Apaixonada pelo Mal
12 Recapitulando
Notas iniciais
Não sei exatamente como cheguei em casa. Esta alheia ao tempo, ao que acontecia a minha volta. Chocada demais para agir.
Fiquei sentada na minha cama durante um bom tempo observando o vazio. Nada daquilo podia ser verdade... É como se eu tivesse morrido por dentro, aquela sensação de perda, de angústia, de traição... De desilusão. Fui enganada de uma maneira cruel, perversa.
Não sabia o que fazer, o que pensar.
Tomei um banho e depois um remédio para poder dormir, era o que eu precisava agora.
Tudo melhora no dia seguinte.
***
Na manhã seguinte preparei uma grande xícara de café para começar bem o dia. Pelo menos era o que eu esperava...
Recebi uma ligação do tenente McGrey pedindo que eu o encontrasse naquele mesmo restaurante que havíamos ido da última vez, para um almoço. Eu aceitei. Relutante, mas aceitei.
Acabei passando o resto da manhã que planejei ser bem calma ponderando sobre o que exatamente ele queria falar comigo. O assunto em si ainda me irrita, mas o que me preocupa é o fato de ser um encontro informal. Derik com certeza falaria sobre John Adam, mas este é um assunto de trabalho, não vejo o porquê de ele querer trata-lo fora dele...
Algumas ideias surgiram na minha mente traiçoeira, mas preferi ignorar.
O encontro com a polícia não foi bom e com Derik provavelmente não seria diferente, então decidi ligar para a Mari. Queria deixa-la informada sobre algumas coisas. Só algumas. Disse para ela que a policia estava me pressionando por informações depois do último assalto e se por acaso eles me prendessem que era para ela procurar por John. Dei os números de telefone dele e os endereços do trabalho e de casa.
É claro que a Mari perguntou o porquê de eu estar fazendo isso, mas eu pedi que ela somente o fizesse. Ela relutou, mas acabou cedendo e eu sei que ela daria um jeito de encontrar o John, nem que ela precisasse ir do outro lado do mundo para isso, mas ela iria encontra-lo.
Não acho que John iria se entregar por minha causa, somente o fato dele se sentir culpado já me bastava. Bem... Se isso ocorrer.
Liguei para Jesse e para Thay já que eles trabalham no ramo publicitário e editorial, respectivamente; Pedi se caso eles vissem alguma notícia com meu nome que eles abafassem. Não quero meu nome da mídia novamente.
Também procurei por um advogado, recomendação de Dani. Passei duas horas com ele ao telefone explicando todo o meu caso. Ele pareceu bastante surpreso, mas estava disposto a pegar o meu caso. Ele me aconselhou a somente ir aos interrogatórios da policia se eles me mostrassem um mandato. Ele disse que a policia cairia em cima de mim agora, eu seria “a cereja do bolo”, foram suas palavras exatas.
Não contei para ele sobre meu encontro hoje com o tenente. Tenho quase certeza que é algo pessoal. Mas eu preciso ter cuidado... Não posso deixar nenhuma ponta solta.
***
Escolhi um vestido, um chinelo branco e estava bom demais.

Quando entrei no restaurante Derik já estava à minha espera. Ele se levantou para puxar a cadeira para mim, mas eu dispensei e me sentei.
–Tudo bem – Suspirou Derik e se sentou.
Eu o encarei e vi o desconforto em seus olhos.
– O que você tem para me dizer? – Perguntei secamente.
Derik suspirou – Primeiro, quero te pedir desculpas por ontem, eu... Nós pensamos que você soubesse quem era o John, o que ele fez, pensamos que você tivesse nos enganando... Todos se exaltaram – Disse arrependido – Você precisa entender o nosso lado. Toda a mídia está nos pressionando, perturbando! O departamento está em cima de nós, a população, este ano tem eleições...
–Pra merda com suas desculpas! Vocês não precisavam ter me atacado daquela forma! – O interrompi bruscamente – Ontem vocês me fizeram ir até vocês para me acusar de algo que ACHAM que eu participei e ainda por cima ameaçaram a me prender! – Disse resignada.
Não me conformo com isso! Eles não têm provas que eu soubesse o que John e seus amigos faziam e mesmo assim alegam que eu sabia! Mas é tudo opinião deles! Não são fatos!
–Eu sei! Eu sei! Antes eu realmente acreditava que você estivesse mentindo para nós! Você sabe que é possível burlar as escutas da polícia, você é inteligente para isso! Mas quando eu vi o seu semblante... – E suspirou – Eu me enganei, e feio... – Murmurou e depois parou de falar.
Ficamos em silêncio até a garçonete aparecer para anotar nossos pedidos. Eu recusei, não iria comer com ele, ainda estava brava.
–Eu entendo que você não queria comer comigo, Olivia – Disse Derik se ajeitando na cadeira desconfortavelmente – Mas você precisa comer, está abatida...
Eu suspirei e relaxei um pouco os ombros. É claro que eu estou abatida, chorei praticamente o dia inteiro ontem. Meu semblante deve estar horrível agora...
–É por causa dele, não é? – Disse Derik frio e eu pisquei surpresa – Você realmente o ama, não é? – Disse e eu notei a irritação em sua voz.
–Isso não importa mais – Sussurrei olhando para o movimento da rua – Há algo que você não me contou... Como você chegou até o John? – Perguntei mais calma.
Derik ficou tenso e passou a mão pelo cabelo, visivelmente perturbado. Ele demorou exatos 23 segundo para me responder.
–Você me falou sobre ele – Disse Derik.
–Falei o nome do meu namorado e só – Murmurei – Não disse nada demais... – E parei, entendendo na hora.
Pisquei várias vezes e me acomodei na cadeira, pus a mão sobre a boca e o encarei a espera de uma resposta.
Derik não me olhou diretamente nos olhos, ao invés disso preferiu observar a movimentação da cozinha, e começou a falar rapidamente.
–Você me disse o nome dele e... Eu fui ver quem ele era – Admitiu envergonhado – Queria saber quem estava com você, mas acabei descobrindo muito mais do que isso... A ficha de John foi à primeira coisa que encontrei. Havia vários processos contra ele, ele já foi preso por invadir o banco de dados de uma agência bancária e pela tentativa de roubo de um caixa forte. O pai dele cumpre pena por homicídio, mas há várias fichas arquivadas sobre assaltos a bancos por todo lado Oeste. Sinceramente Olivia... Isso foi o ápice e eu comecei a buscar cada vez mais. John se mudou para Manhattan há seis meses e a quatro começaram os assaltos. Ele mora na região dominada pela Máfia Italiana, Máfia na qual o pai dele fazia parte! Toda a história está se repetindo... – Disse energeticamente.
Analisei cada detalhe com cuidado. Eu estava fodida em todos os sentidos. As mentiras de John extrapolaram um limite que julguei ser possível, tenho que admitir que a criatividade dele para elas é louvável. John me envolveu em algo pior que a polícia... Com a Máfia. Todos em NY sabem o poder que a Máfia tem e não serei eu que vou ficar no caminho.
–Vocês podem comprovar que a Máfia está envolvida nisso? – Perguntei cautelosa.
–Não – Respondeu Derik irritado – Nós nunca conseguimos pega-los, eles são muito cuidadosos, muitos promotores não querem se envolver no caso – Explica – Eles compram as testemunhas... Mas não você Olivia! Você é nossa chance de pega-los! – Diz extasiado.
Ele quer que eu ajude a denunciar a Máfia?! Os bandidos que explodem prédios e pessoas?!
Eu o encarei incrédula.
–Você está louco! – Digo veemente – Não posso ajudar vocês nisso! Vocês já quebraram meu sigilo telefônico faça o mesmo com essa quadrilha e os peguem!
–Não é tão simples assim Olivia. Você acha mesmo que eles falam sobre os atos deles pelo celular? – Questionou Derik rapidamente – Você pode ajudar a policia nisso! Pode me ajudar Olivia – Diz pegando minha mão e eu a tirei, fazendo-o balançar a cabeça – Pensamos que talvez você pudesse falar com John novamente e gravar tudo, para conseguirmos informações, talvez uma confissão. Posso lhe garantir que vamos te proteger, eu vou te proteger, Olivia.
Ah... É isso... Ele quer que eu fique do lado dele, em todos os sentidos.
–Então você é o cara bonzinho que eu devo ficar e confiar, enquanto o John é o mau que tenho que destruir? – Digo sarcástica e depois suspirei – Não entendo por que você insiste nisso Derik. Já disse que não quero me envolver nisso, em nada.
–Então me diga o que você vai fazer Olivia! – Disse irritado – O que você quer! Por que para mim parece que você está protegendo ele! O bandido que te colocou uma bomba!
–Não! É claro que não! Poupe-me dessa sua especulação ridícula!
–Eu não te entendo! Sou eu quem quer te proteger de tudo isso e não ele! Você acha que será o John que vai proteger você da Máfia ou dá polícia? Por que estão todos de olho em você para saber o que você vai dizer, quem você vai ajudar, Olivia! Sou eu quem quer o seu bem! Sou eu quem está arriscando a pele para te livrar desses criminosos e a minha carreira dizendo isso tudo para você! Tudo isso para ficar do seu lado! – Disse Derik friamente.
E eu fiquei em silêncio. Não sabia onde enfiar a minha cara. Isso foi como uma tapa.
–Não quero tomar mais o seu tempo... Eu... É... Quanto a essa ideia da polícia devo declarar desde já que não tenho interesse em ajudar, já me envolvi muito em tudo isso e eu tenho todo direito em recusar algo que pode ser perigoso para a minha vida – Digo automaticamente.
Derik pegou meu cotovelo e o segurou firmemente, olhando dentro dos meus olhos – Eu não vou desistir, Olivia – Disse determinado e pude notar o duplo sentido em suas palavras – Não vou permitir que você simplesmente estrague a sua vida. Não vou permitir que você fique com um cara como ele! – Disse com nojo ao se referir de John.
E me puxou, beijando-me bruscamente.
Eu o afastei com os braços e ele sorriu limpando os lábios do meu gloss de cereja.
–Vou te mostrar que sou um homem melhor que ele – Murmurou Derik e eu me levantei furiosa.
–Pois agora você é pior do que ele! – Digo com asco e saio do restaurante.
Era tudo que eu precisava agora!
***
Voltei para casa pensando em tudo que ele havia me dito e toda vez que me lembrava do beijo o ódio crescia dentro de mim.
Trinquei mais ainda os dentes e acelerei o carro.
Não entendo por que ele fez isso agora! Justo quando está acontecendo tudo isso! Ele não podia esperar?! Dar-me esse tempo? Argh! Homens são complicados demais!
Não compreendo tamanho fascínio dele por mim... Vai ver por que fui à garota do bandido, sei lá... Mas a quem quero enganar? Encantei-me com John desde a primeira vez que o vi.
Sobre a ideia da policia não era ruim, eu poderia fazê-lo e talvez desse certo se John encontrasse comigo. Ele tinha falado tudo que a polícia queria saber agora em nosso último encontro. Mas eu não quero ficar contra a Máfia, mas também há outro motivo estúpido pelo qual não quero denuncia-lo...
Pouco depois que cheguei em casa a polícia de NY me ligou pedindo que eu fosse a delegacia e falasse sobre os outros integrantes da quadrilha. Da última vez que fui à delegacia tinha dito que os conhecia, mais um motivo para eles ficarem em cima de mim. Eu neguei e dei a eles o número do meu advogado, tudo seria tratado com ele agora.
Logo em seguida meu advogado me ligou e eu reafirmei que não tinha intenção de colaborar. Ele me alertou que a policia continuaria insistindo e caso a situação de alguma forma se agravasse eles poderiam me força a fazer um depoimento.
Eu sabia desse risco, mas desde o momento que Derik falou que a Máfia estava envolvida eu soube o que caso iria esfriar de alguma forma, como sempre acontecesse nos processos contra algum mafioso. Os funcionários públicos se negam a trabalhar no caso, provas e testemunhas somem... Então do que adianta eu vir a colaborar se podem haver outros fatores que desmoronem o caso? O risco é todo meu, todas as consequências são minhas!
Não vale a pena arriscar a minha vida.
***
Dois dias depois...
Passar à tarde de domingo em casa sozinha é horrível, deprimente. Estava evitando meus amigos, as pessoas em geral, não por medo, mas pelo receio delas perguntarem por John. Não acho certo mentir para os meus amigos, mas por outro lado não quero envolve-los nisso.
E para completar meus problemas a policia voltou a vigiar a minha casa e não era para a minha proteção.
Estava preparando um lanche quando ouvi o noticiário:
A polícia havia localizado a quadrilha que assaltou o banco, mas quando foram prendê-los eles já haviam fugido. Há suspeitas que eles soubessem da movimentação da policia.
É claro que eles sabiam! EU fui à casa de John tirar satisfações. EU contei para ele que foi a polícia quem me informou sobre tudo. Por um lado me senti culpada, mas por outro lado não me importei, é a minha pele que está em jogo.
Talvez, só talvez, a Máfia viesse atrás de mim se a quadrilha fosse presa. Iria pensar que eu ajudei a polícia nisso. Não duvido que John tivesse contado a eles sobre mim, assim todos poderiam rir.
Dei um suspiro alto e fui desligar o meu celular e desconectar o telefone. Meus amigos tentariam entrar em contado comigo para que eu tomasse mais cuidado e os policiais para que eu desse pistas de onde a quadrilha possa estar agora. Eles não iriam desistir.
***
Antes de ir dormir como habitual fui conferir todas as trancas, e dá janela pude ver o carro da policia na minha porta me vigiando.
Sinceramente, o que eles esperam? Que o John esteja escondido na minha casa? Que eu vá receber toda a quadrilha para uma visita?
Bufei e fechei a cortina. Chega por hoje.
***
Peguei outro turno noturno. Estava exausta, dolorida por tantas horas em pé e com fome. Ir ao Hob’s só me traz más lembranças... Lembrava-me de John.
É inevitável ter esse tipo de pensamento, foi lá que nos conhecemos. Mesmo assim não deixei de ir a Cafeteria.
Vou me lembrar de John por muito tempo, não posso negar isso, ele fez parte da minha vida e me fez ter a maior surpresa dela também.
Uma vez li que amamos o que achamos merecer... Mas eu não mereci ser enganada pelo meu namorado bandido. Não sou uma pessoa ruim para merecer esse tipo de punição. Esse drama todo que vocês estão sendo obrigadas a ler tem uma simples explicação: Eu ainda amo ele. E isso é algo que não deixamos de fazer de uma hora para a outra.
Pela segunda vez posso dizer isso e desta vez ele não morreu para acabar com tudo, como o que aconteceu com meu primeiro namorado. Ele não foi o cara que me fez ficar com ele pelo simples e puro tesão sexual, mas por que eu gostava de sua companhia. Ele exercia um tipo de fascínio sobre mim e cada vez mais eu queria ficar próxima dele.
Um sentimento tão inocente e involuntário que agora luto para acabar. Minha mente me lembra a cada instante disso. A eterna luta entre o coração e a mente pelo controle.
Nunca em minha vida iria imaginar um bandido tão cativante e bonito, muito menos que fosse gostar de um! E agora estou nessa situação, irônico, não acham?
Toda vez que admito gostar dele tenho vontade de me estapear, e com força. Não aceito estar nessa situação.
Assim que entrei no Hob’s Cathy veio me atender.
–Amiga você está bem? Você está... Péssima – Concluiu surpresa.
–É... Não tenho dormido muito bem por causa dos plantões – Menti rapidamente e ela não notou.
Fiz meu pedido e Cathy saiu.
Fiquei desenhando no guardanapo ouvindo Coldplay, esperando pelo meu pedido.
–Moça? – Disse um menino e eu o encarei – Para a senhora – Disse me entregando um papel e foi embora correndo.
Eu abri o papel e reconheci imediatamente a passagem do livro. Havia lido tantas vezes...
“Nunca lhe confessei abertamente o meu amor, mas se é verdade que os olhos falam, até um idiota teria percebido que eu estava perdidamente apaixonado”.
–Porra, John Adam...!
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