Aos olhos de Alasca
18 Melhor Dia / Pior Dia
Acordei de manhã e me encaminhei até onde estava o fogão portátil que Takumi havia trazido. Todos já estavam sentados então fiz o mesmo. Tomamos café e ficamos basicamente a tarde inteira escondidos.
Quase escurecendo Takumi decidiu fazer uma competição de improviso:
–Você começa, Gordo, — ele disse. — Coronel-Catástrofe, você faz a batida.
–Eu não entendo de rap, — argumentou.
–Não tem problema. O Coronel também não entende de ritmo. Você só precisa fazer uma rimazinha qualquer, depois deixa comigo.
Com as mãos em concha sobre a boca, o Coronel começou a fazer ruídos estranhos que mais pareciam uma série de puns do que uma levada de bateria. E Gordo começou a fazer rap.
– Hmm, estamos no celeiro, o sol já vai se pôr. / Outro dia, na tevê, passou um filme de terror. / Cara, não consigo, tenho que parar. / Deixo meu amigo, o Takumi, continuar.
Takumi emendou. — Gordo, cara, mas que droga, a sua rima fede / mais que aquele filme com nosso amigo Freddy, / A hora do pesadelo, em que todo mundo morre. / Ontem foi legal, bebi, fiquei de porre. / Adoro minha touca, / a mulherada fica louca. / Eu venho do Japão, ele fica logo ali. / Quando eu era pequeno, me chamavam de sushi. / Mas acho que é normal, diferentes etnias, / Minha pele amarela é um ímã de vadias.
Também entrei no jogo.
–Assim você me ofende, esqueceu que eu sou menina? / Vou picar o seu traseiro, vou jogá-lo na latrina. / Eu gosto, é verdade, de um som mais feminista, / Agora vou mostrar que também sou uma rapista. / Eu tenho boas rimas, agito a plateia. / Gosto daquele filme de fantasma com o Geleia. / Se você falar mal do sexo feminino, / vai cair feito o Império Bizantino.
Takumi voltou.
–Se teu olho te escandaliza, eu posso arrancar fora. / Eu respeito as meninas, como o cavalo a espora. / Ai, mas que droga, agora empaquei. / Lara, continua de onde eu parei.
Lara cantou em voz baixa e nervosa.
–Meu nome é Lara, eu sou da Romênia, / Da, é difícil, eu conheço a Eslovênia. / O carro da Alasca téém muita elegância. / Eu faço chamadas de longa distância. / Minhas vogais são engraçadas, não? / Agora chega, Takumi, não sei rimar. / Segue você, que eu vou parar.
–Eu sou um arraso, Hiroshima e Nagasaki, / Um sucesso com as meninas, melhor que sukiyaki. / Represento meu país, bebo meu saquê. / Tem gente que não gosta, não consigo entender. / Não sou muito alto, não sou corpulento. / Diferente do Gordo, não sou macilento. / Meu nome é raposa, ouviu, seu mané? / Cuidado, eu sou brabo, pior que chulé. Chega.
O Coronel encerrou com uma improvisação de beat-boxing, e nós nos aplaudimos.
–Você foi ótima Alasca, — Takumi disse, rindo.
– Faço o que posso para representar as meninas. Lara me ajudou.
–Da, verdade.
Decidi que era hora de enchermos a cara, embora não estivesse nem perto do anoitecer.
–Duas noites seguidas é abusar da sorte, — Takumi disse quando eu abri a garrafa de vinho.
–Sorte é coisa de otário. — Eu sorri e levei a garrafa aos lábios. O Coronel tinha trazido cream-crackers e um saco de queijo cheddar para o jantar. Bebemos o vinho tinto morno e comemos queijo e biscoito, e, quando o queijo acabou bem, sobrou mais espaço para o Strawberry Hill.
–Precisamos ir com mais calma, senão vou vomitar, — Gordo disse quando terminamos a primeira garrafa.
–Desculpa, Gordo. Não percebi que estávamos abrindo sua boca à força e despejando vinho goela abaixo, — o Coronel retrucou, jogando-me uma latinha de Mountain Dew.
–É bondade sua chamar essa porcaria de vinho, — Takumi disse, brincando.
Em pleno silêncio eu tive uma ideia e soltei apenas as palavras: -Melhor Dia / Pior Dia!
–Quê? – Perguntou Gordo.
–Se continuarmos bebendo assim, vamos todos vomitar. Então, para diminuir o ritmo, vamos fazer um jogo. Melhor Dia/ Pior Dia.
–Não conheço, — o Coronel disse.
–Porque acabei de inventar. — Sorri e me deitei de lado.
–Legal! Como se joga? — Lara perguntou.
–Cada um conta como foi seu melhor dia. Quem contar a melhor história não precisa beber. Depois todos contam sobre o pior dia. Quem contar a melhor história não precisa beber. E assim por diante, segundo melhor dia, segundo pior dia, até vocês desistirem.
–Como sabe que vai ser um de nós? — Takumi perguntou.
–É que eu tenho mais resistência à bebida e conto as melhores histórias, você começa, Gordo. O melhor dia da sua vida.
–Hmm... posso pensar rapidinho?
–Não deve ter sido tão bom se você precisa parar para pensar, — o Coronel disse.
–Vai à merda.
–Sensível.
–O melhor dia da minha vida foi hoje, — ele disse. — E a história é que eu acordei ao lado de uma menina húngara muito bonita. Estava frio, mas não muito frio. Tomei uma xícara morna de café instantâneo e comi sucrilhos sem leite, depois andei pela mata com a Alasca e o Takumi. Jogamos pedrinhas no lago, o que pode parecer tolice, mas não é. Sei lá. Sabe quando o sol fica desse jeito, com as sombras alongadas e esse tipo de luz clara e suave que antecede o pôr do sol? É a luz que deixa tudo melhor e mais bonito. E hoje tudo pareceu estar iluminado por essa luz. Bem, eu não fiz nada. Mas só de ficar aqui sentado, mesmo que seja para ver o Coronel talhando um galho ou sei lá o quê. Que seja. Foi um dia maravilhoso. Hoje. O melhor dia da minha vida.
–Você me acha bonita? — Lara disse, e riu, envergonhada. – Eu sou romééna!
–Essa história acabou sendo bem melhor do que eu esperava, — eu disse, — mas a minha ainda é melhor.
–Quero só ver – disse Gordo.
–O melhor dia da minha vida foi em 9 de janeiro de 1997. Eu tinha 8 anos. Minha mãe me levou para o zoológico num passeio escolar. Eu gostei dos ursos. Ela gostou dos macacos. O melhor dia de todos. Fim de história.
–Só isso?! — o Coronel disse. — Esse foi o melhor dia da sua vida??!
–Foi.
–Eu gostei, — Lara disse. — Tambéém gosto dos macacos.
–Fraco, — o Coronel disse.
–Da, minha vez, — disse Lara. — É fácil. É o dia em que vim para cá. Eu sabia falar o idioma, mas meus pais não sabiam. Chegamos ao aeroporto e encontramos nossos parentes, tias e tios que eu néém mesmo conhecia, no aeroporto. Meus pais ficaram tão felizes! Eu tinha 12 anos, séémpre fora o bebezinho. Mas, naquele dia, meus pais me trataram como gente grande pela primeira vez. Porque não sabiam falar o idioma, da? Precisavam de mim para pedir comida e traduzir os formulários de imposto e imigração etc. e foi nesse dia que eles pararam de me tratar como criancinha. Aléém do mais, na Roméénia, nós éramos pobres. E, aqui, somos meio ricos. — Ela riu.
–Certo. — Takumi sorriu enquanto pegava a garrafa de vinho. — Vocês ganharam. Porque o melhor dia da minha vida foi quando perdi a virgindade. E, se vocês acham que vou contar essa história, precisam me deixar bem mais bêbado do que já estou.
–Nada mal, — o Coronel disse. — Nada mal. Querem saber qual foi o melhor dia da minha vida?
–Essa é a brincadeira, Chip.
–O melhor dia da minha vida ainda não aconteceu. Mas eu sei como vai ser. Eu o vejo todo dia. O melhor dia da minha vida vai ser o dia em que eu comprar uma casa enorme para minha mãe. E não vai ser apenas numa área arborizada, mas em Mountain Brook, onde moram os pais dos Guerreiros de Dia de Semana. Os pais deles todos. E não vou comprar com hipoteca, não. Vou comprar com dinheiro vivo. Vou levar minha mãe de carro até lá, vou abrir a porta do carona, e ela vai saltar e ver a casa – a casa tem uma cerca de madeira, sabe, dois andares e tudo mais. Vou entregar as chaves para ela e vou dizer: 'Obrigado'. Cara, ela me ajudou a preencher a ficha de inscrição para esta escola. E me deixou vir para cá, o que não é tão simples para quem vem de onde eu venho, deixar o filho sair de casa para estudar. Então esse vai ser o melhor dia da minha vida.
–Takumi entornou a garrafa e tomou alguns goles, depois passou para Gordo. Gordo bebeu, Lara bebeu, e, por fim, inclinei a cabeça para trás e virei a garrafa de ponta-cabeça, engolindo rapidamente o último quarto de vinho.
Enquanto abria outra garrafa, eu sorri para o Coronel. — Você ganhou esse round. Agora, nos fale sobre seu pior dia.
–Meu pior dia foi quando meu pai nos abandonou. Ele é velho – deve ter uns 70 anos agora –, já era velho quando se casou com minha mãe e, mesmo assim, ele a traía. Ela descobriu, ficou furiosa e acabou apanhando. Então o expulsou de casa, e ele foi embora. Eu estava aqui. Minha mãe ligou, mas na hora não me contou sobre a traição, a agressão e tudo o mais. Disse apenas que ele tinha ido embora e que não iria mais voltar. E nunca mais o vi. Naquele dia, fiquei esperando que ele me ligasse e que me desse uma explicação, mas ele não fez isso. Nunca mais me ligou. Pensei que pelo menos fosse se despedir ou algo assim. Foi meu pior dia.
–Droga, perdi de novo, — Gordo disse. — Meu pior dia foi na sétima série, quando Tommy Hewitt mijou no meu uniforme de Educação Física e o professor disse que eu precisaria vestir o uniforme, senão seria reprovado. Educação Física da sétima série, certo? Não é a matéria mais importante do mundo. Mas, na época, eu achava muito importante. Comecei a chorar, tentei explicar para o professor o que tinha acontecido, mas era tão vergonhoso, e ele só gritava, gritava, gritava, até que eu decidi vestir o short e a camiseta mijados. Foi então que parei de me importar com o que as pessoas faziam. Simplesmente parei de me importar com o fato de eu ser um perdedor, de não ter amigos e tudo mais. Então acho que foi bom para mim, de certa forma, mas, na hora, achei terrível. Imaginem a cena: eu jogando vôlei ou sei lá o quê com a roupa ensopada de mijo enquanto Tommy Hewitt contava para todo mundo o que tinha feito. Foi meu pior dia.
Lara estava rindo. — Desculpa, Miles.
–Não tem problema, — ele disse. — Só nos conte seu pior dia para que também possamos rir da sua desgraça.
–Acho que meu melhor dia tambéém foi meu pior. Porque eu não fiz nada. Da, parece tolice, mas eu era criança, e a maioria das crianças de 12 anos não consegue, sabe, prééncher um formulário W-2.
–O que é isso? — perguntou.
–Viu só! É para imposto. Então. Foi o mesmo dia.
–Sua vez, Takumi. – Eu disse cortando o assunto.
–Meu pior dia, — Takumi disse. — foi 9 de junho de 2000. Minha avó morreu no Japão. Morreu num acidente de carro. Eu ia visitá-la dali a dois dias. Ia passar as férias de verão com ela e com meu avô, mas, em vez disso, viajei para o seu funeral. A única vez que eu a vi de verdade, sem ser nas fotos, foi num funeral. Fizeram uma cerimônia budista, e ela foi cremada, mas, antes disso, foi colocada numa espécie de, bem – não é budista. A religião lá é mais complicada, então é meio budista e meio xintoísta, mas isso não interessa para vocês –, o fato é que ela estava numa espécie de pira funerária. E foi a única vez que vi minha avó, pouco antes de ela ser cremada. Esse foi meu pior dia.
–Ainda não está bem claro quem é o vencedor, — o Coronel disse. — O campo está aberto. Sua vez, amiga.
Deitei-me de barriga para cima e comecei a falar:
–O dia seguinte ao do passeio no zoológico em que ela gostou dos macacos e eu dos ursos foi numa sexta-feira. Cheguei em casa depois da aula. Ela me deu um abraço e me mandou fazer a lição no quarto para poder assistir televisão mais tarde. Entrei no quarto, e acho que ela se sentou na mesa da cozinha, então ouvi um grito. Saí correndo, e ela estava caída no chão, com as mãos na cabeça, o corpo se contorcendo. Entrei em pânico. Devia ter ligado para a emergência, mas comecei a gritar e a chorar até que, por fim, ela parou de se contorcer. Pensei que ela tivesse adormecido e que sua dor tivesse cessado. Então simplesmente me sentei no chão ao seu lado e esperei até meu pai chegar em casa uma hora depois. Ele começou a gritar: 'Por que não ligou para a emergência?', tentando fazer massagem cardíaca, mas, àquela altura, ela já estava morta. Aneurisma. Pior dia da minha vida. Ganhei. Podem beber. – Até hoje a imagem da minha mãe morrendo me torturava, enquanto eu falava não tinha como conter minhas lágrimas saíam sem parar. A culpa sempre foi minha, eu poderia ter salvo minha própria mãe, mais não eu fiquei ali parada sem saber oque fazer a culpa era toda minha.
Eles começaram a beber. E por um segundo o silêncio falou mais alto. Até que Takumi quebrou o silêncio dizendo:
–Seu pai culpou você?
–Bem, a princípio não. Mas depois culpou sim. Por que não culparia?
–Você era só uma garotinha.
–É, eu era uma garotinha. Mas garotinhas sabem ligar para a emergência. Elas fazem isso o tempo todo. Passa o vinho para cá.
–Sinto muito, — Takumi disse.
–Por que você nunca me contou isso? — o Coronel perguntou, com voz suave.
–A conversa nunca tomou esse rumo.
No longo silêncio que se seguiu, enquanto passávamos a garrafa de mão em mão e lentamente ficávamos mais bêbados.
Não aguentei e me debulhei em lágrimas. Aquela cena voltara a me assombrar. Eu via minha mãe se contorcendo no chão. E sem saber oque fazer eu apenas sentei ao seu lado e fiquei segurando sua mão. Até a criança mais idiota do mundo poderia ter ligado para a ambulância naquele momento. Mais eu não, não soube fazer nada a não ser chorar. E agora nesse exato momento lá estava eu novamente encolhida e chorando que nem uma garotinha de 8 anos. Mais dessa vez alguém me ouvia e eu me sentia simplesmente amada.
Então fomos dormir.
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