Ao decair do último floco de neve...
12 ❄ Capítulo 12 - Um passo de cada vez ❄
Notas iniciais
"Cameron?..."
Pude ouvir a voz ressoar por minha mente, era como algo entre o grave e o médio em um tom autoritário, meus olhos azuis polares se abriram e meu rosto estava contra o solo nevado do jardim onde havia adormecido. A expressão e traços lupinos me fizeram alinhar a postura rapidamente para me sentar sobre as pernas, o lobo imortal de minha mãe se encontrava bem à minha frente com seus olhos prateados fincados em mim. Me curvei em uma mesura e então me pronunciei.
— Lorde Vóreas... É um prazer vê-lo.
"Igualmente, mon seigneur. Por um acaso estava cochilando?"
— Creio que acabei sendo vencido pelo cansaço, meu caro, porém peço para que por favor não diga isso à lady Quione, já havia terminado tudo quando adormeci eu lhe juro.
Não poderia evitar o medo, mesmo o jardim de inverno estando impecável se minha mãe chagasse a pensar que eu estava descansando durante o trabalho eu encontraria meu fim. O lobo ponderava sobre o caso e eu tentava manter as mãos quietas no colo, minha expressão continuava fria e rígida porém meus olhos denunciavam meu interior, por fim ouvi seu timbre novamente.
"Como esta tudo feito, este ocorrido ficará entre nós... Desta vez."
— Merci beaucoup, Vóreas.
"Vous êtes le bienvenu."
E assim ele se virou e seguiu a caminhar até sumir de minha vista, momento em que pude finalmente respirar e relaxar, observei o belo arbusto de hortênsias em degrade de azul e branco e recolhi minhas ferramentas para guarda-las rapidamente no pequeno armário de mogno que ficava oculto no jardim onde eu deveria cumprir minha pena sob ameaça de morte em caso de falha. Apesar da constante lembrança do perigo que era ficar ali, aquele lugar já havia se tornado um refúgio para mim, o local onde eu encontrava minha paz interior e poderia desfrutar de boas conversas com Rosalie, a ninfa que me ensinava jardinagem e botânica.
Após trancar o pequeno armário com minha chave segui em direção ao palácio. Os flocos de neve caiam por entre os fios pálidos de meus cabelos e ali se camuflavam. Apesar de estar ferido e com bandagens em torno dos braços, tronco e perna esquerda, eu não poderia estar mais feliz com meu progresso. Há alguns anos atrás lady Quione me visitara e dissera que se eu me esforçasse no treinamento poderia ver os resultados em meus cabelos, não queria desaponta-la e jurei a mim mesmo honrar seu nome e assim comecei a me dedicar mais e mais. Meus cabelos desceram do negro ao castanho, seguido pelo loiro e já estavam brancos a um certo tempo, minha meta diária era mante-los naquele tom e procurar mais resultados não importando o quanto eu me ferisse, sempre me levantaria e tentaria novamente. Já era fim de tarde quando passei pelo arco dos fundos e rumei para meu quarto.
Há muito tempo Sr. Tats já não passava mais em meu quarto durante o período noturno, eu mesmo tratava de meu ferimentos sozinho e foi o que fiz logo depois de um merecido banho. Troquei minhas bandagens, passei o dedo pelo corte em minha bochecha, coloquei meu pijama e rumei para a biblioteca onde passei horas procurando por uma boa leitura acabando por passar horas e horas dentre as prateleiras até sair de lá com um livro de capa negra tendo um floco de neve azul no centro. Algo nele me chamara a atenção. As janelas dos corredores já exibiam o manto da noite que caia sobre Quebec e eu evitava fazer algum barulho para não ser flagrado fora da cama naquele horário com um livro à tira colo.
O som de um ganido de dor cruzou meu ouvidos e acabei sendo vencido pela curiosidade e seguindo na direção da fonte de tal som. Encontrando uma porta entre-aberta ao fim do corredor, pesei os riscos de ir até lá ou não... Mas não adiantava, a curiosidade sempre era maior. Encostei delicadamente a mão na porta e observei pela abertura uma garotinha escorregar pelo solo da sala de treinamento noroeste enquanto um homem atirava adagas em sua direção, seus cabelos eram brancos e as bochechas estavam vermelhas em destaque na pele pálida, os olhos eram como os meus... Tiffany. Não pude deixar de torcer por ela porém sabia que não poderia interferir de forma alguma. Quando ouvi ela ser dispensada sorri fracamente por saber que havia conseguido mas então soube que teria que me esconder e assim que me afastei da porta pode ouvir passos pelo próximo corredor, foi então que o desespero começou a se insinuar por minhas veias. Corri e virei a esquerda para ficar oculto por uma cortina e uma pilastra de mármore que havia ali.
Permaneci em silêncio até me acalmar e pude ouvir minha irmã conversando com dois animais, sabia disso pelo cheiro deles, eram Vóreas e outro lobo menor. Meus sentidos andavam sendo treinados e pelo visto os treinamentos de caçada estavam dando resultado. Se o lobo imortal de minha lady me ouviu ou me viu fez o favor de ignora minha presença e por isso me senti imensamente grato. Quando afastei a cortina para espiar e vi Tiff cruzar o corredor em direção à ala oeste com seu mascote a acompanhando, olhei para os dois lados do corredor e decidi segui-la para garantir sua segurança. Apesar de conviver separadamente eu tinha o hábito de observa-la para que não se metesse em confusão, cuidar dela à distância mas sem nunca poder interferir em seu treinamento por mais doloroso que fosse. Aquilo seria necessário para que ela criasse auto confiança e independência. Assim que ela fechou a porta de seu quarto fiz o que eu sempre fazia.
— Bonne nuit, sœur...
Sussurrei e me virei para voltar pelo caminho que havia feito e continuar até meu quarto na ala leste do palácio. No caminho quase fui pego por uma das serventes de lorde Bóreas, porém consegui me esconder a tempo. Minha agilidade não era das melhores mas era boa e eu deveria me lembrar de treinar isso. Quando fechei a porta do quarto sem fazer nenhum som as luzes invadiram meus aposentos e criaram sombras pela mobília num belo efeito caleidoscópico. Uma aurora boreal em pleno vigor. Larguei o livro na cama e corri para a janela, toquei o vidro e observei aquele belo fenômeno acontecer diante dos meus olhos, luzes serpenteantes que ganhavam o céu noturno.
— Será que...
Olhei para a pequena mão direita e fechei os olhos tentado concentrar meu poder ali e quando voltei a abri-lo uma fina linha azul luminosa corria entre meus dedos. Ela permaneceu acesa por apenas alguns segundos antes de sumir, um grande sorriso iluminou minha face e então corri para a cama, já estava pronto e de pijama então não havia nada mais para ser feito. Acendi a luminária ao lado da cama e voltei a dar atenção ao meu livro. Mesmo sabendo que teria que levantar bem cedo na manhã seguinte eu tinha fome por conhecimento e acabei descobrindo que aquele livro contava a história da magia gélida e de todos os que já a possuíram. Quando mais novo, eu reclamaria da ausência de figuras nas páginas porém a escrita era trabalhada muito me interessava... e assim se foi mais um de meus dia.
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