Apagando o Passado
3 Captulo 3
Notas iniciais
Hinata tentava concentrar-se em sua comida, mas era em vão. Os olhos do forasteiro a oprimiam. Não possuía a mínima idéia de porque a olhava tanto, estava certamente a imaginar coisas.
Levantou as pérolas para o homem a sua frente, o ônix ainda estava lá, indiferente ao seu constrangimento ele persistia em sua análise infinda.
Sobressaltou-se quando a estátua de cal, que tanto a observava falou de forma baixa e incisiva.
- Hiashi-sama, quero resolver hoje mesmo o nosso acordo.
O patriarca da família sorriu de lado, apreciando a pressa do Vingador em fechar o contrato. Concordando levemente com a cabeça direcionou sua atenção para filha. Bela como sua falecida esposa, roubou os olhos do Uchiha no segundo em que a viu, infelizmente não possuía as características essenciais de um autêntico Hyuuga, era uma mulher fraca.
Kami não o abençoara com um filho homem e por esse fato estava à mercê de um assassino.
Sem se preocupar com o jantar inacabado de sua família e de seu indesejado convidado, levantou e quebrou o silêncio maquinal do aposento.
- Uchiha, Neji acompanhem-me ao escritório.
Sasuke colocou-se de pé lentamente, ainda buscando na frágil mulher algo que o fizesse desistir do que estava prestes a aceitar.
Percebeu que sua beleza provocante disfarçava a sua pouca idade, provavelmente ela era ainda mais jovem do que aparentava ser. Nos seus vinte cinco anos nunca tinha visto nada igual, e apesar de também ser jovem, já vivera e passara por provações que nenhum outro homem, velho ou não, suportaria.
Sua alma, se é que tinha uma, possuía cem anos de idade. Se dissesse sim para o senhor Hyuuga ele se tornaria a prisão de uma menina, a idéia suja e egoísta o enojou na medida em que o excitava.
- A senhorita Hinata deveria vir também.
O senhor de olhos claros franziu o cenho em total desagrado com a proposta.
- Hinata fica!
A voz de comando saíra mais fria que o normal, mas não intimidou o Vingador.
- Eu insisto que ela vá, a nossa reunião estaria incompleta sem a sua presença.
Nesse momento a moça fitou o estrangeiro, os olhos pareciam tão escuros que ela acreditou por um segundo estar frente a frente com um ser das trevas, a luz das lamparinas refletiu no mar negro e não pôde definir um único sentimento provindo da estátua de cal.
Neji não estava nem um pouco confortável com aquele jantar e muito menos com aquela conversa. Desde quando sua prima participava das reuniões de negócio do clã Hyuuga? Seu tio lhe garantira que o italiano seria a salvação para o seu povo, mas o único interesse aparente no intruso era em Hinata.
Fechou os punhos ao ver a mão do líder se estender relutante na direção da prima.
Hinata permaneceu estática não acreditando na situação, os dedos do seu pai lhe chamaram de forma impaciente, uma ordem clara para que levantasse. Respirou profundamente e seguiu os três homens com a face abaixada, tentando tolamente ignorar os olhares descrentes dos conselheiros do clã.
Segurou a porta do escritório de forma pretensiosa, para mostrar ao senhor Hyuuga que seria ele a conduzir aquela negociação, esperou pacientemente o líder passar pela porta, seguido de perto pelo tal de Neji, a herdeira vinha mais atrás, silenciosa e cabisbaixa, sem olhar nenhum momento para onde ia, parecia que usava as sombras projetadas no tatame como guias, interessante.
Saiu do cômodo e fechou a porta concentrando chackra por toda sua pele, iluminando o aposento e dissipando as sombras. A luz azulada invadiu o corredor assuntando a jovem, que confusa começou a dar passos apressados para trás.
Não permitiria que ela fosse embora, não pretendia adiar aquela conversa, e sem ela não iria fechar o contrato. Em um movimento rápido estava atrás da sua futura prisioneira, frio e sólido sentiu extasiado a maciez morna esbarrar no seu peito.
Num segundo seguia a sombra de Neji e no outro todo o corredor estava iluminado de azul, quando levantou os olhos para ver o que era percebeu aterrorizada que a luz vinha do forasteiro. Nunca tinha visto nada igual, os poucos ninjas do seu clã não eram nem de longe tão poderosos. Vacilante tentou se afastar o máximo que seus pés permitiram, chocou-se de forma dolorosa com algo que ela acreditou ser uma parede, ao levantar a face para se certificar orbes rubros como o sangue a esquadrinhavam.
- Não fuja, seu pai a espera.
Abaixou a face para sussurrar algo sórdido, mas com a força de um golpe o perfume da primogênita o atingiu. Baunilha e jasmim, tão doce e intoxicante que ele precisou de um milésimo para concluir que o cheiro vinha dela e nada mais. Engoliu a saliva acumulada asperamente e desejou não ter feito aquela brincadeira idiota.
- Vamos Senhorita Hyuuga, a reunião não começará sem a nossa presença.
Arquejou algumas vezes enquanto via o vermelho voltar ao habitual mar negro, os olhos dele conseguiam ser ainda mais incomuns que os do seu povo. Fazia força para respirar e articular uma desculpa ou pelo menos uma resposta, mas quanto mais respirava, mais sentia o cheiro dele, uma mistura inquietante de menta e sangue.
- Eu-eu, sin-to muito.
A viu gaguejar de pavor, na certa já notara o monstro que era. Melhor assim, provavelmente imploraria ao pai misericórdia e enterraria de uma vez por todas a idéia estúpida do velhote. Espalmou com a mão direita as costas esguias, guiando-a em direção ao escritório.
O simples ato de colocar um pé na frente do outro era complicado, seus joelhos travaram de forma cruel. Como era fraca, seu pai tinha razão ela era a vergonha do clã, com certeza essa reunião tinha por objetivo humilhá-la, as famílias passavam fome e ela não conseguia atravessar um corredor de forma digna.
Fechou os olhos reunindo uma paciência inexistente, pressionou a palma sobre o cetim vermelho incitando-a a continuar, ela não caminhou, mas inclinou o corpo para frente fugindo do seu toque, provavelmente enojada com o sangue de suas mãos.
- Uchiha-sama, me dê um minuto, onegai.
A voz suave era tão baixa, que se não fosse o treinamento ninja e seus ouvidos apurados, nunca ouviria o seu pedido.
- Sasuke.
Ela o olhou sobre ombro, corada e confusa.
Soltou o ar de forma impaciente, não tinha vocação para ser educado e muito menos de explicar o óbvio.
- Me chame de Sasuke.
Não sabia o que dizer, abaixou o olhar e forçou suas pernas a lhe obedecerem. A intimidade proposta pelo visitante não era adequada. Percebeu ironicamente que preferia enfrentar seu pai a permanecer sozinha com o estrangeiro.
Ao ouvir o clique da porta se fechando atrás de si sentiu-se uma condenada. Alguma coisa estava errada, acostumara-se com o olhar de desprezo do seu pai ou a sua cólera, mas a compaixão pegou-a desprevenida. Teve certeza, nada de bom sairia daquele lugar.
- Hiashi-sama, não deveríamos envolver Hinata-sama nesta reunião.
- Não cabe a você decidir, seu único dever para com o clã é protegê-lo, opinar não faz parte das obrigações da família secundária.
Fez uma pequena reverência demonstrando o seu arrependimento e respeito, mas permaneceu de pé em sinal de desagrado.
- Venha filha, sente-se.
Mordeu os lábios nervosamente e sentou-se fitando os pés. Diferente de Neji o Uchiha transpirava calma, quase descontração ao sentar no braço da poltrona em que Hinata se mantinha encolhida.
- Pelo que vejo ninguém sabe, não é senhor Hyuuga?
O tom zombeteiro estava lá novamente, irritando o líder.
- Não.
- Quer contar ou eu conto?
- Contar o que? Tio o que está acontecendo?
- Neji, aqui eu não sou seu tio, sou o líder do clã Hyuuga.
O gênio ia novamente se desculpar, mas o homem mais velho apenas balançou a mão mostrando não necessitar de outra reverência.
- Vocês dois estão cientes das dificuldades do clã, até você Hinata que não participa do conselho sabe pelo que o nosso povo está passando.
Assentiu tristemente, admitindo não só saber de tudo, como ter ciência de que não podia fazer nada.
Hiashi prosseguiu aproveitando o sentimento de culpa enraizado na filha.
- Não precisamos nos preocupar mais, tive uma idéia que irá ajudar a reerguer o clã e você Hinata é a peça principal para que tudo volte a ser como antes.
A moça o fitou, chocada e incrédula.
- Oto-san eu...
- Não quer ajudar o clã?
Sasuke teve que admitir, o velhote era esperto, chegava a ser maquiavélica a forma como brincava com a ingenuidade e o sentimento de culpa da filha tola.
Neji trocou o peso de uma perna à outra, visivelmente incomodado com o rumo da conversa.
- É claro que quero Oto-san.
- Bem, então está resolvido, você e o Uchiha se casarão o mais rápido possível.
Seu alto controle não o preparou para isso, aliás, nada o preparara para aquela situação, as palavras explodiram antes que pudesse contê-las.
- O senhor não pode fazer isso.............isso tem que ser uma brincadeira, irá casar a herdeira do clã com um assassino? Sem família, sem origem. Como pôde fazer isso com sua própria filha, ela só tem dezesseis anos. Ela não o ama e ele não é capaz de amar ninguém, é um verme de um clã extinto. A Hinata não merece uma escória estrangeira como....
A frase pairou no ar, pois em um movimento rápido Sasuke desembainhou sua katana e pressionou fortemente contra o pescoço de Neji, o sangue escorria lentamente do corte, mas a espada continuava pressionada pedindo a morte daquele infeliz.
Não vira a briga, não vira nada, no segundo que seu pai decretara sua sentença olhou repentinamente para o forasteiro, o mar negro estava lá, profundo e impenetrável, tentou balbuciar alguma coisa, mas os olhos tornaram-se sanguinários e ela se perdeu na escuridão.
A névoa gélida mirava o rubi sangrento o desafiando a continuar. Não houve medo, nem sequer um simples temor. Nascera e fora criado para proteger o clã e intimamente treinou apenas para protegê-la, morrer pela herdeira estava no seu destino.
Pressionou mais a lâmina na pele do oponente, por muito menos outros morreram por sua espada, agora não seria diferente. Hesitava apenas porque a expectativa do grand finale era muito mais excitante quando via o terror estampado na face do inimigo. O Vendicatore queria vê-lo implorar.
- É por isso que seu tio precisa de mim, porque eu destruo tudo que se põe no meu caminho.
- PAREM, PAREM JÁ!
A postura de pedra do grande líder ruíra e ele temeu pela vida de seu sobrinho. Não podia voltar atrás, mas também não podia permitir que uma tragédia acontecesse em sua casa.
- Uchiha, não mate meu sobrinho, você não ganhará nada com isso. Sei que é inteligente o suficiente para ver as vantagens do acordo que estamos prestes a fazer. Mas tudo mudará se concluir esse capricho tolo.
Sasuke estreitou os olhos, fulminando aquele traste petulante. Sem desviar a atenção do inimigo sentenciou de forma fria e pragmática.
- Havendo ou não casamento ela dormirá comigo amanhã.
Sem se preocupar com a lâmina o gênio forçou seu corpo para frente numa tentativa vã de atacar o maldito insolente.
Apertou o punho da katana sentindo o fio afundar mais alguns milímetros.
- Você é forte, mas não tanto quanto eu.
Inclinou seu rosto na direção do Hyuuga e sussurrou em seu ouvido.
- Eu vejo que a quer, mas não a terá. Ela será minha até que eu decida o contrário ou morrerá tentando fugir de mim.
Nesse momento o terror nublou os olhos cinzentos.
- Vou lhe atingir no que lhe é mais caro, não duvide de mim Neji Hyuuga.
Soltou o rapaz bruscamente e caminhou na direção do patriarca.
- Para não manchar o nome da família aconselho organizar o casamento para amanhã. Seria uma vergonha uma moça de estirpe ser deflorada por uma............ qual é mesmo a expressão? Escória estrangeira sem nem ao menos ser casada.
Sasuke deu uma última olhada na boneca de porcelana desmaiada no sofá e desapareceu em meio à fumaça.
Hiashi queria matar aquele moleque insolente e desonrado, jurou para si mesmo que antes do fim dançaria sobre o túmulo daquele desgraçado.
Fale com o autor