Aquele beijo desesperado, fugaz, lacrimoso, carregado de mágoas, sofrimento, dor, padecimento, mas principalmente, de saudades.

E quando ele finalmente a soltou sentia-se tão leve que podia flutuar, seu coração batia tão forte de uma forma clorosa, mas essa sensação se dissipou quando percebeu que ela chorava. Desesperadamente chorava. Só então ele percebeu que a machucou, mais uma vez.

–Eu não consigo... – ela soltou estridente, soluçando com a mão no peito.

–Kristin...

–Me solta! Eu não devia ter feito isso, não posso! Prometi a mim mesma! Não posso, não posso... Por favor, pare de tentar me convencer que o que tivemos foi verdadeiro.

–Kristin, se acalme! Há muito para conversar,mas Kristin tudo o que eu senti por você é verdadeiro! Tudo o que eu sinto é verdadeiro. Por favor, me perdoa, eu só queria não te machucar mais... Sei que você não o ama! Sei que voltou para ele somente pelo Luka... Mas... Kristin!

Nessa hora ela tinha saído correndo pelo corredor do hospital. Entrando em um elevador que ela nem sabia onde estava indo... Deixando-se escorregar pela parede espelhada do elevador, até sentar no chão... Sua cabeça girava, ela não esperava que beijá-lo doeria tanto em seu coração, aquele beijo foi como um despertar de suas feridas, e agora tudo doía, como se tivesse se machucado recentemente. Ela apenas queria fugir, jogar tudo para o ar e simplesmente fugir. Espantou-se quando o elevador se abriu revelando a cobertura do local.

Ela caminhou pela cobertura, admirando a vista para a cidade, tão bem iluminada, tão bem decorada naquela noite de natal, e deixava que as lagrimas caísse sozinha.

Medo, ela sentia muito medo naquela hora, medo de tudo o que lhe rodava, sentia medo da vida, medo de voltar, medo de encontrá-lo, medo de... Viver...

Ela simplesmente queria que tudo acabasse, ela só queria que sua vida fosse um pouco mais simples, mas por tudo o que passou, tudo o que está passando, chega uma hora que a dor é maior do que você pode suportar, em que ela te domina, em que você não consegue mais ser forte, suas forças acabaram, e só lhe resta reconhecer o quanto você é fraco. Há momentos, em que o mundo cai sobre você, e não há coragem o suficiente para encarar.

Ela tremia, enquanto dava mais um passo em direção o parapeito da cobertura.

Nada mais conseguia torná-la mais forte, nem mesmo a visão dos olhos azuis de seu filho em sua mente. Ela procurava uma fonte, um porto seguro a quem se apoiar, mas simplesmente não encontrava.

O parapeito estava a altura de sua cintura, ela sentou-se e observava igognitiva, o movimento e as luzes dos carros se movendo lá em baixo.

–Kristin, não faça isso... – uma voz a despertou de seus devaneios.

–Não sou uma covarde Sam... – ela comentou, sem se surpreender por ele ter conseguido encontrá-la. – Não mais, não vou me matar se é o que pensou... Apenas... Observo... Reflito...

–Eu não fazia a mínima idéia de que meu beijo a machucaria tanto...

–Ele me trouxe lembranças felizes, mas assim que terminou, lembrei de que nada foi real...

–O que tenho que fazer para te provar que o que sinto é real? – ele disse, enquanto se agachava, para ficar a altura dela. Tomou uma de suas mãos e a levou ao seu peito. – Sinta isso Kristin, ele estaria batendo assim se não fosse real? Eu senti sua falta cada minuto de minha vida, em cada pedaço de ambiente para qual olhava... Em cada detalhe de meu mundo... Sou um covarde por não ter lutado por você Kristin... Mas mesmo assim queria que tivesse me escolhido e não ele... Eu poderia te fazer muito mais feliz do que ele irá fazer... Eu a amo mais que qualquer coisa que se refere a mim mesmo... E agora quero lutar para ter o seu perdão e uma única segunda chance...

–Eu... Sam... Acho que... é tarde...

Ele podia sentir o quanto doía para ela dizer cada palavra que proferiu.

–Eu... Entendo... Sei que é tarde... Minha irmã sempre teve razão... Imagine, uma criança ter mais consciência do que um velho... Mas, por que cada sentimento que você diz ter, foi contrariado com seu beijo? Você estava procurando por mim... Por que tantas dúvidas Kristin?

–Por que depois do que aconteceu entre nós dois, eu já não sei mais quando algo é real ou é somente mais uma mera ilusão... Sam, eu ainda amo você...

–Ainda me ama? – ela não deixou de se sentir tocada quando viu o brilho em seus olhos ao ouvir essas palavras.

–Eu, tenho medo de tentar outra vez, tenho medo de tudo ser outra mentira, tenho medo de um dia acordar e tudo de bom que eu já senti se acabar... De tudo o que passamos evaporar como já aconteceu...

–Você ainda me ama? É o que importa para mim... Nos conhecemos do jeito errado, por deus, vamos agora nos conhecer do jeito certo...?

Ela arfou, pela falta de fôlego por chorar, e por sentir aquelas mãos grandes e trabalhadas tocarem seu rosto. Santo deus, como ele ainda mexia com ela, como podia ser, a cada toque sempre a estimulava como se fosse a primeira vez.

Olhando naqueles olhos esverdeados, discretos que ele tinha, brilhantes pelas lagrimas que se formavam ao seu redor, automaticamente suas mãos levantaram e tocaram seus cabelos crescidos, quase em seu ombro, tão macios, e que ela sempre gostou tanto... Ele estava tão diferente com a barba crescida, castanha clara como a cor de seus cabelos, lhe dando um ar meio desleixado, e ao mesmo tempo... Sexy.

Aquele perfume, deus, aquele mesmo perfume inebriante! Penetravam suas narinas e a puxava para mais perto de si, atraída, excitada, como o canto de uma sereia atrai os marinheiros para o mar, droga, ela tinha sido pega, estava na armadilha daquele olhar.

E desta vez, ela fez o movimento, desencostando do parapeito erguendo um pouco mais o seu tronco para tocar seus lábios com o seu. Dando-lhe mais um beijo... Um beijo urgente, fugaz, ela necessitava como louca daquilo...

Desta vez ela procurou não sentir medo, procurou esquecer as mágoas do passado, assim como fez com Patrick, como fez com os gêmeos. Assim como fez por ela mesma. Decidiu perdoá-lo.

E desta vez ela pode sentir mais seu abraço quente naquela noite tão fria, os primeiros flocos de neve natalina caiam sobre o topo do prédio, faziam uma cobertura branca fina pela cidade, e que com certeza pela manhã estaria bastante coberta, uma camada grossa de gelo para enfeitar naturalmente a ilha de Manhattan.

Céus! Como ela sentia falta daquele corpo! Ainda mais quente pelo jaleco branco sobre a calça jeans e a camiseta cor creme, ela lembrava-se das noites que chorava sentindo saudades de ser esquentava sob ele, de sentir o beijo com gosto de menta, que ele tinha, o perfume amadeirado fortemente viril, que ele exalava. Sentia falta de tudo, sentia falta de Sam.

E ela mesma finalizou o beijo. Mas soltando seus braços, e sim se aninhando mais a ele, era incrível como ela se sentia tão pequena, e tão bem encaixada em seus braços, ele a abraçou ainda mais apertado e beijou docemente o alto de sua cabeça, A deixando pousar ali mesmo.

Eles precisavam disso, precisavam daquele silencio, daquele momento privado na mente de cada um, decidindo-se o que iriam fazer depois dessa noite, o que iriam fazer daqui para frente.