Ao decair do último floco de neve...
14 ❄ Capítulo 14 - Ninho de confusões ❄
Notas iniciais
O voo aterrizou com suavidade de uma andorinha pousando em um galho no verão. O frio de Quebec já havia se tornado algo valioso para se sentir falta, mas graças a aura gélida que rodeava meu corpo as o das de calor não me eram tão incomodas quanto deveria ser, mesmo que o terno agora me causasse um pequeno aquecimento. Ter arranjado uma mala com rodinhas foi uma boa ideia, mesmo que não tivesse tanta bagagem para levar comigo em minha jornada. As rodas giravam no piso liso do aeroporto e as vestes brancas eram um belo chamariz para os mirtais que se encontravam no aeroporto.
Sr. Tats me alertara de que o mundo a fora era diferente do palácio de lorde Bóreas, e com diferente ele queria dizer perigoso. Com a saída de minha terra natal, também haveriam alguns outros obstaculas. Como o clima ameno, a falta dos lobos e também a adaptação a um novo meio compartilhado. Tudo que deveria me fazer ficar mais e mais apreensivo apenas me deixava cada vez mais curioso, milhares de possibilidades se abriam logo a minha frente e eu estava vidrado em descobrir a qual caminho cada uma das portas do desconhecido poderiam me levar.
— Desculpe, senhor.
Um homem com rosto amigável, porém cheiro estranho, veio pelo corredor a passos largos em minha direção, ela parecia bem amistosa mas seus olhos denunciavam certas preocupações.
— Parece que falta uma etiqueta em sua bagagem meu jovem, poderia me acompanhar para uma checagem de documentos por favor?
Não havia muito tempo que havia esperado na esteira pela minha mala e a facilidade em todo o processo havia de fato me surpreendido, já que haviam tantas reclamações voltadas para a lerda ou extravio de bagagem por parte do aeroporto de Nova York. Antes de embarcar em qualquer avião eu havia feito uma pesquisa media sobre os trajetos mais tranquilos para que eu chegasse e, se havia calculado bem, um táxi estaria me esperando na saída em cerca de 17 minutos, mas claro que eu deveria me preparar para imprevistos e situações não planejadas, aquele lugar deveria ter uma burocracia como qualquer outro.
— Claro, sinto muito pelo distúrbio causado.
Ele sorriu e me indicou o caminho para qual deveria seguir. Me mantive ao lado dela enquanto seus passos ecoavam pelo piso. Foi então que algo se insinuou a minha mente, uma pequena desconfiança talvez. Os anos de treinamento haviam me ensinados diversas e valiosas lições e uma delas sem dúvida era dar valor a meus instintos. Muitos semideuses e mortais, de acordo com as histórias e relatos, deixavam o instinto de lado as vezes por medo, outras por puro comodismo. Fosse o que fosse o motivo, os animais haviam aprendido algo que o ser humano agora ignorava, mas nem todos participavam do senso comum.
Depois de caminha por entre alguns corredores aquele homem me levou até uma sala e abriu a porta, a sala era mediana e tinha um cheiro desagradável, alguns livros ali dentro havia sido rasgado e havia diversas malas espalhadas e abertas no local. Ainda sem poder entender a situação, fui empurrado para frente, lançado em uma das pilhas de malas e quando bati contra ela a porta fez um som de “clic”. Não era preciso ser um gênio para saber que eu havia caído em uma armadilha
O homem deu um sorriso que arrepiaria qualquer um e então seus olhos passaram a faiscar. Seu nariz e os lábios se alongaram e deram lugar a um bico, negro como as as penas que surgiam em seus braços. Me levantei sem um mínimo de pressa e alinhei minhas roupas.
— Já faz um certo tempo que não devoro o fígado de um semideus... E estou morrendo de fome.
O analisei com calma, agora as garras saiam pelos sapatos. Não precisei de muito tempo para me lembrar do nome daquela criatura, já havia lido sobre algumas vezes.
— Você deve ser Ethon, correto?
— Calado! — Ele urrou- Não gosto quando minha comida fala!
— Bem, meu caro, eu sinto muito mas já estou atrasado para meu táxi então, podemos acabar isso logo?
— Acaba agora mesmo!
A criatura avançou contra mim e, de acordo com meus cálculos eu ainda tinha 10 minutos, e precisaria apenas de 3. Com um giro de mãos lancei simples flocos de neve diretamente nos olhos dele e me abaixei para pegar um livro que estava no chão. Corri na direção da porta enquanto retirava uma pagina do livro e dobrava na forma de uma adaga, a congelando logo depois. Me virei e a lancei na direção de Ethon que vinha para cima de mim novamente e então ele se inclinou levemente deixando a barriga exposta, como eu planeja que fizesse. Corri em sua direção e fechei o punho fazendo um espinho de gelo crescer ali, então me joguei no chão e deslizei por baixo dele enquanto minha mão se erguia e rasgava a carna da criatura.
Ele caiu no solo imóvel porém claro que não se desfaria em pó apenas com o gelo que agora corria em suas veias se solidificando rapidamente, porém eu não tinha tempo a perder. Encontrei minha mala do lado de fora da sala, que agora possuía a fechadura congelada e quebrada, e segui para meu destino real. Meu transporte estava lá na hora certa e agora eu precisava ser mais cuidadoso.
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