Apaixonada pelo Mal
8 De Raspão
Notas iniciais
Segunda de manhã John me levou para casa, aos beijos e apertões ele me deixou sair do carro.
Acabei dormi a manhã toda já que passamos a noite em claro e a tarde eu teria que trabalhar. Para a minha tristeza.
***
Quando meu plantão terminou voltei animada para casa, mas quando chequei meu celular e o telefone não havia nenhuma mensagem ou telefonema de John.
E aconteceu o mesmo na terça.
E na quarta.
Eu achei um absurdo, também não iria ligar para ele! Ele não é nenhum moleque!
Na quinta quando estava saindo para ir trabalhar vi John parado na porta da minha casa, desci as escadas e fiquei parada na frente dele.
–Vim te levar para o trabalho – Diz John.
–O que está havendo? – Perguntei sem paciência cruzando os braços.
John suspirou e percebi o quanto ele parecia cansado.
–Andei brigando com o meu pai – Disse abrindo a porta do carro para mim e eu entrei – E perdi meu celular – Completou me entregando o novo aparelho – Anote seu número novamente, de casa e celular – Pediu e ligou o carro.
–Por que você brigou com seu pai? – Perguntei mais calma.
–Pelo mesmo de sempre... Bebida — Explicou John irritado e virou a esquina.
–Você podia ter me ligado... – Murmuro me sentindo infantil, mas eu fiquei magoada, então que se foda – Eu teria te ajudado em algo... – Completo.
–Desculpe Olivia, é que... Aconteceram tantas coisas – Disse ainda irritado – Não me esqueci de você. Prometo que vou te retratar por isso de alguma forma... – Disse pegando minha mão, mas eu fiquei em silêncio.
Quando chegamos ao hospital John desceu do carro comigo e foi caminhando comigo até a entrada do hospital. Pelo caminho até a entrada fui cumprimentando o pessoal de sempre.
–Você conhece bastante gente – Comentou sínico e passou o braço por minha cintura.
–Está com ciúme, John Adam? – Perguntei seca.
–Ainda está com raiva de mim?
–Estou – Resmunguei e ele me beijou, sorrindo.
–Vou vir te buscar hoje – Anunciou John – Senti sua falta... – Murmurou contra me pescoço e eu cedi um pouco.
–Tudo bem – Sussurrei.
Quando entrei no hospital Mari e Dani estavam ali, uma com o sorriso do Coringa e a outra com o sorriso do Gato de Alice, respectivamente.
–Aquele é o cara que você está saindo? – Perguntou Mari, mas não esperou pela minha resposta – Ai. Meu. Deus! Ele é lindo! – Diz o mais baixo quanto possível.
–Tinha que ver o olhar dele, Olivia! – Exclamou Dani.
–É verdade! Nós escutamos o finalzinho da conversa de vocês – Explica Mari – Você tinha que ver a cara dele quando você cumprimentou aqueles dois paramédicos!
–Foi como se você nem ligasse para a reação dele! Indefente! Arrasou amiga! – Diz Dani extasiada.
–Diva! – Diz Mari.
–Diva! – Diz Dani.
–Diva?! – Repeti confusa e nós rimos.
Mari correu com seus saltos assassinos para o escritório e Dani me acompanhou até o vestuário, falando sobre minha paciente. Uma jovem que queria dar seu bebê para um casal.
Não era o primeiro caso que eu pegava assim, mas havia toda uma preocupação com o bebê e com o psicológico da mãe; Tínhamos que ter cuidado com as palavras para não “motivar” a paciente a desfazer o acordo com o casal que esperava serem pais.
Mais um dia daqueles...
***
John Adam foi me buscar no trabalho como havia dito. Nós nos beijamos e ele me levou para casa.
–Quer entrar? – Perguntei quando chegamos.
John protelou um pouco para responder, mas acabou concordando.
–Pode ficar à vontade para olhar a casa – Disse suas palavras enquanto trancava a porta – Vou guardar minha bolsa.
Quando voltei à sala John estava sentado pensativo, ajoelhei-me na sua frente e tentei ajeitar aquele caos que era seu cabelo.
–O que aconteceu John... – Sussurrei olhando em seus olhos.
–Já acabou, não precisa se preocupar – Diz pegando as minhas mãos.
–Está ferido?
–Não... – Responde cansado.
–Bom... – Murmuro e ele me puxa para sentar sem seu colo, arqueei surpresa. Ele abraçou minha cintura e se acomodou no sofá, fechando os olhos — Gosto que você cuide de mim – Murmura com um sorriso safado.
Abracei seu pescoço e me aninhei em seu peito.
–Aproveite, por que estou quase te dando uma surra! – Digo e o sorriso dele aumenta.
–Talvez eu goste de apanhar então – Murmura com os olhos ainda fechados.
Ficamos um tempo em silêncio e ele adormeceu. Eu me levantei e fiz um lanche, depois tomei um banho para tirar aquele cheiro de hospital.
–John... Tire os sapatos – Sussurrei e John tirou os sapatos e a jaqueta, se deitando no sofá.
Seja o que o que for que tenha acontecido com ele nesses dias, ele está cansado demais, não parecia ter dormido. Olhei para seu corpo e não havia marca de briga ou algo assim, apenas suas feições pareciam esgotadas.
–Venha dormir comigo – Murmurou.
–Não quer dormir na cama?
–Não. Aqui está bom – Respondeu e puxou minha mão.
Deitei-me do lado dele e nos cobri com o cobertor que havia pego no quarto. John praticamente se deitou em cima de mim e acabamos dormindo.
***
–Acorda dorminhoca...
–Não... – Resmunguei e John riu.
–Comprei nosso café-da-manhã...
–Não...
Ele riu novamente e me pegou no colo.
–Nunca ouviu que não pode acordar uma mulher de seu sono de beleza? – Digo esfregando os olhos.
–Não – Ele diz sorrindo.
John me colocou em pé na cozinha e me beijou, e de novo, e de novo...
–Acho que podemos fazer outra coisa além de tomar o café-da-manhã... – Murmuro na ponta dos pés, o beijando.
Perá! Eu tinha planejado deixar ele sem sexo por umas duas semanas por não ter me ligado?! Merda de tesão...
–Interessante... – Murmura John e me pega no colo novamente.
***
Depois de um sexo louco e despertador na bancada da cozinha, nós tomamos nosso café e John foi embora.
Tomei outro banho para tirar aquele cheiro de sexo e ajeitei a sala.
–Adalto, meu filho! Voltou da noitada agora?!
–Miau...
Para um gato castrado ele adorava tentar. Adalto continuou a “se dar banho” e foi se deitar comigo, em cima do meu travesseiro.
–Você tem sua caminha, sabia abusado? – Sussurrei e ele deu aquele olhar de: “Estou nem aí para você”.
Então tá, né...
E eu dormi, o turno noturno me aguarda.
***
Alguns dias depois...
–Nossa amiga! Que pulseira linda! – Exclamou Thay encantada.
John havia me dado está pulseira semana passada como “desculpa”.
E para completar minhas novidades, Jesse ainda está um pouco chateado comigo por eu ainda estar saindo com John, para ele John não presta e tem algo de errado. Mas ele entendeu quando eu disse que não havia motivos para isso, à única gafe que John cometeu foi ficar aqueles dias sem me ligar, mas eu o desculpei por isso, encerrando este assunto.
Sempre que eu fazia alguma pergunta para o John, ele me respondia, até oferecia seu celular para comprovar, nunca o peguei, mas tinha liberdade para tal.
–É linda mesmo – Concordei toda boba olhando para a pulseira.
–Então vocês estão namorando? – Perguntou Thay dando uma garfada em seu salmão.
Pelo menos uma vez por semana eu fazia Thay jantar comigo para esquecer e sair um pouco da editora.
–Sim – Murmurei dando os ombros – Estamos sempre dormindo juntos, saindo juntos, Adalto gosta dele...
–Ah! Adalto... Só você para dar este nome para o gato – Disse Thay revirando os olhos – O que você vai fazer mais tarde?
–Vou para casa mesmo, tenho que fazer o jantar, talvez John apareça novamente para jantar.
–Hum... Parece um casalzinho mesmo – Brinca Thay.
Eu ri – E amanhã eu trabalho... Ah! Minha carteirinha!
–O quê?! – Diz Thay completamente perdida.
–Minha carteirinha do trabalho! Eu esqueci na casa de John! E de manhã eu trabalho... Mais que merda! – Resmungo passando a mão pelo cabelo.
–Passa na casa dele e pega oras!
–É... – Concordei me acalmando – Ele disse que eu posso ir na casa dele quando eu quisesse, até brincou que adoraria um visita surpresa – Murmuro pensativa.
–Está vendo?! Não tem nada demais. É rapidinho, você pega e vai embora – Comenta Thay – E vai logo amiga senão vai ficar tarde para ti.
–É verdade – Concordei e beijei seu rosto me despedindo. Deixei minha parte da conta e saí.
Quando cheguei à casa de John estava tudo escuro, subi as escadas correndo e tirei a chave reserva de dentro da luminária, queimando um pouco meus dedos.
Entrei acendendo as luzes e comecei a procurar por minha carteira, passei pela cozinha, pela sala e segui até o quarto.
–Ah! Achei! – Murmurei sozinha e a guardei dentro da bolsa, então eu parei.
Alguém abriu a porta da frente rudemente e a fechou com força. Coloquei o ouvido na porta e fiquei ouvindo. Alguém estava na cozinha e abriu a torneira resmungando, só podia ser o John!
Saí do quarto silenciosamente e fui até a cozinha.
–John? – Perguntei cuidadosa.
–Liv? O que você está fazendo aqui? – Perguntou John irritado.
Eu parei na porta da cozinha completamente perdida.
–O que houve com seu braço? – Perguntei seca.
John não me respondeu, estava completamente furioso até onde a dor deixava. Parecia que ele havia tomado um tiro, toda a blusa e o casaco estavam manchados de sangue.
Fui logo socorrer ele e comecei a cortar sua roupa com a tesoura de cozinha.
–Vim pegar minha carteirinha do trabalho – Respondi seca aprestando atenção no meu trabalho – Eu trabalho amanhã.
John ainda estava furioso, mas não me olhava nos olhos. Quando terminei de cortar suas roupas, limpei o possível do ferimento e vi o que era.
–Você tomou um tiro de raspão!? – Gritei em choque – John! O que aconteceu?! Por que atiraram em você?!
–Não vou falar com você sobre isso Olivia – Esbravejou John – Isso é assunto meu.
Peguei a caixa de primeiros socorros e comecei a limpar o ferimento, John resmungou de dor e se controlou para não chorar. Continuei a olhar para ele em busca de respostas, mas ele ainda não me olhava nos olhos.
Ele estava mentindo para mim sobre algo, eu queria chorar, gritar, bater nele. Minhas mãos tremiam, mas eu comecei a enfaixar o braço dele com cuidado, bem firme, era automático.
–Não precisa ter medo de mim... – Murmurou John.
–Não estou com medo! – Disse terminando de fechar o curativo – Estou com raiva de você! Por que não conta o que houve, John?
–Olivia... Não é fácil quanto parece...
–Não é fácil falar?! É sério?
–Você não vai entender! Viveu sua vida toda em um lugar perfeito, sem problemas! Você não sabe nada da minha vida! – Gritou John.
E eu bati em seu rosto.
–Não grite comigo, John Adam – Sussurrei furiosa – Não vou admitir que desconte sua raiva em mim! Você já é adulto para saber o quanto isso é ridículo! E sim! Vivi em um lugar sem problemas, tranquilo, mas isso não significa que sou idiota ou insensível! Eu trabalho em um hospital, já vi coisas que até você duvidaria – Murmurei seca.
John ficou calado e nós ficamos nos encarando.
–Você é um traficante por acaso? – Eu disse.
–Você acha que sou a porra de um traficante, Olivia? – Disse John se irritando.
–Então me diga! – Gritei – O que aconteceu?!
John desviou o rosto e encostou-se à bancada fazendo uma careta de dor.
–Você não vai me dizer, não é? – Eu disse perdendo a paciência – Quer saber?! Vai se foder! Eu não tenho que ficar implorando uma resposta sua! Se você quiser ajuda que procure outra pessoa! – Digo furiosa e pego minha bolsa saindo.
John segurou meu braço e não o largou quando eu o puxei.
–Você não precisa ir – Disse John com mais calma, seu rosto se contorceu de dor.
–Você não entende a gravidade John? – Murmuro – Como você quer que eu fique aqui e calma quando meu namorado levou um tiro? E não me conta o motivo! Como você espera que eu reaja? – Digo fervorosamente – Foi alguma briga? Foi por causa do seu pai? – Eu digo e a última frase seu rosto desmoronou, então foi isso...
John fechou mais ainda o rosto e se sentou, eu me apoiei na bancada e ficamos nos olhando.
–Ele atirou em você? – Perguntei triste.
Já vi muitas pessoas bêbadas para saber o quanto elas são volúveis e agressivas, principalmente inconsequentes.
–Não! Não foi isso! – Disse John rapidamente e passou a mão pelo cabelo, arfando de dor – Ele só se meteu em uma briga com quem não deveria Olivia... – E esfregou o rosto – Não quero falar sobre isso com você – Respondeu distante.
Soltei o ar que estava prendendo e fiquei observando ele, então peguei minha bolsa para ir embora.
–Não...! – Disse John surpreso – Você não precisa ir embora Liv, eu... – E se levantou segurando meu pulso impedimento que eu fosse – Não quero que você vá... Não quero ficar preocupado com você também, hoje foi um longo dia...
–Não precisa ficar preocupado comigo, vou voltar em segurança – Respondi.
–... E não quero que fiquemos mal... – Continua John – Desculpe por antes, não gosto de falar sobre passado, principalmente sobre meu pai, meus problemas com ele são bem mais profundos – Completou e viu que eu não falei nada – Por favor, fique... Só hoje.
Eu suspirei e olhei para sua mão que me segurava – Você precisa descansar, senão seu braço não vai cicatrizar.
–Vai ficar comigo? – Ele perguntou e eu senti um duplo sentido em suas palavras.
–Vou... – Respondi olhando para ele — Não sou do tipo que vai embora quando alguém precisa.
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