Ao decair do último floco de neve...
13 ❄ Capítulo 13 - Algo inesperado ❄
Notas iniciais
Os flocos se soltavam de minha capa e voavam pelo ar, ninguém no palácio se incomodaria mas eu já estava quase atrasado para o treinamento, portanto era hora de correr. Os cabelos pálidos só vieram à mostra quando eu passei pelas portas do quarto e retirei o capuz. A caçada havia sido boa e eu não tinha registros de erros em alvos, claro que haviam coisas a corrigir mas as tudo progredia bem e cada vez melhor, com o passar dos anos havia parado de checar a coloração dos fios que se estagnaram na cor branca, demonstrando meu pleno desempenho.
Sacudi a capa e a pendurei no cabideiro, depois comecei a me despir de toda e qualquer arma e equipamento que carregava, o que de fato não era muito além de um cinto, sacos para carne, cordas e uma aljava. Com a habitual roupa neutra me coloquei em marcha até a sala de treinamento, porém a encontrei fechada com Sr. Tats encostado em sua lateral. Continuei o percurso até ele e então me curvei em uma mesura.
— Bonjour monsier.
— Bonjour.
Havia algo de muito errado ali. Ele também se curvara mas não estava dentro da sala como de costume, o pior era que as portas estavam completamente fechadas e sem indicio nenhum de abertura. Isso sera calculável por conta do chão e da posição no qual a porta se encontrava. De imediato pensei em minha leve corrida pelo palácio ou então em qualquer outro tipo de delito que poderia ter cometido e que viria a acarretar algum tipo de punição, porém nada me vinha à memória. Teria sido algo relacionado ao jardim?
— Pelo que o senhor esta esperando? Por um acaso me atrasei?
— De forma alguma. Estou aqui apenas para dizer a você que não teremos o treinamento de hoje.
Aquela era uma leve surpresa para mim, minha vida já tinha tomado a forma em um molde de uma rotina rigorosa e cada vez mais pesada tendo como objetivo superar os limites e criar novos, era assim desde minha infância e eu já estava habituado a passar por isso, sem falar que o treinamento me fazia melhor.
— E por que não?
— Por que Lady Quione deseja falar com você. Ela marcou uma pequena reunião privativa em seu quarto e me pediu para que o comunicasse, deve se dirigir para lá agora mesmo.
De imediato fiquei confuso, lady Quione jamais havia me chamado para qualquer tipo de reunião. De fato a sua ausência em minha vida jamais me incomodara, até por que eu devia a minha completamente a ela. Olhei para o tapete de cor creme e então voltei a olhar para meu mestre, ele pousou a mão em meu ombro direito e então assentiu de forma positiva.
— Boa sorte.
De certa forma, ele parecia querer dizer um adeus. Por que tinha a sensação que jamais o veria? Me virei o o observei partir.
— Obrigado Sr. Tats... Por tudo, serei eternamente grato por seus ensinamentos.
— Apenas fiz o meu trabalho.
Foi a primeira vez que vi Sr. Tats sorrir.
Logo tive que voltar ao meu quarto, nada me foi dito sobre vestimenta mas eu era inteligente o suficiente para saber que não necessitava nenhuma recomendação para um momento como aqueles, era a primeira vez em muitos anos que eu iria ver lady Quione e talvez a primeira vez desde minha infância que eu teria que conversar com ela, a insegurança e o medo tentavam aos poucos se infiltrar em meu sangue, mas aquela atitude não adiantaria de nada.
Com trajes sociais, que incluíam camisa, colete, terno completo e sapato, completamente brancos e os cabelos pálidos penteados, ergui o punho para bater na porta do quarto da deusa e então uma voz gélida cruzou meus pensamentos e fez os pelos de minha nuca se eriçarem.
"Entre, Cameron."
A porta se abriu e eu respirei profundamente antes de dar meu primeiro passo, ela se encontrava deslumbrante, de um modo que fazia todo o quarto parecer sem graça. A luz da tarde iluminava sua face e a coroa de prata que descansava em seus cabelos negros. O vestido possuía camadas de inicias de tom azul cobalto e pelo chão se esparramavam as saias brancas. A neve caia lá fora e o lugar estava à luz natural. Logo a frente dela havia uma cadeira vazia.
— Milady...
Me curvei em reverência completa e aguardei.
— Olá Cameron, sente-se.
Os movimentos dela eram suaves e graciosos, mas sua voz era ríspida e imponente de uma forma que uma ordem se tornava convidativa e temerosa ao mesmo tempo. Me sentei na cadeira mais simples e fitei o rosto de minha mãe, em certos pontos eu achava semelhanças mas a diferença clara era que eu era o servo e ela a senhora.
— Tenho algumas notícias que gostaria de compartilhar com você, Cameron.
— Me sinto honrado, lady Quione.
— Imagino que sim.
Ela então fixou seu olhar em mim e pude sentir que ela examinava minha alma, porém não movi nenhum dedo e mantive a boa postura. O tempo se estendia e o cair dos flocos fazia com que as luzes e sombras dançassem em sue rosto.
— Tem alguma noção do por que eu lhe chamar aqui?
— Não minha senhora. Eu a decepcionei de alguma forma?
— De forma alguma. A questão é que já faz algum tempo que você reside neste palácio.
— Sim senhora.
— E tem recebido treinamento e acompanhamento em aulas como foi com sua irmã, que já partiu daqui para o mundo lá fora. Mas você continua aqui, diferentemente dela.
— De fato.
— Bem, como você completou dezoito anos a alguns meses atrás, creio que já seja a hora de você ir, assim como ela, até o acampamento. Será bom ter pessoas de confiança dentro das barreiras e pode considerar como um teste para suas habilidades de sobrevivência, além melhorar a questão do relacionamento interpessoal.
Aquilo realmente havia me pego de surpresa. Tiffany já havia deixado o palácio de lorde Bóreas e eu jamais recebera alguma informação sobre seu paradeiro, nem mesmo ousava perguntar para onde ela tinha ido. De imediato uma dúvida me surgiu na mente.
— Mas... Quem cuidará do jardim, minha senhora.
— Ele será bem cuidado, não se preocupe, pode considerar-se livre da tarefa e dos treinamentos. Suas malas já estão arrumadas e há dinheiro mortal suficiente par que pegue um avião até Long Island para chegar ao acampamento. Preciso agora apenas que pegue suas coisas e siga seu caminho.
Abri a boca para mais uma questão mas ela me silenciou com um levantar da palma.
— Se acaso eu venha a precisar de seus serviços saberá. Já está liberado, então siga até seu quarto e depois para a carruagem que o espera na entrada do palácio.
Liberado. A palavra ecoava em minha mente e aos poucos iam se se transformando na palavra "liberdade". Pousei as mãos no colo e fiz uma mesura para indicar que me retiraria, me levantei e marchei pelo comodo escuro relembrando que um dia havia sido punido exatamente por estar ali, e agora havia ganhado minha tão sonhada carta de alforria.
— E Cameron.
A voz me tirou do torpor e me fez virar novamente para a deusa.
— Não me decepcione.
— Jamais lady Quione, vivo para servi-la.
Aquelas palavras eram verdadeira mas a partir de agora tudo mudaria, minha vida havia virado em um ângulo que eu jamais aconhecera. A cada passo eu me enchia de pensamentos e dúvidas que finalmente seriam respondidas, o caminho até meu quarto nunca pareceu tão longe. Abri as portas e dei cara com apenas uma mala descansando sobre meus lençóis, a maioria de meus pertences deveria estar ali e eu não tinha muitos. Dei adeus ao lugar onde havia passado parte de minha vida e puxei a alça para deslizar a mala pelo chão, sentimentalismo e apego a lugares e pessoas apenas o tornavam fraco então não foi nem um pouco difícil.
Desci os degraus do palácio e cruzei o hall, as portas se abriram, mas antes pude vislumbrar meu tão amado jardim por uma última vez. Movi a cabeça em um gesto de despedida para os empregados e senti o vento frio de minha terra natal bater no rosto e inflar os pulmões. Subi na carruagem que parecia ser feita inteiramente de gelo e observei os cavalos que a puxariam, não havia cocheiro, apenas as figuras pálidas e um tanto quanto transparente... Brisas e espíritos que trabalhavam para o grande vento norte.
Aos poucos eu via o palácio se distanciar e diminuir de tamanho enquanto ia aos trancos em direção à cidade, não podia deixar de pensar que agora eu enfrentaria mesmo tudo ao qual eu sempre tinha lido mas nunca vivenciado. Era um mergulho em um lago escuro de águas turvas e congeladas... Para minha sorte, eu adorava o frio.
Fale com o autor