Apagando o Passado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
- Espere, explicarei tudo e depois você irá me dizer se aceita.
Estreitou os olhos ônix, duvidando da veracidade da proposta. Encarou por meio minuto os orbes claros procurando a mentira, seus sentidos estavam alertas em busca de alguma armadilha, mas nada encontrou. Relaxou sobre o encosto da poltrona, uma permissão muda para que o homem prosseguisse.
Engoliu em seco, estava claro que só teria essa única oportunidade.
- Ao longo dos anos adquiri muitos inimigos, nada que precisasse realmente me preocupar.
O jovem rolou os olhos, depois ele que era o arrogante.
- Mas um inimigo em particular mostrou-se poderoso demais, colocando obstáculos entre o clã Hyuuga e os seus negócios.
Sasuke olhou-o interrogativamente.
- Os cargueiros que compravam minhas mercadorias não as compram mais. Orochimaru-sama os ameaçou, ele é líder de uma pequena vila ao norte daqui, veja bem, ele tem argumentos muito convincentes para não ser obedecido por toda Konoha.
O Uchiha fechou os olhos, não acreditado na sua infeliz sorte. Conhecia Orochimaru, antigo sócio do seu pai e sabia o tipo de argumento utilizado pelo mesmo, sangrento e brutal. Aparentemente o famoso sannin estava longe de buscar sua aposentadoria, apesar da idade já avançada. Com um choque de realidade percebeu que não importava onde estivesse, o seu maldito passado sempre o perseguiria.
- Não tenho compradores para os meus produtos, meu povo ainda não morreu de fome porque produzimos parte dos alimentos necessários, mas a famosa seda do meu clã, fonte do nosso prestigio e renda está abarrotando nossos galpões, danificando-se com o tempo, não sendo comprada por ninguém.
- Deixe o orgulho de lado e negocie com esse tal de Orochimaru.
- Não tente me enganar, eu sei que o conhece. Esse verme fazia negócios com seu pai.
Quanta ironia, no primeiro dia de sua nova vida o passado vinha lhe mostrar sua cara feia.
- Se você me chamou aqui porque quer que eu faça negócios com ele, pode esquecer. O nosso ódio é mútuo, não quero e nem vou fazer negócios com ele.
- Eu sei disso, ainda possuo alguns contatos na Europa. Fui informado que saiu da organização. Esteve trabalhando solo Uchiha?
Hiashi pronunciou a última frase de forma irônica, arqueando a sobrancelha sugestivamente.
Nesse momento o vingador soube que o velhote sabia dos seus feitos, de sua “profissão”. E a dúvida sobre a proposta de casamento se dissipou, era apenas uma brincadeira maldosa de um velho sádico. Debruçou-se bruscamente sobre a mesa, a milímetros de sua possível vítima. A voz baixa e gelada saía como uma navalha.
- O que afinal você quer de mim?
- Eu já te disse, quero que se case com a minha filha.
Os olhos negros tornaram-se rubros e sua voz elevou-se perceptivelmente.
- Não brinque comigo, pode ser a última coisa que faça.
O medo pouco presente na vida do líder o inundou, mas seus olhos permaneceram duros e glaciais.
- Não estou brincando. Minha filha é a herdeira do clã, mas ela é fraca demais para governar. Orochimaru daria um jeito de tomar nossas terras. Mas você, Sasuke Uchiha, é temido, quase uma lenda e possui dinheiro suficiente para reerguer o clã Hyuuga.
Sentou-se novamente, atônito com a solução que o velhote buscava para manter suas terras e seu status.
- Barganha sua filha em troca de riquezas.
Os orbes cinzentos umedeceram-se e a postura de pedra desmoronou.
- Não, sacrifico minha filha em troca do meu povo.
O jovem de poucas palavras buscava alguma que o tirasse de lá, afinal, o problema não era dele, não estava tão interessado assim em ampliar a sua propriedade, a idéia tinha vindo do seu contador, a antiga casa da sua mãe era mais do que o suficiente para um homem só como ele.
Saiu da Itália em busca de paz, uma fuga do passado sangrento, não queria problemas e toda essa loucura cheirava a confusão. Quem ele queria enganar? O maior motivo de vir para o Japão era o de tentar não sentir-se tão só. Mas casar era algo que não entrava nem remotamente nos seus planos.
Analisou o jovem imerso em seus pensamentos, tentando ler algo através de sua face. O rosto estava inexpressivo, uma máscara sem sentimentos.
- Não nasci para me prender a uma mulher para o resto da vida.
- Imaginei que não, um homem como você sem escrúpulos não foi feito para possuir uma família de verdade. O casamento seria de fachada, temporário, até o clã se reerguer e a ameaça do Orochimaru não for mais presente.
Sabia que não merecia uma família, mas ouvir sua sina fervia-lhe o sangue. Agora queria ver o velho desistir dessa idéia idiota, mostrar com quem ele estava lidando.
- Além de comer sua filha o que eu ganho em troca?
Em pensamento viu o Uchiha queimando no fogo do inferno, só para poder apreciar aquele sorrisinho sacana sumir de seus lábios. Mas a realidade era outra, dura e cruel, e os prós e contras já haviam sido pesados em sua consciência.
- Receberá uma parcela das terras, exatamente aquela que faz divisa com a sua propriedade.
Fez uma pausa, tentando medir as palavras.
- Esperava estirpe da sua parte para não forçar minha filha a consumação do casamento.
Esse velhote não o conhecia mesmo.
- Se esperava isso procurou o homem errado, se aceitar esse acordo maluco sua filha faz parte do meu pagamento.
- Desonrado como seu pai.
Ignorou o insulto.
- Vamos encerrar por enquanto, estou faminto.
- Não vai me dar a resposta.
- Não seja tolo, para entrar nessa loucura, primeiro preciso conhecer meu prêmio.
O líder cerrou os punhos vendo o jovem levantar-se em direção a porta. Quando pensou que ele não poderia ser mais insolente viu a máscara sem emoção formar um pequeno sorriso zombeteiro.
- Não se preocupe com sua filha senhor Hyuuga, as mulheres geralmente gemem muito comigo e posso te garantir que não é de dor.
Não ficou tempo suficiente para apreciar a face do velhote, tempo nenhum seria suficiente, mas o ódio que viu estava felizmente gravado na memória.
Fazia meia hora que estava pronta em seu quarto, mas ordens expressas de seu pai a mantiveram a espera de um criado que a conduzisse para o jantar.
Depois de vestida e maquiada não encontrou a coragem necessária para se olhar no espelho, sabia como estava, só não tinha visto o quadro geral. Esforçara-se para ficar bonita sem pretensão nenhuma de sucesso, mas o bastante para que seu pai aprovasse.
Olhou pela janela e viu a bela carruagem do visitante parada nos arredores do jardim.
FlashBackOn
Enquanto prendia o seu obi ouvia sussurros vindos de duas empregadas comentando do convidado misterioso.
- Ele é tão bonito.
- Bonito sim, mas dá medo.
- Não seja boba, aquilo tudo é pose. Soube que ele é rico e estrangeiro.
- Jura? Não parece ser estrangeiro.
- Foi o que me disseram
FlashBackOff
Uma leve batida ressoou à porta.
- Hinata-sama, seu pai a espera para o jantar.
Despertou da memória curiosa, realmente intrigada com o forasteiro.
- Desculpe, já vou descer.
Nunca sentiu tão inadequado a um lugar como agora à mesa de jantar da família Hyuuga. Os olhos claros refletiam um brilho cinza analítico, suas roupas brancas e irritantemente alinhadas passavam a triste idéia de um hospital, frio e impessoal. Se as semelhanças não fossem tão acentuadas, poderia apostar que todos ali eram estranhos jantando juntos por um mero acaso.
O ninja sempre discreto parecia um ponto luminoso no meio da escuridão, seu quimono, seu cabelo e seus olhos tão negros brilhavam de forma contraditória no mar sem cor do clã Hyuuga. A sensação era deveras incomoda e o Uchiha desejou que a primogênita acabasse logo com o suspense e desse o ar da graça.
Apurou seus sentidos para ouvir sua chegada, passos pesados estalavam sobre o tatame, o criado que foi buscá-la. Prestou mais atenção e antes que subisse os olhos, o leve farfalhar da seda inundou seus ouvidos, como um gato ela também parecia não fazer barulho para se movimentar. A idéia, por mais simples que fosse, o agradou.
-Sasuke Uchiha, conheça minha filha e herdeira Hinata Hyuuga.
Viu a pele de porcelana refletir a luz das lamparinas, os cabelos presos em um coque frouxo eram escuros como os seus, mas possuíam um leve tom azulado que os tornou exóticos, a franja espessa cobria-lhe os olhos por estar com a face levemente inclinada para baixo, mas já sabia como eram. Percebeu que os lábios rubros e carnudos eram mordidos levemente, nervosa? O quimono para sua surpresa e deleite não era branco, era feito da mais pura seda vermelha, contrastando de forma quase erótica com a pele clara como a neve.
Uma mulher tão linda como tantas outras. Imediatamente imaginou-se possuindo-a tão brutalmente que a porcelana esfarelaria por entre seus dedos.
- Hinata-sama, é um enorme prazer lhe conhecer.
O rosto delicado ergueu-se em sua direção hesitante. Pérolas, ela não possuía olhos, no lugar deles ela tinha pérolas, grandes, brilhantes, com um levíssimo tom lilás, tão cristalinas e perfeitas que por um segundo pensou ter caído pela primeira vez em uma armadilha.
- É um pra-zer lhe conhe-cer tam-bém, Sasuke-sama.
Quando acreditou que nada mais poderia surpreendê-lo a jovem corou e sorriu, em um misto perturbador de timidez e travessura. Agora tinha certeza, havia sim caído em uma armadilha, provavelmente a pior de todas.
Notas finais
Espero continuar merecedora de suas reviews
Bjin
Ja ne
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