Apaixonados pelo destino
4 Capítulo 4
Esperando o sino tocar e as aulas de hoje acabarem, eu me mexia sem parar na minha cadeira. Eu só não conseguia ficar parada, esperando para finalmente ter uma conversa normal com o garoto por quem eu me apaixonara a tão pouco tempo, mas que eu desejava tanto.
O sino tocou. Me levantei e caminhei até a porta rapidamente, esperando para ele me chamar. Ele não foi para a aula hoje, mas eu sabia que ele estava aqui. No momento que você vem estudar nesta escola, você mora aqui, literalmente.
E foi no mesmo minuto que senti uma mão quente e macia no meu ombro. Brian me esperava, atrás de mim. Segurava uma cesta, acho que a comida estava ali. Não seria um almoço comum, provavelmente.
– Você se importa em não almoçarmos no refeitório? – ele perguntou.
– Sim. Digo, não! Desculpe. – falei, desajeitada e corada. Argh, ele me deixava louca.
Brian sorriu e me encarou por alguns segundos. Depois, baixou a cabeça e fez um gesto para que eu o acompanhasse.
Andamos pelos corredores mais vazios da escola, e eu estava ficando constrangida com o silêncio. Eu queria conversar com ele, mas sobre o quê, exatamente?
– Hã... – pensei em alguma pergunta. – Você estuda aqui há muito tempo?
– Hum... – ele olhou para os lados e depois olhou para o chão novamente. – Uns dez anos.
– Cacete! – falei, me arrependendo logo depois. Mas ele começou a rir. – Me desculpa. Ai, meu Deus, que vergonha.
– Não precisa ter vergonha. Fique calma.
As suas palavras realmente me fizeram ficar mais tranquila.
Percebi que estávamos próximos ao portão dos fundos.
E aquela era uma das mais belas vistas que eu já tive.
Era um campo, em todos os lugares tinham flores. Flores brancas, lindas. No meio das flores, havia um banquinho de madeira, bem antigo. Olhei para Brian, que me observava atentamente, com um pequeno sorriso e com os olhos azuis brilhando.
Quando ele viu que eu o observava, corou, ainda sorrindo, e caminhou até o banquinho, colocando toda a comida em cima.
Sentou-se no chão, e eu bem ao seu lado.
E ele pegou um pacote de doce. Os meus favoritos, de uma marca que vendia pequenas gelatinas com diferentes sabores e formas. Eu amava aquilo, e às vezes ficava até tarde na escola pra poder comer isso no lugar de um almoço saudável.
– Onde você achou isso? – perguntei, tomando o pacote da mão dele e pegando um punhado de gelatinas, colocando-as na minha boca logo em seguida. Ele gargalhou, e vi que os seus olhos estavam marejados. Olhei bem pra ele e esperei alguns segundos.
– O que foi, Brian?
Ele olhava para o horizonte, como se quisesse ver o que havia além dele.
Sorriu e olhou para o chão, brincando com as flores ao nosso redor.
– Nada não.
– Hum. – resmunguei, brincando.
Ele sorriu de leve, mas logo ficou sério.
E de repente, senti como se eu já tivesse estado ali. Há muito tempo atrás, porque a lembrança era pequena e incompreensível. Mas eu conseguia ouvir um som. O meu colar mexeu-se em meu pescoço. Brian olhou para mim imediatamente.
O som era de pássaros cantando. Vários deles. E consegui ouvir uma risada, estranhamente familiar; era a minha risada. Eu estava sentada no mesmo lugar onde estou agora, e Brian no mesmo lugar também. Ele pegou a minha mão e a lembrança apagou-se de minha memória no mesmo momento em que ele falou, baixinho; “Eu te amo.”
– O que foi, Claire? – Brian me fitava, quase assustado.
– Eu e você... Já viemos aqui.
Seus olhos se arregalaram e o azul da sua íris faiscou.
– Sim, Claire. Como sabe?
– Uma lembrança. – respondi, me sentindo meio idiota.
Ele sorriu. Suas covinhas apareceram, e eu quase derreti...
– O que você se lembrou?
– Estávamos aqui. Eu e você, no mesmo lugar que estamos agora. Você me falou que me... – parei.
– Eu falei que te amava.
Senti as minhas bochechas esquentando.
– Quando foi isso? – perguntei.
Ele riu. Parecia bem alegre. Esperançoso, talvez. Mas ele tinha esperança no quê?
Me senti observada. Olhei para trás, à procura de alguém nos olhando.
E vi apenas uma garota ruiva, com o rosto vermelho. Parece que estava chorando, mas eu não conseguia ver. Eu estava meio longe, agora...
***
– Obrigado. – Brian me deixou na porta do meu dormitório.
– Pelo quê?
– Por existir.
Meu Deus. Ele queria me deixar louca.
– Eu digo o mesmo.
E, eu, do nada, o abracei. Me afundei nele, praticamente. Consegui ver o rosto dele. Estava vermelho e seus olhos estavam arregalados.
Me afastei rapidamente.
– Me desculpa. Boa noite. – e entrei no quarto.
***
Não preguei os olhos a noite toda. Eu estava muito ocupada em uma coisa chamada Brian Folks, uma droga, um vício. Eu estava apaixonada demais. E eu me perguntava sem parar de quando foi a primeira vez que nos vimos. Eu tinha a sensação de que sabia. Quando eu pensava nisso, a certeza ocupava todo o meu corpo com um calor que me confortava.
Pensar em beijá-lo era uma ideia completamente fora do meu padrão. Eu nunca dava o primeiro passo. Eu no máximo admitia sentir algo pelo garoto. Mas eu nunca dava o primeiro beijo, por exemplo.
Tirei o meu colar de dentro da minha camiseta laranja. Ele estava rachado.
“Como assim?”, sussurrei para mim mesma.
– Acorde, sra. Folks.
Anne estava bem ao meu lado.
– Como se eu conseguisse dormir.
– Eu sou sortuda. Nunca me apaixonei. – ela olhou para a janela, e sua expressão ficou triste. – Apenas uma vez. E foi uma experiência traumatizante.
– E todos esses garotos com quem você...
– Distração. – e ela me interrompeu. Se virou e trocou de roupa como se eu nem estivesse ali. Me levantei e peguei uma roupa qualquer, entrando no banheiro e me arrumando para ter mais um dia constrangedor dessa vida desgastante.
Quando entramos na sala de aula, Brian e mais três garotos, inclusive o Kyle, estavam conversando. Kyle apontou pra mim, na cara de pau, e eu ignorei. Brian ficou vermelho e bateu o cotovelo em seu abdômen.
A garota ruiva estava lá, também. Eu não a vi no primeiro dia. Nem no segundo.
Sentei atrás de Anne, que havia se atirado na banca que estava. Eu olhei para um lado, olhei para o outro, e olhei para a minha banca. E a estrela de Lúcifer estava desenhado na minha banca, com o seu número e tudo mais.
Eu só ouvi o meu arquejo, que saiu alto demais. E o grito de Anne, que quase estourava os meus tímpanos.
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