Apaixonada pelo Mal
9 Miami
Notas iniciais
Até onde vai o perdão?
Até onde podemos perdoar aqueles que amamos?
Só sei que o meu perdão ultrapassou a razão.
Brenda Camões.
As coisas com John estavam... Indo.
Eu entendia e via como os problemas do pai o estavam afetando. Ele não me contou o que realmente o pai dele estava passando, mas eu não insisti em saber, há certas coisas que são pessoais demais e é melhor deixa-las assim.
Sim, ele ficou estressado, descontou em mim, mas ele não havia agido diferente de mim algumas semanas atrás. Depois do acidente no banco meus pais me sufocaram com sua atenção, sentia-me como uma criança presa. Um dia eu gritei com eles e desliguei o telefone na cara deles, mas assim como eu, eles reagiram a isso e me ligaram de volta na mesma hora dando-me a maior bronca que já recebi, pelo menos eles não me bateram como fiz com John...
Mas enfim... O que quero dizer com tudo isso é que quando estamos infelizes é difícil não deixarmos as pessoas a nossa volta infelizes. Desculpe humanidade, mas vejo assim. Não sou o altruísta o suficiente para fazer alguém sorrir quando estou destruída por dentro.
O ser humano sempre encontra uma forma de expressar o que está sentindo, seja ela qual for ou quão criativa seja.
***
Nos dias seguintes ao ocorrido na casa de John nós estávamos nos falando mais do que antes, John me contava mais as coisas, mais sobre ele e eu fiquei contente. Cada vez no ligamos um ao outro, não só do jeito físico, estávamos nos tornando amigos e não há nada mais especial em um namoro.
Não nos desgrudávamos do telefone, até marcávamos de se falar depois do trabalho, ou seja, parecíamos à porra de uns adolescentes de quinze anos com crédito no celular.
–John olha a hora, eu preciso desligar – Eu digo.
–Tudo bem.
Silêncio.
–Não vai desligar? – Perguntei estranhando.
–Desliga você primeiro – Ele diz e rir.
Admito, dei uma risadinha – Sério isso?! – Perguntei sorrindo.
–Vamos Liv, desliga você primeiro – Diz.
–Credo, John! Para com essas veadagens – Digo fingindo e John dá uma boa gargalhada.
–Chega de veadagens por hoje – Diz John – Mas bem que você poderia agir como uma moça e rir ou suspirar quando estou sendo romântico, sabia?
–Ah, isso é romântico? – Digo surpresa e nós rimos – Mas você disse certo “eu poderia” agir como uma moça – Digo desafiadora, mas sem tirar o sorriso idiota do rosto.
–Tudo bem... Só acho que os papéis estão se invertendo nessa relação – Diz John brincalhão.
–Só às vezes e você adora quando invertemos – Comento safada e dou uma risadinha – Mas você vai desligar ou não?
Silêncio.
Nós ficamos nessa brincadeira estúpida por algum tempo até John começar a falar sacanagens pelo telefone e eu completar.
Foi uma noite quente e... Criativa.
***
Na manhã seguinte decidi sair um pouco mais cedo de casa, queria passar no Starbucks para um bom café para aguentar o plantão matutino já que não dormir muito bem, mas quando abri a porta para sair eu parei.
–OK... Isso é um pouco estranho – Murmuro sozinha, parada junto à porta.
É muito bizarro.
Peguei meu celular e liguei para o John.
–Oi... Eu sei que é cedo, mas acabei de ver sua surpresa – Digo, mas não tão animada quanto deveria.
–Que surpresa? – Pergunta John rouco, com certeza eu o acordei.
–É... Essas flores cobrindo o chão da minha porta e os degraus – Digo olhando para as flores – Baby, eu sei que você fez com muito carinho isso, mas não tem como eu sair e não pisar nelas – Digo um pouco nervosa.
John ficou em silêncio por um momento, mas depois voltou a falar rapidamente.
–Ah, amor! Não tem problema! Mas por que você não me espera em casa para podemos sair juntos? – Diz e eu escuto o barulho de cabides.
–Mas eu já estava saindo de casa, ia tomar um café – Esclareço.
–Liv, já estou saindo – Anuncia John – Ai podemos tomar café na Parke’s.
Okay... A Parke’s é a padaria mais antiga de Manhattan, a melhor e também a mais cara. Esperar por John para comer aquele croissant maravilhoso debaixo daqueles lustres imensos de cristais vale a pena. Decoração clássica francesa.
–Ah, gostei da ideia! – Digo e entro, batendo na porta e escuto John ligar o carro.
–Mas me diga o que achou das flores baby – Diz John.
–Você não deveria estar falando comigo dirigindo...
–Não tem problema, estou indo devagar e nesse horário não tem trânsito – Diz rindo – Mas você não me respondeu...
–Ah – Sussurrei.
–Diga a verdade.
Não tinha jeito, uma hora ele iria arrancar a verdade de mim.
–Eu gostei do seu gesto, de verdade! Eu juro amor! Mas... – E gaguejo um pouco – As... As flores que você escolheu foram um pouco... Estranho, mas se você gosta de crisântemos não tem problema! Eu só... Na hora lembrei que são flores que cobrem defuntos, mas não tem problema, de verdade! – Acrescento rapidamente – Você não sabe qual flor eu gosto e seu gesto foi lindo!
John ficou um tempo em silêncio e quando voltou a falar parecia tenso.
–Tudo bem, Liv! Quem sabe na próxima eu acerto? Rosas vermelhas então? – Diz e volta ao tom brincalhão.
–Seria perfeito – Digo gentil, aliviada por ele não ter ficado chateado comigo por eu não ter gostado.
Nós nos falávamos mais um pouco e desligamos.
Realmente foi um gesto lindo, a frente da minha casa estava cheia de flores, mas os crisântemos... Elas ficam em cima dos defuntos, cobrem eles! Porra, minha vó foi coberta com aquelas flores! Só o cheiro... Argh.
A campainha tocou e eu fui atender.
–John você chegou rápido! – Disse surpresa abrindo a porta.
–É! Não havia trânsito – Diz entrando e me dá um beijo.
John foi ao banheiro e bebeu um pouco d’água e fomos ao Parke’s. Qualquer uma se sente uma Lady comendo na Parke’s e comigo não foi diferente, somente John estava estranho.
–Está chateado comigo? – Pergunto colocando a mão na sua.
–Com você?! Claro que não Liv!
–Hum... É que você está estranho – Comento, mas decidi mudar de assunto – Quem diria que John Adam tem um lado romântico – Murmuro sorrindo.
John deu um leve sorriso e apertou minha mão, prendendo-me naqueles olhos escuros.
Ah...
***
Quando meu plantão terminou e eu saí do hospital John estava me esperando, fiquei bastante surpresa já que não havia marcado nada com ele e tinha o visto mais cedo.
–Já comeu algo? – Perguntou me beijando e abriu a porta do carro para mim.
–Sim, comi no hospital mesmo – Digo – Só quero ir para casa e tomar um banho – Acrescento, John sabe que sempre tomo banho após um plantão.
Quando chegamos a minha casa John entrou comigo e ficou conversando comigo enquanto eu tomava banho.
–Que tal viajarmos este fim de semana? Você disse que não iria trabalhar – Diz John.
–É uma boa ideia – Respondo – Nós precisamos descansar, mas para onde?
–Vamos para algum lugar com praia, ficar de frente para o mar... Relaxar. Que tal Miami? Nós podemos pegar o voo no final da tarde e chegamos de noite lá – Propõe John.
–Gostei... Nunca fui a Miami – Comento animada.
–Então posso ligar para a companhia aérea?
–Pode... Mas antes... – Digo abrindo a porta – Por que não aproveitamos? – Murmuro e deixo minha toalha cair.
John abriu um sorriso e se sentou mais ereto.
–Caminhe bem devagar até mim – Diz rouco.
Fiz o que ele pediu e parei na sua frente com a respiração entrecortada. John começou a passar sua mão lentamente por meu corpo, sempre olhando em meus olhos.
–Hoje quero lhe beijar inteira – Sussurra subindo seus beijos em meu ventre.
–Por favor... – Pedi diante de seu olhar inflamado.
John sorriu satisfeito e me empurrou para a cama.
–Então vamos começar por aqui... – Sussurrou aos meus pés.
***
Dois dias depois...
Nós conseguimos o voo da tarde para Miami logo após meu plantão, então aproveitamos para dormir durante o voo. De Nova York até Miami são quatro horas de voo e pela previsão estaria fazendo sol este fim de semana.
John tinha escolhido um hotel de frente para a praia, para que não tivéssemos que alugar um carro.
Quando chegamos ao hotel eu estava animada, deixamos nossas malas no quarto e tomamos banho juntos, depois fomos fazer uma massagem no Spar do hotel.
Depois de quase sair flutuando do Spar graças às mãos magicas daquela senhora filipina convenci John para irmos a uma balada que tinha visto perto do hotel.
–Mas você nem dança – Resmungou John jogado na cama.
Deitei-me ao seu lado de bruços e fiquei passando a mão na sua barba por fazer.
–Não precisamos saber, as próprias pessoas nos balançam – Digo com um sorriso encantador.
–Tudo bem – Diz John suspirando.
Dei um sorriso e pulei da cama para procurar uma roupa.

Fomos andando até a balada, enfrentamos uma fila, mas conseguimos entrar.
As baladas de Miami eram ainda melhores que as de NY, mas havia mais drogas, pela forma como aquelas pessoas estavam dançando, pelos seus olhos vermelhos e desfocados, e pelo cheiro eu podia confirmar isso. John percebeu que eu estava notando isso e riu.
–Você que quis vir – Diz no meu ouvido.
–Eu sei – Respondo e puxo-o para a pista de dança, imitando as pessoas ao meu lado.
Depois de um tempo dançando John se cansou e foi se sentar no bar, dei minha bolsa para ele segurar e me joguei na pista. Deduzo que foi pelas margaritas que tomei.
Bebidas e seu histórico de dar coragem para as pessoas.
Quando me cansei de dançar fui me sentar na perna de John e peguei seja lá o que ele estava bebendo e tomei. Ele riu quando eu devolvi o copo para ele.
–Puta que pariu! Que troço ruim! Argh! – Resmungo.
–Vejo que tem alguém ficando bêbada... – Diz rindo.
–John Adam... Eu estou ótima! – Digo animada.
Ele riu e abraçou minha cintura – Então? Vamos embora agora? – Pergunta John.
–Vamos, por hoje já deu – Respondo.
Voltamos abraçados para o hotel, nós estávamos indo dormir e os mais jovens estavam entrando agora nos bares e baladas, isso fez me sentir velha... Mas de qualquer forma eu nunca fui como eles nesta idade, então foda-se.
Quando chegamos ao nosso quarto tomamos um banho e dormimos exaustos.
***
Fui acordada por John me chamando.
–O que foi? – Perguntei de desnorteada, sentando-me.
–Seu celular está tocando! – Depois de um tempo que percebi que John estava no banheiro.
Levantei e peguei meu dentro da bolsa.
–Alô... – Murmurei esfregando os olhos.
–Olivia?
–Sim... Quem fala?
–Aqui é o tenente McGrey.
–Ah! Oi... Aconteceu alguma coisa? – Merda! Esqueci que a policia agora entrava em contato comigo uma semana sim outra não.
–Ligamos para o seu trabalho e para sua residência, mas você não atendeu as chamadas – Diz Derik.
–Eu viajei – Explico – É uma viagem curta, logo voltarei.
–Você saiu do estado?
–Sim... – Suspirei.
–Olivia... Você deve nos comunicar quando sair do estado.
–Eu lembro que vocês disseram que eu devo comunica-los... Mas é que já faz tanto tempo! Não vejo mais a necessidade de vocês ainda estarem em contato comigo, não há mais perigo! – Argumento – Não tem como você fazer isso, Derik? Falar com seus superiores ou deixar no sistema que eu não quero mais o auxilio de vocês?
–Eu entendo seu lado Olivia, de verdade, mas não há nada que eu possa fazer sobre isso ou qualquer outra pessoa. Há um prazo que a policia tem para manter um contato com a vitima para protegê-la e esse prazo ainda não terminou – Explica Derik – Ainda mais que as investigações não terminaram.
–Vocês nem estão perto de pega-los, não é? – Digo cabisbaixa.
–Não... – Confessa.
Quando me virei vi John parado na porta do banheiro apenas com uma toalha ao redor da cintura. Pisquei para ele e voltei a conversar com Derik.
–Eu imaginava isso – Murmuro – Então está tudo certo agora?
–Vou colocar aqui no sistema sobre sua viagem para...?
–Miami – Digo.
–Tudo bem... Por favor, não deixe de comunicar antes, Liv.
–Desculpe... – Sussurro.
–E como está o Adalto? – Pergunta Derik e eu sorri.
–Ah! Adalto! Gordo e preguiçoso aquele gato... Só saí para namorar – Digo e nós rimos.
John se sentou na cama e ficou me olhando.
–Ahm... Eu vou ter que desligar agora, Derik – Digo – Meu namorado está me esperando, tchau!
–Tchau Olivia.
E desliguei.
–Quem é Derik? – Perguntou John – Não me lembro de você ter falado sobre ele...
–Ele é o Tenente McGrey que eu lhe falei... Que me ajudou... – Sussurrei e John ficou surpreso.
–Hum... É que você sempre se referia a ele como McGrey – Comenta John – E eles pegaram os caras do assalto? Ou tem novidade do caso?
–Nada – Suspiro – Ele só entrou em contato comigo por que é aquela ligação padrão que eles fazem para ver como estou.
–E por que ele perguntou sobre o seu gato?
Merda...
–É por que quando comprei o Adalto ele estava comigo.
–Interessante... – Diz John. Merda! Ele está com uma cara péssima – E por que ele estava com você?
–Na época a policia ainda estava me fazendo visitas e tal... Ele passou no meu trabalho um dia para ver se estava tudo bem... E como nós moramos no mesmo bairro nós fomos para casa juntos e no caminho passamos por um pet shop ai... Enfim – Explico depressa.
–Ele sempre vai ao seu trabalho?
–Ah! Não! – Respondo – Isso por acaso é um interrogatório, John? – Pergunto sorrindo, mas no segundo seguinte ele some quando vejo que John está sério.
–Não é um interrogatório Olivia. Eu só não gostei por você não ter me contato isso.
–Ah...
–Você deveria ter me contado... E você sabe disso, por que você também não gostaria se fosse o contrário Liv.
–Eu sei... Desculpe! Eu errei, mas... Eu realmente não me lembrava disso! Fui lembrar agora e na época não dei importância a isso e... – Murmurei sem jeito.
John suspirou e se levantou, circulando os braços por minha cintura, seu olhar parecia... Preocupado, enciumado, triste... Eu não sei dizer, aqueles olhos negros me enganavam.
–Está tudo bem – Suspira John – Você vai me compensar sobre isso indo comigo no jogo dos Nick’s está noite.
–Ah... Não! Poxa! – Resmungo – Isso é golpe baixo e você sabe disso – Digo e ele rir.
Sério que vou ter que assistir a um jogo de basquete? Ah, cara...
Ficamos abraçados por um tempo e John beijou meu rosto, colocando seu queixo apoiado na minha cabeça.
Malditas pessoas altas.
–O que você está fazendo comigo Liv... O que... – Sussurrou John.
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