Apaixonados por maçãs
9 Cúmplice por silêncio
Notas iniciais

A família Maki comia em silêncio. O único algo que produzia qualquer tipo de som era a televisão que fora deixada acesa, uma tentativa da mãe de Kaori para acabar com o constrangimento que o silêncio poderia provocar. Tentativa inútil, Kaori cortava o bife, mas sem olhar para o prato. Os seus olhos verdes estavam postos na mãe e interrogavam, com alguma súplica e tristeza porque esta não estava a conversar com ela.
Kaori tentava lembrar-se o que ela havia feito de errado para receber este tratamento de desprezo. Sakura enchia a boca de alface sem arranjar palavras para dizer à filha, só lembrando o ocorrido do dia anterior. Ver Kaori falar sozinha fora um grande transtorno para a mulher.
A porta abriu-se e o pai de Kaori entrou. Ansiosa por livrar-se do olhar de Kaori, Sakura levantou-se e deu um beijo no marido, recebendo-o calorosamente. Despiu-lhe a jaqueta e o símbolo da investigação secreta brilhou-lhe no cinto.
Kaori não conseguia tirar os olhos do distintivo dourado. A garganta secou-lhe e uma vontade de contar tudo nasceu-lhe e morreu-lhe no peito. Tentava manter ciente que se contasse ao seu pai quem era Kira, só estaria a colocar toda a sua família, incluindo ela, em perigo. Mas... era tão difícil manter aquilo sigiloso. Kaori só queria bater com a cabeça em algum lugar e esquecer tudo. Tudo mesmo...
Quando o pai dela se sentou à mesa, Kaori desviou logo o olhar para o prato. Aquele homem era um policial de respeito, muito ligado à profissão, saberia ver-lhe nos olhos o que Kaori teimava em esconder. Mesmo com todas as devidas precauções, a voz do pai soou, autoritária.
– Não tens nada para me contar, Kaori? Estás muito estranha!
Kaori conseguiu evitar arquejar, mas de imediato o coração começou a bater-lhe mais forte no peito e as mãos suavam. Os garfos teimavam em escapar-lhe das mãos.
– Eu estou a sentir-me um pouco indisposta, só isso! – Mentiu. Soprou uma madeixa loira da frente dos olhos e forçou um sorriso.
– Soube que foste humilhada na escola... – Kaori sentiu-se como se tivesse levado um bofetão. «Maldição, ter um pai que trabalha em investigação policial é dose!» — ... por te teres envolvido com o Light.
Kaori mordeu o lábio inferior, nervosa. A sua situação só piorava. Conseguia imaginar-se numa sala de interrogatório, sentada numa cadeira elétrica, enquanto o seu pai a interrogava impassível e duramente, enviando um feixe de luz para a sua cara.
Piscou, momentaneamente cega pela luz imaginária mas manteve-se calada. Qualquer coisa que dissesse podia ser usada contra ela.
– Afasta-te do Yagami Light! Ele é mau... rapaz para ti! – Continuou o pai com uma convicção que intrigou Kaori.
«Será que eles sabem que o Raito é Kira? Será que eles desconfiam? Ou será que é só o meu pai que não foi com a cara dele?»
A televisão pescou Kaori deste mar de especulações ao anunciar mais uma vaga de mortes. A Media não falava de outra coisa. Os nomes e as fotografias dos criminosos foram surgindo e desaparecendo na tela uma por uma enquanto a voz da jornalista dava pormenores das suas mortes. Todos eles de ataque cardíaco. Falava-se de Kira, com um misto de respeito e temor. Kaori levantou-se abruptamente da mesa e correu para a casa de banho.
Logo os pais a ouviram a deitar fora tudo o que tinha jantado. Depois de ter vomitado, ela levantou-se, ainda trêmula e trancou-se no quarto. O pai já não duvidava da inocência da filha. Afinal, a sua atitude fora mesmo gerada por uma indisposição.
Só que, na verdade, a sua atitude é que gerara a indisposição! Kaori estava a passar muito mal, não aguentava mais ouvir o noticiário. Todas aquelas mortes...
Kaori era cúmplice das mesmas. Porque sentia que podia evitá-las. Ela era cúmplice, sim! Cúmplice por silêncio. E a menina sentia que aquele sangue lhe estava a manchar a alma. Sentia-se a maior das pecadoras. Saltou da cama e procurou o seu ipod. Em vez de meter no aleatório, como sempre fazia, foi pesquisar à internet o Heavy metal e o rock mais pesado que existia. As batidas estrondosas no início quase a levaram a desistir da ideia, mas logo se habituou. Aquele tipo de música que ela sempre achara insuportável surgia agora como um refúgio. O som fazia-a esquecer-se dos problemas e ela dava tudo, mesmo a saúde dos seus tímpanos, para parar de rever o momento em que folheara do Death note, que encarara Raito, que ouvira a voz do shinigami que ela ainda não sabia se era aliado ou inimigo.
Kaori não sabia como lidar com a situação. Por isso, apenas esperou. Passou os piores dias da vida dela, adoeceu e isso quase foi uma bem valia, pois era a desculpa perfeita para não ir às aulas. O pai, entretanto, voltou a achar que Kaori lhe escondia algo e apertou o cerco em volta da filha. Sentindo-se tão pressionada, Kaori começou a passar longos períodos de tempo fora de casa.
Numa terça feira voltou à escola.
Ao passar os portões de entrada, empalideceu com a perspectiva de que iria voltar a ver Raito. Tinha medo de deitar tudo a perder. Tinha a sensação de que se Raito olhasse para ela, a sua cara de desespero o faria desconfiar, senão mesmo ter a certeza, de que ela sabia do Death note. Por isso, Kaori decidiu faltar à aula de Biologia.
Era algo que ela nunca fizera, baldar-se a uma aula, mas o que importavam os cloroplastos em comparação com a chacina, com toda aquela trama onde Kaori estava também envolvida?
Sentou-se na berma do telhado, balançando as curtas pernas sobre um abismo de metros de altura. Podia ter-se resguardado, escolhendo um local mais interior, mais perto das escadas que conduziam ao topo do edifício, mas Kaori sentia que começava a perder a noção do perigo. Confiante de que não caíria, debruçou-se e ficou a ver os pequenos pontos que se movimentavam.
«Que engraçado isto. Parece que sou um anjo e que os vejo a todos, pairando numa nuvem. Como se não fosse um deles.»
Entregou o rosto à brisa e soltou um suspiro entristecido com a sua difícil situação atual.
– Não achas perigoso estar aí? Podes cair! A menos que te queiras matar, não vejo porque te arriscas.
Kaori não se voltou. Continuou ali sentada, focando os olhos no horizonte.
– Não compreenderias... os humanos têm algo que os faz querer superar os medos, que os faz querer pôr as vidas em risco. Enfrentar a morte é algo que dá muita adrenalina. Acho que posso morrer sim... mas não caindo do edifício.
Olhou pela primeira vez para o shinigami que lhe falara já diversas vezes.
Ryuuku pôde ver, claro, que o seu olhar se tornou assustado e ele tinha de admitir que a sua aparência não lhe dava uma boa primeira impressão. Kaori manteve os olhos arregalados durante um longo momento mas logo o verde se amenizou, como se o vento tivesse parado de sacudir as folhas dos seus olhos.
– És um pouco... diferente do que eu tinha imaginado. Achei que terias chifres! – Ela deu um sorriso tímido.
– Sabes, para uma humana que parece tão frágil e emotiva, até que estás a lidar bem com esta situação. – Observou o Shinigami. Ele continuava parado a uns bons metros, com receio de assustar Kaori se avançasse alguns passos.
– Se eu fosse uma humana normal, provavelmente já me teria atirado ali para baixo. – Constatou a rapariga. Ela levantou-se e permaneceu de pé em cima da beirada. Ryuuku temeu que ela se desequilibrasse, mas Kaori permaneceu firme, mesmo com o vento a soprar contra ela. Era como se espíritos a segurassem. – Mas a minha avó contou-me sobre os shinigamis. Ela nunca viu nenhum mas ouve muitas histórias de outras almas. Eu sei como é... lá no céu.
– Tu falas com a tua avó mesmo ela estando morta? É uma capacidade...
– Estranha, eu sei! Os meus familiares ponderaram enviar-me para um manicômio. Sou grata aos meus pais, por eles terem me defendido até agora.
– Eu ia dizer que é uma capacidade fascinante. E podes crer que se eles te enviassem para tal lugar se tornariam seres desprezíveis. Humanos... não sei porque insistem em vedar e fazer coisas terríveis a pessoas que têm capacidades especiais.
Kaori encolheu os ombros. Ela também não sabia.
Como prometido, Ryuuku explicou-lhe tudo sobre o Death note.
– Como vês, é muito perigoso enfrentares o Raito. Eu consegui convencê-lo de que tu apenas tinhas visto uma barata, e que foi por isso que ficaste assustada, mas ele ficou muito desconfiado. Eu nunca soube mentir muito bem, é uma coisa terrível.
Kaori já estava de novo sentada. Queria perguntar mas não sabia como...
– Sabes, aquele dia em que o Raito saiu comigo... eras tu, certo? Como foi isso? Uma possessão ou algo parecido?
Ryuuku resmungou constrangido.
– Troca de corpos. E eu agradecia que não tocasses nesse assunto... por enquanto. Não sei se tenho o direito, mas gostava de pedir-te que não fizesses perguntas sobre aquele dia. E nem algo do tipo: «Porque me salvaste?» «Porque não deixaste o Raito me matar com esse Death note?»
Kaori assentiu.
– Tudo bem. Vou tentar então não tocar nesse assunto.
No entanto, a curiosidade nos olhos da menina, fez com que o shinigami ficasse meio constrangido. Ele não sentia firmeza na promessa.
– É melhor eu voltar para junto do Raito, ele vai notar a minha falta!
Kaori impediu-o.
– Espera, tu tens um nome?
– É Ryuuku.
– Ryuk... podemos encontrar-nos noutro dia?
O shinigami ficou espantado mas também agradado.
– Queres mesmo?
– E porque não? Já disse que sou curiosa! Podes responder-me só a mais uma perguntinha hoje? Shinigamis têm sentimentos?
– Eu acho que não...
Mas assim que Ryuuku proferiu as palavras, soube que elas eram uma mentira, pois tinha mais do que uma certeza: estava apaixonado por Kaori. E, se isso não era um sentimento, então nada mais seria.
Fale com o autor