder de transformar os homens...
-Claro que tem, você é maravilhoso Charlie, acho que se você não fosse gay, eu ficaria com você fácil, fácil. – Kristin dizia enquanto se aproximava dele.
-Amiga você está me assustando...
-Esses seus olhos azuis, tão lindos, sua pele bronzeada e seu corpo tão definido, ah Charlie, vou fazer você virar homem...
Sabe quando o diabo foge da cruz? Foi mais ou menos o que Charlie fez, saindo correndo do sofá onde os três estavam para a poltrona ao lado do berço de Luka, pegando o afilhado em seus braços como se estivesse usando-o como escudo.
-Ah, Charlie, adoro você. – Kristin comentava, em meio de muitas e muitas gargalhadas.
No final de tudo, Luka ganhou um enorme urso de pelúcia dos padrinhos, e Kristin ganhou um lindo colar de ouro, com duas cobras entrelaçadas formando uma cruz, uma apologia ao símbolo da medicina, que é uma cobra enrolada em uma cruz, aquilo foi um incentivo de Carlie, que sabia que a amiga voltaria à faculdade ano que vem.
E assim eles comemoravam o natal do jeito deles, rindo, fazendo loucuras e contando piadas sem sentindo. Esse era o jeito dos três quando estavam juntos, não havia lugar para tristezas, Luka nem parecia estar doente, o único clima que pairava ali eram a alegria, e o sentimento de fraternidade típico do natal. As dores foram esquecidas, as mágoas ficaram para trás, e poder ter perdoado seus amigos, trouxe um enorme sentimento de liberdade para Kristin.
Então algo ficou muito claro para ela naquele exato momento, entendeu que quando se guarda rancor de alguém quem fica presa é você mesmo, perdoar é mais que uma dádiva, perdoar significa libertar seu próprio coração, purificar as manchas de mágoas de sua alma, se tornar – como ele gostava de dizer – um espírito livre.
Sua mente se voltou para ele mais uma vez, um frio na barriga lhe dava sempre que pensava que ele podia estar sobre o mesmo teto que ela. O que ela iria fazer? Que vontade de vê-lo era essa, que vontade de dizer feliz natal e abraçá-lo ternamente. Sua cabeça foi tomada por uma indecisão que já a estava tensionando.
-Vai até ele querida, diga o que sente. – Charlie comentou de repente, como se seus pensamentos fossem altos de mais de forma que eles podiam ouvir, mas não era isso, eles apenas conheciam muito bem a amiga que tinham.
Completamente hesitante, como se quem fosse fazer algo muito errado, ela se levantou, e caminhou lentamente até a porta, suas mãos tremulas e um pouco pálidas giraram a maçaneta da porta, a abrindo-a diante de si. Ela não tinha muita certeza do que estava fazendo e nem de como ela o encontraria em um prédio com mais de trinta andares, simplesmente caminharia pelos corredores a sua procura, até que o juízo voltasse a sua mente e ela caísse em si e retornasse ao seu quarto. Não encontrá-lo era a esperança que ela tinha de não cometer nenhuma loucura esta noite, que não fosse se arrepender amanhã.
Mas o destino, a esse sim gostava de pregar peças para ela, a esse sim conspirava contra ela.
Bastou somente ela virar um corredor, e encontrá-lo, ou melhor, esbarrar-se nele outra vez.
Então aquele choque tremulo tomou completamente seu corpo, e por um momento ela simplesmente perdeu a consciência, enquanto era finalmente pega pelas orbes esverdeadas a encarando como ela fosse a única coisa a se ver no universo.
-Estava indo encontrar você. – ele comentou, ainda a observando da mesma forma.
-E eu estava indo encontrar você. – ela proferiu, tirando forças para falar não sei da onde.
Então eles se viram pegos pela taciturnidade constrangedora, e os únicos ruídos que se ouviam era os barulhos dos elevadores abrindo, uma voz no auto-falante chamando por um médico em tal setor, e seus corações batendo em ritmos descompassados. Aos poucos os ruídos ao seu redor foram se calando, como se o mundo a fora fosse desaparecendo, restando somente eles, somente o mundo deles, somente os corações arritmados, eram ouvidos ali.
E como se ele estivesse se segurando por todo esse tempo, ele curvou sua cabeça se dando por vencido, e decaindo ao seu desejo, sem se dar ao direito de sentir culpa.
Ela mal teve tempo para pensar, para reagir, quando deu-se por si estava presa em seus braços, seus lábios sendo tomados de forma tão incandescente, que a deixou de pernas bambas.
Sua mente lutava incansavelmente para repor a sanidade em seu cérebro, mas seu corpo simplesmente ignorava, seus braços se moviam sozinhos em torno das costas largas dele, seus olhos se fechavam aos poucos, conforme aquele beijo era aprofundado.
Aquele beijo desesperado, fugaz, lacrimoso, carregado de mágoas, sofrimento, dor, padecimento, mas principalmente, de saudades.
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