Na quarta-feira eu estava segurando a vela de cabeça para baixo para que ela pingasse, foi quando ouvi Gordo chegar.

– Não se queime – ele disse.

– Veloz, a noite cai. E o hoje já se esvai – eu disse sem olhar para cima.

– Calma, já li isso em algum lugar. É o que?

Peguei um livro e joguei para ele.

– Um poema, — eu disse. — Edna St. Vincent Millay. Já leu? Não acredito.

– É, eu li a biografia dela! Mas não achei as últimas palavras. Fiquei um pouco chateado. Só lembro que ela transava bastante.

– Eu sei. Ela é minha heroína. Não acha estranho você gostar de biografia de grandes autores do que de suas obras?

–Não! Só porque eram pessoas interessantes não significa que vou querer ouvir suas digressões sobre a noite.

– É sobre a depressão, idiota!

– Juuuura? Uau, então é brilhante.

– Tudo bem. A neve pode estar caindo sobre o inverno da minha desesperança, mas pelo menos não me faltará sarcasmo. Sente-se logo.

Ele se sentou ao meu lado, com as pernas dobradas, nossos joelhos se tocando. Procurei por um caixote meu debaixo da cama cheio de velas. Olhei para elas por um tempo, depois dei uma branca para Gordo e também um isqueiro.

Passamos a manhãs inteira queimando velas e as vezes usando o fogo para acender um cigarro depois de termos enfiado uma toalha embaixo da porta. No decorrer de duas horas, conseguimos acrescentar mais 30 cm ao topo do seu vulcão multicolorido.

– Monte St. Helens em ácido – eu disse.

Ás 12h30, depois de Gordo tem implorado durante duas horas para que eu fosse até o McDonald’s, então decidi que já estava na hora de almoçarmos. Enquanto caminhávamos para o estacionamento dos alunos, vi um carro, provavelmente era o carro do Coronel, então ele abriu a porta do carro e já veio gritando:

–Fui instruído a convidá-los para a ceia de ação de Graças na Mansão Martin.

Sussurrei no ouvido de Gordo, então ele riu e disse:

– Fui instruído a aceitar o convite.

Fomos até a casa do Águia, avisamos que iríamos comer peru à moda do trailer e nos mandamos no carrinho compacto.

O Coronel nos explicou o que estava acontecendo durante a viagem de duas horas para o sul do estado. Eu havia pedido para ir sentada na frente, e logicamente eu fui. A mãe do Coronel ficou sabendo que estávamos no campus e não quis nos deixar sem família no Dia de Ação de Graças. O Coronel parecia não gostar muito da ideia: — Vou ser obrigado a dormir numa tenda, e rimos.

Acontece que ele realmente foi obrigado a dormir numa tenda, uma tenda verde e oval com capacidade para quatro pessoas, mas uma tenda. A mãe do Coronel morava num trailer daqueles que vemos acoplado a uma caminhonete grande, só que esse trailer em especial era velho e estava caindo aos pedaços sobre blocos de cimentos e provavelmente se desintegraria se fosse enganchado numa caminhonete. Nem mesmo era grande.

É humilde — disse a mãe do Coronel (“Senhora Martin, não. Dolores!) — Mas vamos comer um peru do tamanho dessa cozinha. — Ela riu. O Coronel nos conduziu para fora do trailer logo depois do tour, e fomos dar uma volta pela vizinhança, uma serie de trailers e casas ambulantes em ruazinhas de terra.

–Bem, agora vocês entendem por que eu odeio gente rica – disse o Coronel. Sinto muito se isso deixa vocês constrangidos. Sei que deve de ser estranho.

–Não para mim – eu disse.

–Bem, você não mora num trailer. Coronel retrucou.

–Pobre é pobre.

–Acho que você tem razão, — admitiu o Coronel.

Resolvi ajudar Dolores com a ceia. Disse que Gordo era sexista deixar todo o trabalho a cargo das mulheres, mas preferia comer uma boa comida sexista a ver os garotos prepararem uma gororoba qualquer.

A comida estava saborosa, em um momento de silencio resolvi fazer uma pergunta para Dolores:

–Dolores, qual é sua profissão?

–Sou engenheira culinária. Ou seja, sou cozinheira na casa do Waffle. – Ela disse sorrindo.

–A melhor Casa do Waffle no Alabama. — O Coronel sorriu.

Dolores insistiu para que eu e Gordo dormíssemos juntos, até foi dormir em um sofá dobrável na sala, por fim estava até feliz de dormir ao lado do Gordo, não estávamos dividindo as cobertas. Fiquei acordada durante um longo período de tempo pensando no que Gordo estaria pensando. E eu realmente torcia para que ele estivesse pensando em mim, ou ao menos em nós, talvez existisse um nós em sua vida como existia na minha, não sabia mais no que pensar, eu estava confusa, queria poder me virar para Gordo e lhe perguntar algo do tipo “Gordo existe um nós em sua vida?”, mais eu não poderia, éramos amigos, além de que eu estava com Jack. Essas coisas ficavam embaraçadas em minha cabeça, a única coisa que eu sabia era que eu amava Gordo e queria ter a chance de viver ao seu lado, ele me fazia feliz e eu nunca fiquei feliz assim desde quando fui até um passeio até o zoológico com minha mãe. Enquanto essas perguntas atormentavam em minha cabeça decidi apenas fechar os olhos e esperar para que o sonho viesse.