Apaixonados por maçãs
8 Shinigamis e espíritos
Notas iniciais

Kaori virou-se tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. O caderno preto escorregou das suas mãos e fez um som seco ao cair no soalho. Ela olhou em volta, mas não viu ninguém, apenas a janela que estava aberta. Um vento frio fez redemoinhar os cabelos loiros da garota, e ela tremeu, não sabia se era pelo frio ou pelo medo. É que Kaori tinha a certeza de que a janela estava fechada. As cortinas estendiam-se para ela como longos braços de seda o que só tornava tudo mais sinistro.
Kaori tentou, do fundo do coração, imaginar que tudo aquilo não passava de um pesadelo, mas a razão acabou por levar a melhor e ela tinha plena noção da sua consciência. Mas, se ela estava acordada, permanecia no mundo físico e lógico e, neste mundo físico e lógico, as janelas não se abrem sozinhas. Alguém tinha estado no quarto e tinha saído pela janela logo após a afirmação anterior.
Kaori quis correr para a janela para confirmar as suas conjecturas mas sentia que estava pregada ao chão. E, como se não bastasse, ouviu de novo aquela voz.
– O que estás a fazer aí parada? Pega no Death note, vê se não amachucaste nenhuma página e volta a pô-lo no lugar.
Kaori apressou-se a fazer o que lhe tinha sido ordenado, não porque a voz lhe dizia para o fazer, mas sim porque era realmente o mais correcto e inteligente a ser feito na sua situação.
– És um espírito? – Perguntou Kaori, enquanto pousava de novo o caderno na gaveta, tarefa dificultada pelo tremor das mãos. Engoliu em seco e colocou outra questão sem dar tempo da anterior ser respondida. – Ou és um shinigami?
Ryuuku, que permanecia sentado no beiral da janela ficou impressionado por ela ter percebido tão depressa.
– Sou o shinigami guardião desse Death note. Como adivinhaste?
– Eu não adivinhei! – Replicou a menina com um leve toque de indignação na voz. – A minha avó contou-me sobre todos os espíritos que podem visitar a Terra. E eu calculei que seria um Deus da morte que estaria relacionado com... isto.
«Até que ela é bem sagaz!»
Podia até ser sagaz, mas do que lhe podia valer se o sangue frio lhe faltava? Kaori sentia a cabeça a andar a roda e cada vez mais rápido, devido ao monte de informações que lutavam por se assentar. Como um puzzle a solução foi descoberta por Kaori à custa de quase toda a sua energia. Raito tinha um Deth note e andava a matar as pessoas. Isso estava bastante claro! E depois também havia aquele shinigami que... o que estava ele a fazer mesmo?
– Raito é muito esperto! Se não tirares essa palidez do rosto ele vai desconfiar de alguma coisa.
– Do-do que adianta? Tu não irás contar-lhe que eu estive aqui e descobri sobre o Death note? Eu já-já estou morta de uma forma ou de outra.
– Eu não vou contar nada do que aconteceu! Agora, mete o turbo nessas pernas e foge daqui para fora. Já disse que o Raito é muito esperto.
Kaori queria muito, muito, muito saber porque o shinigami estava a ajudá-la. E queria também saber o que tinha acontecido naquele estranho dia em que ela saíra com o Raito. Ou será que na verdade...
– Reage! Vê se entendes, se desmaiares agora já não vais voltar a acordar!
Kaori deu alguns passos vacilantes em direção à porta. Para o shinigami era fácil falar, não é? Não era ele que tinha acabado de passar pela experiência mais insólita da vida dele. Kaori tentou inutilmente molhar a garganta que já estava mais seca que um deserto e só então percebeu que a sua fraqueza derivava do facto de que ela parara de respirar. Inspirou ruidosamente, mesmo na altura em que sentia que as pernas não iriam mais suportá-la.
– És invisível, por acaso? Porque estás aí fora?
– Olha, não é tempo de fazeres essa perguntas, por acaso não tens noção do perigo?
«Talvez eu não tenha mesmo.» Pensou Kaori. Fosse pela falta de oxigénio ou por todo aquele grande susto, Kaori não conseguia mais raciocinar. Queria perceber, achar algum fio no meio daquela meada, achar uma luz no meio daquela escuridão. Ela apenas queria perceber aquilo que lhe estava a dar um nó na cabeça.
– Eu só quero saber o que está a acontecer! – Choramingou deixando extravasar os pensamentos que a corroíam.
– Esse é precisamente o problema dos humanos. Pensam muito e agem pouco! Até vão atrás dos problemas. Podem ser mortos por um monstro, está tudo bem desde que consigam uma fotografia dele. Quem entende? Vamos então entender-nos. Eu prometo que explico tudo mais tarde, mas agora... por favor, vai para a tua casa e, de preferência, não saias de lá por uns bons tempos.
Kaori conseguiu achar alguma segurança nessa promessa, o que, na opinião dela, era algo totalmente insano. Ela devia era querer esquecer tudo aquilo e não querer que o shinigami voltasse a encontrá-la e lhe explicasse todo aquele despautério sangrento.
Antes de sair do quarto, o shinigami deu-lhe um último aviso:
– Pela tua segurança Kaori, não contes nada disto a ninguém, entendeste?
Kaori não respondeu, tinha passado à fase de muda. Desceu as escadas à pressa, tomada por um súbito fluxo de adrenalina, tropeçou nos últimos degraus, dirigiu-se à porta e no momento em que ia abri-la, deu de caras com Raito que chegara do colégio.
Tentou inutilmente disfarçar o horror na expressão. Tal revelou-se impossível quando encarou aqueles olhos crueis de falcão. E Kaori sentia-se como uma ratinha prestes a ser devorada. Se um homem vestido de preto com a cara cheia de cicatrizes estivesse diante dela empunhando uma faca ensanguentada, era capaz de Kaori ter menos medo do que o que ela tinha agora.
Sem uma palavra ou uma explicativa, Kaori passou pelo espantado rapaz e correu para a segurança da sua casa. Trancou-se no quarto e cobriu-se com os cobertores. Tudo o que se conseguia ver dela eram os arregalados olhos verdes que se distinguiam entre um amontoado de lençóis e almofadas. Pouco a pouco, esse monte improvisado foi deixando de tremer.
– O.k, tenho que ordenar as ideias. O que foi isso? Eu descobri que Kira é Raito e que ele está acompanhado de um shinigami que me... salvou a vida, aparentemente. Mas e se ele estava a mentir?
Após estes sussurros, Kaori levou a mão ao coração, necessitada de ouvir a sua batida. A qualquer momento, ela poderia morrer e a plena noção disso a apavorava. Haviam tantas possibilidades, tantos erros que podia ter cometido. Se calhar, nem o shinigami precisaria de abrir a boca, ela podia ter deixado uma pista qualquer. Tentou lembrar-se: tinha colocado o caderno na gaveta. Tinha reposto a caneta no preciso lugar de onde a retirara, já com a carga no seu interior.
Mas, sem dúvida, Raito estaria desconfiado. Afinal, ela não fora propriamente discreta. E aquele encontro à porta. Kaori gemeu, ao relembrar o laivo de desconfiança que já se notava em meio àqueles olhos repletos de surpresa. Como o sal na água do mar. Era como Kaori sentia a sua garganta agora: salgada de lágrimas contidas.
– Avó, por favor, aparece! Eu preciso da tua ajuda, eu tenho medo e estou confusa. Isso dói muito!
Kaori sentiu um alívio quase imediato ao ver a sua avó querida. Ela aproximou-se da beira da cama e começou a acariciar-lhe os cabelos. Não precisou de dizer nada, só a sua presença já acalmava a neta. Mas essa paz não se manteve inalterada por muito tempo. Logo Kaori soterrava-a de perguntas, repetindo o apelo de socorro.
– O que eu faço?
– Por enquanto é melhor cumprires as indicações do Shinigami. Não fales com ninguém sobre o que aconteceu, ergue essa cabeça e tenta agir normalmente. A tua vida depende da tua representação.
– E eu que nunca tive jeito a teatro! – Lamentou-se Kaori.
– Não quero ver-te assim. Recompõe-te, bebe um copo de água, espera que o coração volte a bater ao ritmo normal antes de falares com alguém. Se a tua mãe te vê nesse estado, ela vai perceber que alguma coisa está errada e irá pressionar-te.
Kaori teve vontade de abraçar a avó, mas sabia que não poderia. Porém, era quase vital esta conversa que estavam a ter. Kaori sentia que se não tivesse contado para a sua avó todo o ocorrido, sufocaria no seu próprio segredo.
– Achas que o shinigami vai mesmo voltar a falar comigo? Achas que eu devo confiar nele avó?
– Sabes querida, os humanos conseguem ser mais perversos que os Deuses da morte. Não estou a dizer que deves confiar nesse shinigami, apenas que não deves criar preconceito. Tem extremo cuidado com Kira. Se ele realmente já matou tanto, não terá qualquer hesitação em acabar com a tua vida. E remorso é algo que ele já deve ter perdido. É perigoso um humano usar um Death note. O retrato de um ideal pode tornar-se hediondo. Só, por favor, tem cuidado, minha neta. Eu ficarei a velar por ti.
– Voltarás para conversar comigo, avó?
– Vou tentar... sabes que nem sempre consigo. Achei que este momento era essencial. Mas vou partir agora, estás já demasiado cansada com tudo isto.
Kaori sentiu os olhos fecharem-se.
– Até... logo... avó!
E caiu na cama, já inconsciente, completamente exausta.
Sakura, a mãe de Kaori, entreabriu a porta, e apanhou a última parte da conversa. Suspirou e apertou o avental com força. Ao ouvir o marido a chegar a casa, a primeira coisa que lhe disse foi mesmo essa.
– Querido, a Kaori voltou a fazer aquilo! Ela estava a falar sozinha no quarto... e dizia que estava a falar com a avó que já morreu.
Os dois suspiraram pesadamente. As esperanças que tinham sido formadas nesse meio tempo, foram estilhaçadas e as vozes dos outros elementos da família ribombaram aos seus ouvidos.
«A vossa filha é louca! Têm de interná-la, senão vai ser pior para ela!»
– É só uma fase! Isso vai passar! Tem de passar! E que ninguém fique a saber sobre isto! — Disse o pai de Kaori com uma voz severa e aquilo soou mais aos ouvidos de Sakura como uma sentença.
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