Aos Olhos De Cherry
5 Falta de Dialogo Resulta em Falta de Interesse
Pensei que o olhar de Cherry desviaria, fugiria novamente de mim e pisaria ainda mais em meus sentidos, mas não. Ela resolveu brincar comigo um pouco. Ela sorriu, sorriu ternamente, não aquele sorriso amarelo apenas por educação ou até por desfeita. Foi com gosto! E eu? Eu até pensei em retribuir, sabe? Mas por quê? Ou melhor, pra quê? Foi ela que me ignorou há horas atrás e dissimulou daquela forma tá ridícula. Eu apenas virei meu rosto para a janela, preferia ver um monte de nada, do que a cara da pseudo popular. A música eu cessei puxando o plug do fone, não sentia vontade de escutar nada, mas me esforçava para ouvir respiração dela. Vai! Chama-me de louca, faz e fala o que quiser. Mas só isso no momento me bastava, a ouvir demonstrando estar viva, era o mínimo! Minha parada foi anunciada, fui logo me levantando por que queria sair logo dali, o metrô já mais vazio, lugares sobrando e espaço para andar, o que me deixava mais aliviada, mas a impressão que tinha era como se algo se arrastasse atrás de mim, o que me deixou minimamente tensa. Ao parar ao lado da porta procurei meu mp3 ao tatear dentro de meu bolso e dei play, nada da música começar, ao passar meus dedos entre meus cabelos não achei meus fones, olhei para os lados e atrás de percebi o que se arrastava atrás de mim, meus malditos fones. Enquanto o metrô freava, eu me abaixei depressa para não perder o ponto, ao fazer isso minha cabeça se chocou contra algo duro que eu não vi na hora, mas que fez um estalo. Isso fez com que eu caísse sentada no chão, ao olhar pra frente lá estava a loirinha babaca sentada da mesma forma que eu esfregando sua cabeça com cara de dor.
– Aish! Notei que tinha batido em algo duro e oco mesmo! – Resmunguei alto, nitidamente irritada e me levantei puxando o fio de meus fones.
– Eu percebi seu fon... Eu só queria pegar pra... Nossa... Desculpe-me, eu só. – Ela falou em tom de medo juntando as sobrancelhas e os ombros.
– Consegue ao menos terminar uma frase? Ou gosta mesmo é de sair por ai com esse sorrisinho cínico comprando sentimentos sem uma palavra sequer?!
– Como assim?
– Responde minhas perguntas com mais perguntas e ainda tem a capacidade de se fazer de vítima, chega de cinismo de sua parte!
Eu saí pela porta e dei uma última olhada, só pra ter certeza que ela não estava ali. Pude ver por entre o vidro que quando o metrô voltou a andar ela continuava lá, sentada no chão e me olhando. Não sei se ela sentiu realmente algo com isso, ou se foi só no meu peito que deu aquela pontada, uma estaca atravessando por entre as veias que bombeavam meu sangue cada vez mais quente até aquilo que chamamos ironicamente de “coração”. E o nó na garganta... Mas que merda de sensação! Acho que as borboletas do estomago tentaram sair todos de uma vez só e se entalaram ali na minha garganta, me impedindo de dizer uma palavra sequer. E todo esse drama por que eu me cortei emocionalmente a trata-la tão friamente. Devolver na mesma moeda sempre foi comigo, e... Não, não mesmo. Sabe por que, caro leitor? Quando eu me decepciono, eu fico triste com as atitudes tomadas por quem me magoa, não pela pessoa em si. Por isso eu perdoo, relevo. Fico na minha e sinto dó se fizer aquela cara de sei lá o que. Sabe a cara que o Jorge faz? Não é pra fazer ela pra mim, caralho! E um tapa na minha cara e depois um cafuné, daqueles que é bom antes de dormir. De toda forma, eu fui pra casa. Continuei na minha, sem surtar ou ficar pensando muito no que fiz. Ao me olhar no espelho teria a lembrança projetada como um galo em minha testa mesmo.
Quando cheguei em casa encontrei uma cesta de produtos importados sobre a mesa da cozinha, assim que fui fuçar para ver o que era minha mãe surgiu, se materializou saltitante e feliz.
– Viu só? A moça que te atropelou acidentalmente mandou isso pra mim, quer dizer, pra você.
– A-ah... Sim, tosco. – ditei já perdendo a empolgação e me sentando.
– Tá louca? Tem Geléia Bonne Maman, e, e, ah! Essas coisas importadas e caras que eu não consegui guardar o nome.
– Percebi, guardou o nome só da geleia é?
Minha mãe parada do outro lado da mesa, com aquela cesta nos separando deu um sorriso tenso e antes que pudesse se pronunciar a loira babaca mãe passou da sala para a cozinha, vestia roupa de garçom, quer dizer, dessas porras importantes que fazem a mulher se vestir de terninho, foi logo abrindo a boca pra ser gentil e se safar de mais constrangimento.
– Oh, desculpe-me. – esse povo gosta de falar “desculpa ai” de forma estranha, pensei. – Não se ofendeu com a cesta né? Só um agrado! E... Onde está Cherry?
Ah, agora eu tenho que ser babá da filha dela ou virar Best friend?
– É... Não faço a mínima ideia, rs.
– Eu disse para ela vir com você, sabe. Até coloquei ela na mesma sala que a sua depois dela insistir muito.
As palavras dela ecoaram em minha cabeça, era como se o arrependimento tivesse ressuscitado as borboletinhas, e me deixa ok? Eu encafifei com as borboletas e estou querendo mantê-las vivas no meu estomago. Mas voltando, voltando a pensar com calma. Ela queria estar perto de mim, mas pra quê? E por que ela não disse que viria a minha casa? Por que ela não disse, abriu a boca e falou qualquer palavra, qualquer merda! Podia ter recitado uma fala de um filme desconhecido em latim que eu iria adorar, iria até aplaudir a atitude de agir como uma pessoa (meio) normal! Ok, nada normal.
Eu estava ali, afundada em suposições e a mãe de Cherry, aquela que eu não sei o nome, estava no telefone de costas para mim. Alguns segundos se passaram e ela se virou com um sorriso que pelo menos não era forçado.
– Desculpe-me novamente, ela disse que ficou com vergonha, acredita? Pensou em te seguir até aqui em silencio, mas não te achou na saída. – houve uma pausa para a loira rir da própria filha e eu franzir a testa. – Ela voltou as estações que passou para frente, já está na rua a caminho.
Eu fiquei com aquela cara de “nossa, sua filha é meio idiota”. Mas no fundo estava me mordendo de raiva, que droga, a garota estava todo tímida e com medo e eu joguei na cara dela coisas que nem faziam sentido agora. Mas ela não poderia ser tímida e envergonhada, não tem cara, não tem jeito e nem corpo de menina tímida. Pelo menos o Edgar não achou, argh. Nada a fazer no momento, apenas bolar um jeito de falar com ela, como? Vou analisar, eu nem havia me pronunciado ainda e minha mãe já havia arrastado a loira chefa para a sala novamente falando algo sobre Kenny G e seus álbuns. Ou seja, está amiguinha, aquela visita era uma visita, visita que se faz quando se quer visitar, papear e fofocar. Oh! Parabéns para minhas suposições furadas. Então quando ela chegasse ou teria de escutar Kenny G, ou ir pra onde eu estivesse a ter companhia de alguém de sua idade. Hm. Nem pensei muito, passei pela sala, avisei que estaria no quarto e pedi para ambas mandar a tímida para lá. A entrar sabia que tinha pouco tempo, passei a arrumar meu quarto, e isso quer dizer, tudo que está no chão é chutado pra baixo da cama, e tudo que está acima do meu joelho socado no guarda roupa.
Dois minutos e tudo pronto, sentei na beira da cama e fiquei a esperar o momento em que ela abriria aquela porta.
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