Apanhador De Medo
25 Mal Súbito
Notas iniciais

Gotas grossas de chuva caíam e escorregavam pelas janelas, os trovões que pareciam durar séculos enchiam o silêncio na mansão de Azazel. Era possível o céu ficar assim tão negro? Francis estava tenso ao lado de Rebecca, seu coração era muito bom para não se importar com a humilhação da bruxa. Victoria continuava suspendida no ar, mas a pressão em seu pescoço fora diminuída aos poucos e quando foi finalmente liberta seu corpo foi de encontro ao chão. O vampiro de cachos dourados se agachou ao lado da mulher enquanto Ivan dava-lhe as costas, com ambas as mãos fechadas. Os outros observavam os movimentos do homem atentamente.
– Está bem? – Francis falou próximo ao rosto da mulher. Ela assentiu, segurando o braço dele, que a levantou.
Já de pé Victoria preferiu não se sentar, e ficou encarando as costas de Ivan, que não se virou nem mesmo quando ela começou a falar.
– Eu fui obrigada. – começou, a voz já de volta ao tom normal. – Eles iam levar minha sobrinha se não os ajudasse.
– Quem? – Rebecca lhe lançou a pergunta, Victoria a olhou quando respondeu.
– Os Powell. Eles estão por trás de tudo isso. – Chester fechou os olhos por dois segundos. – Um clã de vampiros do mal, sem escrúpulos... – ela passou os olhos por Chester e Joshua.
– Nós sabemos quem é e como são mais do que ninguém. – foi Joshua quem respondeu por ele e pelo meio-irmão. Era óbvio que Victoria sabia que eles faziam parte do clã Powell, e pelo que via não estavam mais do lado dos pais.
– Minha sobrinha só tinha a mim. Mas eu tinha que fazer aquilo, por ela. E desde então eu carrego todas as lembranças de Ivan comigo.
– Por que os Powell queriam ele sem memória? – Azazel perguntou o que todos queriam saber. Victoria resolveu se sentar e só então continuar a falar. Ivan estava determinado a não olha-la enquanto ela explicava.
– Ele sabia demais. Sobre Joshua, o fruto do relacionamento extraconjugal com Karol Collins... E até sobre... PEAM. – os presentes se olharam entre si. – Ela tentava te ajudar, Ivan, mas você a matou antes que pudesse dizer uma palavra sobre esse projeto. Depois de te tirar as memórias, eles me fizeram lhe dar novas... E fazer parecer que a família Petrova havia lhe salvado.
– Então você sabe sobre PEAM? – Rebecca sondou.
– Sim. E que ele já está sendo posto em prática. Vocês parecem estar familiarizados com esse plano... O que descobriram?
Ninguém parecia confiar muito na bruxa, mas Rebecca deu o primeiro passo.
– Nós achamos um relatório no notebook de Joel... Longa história. – diz ao ver o ponto de interrogação estampado no rosto de Victoria. – Há alguns dias nós fomos sondar o Dr. Harrison, e ele aplicou uma substância em mim, que me fez ficar apagada por horas, paralisando meu metabolismo... Isso tem a ver com o plano de exterminação?
– Dr. Harrison, eu me lembro deste nome. Aparece nas lembranças de Ivan.
– E o que mais aparece?
– Fragmentos, como... Uma planta usada no feitiço que criou o primeiro apanhador de medo. O cultivo delas em Londres e Berlim. Exportação para o mundo inteiro. – diz, todas as respostas na ponta da língua, como se as lembranças fossem suas.
– O mundo inteiro? – Rebecca bufou e sentou-se no sofá ao lado de Victoria e põe o rosto entre as mãos. – Como vamos impedir um plano para exterminar os apanhadores do mundo inteiro? Sem nem o menos saber como eles vão fazer isso.
A campainha toca interrompendo o monólogo de Rebecca. Ela é quem vai atender a porta novamente, mas o que encontra é apenas um envelope posto embaixo da porta com o nome de Joshua nele. Rebecca suspende a carta na pouca luz e contempla o emblema de um laboratório, quando volta à sala de estar, o papel com o resultado do exame já está em suas mãos e ela o lê atentamente.
– Olhe, o resultado do exame de sangue chegou. – ela entregou na mão de Azazel. – E junto veio isto. – ela levantou a amostra da planta. Ela tinha um caule comprido e esbelto, e pequenas flores em um degradê vermelho e salmão o cobria, nunca tinham visto uma planta igual aquela. Rebecca a analisava em sua mão com curiosidade.
– Noli Timere... É o seu nome. – diz se referindo a planta que Rebecca segurava. — Estava na substância junto com vários outros elementos naturais.
– Nós nascemos disso? – ela torceu o nariz.
– Esse é o principal elemento, eles vão usar o que os criou para destruí-los. – Victoria refletiu.
Em um movimento repentino, Ivan se virou, indo em direção a Victoria.
– Tudo o que disse é inútil para mim se não me devolver as minhas malditas lembranças! – ele gritou em sua cara.
– Eu não posso. – diz olhando em seus olhos. – Você irá me matar assim que te devolver as lembranças. Assim como fez com Karol... E iram precisar de mim se quiserem impedir Carmen e Joel.
– Você... – ele estendeu a mão planejando agarrar seu pescoço novamente, mas um mal súbito lhe pegou de surpresa. As pernas ficaram moles e ele tentou se segurar em algo, e a mais próxima dele era Rebecca, que não conseguiu suportar seu peso e caiu no chão junto com ele. Seu corpo por cima do seu magro.
– Não olhe para mim, eu não fiz nada. Nunca machucaria Ivan. – Victoria anuncia se aproximando rapidamente de Ivan. Ela sente o pulso fraco dele enquanto ainda está em cima de Rebecca. Rebecca sabia que ele estava vivo, sentia as batidas de seu coração, com um intervalo de tempo muito grande entre uma e outra, mas continuava vivo e em cima dela. – Ele está vivo.
– Eu sei que ele está vivo. – ela diz tentando se livrar do corpo do pai de Azazel, mas ele tinha mais do dobro do peso dela e fazia alguns dias que ela se alimentara. Não podia o tirar sozinha. – Vão ficar olhando? Ajudem-me.
Francis e Chester que se deslocaram para ajudar a mulher, que se sentiu aliviada sem o peso de Ivan em cima dela.
– Acho melhor o levarem para cima. – Rebecca diz enquanto se levanta. Francis e Chester o carregam com facilidade para o andar de cima e Victoria os segue deixando Rebecca sozinha na sala com os irmãos Joshua e Azazel. Ela se virou quando perdeu os três de vista. – E então, como está se sentindo?
– Eu estou bem, obrigado. – Joshua responde com o típico sorriso no rosto.
– Não estava perguntando a você. Mas você reagiu melhor do que pensava. – o analisou, mas era inútil, nunca conseguia saber o que ele realmente sentia. Passou a analisar Azazel, este ela conhecia como a palma de sua mão. – Azazel? – o tirou do transe.
– Sim? – diz, os olhos confusos encontrando os atentos de Rebecca.
– Está bem? – perguntou novamente. Sem perceberem Joshua se esgueirou pela porta e tomou o rumo para o andar de cima. Os braços de Azazel estavam cruzados no peito.
– Eu estou bem. – seu tom de voz não convenceu Rebecca, mas ela preferiu não dizer nada.
– Sabe, você não parece com ele. – ela deu passos para trás, sorrindo. – Você é mais bonito. – e deu as costas para Azazel tomando o mesmo rumo dos outros quatro, o quarto em que Ivan havia sido colocado.
Minutos depois, quando Ivan abriu os olhos lentamente para o quarto com a luz apagada, todos estavam lá velando seu corpo adormecido. Todos os seis.
– O que você acha é? – Rebecca sussurrou para Francis. Que sussurrou de volta:
– Velhice talvez. – o comentário fez Becca soltar um riso não planejado, o que a fez ganhar um olhar reprovador de Victoria, que não teve muito efeito sobre a mulher.
O homem sabia da presença deles, mas não olhou para nenhum rosto enquanto sentava na cama, sentia um peso enorme em todo seu corpo, as costas doíam e queria arrancar a cabeça de tanto que latejava. Ele apertou os olhos, levou a mão até a nuca, e percebeu que ela sangrava, fez tudo isso aos olhos atentos e curiosos dos seis seres sobrenaturais parados perto da cama.
– Foi preciso. – Victoria explicou. – Precisávamos testar seu metabolismo. – ela foi rápida ao pegar a mão de Ivan, observando o ferimento.
– Ainda não está curando. – Rebecca observou por sobre o ombro de Victoria. – Isso é novo.
– Mas são os mesmos sintomas que sabemos que o veneno provoca. – ela se virou para eles. – Acho que Ivan foi exposto a ele na mansão dos Petrova.
– Se for assim eu e Azazel já podemos ter sido expostos a esse veneno. – a mulher olhou Azazel, o mais afastado da cama, junto com Joshua.
– Será que é tarde demais? – Francis perguntou. Rebecca ainda encarava o apanhador de cabelos no pescoço, mas desviou um pouco sua atenção para o vampiro.
– Nós vamos achar um jeito. – ela afirmou. – Por enquanto acho melhor Ivan repousar.
– Eu não me lembro de oferecer minha casa como casa de repouso. – Azazel diz entre dentes. Rebecca apenas suspira.
– Azazel, posso conversar com você um minuto? – comunica já saindo do quarto, mas tem que pegar no braço dele para que a siga até o corredor. – Ele é seu pai. Não pode jogá-lo na rua.
– Há 21 anos ele não hesitou em esquecer que era meu pai. – a voz saia controlada de seus lábios. Mas Rebecca sabia que ele estava na beira do abismo para o descontrole. – Por que devo trata-lo como tal agora?
– Todo mundo merece uma segunda chance.
– Todo mundo menos Ivan Friedrich. – eles ficaram se encarando em silencio por alguns segundos. A tensão era palpável. – Ele é sua responsabilidade a partir de agora. Depois não diga que não avisei. Ele é um matador.
– E o que o faz diferente de nós?
Rebecca o assistiu dar as costas e descer as escadas com passos emanando raiva. Quando não podia mais ver seu cabelo balançando, entrou no quarto novamente. Eles estavam em silêncio, mas não comentariam a pequena discussão de Rebecca e Azazel. Victoria lançou um olhar de gratidão a ela, que apenas assentiu.
– Qual o próximo passo? – Chester jogou a pergunta no ar.
– Atacamos. – Rebecca lhe respondeu, mostrando os dentes em um sorriso diabólico.
•••
Os panfletos estavam em toda a parte na cidade, aquele rosto atormentava Amber todas as manhãs desde que a viu no bar com o homem misterioso. Estava um pouco diferente na foto, o cabelo ainda era castanho e os olhos tinham um ar mais infantil, mas tinha certeza que tinha sido ela naquela noite no bar. Mas algo dentro de si apitava para não contar a ninguém, estava lidando com algo muito além de sua imaginação, tinha que ter cautela e envolver o mínimo de pessoas possíveis nisto. Por isso que quando os policiais vieram para interroga-la, fingiu não reconhecer o homem que saiu do bar com Niamh. E aparentemente ninguém mais pode reconhecê-lo. Parecia ser invisível.
Eles matam por prazer e se alimentam do medo que emana de nosso corpo, quando Aaron, seu namorado na época, lhe falara sobre esses seres sobrenaturais ela achara que era louco e suas pesquisas malucas que os afastaram aos poucos. Depois de o encontrem no beco naquele estado e de ter visto a mulher do bar agachada no tumulo de Aaron – que mais tarde descobrira se chamar Rebecca – passou a desconfiar de que algo estava errado.
– Bom dia Amber! – a voz de Suri a acordar de seu transe, quase a fazendo derrubar uma garrafa de Cuervo no chão. – Cuidado. O que tem de errado com você?
– Não é nada. – ela coloca a garrafa no lugar e começa a passar um pano no balcão.
– Você pode me contar. – Suri se sentou na cadeira de frente para Amber.
Por um minuto ela olhou nos olhos da garota.
– Temos que abrir o bar. – e saiu de trás do balcão. Foi até a porta mudar a placa para Aberto, quando viu o homem invisível passar do outro lado da rua. Seu coração acelerou. Ele estava ensopado da chuva, os cabelos colando no rosto, mas ela sabia que era ele. E entrou em pânico quando ele atravessou a rua, indo em direção ao bar. Afastou-se rapidamente da porta, inventando uma desculpa para ir até a cozinha.
– Bom dia senhor. – Suri cumprimentou o homem enquanto ele se sentava na mesa do fundo sem dizer uma palavra. Amber se encostou à parede de azulejos, tentando acalmar seu coração, não achava que ele voltaria ao bar tão cedo, era muita audácia de sua parte.
Abruptamente uma ideia estalou em sua mente e ela se desencostou da parede, tomando folego e voltando ao balcão.
– Deixe que atendo este. – diz a Suri, dá a volta no balcão e vai em direção ao homem. – Bom dia, eu sou Amber, o que deseja? – esforçou-se para sorrir ao assassino.

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