Apaixonada pelo Mal
16 Como Funciona
Notas iniciais
John e eu decidimos ir embora naquela mesma noite.
Arrumamo-nos rapidamente e logo saímos do quarto. Quando John estava falando com Anthony, Maia se aproximou de mim.
Nunca deixaria de admira-la, seu andar, sua elegância, sua voz altiva e ao mesmo tempo gentil. Sua expressão completava o pacote. Maia é o tipo de mulher que inspira outras mulheres.
–Olá – Disse Maia com sua voz majestosa e nós três aprestamos atenção nela – Será que posso conversar com você, Olivia? A sós – Acrescentou.
–Está tudo bem? – Perguntou John cauteloso, tomando meu partido.
–Está meu querido – Respondeu Maia com um sorriso – Vamos? – Disse e me deu o braço.
Eu o aceitei e seguimos pelo corredor. John não precisa ficar me zelando o tempo todo, quero mostrar que também sou capaz de resolver os problemas, seja ele qual for. Assim eu espero...
Não iria ignorar o fato que as mulheres da Máfia também são perigosas, quem já viu os documentários sobre elas sabe do que são capazes. Para Maia ter o respeito de tantos homens, e homens como eles, nem quero pensar o que ela pode ter feito.
Nós entramos em outro escritório. Este é mais feminino, mais claro. Havia centenas de retratos nas paredes e pinturas de membros da família.
–Este é o meu espaço privado – Diz suavemente fechando a porta – Não precisa ficar tensa, Olivia. Quero apenas conversar contigo, lhe dar alguns conselhos – Disse gentil, em um tom materno.
–Pode dizer... – Murmurei.
–Não demorei a entender o que John Adam viu em você – Disse levantando meu queixo com a ponta dos dedos – Você tem o rosto delicado, certa fragilidade... – E sorriu para mim se sentando na poltrona e fez um gesto para que eu fizesse o mesmo – Esse tipo de característica não é muito típico das mulheres da família – Diz e dá uma risada.
–Eu notei isso – Respondi me sentando – As mulheres desta família são bem... Intensas e atraentes – Disse.
–“Atraente que minha querida é uma forma educada de dizer que uma mulher fazer o que for”. E é por isso que nós somos tão conhecidas – Diz – Mas o que quero dizer, minha cara, é que independente das diferenças, você é bem-vinda nesta família – Disse carinhosa.
–Obrigada...
–Eu observei vocês dois... – Diz e depois fala um pouco mais baixo – Em uma relação sempre tem aquele que ama mais, e no seu caso ouso dizer que é o John, você ainda me parece... Receosa a tudo – Sussurrou – Você lembrou há mim anos atrás. Sei que você ainda está relutando a ficar com ele, apesar do que eles fazem... Eu também fiz essa mesma escolha á muitos anos atrás.
“Meu pai era um bom político e minha mãe uma católica fervorosa. Era uma boa família. Quando conheci Marcus, eu me apaixonei por ele e por causa disso questionei meus valores, mesmo assim continuei com ele, ultrapassando o que acreditava, tudo. Fiz e disse coisas que jamais pensei em fazer. Eu mudei. Conheci o valor e o significado da família para Marcus. Eu era imensamente feliz apesar de toda as constantes. Mas tudo mudou quando ele morreu. Eu perdi o homem que amava, Oliva. O pai dos meus filhos. Acho que essa é a consequência, a punição para o que eles fazem.”
“Depois do acidente eu passei a refletir sobre minha escolha, se a dor que eu ainda sinto valeu a pena... Quando eu era mais jovem poderia ter escolhido outro homem, não viveria essa história de amor, mas seria uma velhinha em paz. Mas sabe o que eu concluí? Que valeu... E eu faria tudo novamente, por que o que importa é o presente”.
–Você não pensou em voltar atrás na época? – Eu perguntei.
–Então eu seria a mulher mais odiada desta família. Nós só amamos uma vez, Olivia. Marcus nunca seria feliz, muito menos eu se desistisse de nós – Disse Maia.
Ela se levantou e me deu um abraço.
–Vá, minha cara. Fique com ele e aproveite o que muitos nunca terão a oportunidade de experimentar – Disse Maia no meu ouvido.
Eu concordei e saí da sala atrás de John Adam.
***
–Para onde vamos agora? – Perguntei quando entramos no carro.
–A polícia não está atrás de nós agora – Diz calmo – Podemos ir para onde você quiser.
–Agora – Eu sussurrei – Mas... Vocês vão continuar a cometer crimes e logo a polícia voltara a ficar no nosso encalce. Nunca haverá um fim...
John franziu a testa – É uma consequência, Olivia. Não há como acabar com isso – Disse e ligou o carro, saindo da mansão.
–E por que você não para com isso? Afasta-se deste tipo de vida?
–O quê? – Disse alto e depois de acalmou – Você quer que eu abandone minha família? Meus amigos?
–Não! – Eu o interrompi – Quero que você abandone está vida de crime!
–Olivia... Você não entende.
–Então me explique! – Eu disse começando a ficar brava.
–Quando entramos para o negócio, nós fazemos um juramento! Não dá para... Sair dele! – Diz desesperado e passa a mão pelo cabelo – Há consequências.
–Tem que ter um jeito de sair disso... – Murmurei.
–Todos fazem isso, toda a minha família, eu sempre fiz isso – Diz seco – Nunca soube fazer outra coisa – Murmurou John.
–Não me venha com essa, John! Ok... Vocês ganharam dinheiro com isso antes, então por que não abriram um negócio legal e pararam? Pelo que entendi e vi vocês ganharam dinheiro, abriram vários negócios legais e ainda continuam assaltando bancos e mais sei lá o que vocês fazem!
–Pode nos julgar a vontade! Mas já te passou pela cabeça que talvez eu goste de fazer isso? Que goste da adrenalina? De não ser normal como os outros?
–Eu não consigo aceitar isso!
–Nem eu consigo aceitar a sua opinião!
***
Nós fomos para a minha casa naquele dia.
Não havia nenhum policial na minha porta, John e eu verificamos isso.
–Acabou... – Disse John Adam – Eles não vão ficar no nosso encalce por hora, é sempre assim – Diz indiferente e deu os ombros.
Eles estão tão acostumados a sair impune dos crimes, se livrar das acusações, que nem se importam.
–A polícia não é o que mais nos preocupa. Há outras coisas mais perigosas, Olivia – Acrescenta John.
O descaso dele me desagradou um pouco, mas eu aceitei estar com ele, então tenho que aguentar o que isso acarreta. De um jeito ou de outro.
Às vezes eu olho para John e vejo que vale a pena ficar com ele. Eu gosto dele, eu gosto de estar com ele, o que me impede de entrar de cabeça em nossa relação é o que ele faz! Creio que nunca vou aceitar completamente...
John foi para a cozinha preparar nosso almoço e eu liguei para os meus amigos e pais.
A mídia tinha abafado o tiroteio no estacionamento e os policiais feridos. John havia me dito que tudo foi abafado com muito dinheiro, e informalmente um acordo com a própria polícia. A Máfia não prejudica a polícia, nem a polícia prejudica a Máfia. Uma espécie de acordo antigo que eles executam muitas vezes no escuro.
“Você não tem noção de quantas mortes e desvios milionários são encobertos e escondidos completamente da população”. Disse-me John.
Meu maior problema foi acalmar a Mari. Ela estava histérica! Ela sabia o que havia acontecido no estacionamento, sabia que eu tinha sumido depois daquele dia. Tentei mentir, dar desculpas, mas no fim disse somente para ela ficar calma e manter a boca fechada.
Como uma verdadeira criminosa, minha mente me recriminou.
–Você foi um pouco grossa com a sua amiga... – Comentou John quando retornei a cozinha.
–Não consegui inventar mais desculpas – Disse seca.
–Tente ser mais evasiva da próxima vez – Diz John.
Próxima vez...
***
Quando anoiteceu nós fomos nos deitar em silêncio, no caso eu, pois John estava o tempo todo falando, empolgado. Ele me contou mais sobre a família, pouquíssimo sobre os assaltos, ao que parece às mulheres não se envolviam com isso; E sobre os planos para nós... Viajarmos para a Sicília, terra natal da família dele.
–Por que está tão quieta hoje? – Perguntou John beijando meu rosto. Nós estávamos deitados abraçados.
–Só pensando nas coisas que você me disse – Respondo.
–Você pensa demais – Disse John.
–E devo – Digo e John fica em silêncio.
***
Às duas e meia da manhã ligaram para o celular de John.
Ele se levantou e foi para a sala atender. Eu me sentei na cama e fiquei tentando ouvir a conversa, mas ele falava em italiano, o que não me ajudou.
John voltou para o quarto minutos depois e se sentou na borda da cama, ao meu lado.
–Vou ter que sair agora, estão precisando de mim – Diz baixo.
–Está tudo bem? – Perguntei assustada.
John deu um leve sorriso e colocou a mão no meu rosto.
–Sempre tem algo para fazermos, mas sim, está tudo bem – Diz John com carinho – Assuntos rotineiros para resolver – Diz.
Eu concordei em silêncio e levantei da cama, vestindo meu robe.
–Você tem aquela arma ainda? – Pergunta John.
–Tenho.
–Bom... É só por precaução – Diz – Qualquer coisa você pode me ligar – Acrescenta me dando um leve beijo – Geralmente nossas mulheres ficam no nosso bairro e lá sempre tem seguranças, eu não gosto de deixar você aqui, não é um bairro do nosso domínio...
–Não se preocupe – Digo apertando a mão dele.
Nós andamos até a porta da frente e antes que John saísse ele pegou meu rosto com cuidado.
–Tome cuidado... – Sussurrei – Eu quero que você volte para mim...
Ele deu um sorriso radiante – Eu gosto que você cuide de mim – Murmura encostado em meus lábios – Você não tem noção como é bom você saber da verdade – Diz e solta meu rosto, saindo rapidamente.
Fiquei observando ele sair com o carro e quando não o vi mais, tranquei as portas e entrei.
Então é assim que funciona... Não quero nem imaginar que tipos de trabalhos rotineiros são esses. O melhor que eu faço é voltar a dormir.
***
Às cinco da manhã John voltou.
Ele me deu um beijo rápido e antes que eu dissesse algo ele falou:
–Está tudo bem – Garantiu com um sorriso.
Ele tomou outro banho e se deitou exausto ao meu lado, puxando-me para si.
–Será que está tudo bem com eles? – Eu perguntei.
–Eles quem? – Perguntou John surpreso.
–Com Derik e com aqueles dois agentes... – Eu disse e John ficou tenso.
–Estão... – Respondeu seco – Julio bateu na cabeça daquele agente negro na porta de um carro e ele logo desmaiou, o outro tomou dois tiros, mas não foi em lugares sérios – Diz e eu congelei. Havia me esquecido que eu também atirei naquele no agente – E o Derik... – Diz com nojo – Só tomou um tiro no ombro, nada grave. Nós não fomos para lá matar ninguém, Olivia. Se nós os quisermos mortos, eles já estariam – Diz friamente.
Depois dessa resposta eu voltei a dormir em silêncio.
***
Duas horas depois nós tivemos que acordar, infelizmente.
John foi para o seu trabalho convencional na oficina e eu para o hospital, tinha que compensar o turno que faltei.
O turno da manhã foi relativamente calmo, sem correrias e muitos gritos. Estar de volta ao hospital deveria me levar para a normalidade novamente, mas foi o contrário, estava estranhando voltar. Aconteceram tantas coisas nesses quatro dias... Tudo parece surreal ainda.
Quando meu turno acabou e fui para outro hospital. Havia uma pessoa que eu tinha que ver.
***
O hospital da polícia de NY não ficava muito distante do meu, pude ir andando.
Assim que eu entrei no hospital dei meu nome para poder ser colocada na lista de visitas, e para minha surpresa ele já estava ali.
–Você pode entrar agora – Disse a atendente com um sorriso – Quarto 312, terceiro andar – Disse.
–Obrigada... – Murmurei pegando meu crachá de visitante.
Não demorei a encontrar o quarto de Derik. Pela porta de vidro eu percebi que ele estava esperando por mim.
–Estava me perguntando quanto tempo você demoraria para aparecer... – Murmurou quando eu entrei.
Eu me sentei na ponta da cama, olhando diretamente em seus olhos.
–Como está? – Perguntei apontando para o seu ombro.
–Bem... A bala atravessou, não atingiu nenhum osso – Disse melancólico.
A bala deve ter destruído os tendões, com certeza ele teve que fazer uma pequena cirurgia para reconstruí-los. Os próximos meses para ele seriam complicados, ele iria sentir muita dor, teria que fazer muita fisioterapia.
–Sabe que pode contar comigo se precisar de alguma coisa... – Digo séria.
–Eu sei... – Respondeu suspirando.
Derik estava pálido e parecia cansado. O lado esquerdo dele estava todo enfaixado e ele ainda estava tomando medicação para aliviar a dor. O gotejar do soro era irritante.
–Você está diferente... – Diz Derik olhando-me nos olhos.
–Acho que envelheci nesses últimos dias... – Suspirei cansada.
–Deve ser... – Respondeu indiferente – Então você está realmente com ele?
–Estou.
Derik soltou o ar pelo nariz e deu um sorriso melancólico, quase sínico.
–Eu pensava que você não iria aguentar toda essa pressão, mas pelo visto está... – Diz e eu não respondi.
Derik fechou os olhos e ficou em silêncio por vários minutos. Quando ele voltou a abri-los parecia mais calmo, mais frio.
–Eu sinto muito... – Eu disse.
–Eu sei... – Respondeu indiferente – Soube que todo o caso foi arquivado novamente – Diz seco.
–Eu lhe disse que eles não vão para frente... Não valeu a pena se arriscar.
–Eu queria mudar isso... Mudar o sistema, fazer o certo... – Diz Derik.
–Há coisas grandes demais para nós mudarmos... – Disse serena – Não se envolva mais com isso Derik, os esqueça... Vai ser melhor assim.
E novamente ele ficou em silêncio.
Eu me levantei e fui para perto dele, lhe dando um leve beijo no rosto.
–Pode prometer para mim que não vai se envolver com eles novamente? – Eu perguntei.
Ele respirou profundamente e ergueu o rosto para me observar.
–Prometo... Não tem mais nada que eu possa fazer – Diz triste.
Aquilo partiu meu coração.
Ele é uma pessoa tão boa! Queria prende-los por que é o certo a se fazer! Ele é uma única alma boa entre tantas outras na política e na policial, só queria fazer o trabalho dele em meio a tantas coisas erradas. Ele é uma pessoa melhor que eu.
–Eu conheço uma enfermeira particular, Monica, é o nome dela. Eu vou falar com ela para cuidar de você nos próximos meses, te ajudar a se vestir, a tomar banho, fazer sua comida, você vai precisar de ajuda... – Eu digo.
–Não vejo necessidade disso, vou conseguir me virar.
Eu dei um sorriso sem vontade – Você não está nem mexendo o pescoço para não sentir dor, como vai se virar em casa assim? – Digo erguendo a sobrancelha e ele ficou quieto – Irei logo resolver isso, não se preocupe – Digo e saio do quarto, acenando um “tchau” para ele.
É o mínimo que posso fazer.
***
Depois de sair do hospital fui me encontrar com meus amigos em um bar como havia marcado mais cedo. Nós conversamos tranquilamente e bebemos alguns copos de cerveja belga. Foi bom para me distrair e também mostrar que eu estava bem e segura, principalmente para Mari e Jesse.
Quando fui embora do bar fui direto para a casa de John.
Ele abriu a porta para mim e me deu um abraço rápido.
–Onde você foi? – Perguntou confuso e nós entramos.
–Fui encontrar com meus amigos em um bar – Eu disse – E também fui ver o Derik no hospital – Disse e John arregalou os olhos, mas antes que ele dissesse algo eu levantei a mão, o impedindo – Fui ver como ele estava, John... Eu tinha que fazer isso, aliviou um pouco da minha culpa, ele estava ali por mim e acabou levando um tiro seu... Eu conversei com ele, disse para ele deixar de ficar indo atrás de vocês, pedi desculpas e foi somente isso...
John respirou fundo e continuou a me encarar.
–Se foi só isso... – Murmurou.
–Não precisa se preocupar – Eu disse suavemente com um sorriso.
John deu um sorriso deslumbrante em resposta e começou a beijar meu pescoço, principalmente.
Eu comecei a rir e suspirar. Sabia onde isso iria dar...
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