Aos Olhos De Cherry
4 Aquela popular sem aspas
Notas iniciais
– Fico me perguntando quem colocou esse desejo perverso dentro de mim, se realmente nasci assim ou se eu faço isso inconscientemente apenas para afrontar algum demônio de meu passado. Se eu quero mesmo ser assim, ou se ser diferente é o que quero e ser gay é só uma das maneiras de alcançar isso. Não por dúvidas, por que eu sei muito bem o que sinto quando olho para uma garota, assim como eu sei o que não sinto quando olho para um garoto, e disso eu sei desde a primeira vez que coloquei meus olhos nela, mas é medo, medo de tudo isso que eu julgo baboseira ser verdade. De amar assim ser algo errado, de queimar no fogo do inferno e coisas assim. De estar decepcionando Deus. Por que eu acredito Nele de alguma forma. Meu medo é ter escolha e não querer nem sequer pensar em levar em consideração, pois meu desejo fala mais alto, minha vontade, minha sede por um corpo feminino sobre minha cama. Esse o momento é aquele que eu me olho no espelho e sinto que se, eu me concentrar, firmar meu olhar contra meu reflexo eu posso ver minha alma entrando e saindo do meu corpo, é como um fantasma tentando se libertar das minhas prisões psicológicas. Ele sedento sai de mim, mas é puxado de volta. E não pense que minha alma é esbelta, que é algo lindo de se ver. Ela é feia e me dá agonia. Ela não tem boca, porque não a escuto. Ela não tem ouvidos por que não me escuta. Mas ela tem olhos e está julgando tudo que faço, está me olhando e posso ver, se eu me esforçar um pouco mais, sangra vergonha dos olhos dela, dos meus. Dos nossos. — Eu suspirei e segurei o choro, diante de toda a classe que piscavam confusos enquanto me julgavam secretamente em suas mentes sujas.
O caderno em minhas mãos foi apertado contra meu peito e então fitei o chão tentando me lembrar de quando tive essa ideia maluca, meu professor de literatura não precisava necessariamente saber disso. O silencio foi quebrado com o elogio vindo do fundo da sala, assim que meus olhos se levantaram puder ver Jorge rindo pra mim, o que me aliviou e me fez sorrir. Sem dar tempo para ser seguradas por mais longos segundos agoniantes em frente a todos eu fui a passos curtos e apressados de volta para minha mesa.
– O tema era "Eu e minha Alma". Acho que soube aproveita-lo muito bem. — conclui meu professor sem nem sequer me olhar, acho que estava preocupado demais pensando onde enfiar minha nota, já que era obrigado a isto.
Assenti sem dar muita importância e me virei, me escorei sobre a mesa de trás e fitei Jorge com um olhar de cachorro abandonado, só o que eu precisava era um afago e um consolo, nada demais, talvez um "não-foi-tão-ruim-assim" ou "já-teve-piores".
– Já percebeu que somos meio que a piada do colégio? — indagou Jorge se escorando no canto.
– What?
Silêncio.
– Como assim, Jorge, me explica! — me recompus na cadeira e fiquei a esperar a resposta, que sinceramente não parecia haver, não sensata. Jorge e eu sempre fomos até que "populares", aquele populares com aspas, porque nunca foi 100%.
– Ai, desculpa, é que esses machucados na sua cara parecem que você aproveitou o fim de semana pra entrar numa briga. Pelo menos é isso que os alunos vão achar, pois só os professores e algumas pessoas sabem de seu acidente... — houve uma pausa, ele fez aquele... Aquilo... Aquela coisa que ele faz que me faz ter raiva dele no mesmo instante. Mordeu o canto do lábio e juntou as sobrancelhas, ficava como se estivesse com receio de terminar de falar, uma criança com medo de contar à mãe que quebrou o vaso de flores com um chute. — E quanto a piada, além de acharem que você apanhou na rua, eles acham um sarro: o viadinho e a sapatão sendo best friends forever.
Não pude acreditar que aquelas palavras vieram dele, justo dele. Um comentário tão arcaico e tão "eu-me-preocupo-com-o-que-pensam-de-mim". Meus lábios entreabriram, mas deles só saiu um suspiro pesado. Fui impedida de prosseguir pela porta da sala que foi batida. O olhar de Jorge fugiu para a mesma, é claro, ele sabia muito bem antes de começar a soltar esses absurdos que eu não iria gostar nem um pouco, não é atoa que ele fez aquela cara de sei lá o que.
– Você anda se importando demais com o que acham ou deixam de achar, acho que isso nunca fez diferença pra nós dois, não pra nós dois.
Eu simplesmente odeio falar e ser ignorada. Jorge estava direcionado ao professor e ele parecia perplexo. Eu sabia que não seria chamada nossa atenção, pois o horário da aula dele já havia cessado, sempre havia 15 minutos de descanso aos alunos. Então de nada iria adiantar ele ficar com aquela cara de quem esta vendo algo impressionante.
– E para de fazer de conta que tem algo mais importante vindo pra cá! — resmunguei enquanto o olhar dele seguia alguém vindo em nossa direção.
Uma mulher, provavelmente a diretora, pois estava de salto, que aluna vem de salto pra aula? E foi nessa hora que me senti desconfortável, a sala em silencio e eu a única sem saber o que era. Virei-me lentamente já imaginando estar encrencada e quando meu olhar bateu contra ela pude ter certeza que estava sim, encrencada, muito encrencada! Que aluna vem de salto pra aula? Cherry. Com aquela roupa gritando patricinha de outra cidade. Meu queixo caiu e meu estomago foi invadindo por bilhões de borboletas que pareciam querer sair pela minha boca. Ela graciosamente se sentou na fila ao lado, na última carteira, que ficava ao lado de Jorge. Sim, ela me viu, é claro que me viu, mas fez de conta que não, ficou ali, totalmente na dela tirando seus cadernos da sua bolsa cheia de zíperes e brilhos. Sei lá, ela me parecia menos fútil nas quartas feiras, vai ver nas quartas-feiras ela vira alguém mais interessante, daquelas pela qual eu me apaixono a ponto de ser atropelada só de pensar.
Edgar a frente dela se virou e perguntou de onde ela era ainda conclui a pergunta com daqui já vi que não é, está muito arrumada e perfumada pra ser. Meus olhos reviraram e simulei ânsia. Ela viu isso de relance e acabou rindo sem graça, eu sem saber onde enfiar a minha cara virei-me e a enfiei no livro de literatura. O papo deles se desenrolou, ouvi apenas pedaços da conversa. Jorge nem pensou em me chamar, me cutucar, nada. Nem deu sinal de vida, ele sabia de tudo. Havia contado cada detalhe, ele é aquela coisa chamada melhor amigo, sabe como é caro leitor? Então ele sabia que nesse momento eu só precisava ficar quietinha, na minha, só até eu entender tudo, depois eu podia surtar. Quando ela saísse de perto, podia pular de alegria e depois me socar de raiva por ter beijado ela a conhecendo apenas nas quartas feiras, dia de ser interessante.
Quando ela chegou faltava três horários para terminar as aulas daquela segunda feira. Eu mal me mexi em todo esse tempo, as aulas mudaram e eu continuei com o livro de literatura enfiado na cara. O sinal bateu e todos os adolescentes desocupados saiam apressados fingindo ter algo importante para fazer, coisa que poucos faziam durante as 24 horas do dia. Eu só tirei o livro da cara quando ouvi o salto dela passando por mim, ao lado escutei a voz de Edgar dizendo que ela iria adorar o pudim de caramelo da mãe dele, o quê? Ela chegou a menos de três horas e a mãe dele vai fazer pudim pra ela? Depois a voz de algumas das meninas da sala comentando sobre o lindo cabelo loiro de farmácia dela. Ótimo, Cherry agora era popular sem aspas.
Sozinha na sala eu fui guardando meus materiais, sozinha pensava que estava até Jorge limpar a garganta para me chamar a atenção.
– Pensei que já tinha ido, você sempre sai correndo e morrendo de fome. — comentei desanimada já ajeitando a mochila nas costas.
Ele se levantou e então passamos a andar para fora do colégio, já praticamente vazio.
– Até parece que eu iria perder de te ver surtar. Qual é! Cherry agora é da nossa sala. Provavelmente estava esperando uma vaga aqui no colégio.
– Não acredito que beijei uma popular sem aspas... — resmunguei fitando meu all-star.
– Como é?
Ficamos em silêncio enquanto saímos do portão do colégio, andávamos em direção ao ponto de ônibus e na próxima esquina Jorge tinha de virar. Só precisava enrolar ele até lá, sem dizer nada que pudesse desencadear a tal surto que ele queria tanto assistir. Ela sabia que eu não falaria mais nada, só tinha mais alguns metros e anda queria um showzinho, então passou a me provocar.
– Entendi! Uma popular sem aspas é do tipo que fica caidinha pelo Edgar? Porque eu tinha visão pri-vi-le-gi-a-da e vi os dois flertando o tempo todo enquanto...
- Edgar é o capitão do time de futsal, — o interrompi já parando na esquina com ele. — além de tirar nota baixa em português e paquerar metade do colégio. Cherry nunca gostaria dele, a Cherry escuta Billy Talent, e uma garota que escuta Billy Talent não dá bola para caras que jogam futebol e curte pagode, um bolero qualquer.
– Como sabe que ela curte esse Billy Ta-alguma-coisa? E não vi relação alguma em ele ser jogador e escutar pago... Ok, a parte do pagode tem razão.
– Ela deve escutar, nas quartas-feiras talvez. Eu tenho certeza, eu só me apaixono por garotas com no mínimo um bom gosto musical... E é Billy Talent, Ta-lent.
Jorge riu e me deu um empurrão leve enquanto negativava, mas era de costume ele fazer isso quando eu soltava essas minhas teorias furadas sobre mim mesma.
– Ok Chels. Caso ela não escute, você além de ter beijado uma full hétero patricinha popular, beijou também uma fútil que se apaixona por caras que trocam o "mais" pelo "mas" e ainda escutando Turma do Pagode no domingo de manhã, antes da pelada com os Brothers.
Ele sabia como me deixar ainda mais decepcionada comigo mesma, eu tive de rir, era o mínimo. Ele já estava no seu caminho e eu fiquei ali, parada na esquina do colégio, olhei para trás, mesmo ela saindo antes podia estar atrás de mim, vai saber não é? Não estava. Eu coloquei meus fones de ouvido e selecionei Society do Eddie Vedder, deixei no repeat e continuei meu caminho contra o sol. Sim, se você é um bom observador deve se lembrar de que quando estava pensando nela e fui atropelada andava contra o sol também. Sei lá, talvez o sol me lembre do calor que ela me passa sem nem sequer me olhar direito. Loirinha infeliz essa! Ao chegar perto da escadaria do metrô eu a avistei, malditas borboletas vieram com mais intensidade quando se juntaram com a música. Ela me olhou de relance sobre o ombro de Edgar e na mesma hora de despediu dele, como se do nada havia lembrado que tinha pressa. Deu as costas e desceu as escadas. Eu apertei o passo, entre os corredores largos e parcialmente lotados foi fácil reconhece-la, na plataforma ao lado, esperando o mesmo metrô que eu. Entramos entre todas aquelas pessoas, todos os rostos se fundindo ao som de Eddie Vedder. Com tantos lugares e tantas possibilidades de acabarmos de pé a viagem toda, nós duas sentamos, e por ironia do destino, ironia sim, porque eu não tentei a procurar entre a confusão de "licença" e "posso passar". Sou meio claustrofóbica e só queria me aquietar na lotação. E foi assim que acabei me sentando frente a ela, sentamos ao mesmo tempo e nossos olhares se encontraram, se chocaram e ficaram assim, um preso ao outro.
Droga, quando isso iria ter um fim? Ou melhor, quando teria a porra de um começo? Ficamos apenas entre essa temporada de caça que não termina nunca, e ela nem percebeu ainda que eu não posso ser a caçadora dessa vez? Estou seduzida pelo canto do pássaro e nem por minha sobrevivência sou capaz de atirar nele. Eu só a sigo para escutar o canto, nem sequer uma espingarda eu tenho em mãos, é só meu mp3 player. E com tudo isso só consegui me perguntar mais uma vez: ... "Quem colocou esse desejo perverso dentro de mim".
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